11/07/2008

Grutas de Sto. Adrião

Espeleologia
Grutas de Sto. Adrião ao abandono

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 127, 2 de Maio de 1997]

Gruta Grande (Sto. Adrião) © Filipe Palma (Forum Ambiente 1997)

As Grutas de Sto. Adrião são um ex-libris do património espeleológico português. Estudadas por Nery Delgado, no século passado, encontram-se actualmente ao abandono. A sua preservação torna-se pois urgente. Um passo a dar seria a sua classificação como geomonumento ou a criação de um centro de interpretação.

As Orlas Mesocenozóicas Algarvia ou Meridional e Lusitaneana ou Ocidental são as áreas onde ocorrem a grande maioria das grutas portuguesas. No entanto, as cavidades naturais não se circunscrevem a esses carsos. Os concelhos de Macedo, Mogadouro e Vinhais, em Trás-os-Montes, apresentam igualmente a ocorrência de rochas carbonatadas e cavernas associadas. O geólogo Carlos Teixeira (1981) referiu os afloramentos de Sto. Adrião, S. Pedro de Serracenos, Dine, Cova da Lua, Rabal, Rebordões, Faílde, Alfaião, Mós, Amendoeira, Vale da Porca, Vilar do Monte, Sambedo, Castro Vicente, Vilar Chão e Paradela. Os calcários surgem em lentículas, orientadas geralmente segundo NW-SE, intercaladas no seio de rochas xistentas frequentemente acompanhadas por faixas anfibolíticas.
A.C. Medeiros (1953) assinalou a existência de cavernas em Dine e Cova da Lua. No entanto, as grutas de Sto. Adrião constituem o caso mais paradigmático de cavidades em terrenos antigos, do Paleozóico. O “reconhecimento científico dos jazigos de mármore e de alabastro de Santo Adrião”, efectuado pelo geólogo Nery Delgado, remonta ao ano de 1887 e constitui um dos primeiros trabalhos realizados em grutas portuguesas. Estácio da Veiga, nas suas Antiguidades Monumentais do Algarve, manifestou a sua admiração pelo trabalho de Nery Delgado, “o instaurador do estudo das cavernas”, e face às “belíssimas lâminas de alabastro”, provenientes das grutas de Sto. Adrião, que estiveram na Exposição Industrial de Lisboa (1888).
Na área de Sto. Adrião, os calcários paleozóicos, de espessura considerável, encontram-se intercalados com xistos nas proximidades do contacto com o granito de Caçarelhos. As rochas carbonatadas aí existentes são constituídas por calcários cristalinos grafitosos, com artículos de crinóides, mármores e alabastros. Estas apresentam a sua maior expressão no Monte de Ferreiros, sendo aí que se concentram as pedreiras que exploram o jazigo de Sto. Adrião.
Os calcários constituem duas faixas principais, separadas por xistos. Os da assentada superior, geralmente cinzento-azulados (sobretudo no topo), são os que formam o jazigo mais vasto e encerram as cavidades onde se descobriram possantes massas de alabastro. O alabastro calcário, branco ou amarelo, por vezes zonado e translúcido, é bastante apreciado como pedra ornamental.
Conhecem-se quatro grutas: três no monte de Ferreiros e uma no monte do Geraldes. Nery Delgado designou-as por “Gruta de Ferreiros”, “Gruta Grande”, “Gruta da Ribeira” e “Gruta de Geraldes”. O Buraco de Ferreiros foi o que revelou, pela primeira vez, a presença de alabastros. Nery Delgado, para além dessas cavidades, assinala a existência de outras grutas no prolongamento da faixa de mármores que se estende para S. Pedro da Silva.
A Forum Ambiente visitou a Gruta Grande, “a mais vasta e a mais pitoresca” no dizer de Nery Delgado, e constatou o estado de degradação e abandono em que se encontra. Para além das marcas resultantes da exploração de alabastro, verifica-se a destruição quase total das concreções e a presença de detritos abandonados pelos vistantes. Visitantes que, por desconhecimento ou má fé, profanam um local onde os seus ancestrais pré-históricos testemunharam a sua presença de forma assaz mais civilizada. Nessa cavidade ainda é possível vislumbrar a existência de gours e microgours, preservados como que por milagre, estalactites, estalagmites e colunas, na maioria destruídas, e a presença de alabastros de grande beleza.
As grutas de Sto. Adrião, pelas suas especificidades, devem ser preservadas com urgência, de modo a legar às gerações vindouras a possibilidade de visitarem este testemunho da história da Terra. A classificação das mesmas como geomonumento ou a criação de um centro de interpretação das grutas de Sto. Adrião seria um passo decisivo não só para a preservação das cavidades como para a dinamização da região. Aguardam-se as necessárias medidas de preservação.
Gruta Grande (Sto. Adrião) © Filipe Palma (Forum Ambiente 1997)

9 comentários:

Sérgio disse...

gostava de saber como se podem requalificar as grutas de Santo Adrião

Pedro Cuiça disse...

As Grutas de Santo Adrião não contavam, na altura em que o artigo foi escrito, com qualquer tipo de classificação como área protegida, e que saiba continuam a não contar com qualquer figura de conservação/protecção. Daí que não se tratara de requalificar as ditas grutas mas sim de qualificá-las e isso terá se ser feito a nível oficial. De resto, passados bastantes anos sobre o artigo em causa a minha opinião face a estas matérias alterou-se um pouco... Importante é a conservação/protecção efectiva das cavidades; não interessa avançar com projectos apenas no papel ou que envolvam apenas avantajadas verbas mas que na prática poucos ou nenhuns efeitos práticos apresentem no terreno.

Francisco Sande Lemos disse...

Visitei na passada quarta-feira uma das grutas do conjunto de Santo Adrião. O panorama é desolador para alguém que como eu esteve lá pela primeira vez em finais da década de 70 do século XX. Neste momento talvez fosse necessário avaliar os estragos causados e classificar o que resta do conjunto como Património.
Francisco Sande Lemos, Arqueólogo

Sérgio disse...

Gostava de encontrar uma solução para preservar as Grutas de Santo Adrião. Como será possivel.

Pedro Cuiça disse...

Caro Sérgio

Essa é uma pergunta simples de resposta complexa :) Talvez contactando a Câmara Municipal e/ou a Junta de Freguesia da área por forma a auscultar o seu interesse em se envolverem num processo desses... Constituir um "grupo de amigos" das Grutas de Sto. Adrião com vista a trabalhar essa ideia ou recorrer a um clube já existente para esse fim. Tentar arranja apoios de privados... Enfim, há que amadurecer ideias e começar por algum lado.
Boa Sorte

Abraço

Sérgio Ramos disse...

Foram encontradas mais grutas nas minas descanto adrião o que fazer para as proteger

Sérgio Ramos disse...

Foram encontradas mais cavernas subterrâneas nas grutas de santo adrião e gostaria de saber como as proteger? Porque nessa nova gruta já pilharam vários estalagmites e estalactites.

Sérgio Ramos disse...

As grutas de santo adrião são das mais fantásticas que já vi, e estão a ser destruídas e preciso de ajuda para fazer alguma intervenção.

andarilho disse...

Bom dia. Obrigado e Parabéns pela descrição. Em plena Serra da Cabreira, ouvi anteontem falar pela primeira vez nas grutas de Sto Adrião e na destruição e roubo de estalactites. Tenciono lá ir já este Fim-de-Semana para ver e registar.
Lanço o convite/desafio a quem me quiser acompanhar.
Rui França
https://www.facebook.com/ruimoretti