“A história conta-se rapidamente: o operário, pesando cerca de 80 kg, pretendeu trazer do 6º andar da obra para o piso térreo cerca de 225 kg de tijolos; dispunha de um barril e de uma roldana, pensou realizar a tarefa de um modo expedito, fazendo descer os tijolos dentro do barril por intermédio da roldana. Acontece que, quando iniciou a “expedita” operação de transporte, o operário agarrou fortemente a corda e, atendendo à diferença entre os pesos do barril carregado e do operário, foi rapidamente içado. No percurso, além de ir batendo nos andaimes, colidiu a meio caminho com o barril que descia, continuando apesar disso agarrado à corda. No momento em que o barril caiu no solo, o seu fundo despedaçou-se, libertando assim a carga de tijolos; simultaneamente o operário entalava os dedos na roldana. Como o barril vazio pesava perto de 25 kg, foi a vez do operário descer vertiginosamente, chocando outra vez, a meio da descida, com o barril que agora subia. Finalmente, o operário estatela-se no chão, em cima da confusão de tijolos partidos e, fortemente combalido, liberta a corda… despenhando-se o barril sobre ele!”
Da descrição do acidente poderá surgir a ideia de que o encadeamento de circunstâncias poderia ter sido facilmente evitado. Para além da manobra nunca dever ter sido tentada, dada a desfavorável correlação de forças entre o barril carregado e o operário, parece óbvio que este deveria ter largado a corda. A questão “largar ou não largar a corda?” coloca-se imediatamente e, apesar da resposta aparentemente evidente, apresenta aspectos muito interessantes e talvez inesperados. Talvez fosse melhor questionar: seria humanamente possível largar a corda?
Inegável é o aspecto cómico do acidente, aspecto que motivou o artigo em causa como “excelente motivo para fazer uma aplicação interessante e divertida das leis da Física”. Com efeito, alguns cálculos simples permitem saber de forma objectiva, e para cada situação, se se deve (o que é diferente de “pode”) ou não optar por largar a corda. Nesse sentido, foi definido um modelo idealizado para descrever o problema, em que se desprezou os efeitos do atrito, a elasticidade da corda, o momento de inércia da roldana e a diminuição de velocidade durante as colisões entre andaimes, o barril e o operário. Também foram desprezadas as alturas do operário e do barril. Esta aproximação só se justificou pela maior clareza de exposição. As conclusões principais do estudo não são alteradas qualitativamente por esta hipótese e as coisas só podem piorar para o operário em termos quantitativos.
Para a análise do problema foram consideradas três situações distintas: numa primeira fase, deu-se a ascensão do operário e a descida do barril carregado; na segunda fase, ocorreu a subida do barril vazio e a descida do operário; por último, a terceira fase correspondeu à queda livre do barril vazio.
Na fase de ascensão, a primeira observação importante a destacar foi que entre o momento em que se inicia a descida do barril e a primeira colisão entre o operário e o barril (que será ao nível do 3º andar, ou seja, cerca de 9 metros) decorrem apenas 1.89 segundos! A constatação seguinte foi que o tempo disponível para evitar a colisão com o barril é bastante inferior a 1.89 segundos. Com efeito, se o operário conseguisse largar a corda ao fim um segundo já não lhe seria possível evitar a colisão com o barril.
Do estudo efectuado, ressalta que para o operário ter pelo menos meio segundo de tempo disponível para sair debaixo do barril, deveria largar a corda no máximo ao fim de sete décimos de segundo! Note-se que esta situação corresponderia ao operário largar a corda quando se encontra a uma altura de 1.24 metros e a uma queda de uma altura de 1.87 metros. Conclui-se que, no período ascendente, só seria uma boa opção largar a corda se ainda não tivessem passado mais de 0.7 segundo.
No período descendente, que principia 2.67 segundos após o início do acidente, constata-se que, se após a colisão com a roldana, os dedos triturados do infeliz operário não largarem a corda, este estatelar-se-á no solo ao fim de 2.64 segundos, com uma velocidade de 49 km/h. Pelo contrário, se os dedos se desprenderem da corda, o operário cairá com a aceleração da gravidade, atingindo o solo com uma velocidade de 68 km/h. É de louvar a “lucidez” demonstrada pelo operário, ao tomar a opção correcta de não largar a corda no período descendente.
Após a queda no solo, é evidente que o operário nunca deveria soltar a corda. Infelizmente o operário libertou a corda, permitindo assim a queda livre do barril, que o atingiu quando estão decorridos 7.24 s desde o início do acidente.
Desta forma, comprova-se que seria necessário tomar uma série de decisões em apenas 7.2 segundos. Mas tal não é possivel! A partir do momento em que o acidente é despoletado, o operário deixa de poder decidir, de pensar, racionalmente passando a actuar instintivamente. E foi nessa base que nunca largou a corda até parar definitivamente no chão. Depois, também naturalmente, largou a corda... Não tinha muito que decidir, agiu automaticamente.

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