"O fruto que a serpente ofereceu foi o seu próprio veneno.
Uma inoculação de insurreição, uma poção de prosperidade, amanhada de propósito para abanar os ânimos adormecidos pelo sacratíssimo aprazimento.
Do ponto de vista da serpente, a criação celestial precisava, com urgência, de progredir para não estagnar e nada a despertaria com tanto dinamismo, com tanta potência, quanto uma dentada - se viesse com veneno, ainda melhor. Não foi à toa que a cobra foi considerada a mais sábia das criaturas do Éden oriental: a sua zurrapa zerumbáticodôntrica discissou a burrice barrenta para deixar à mostra o gérmen genial que nos séculos seguintes iria transformar a terra.
Tónicos neurotóxicos que, não nos conseguindo matar, nos deixaram mais perspicazes. Mais astutos. Veneno ofídico, espremido para cadinhos de pedra, amalgamado com aromas saboreáveis e libado como medicamento?
Como fármaco - cujo hierografito genérico é, ainda, um crisol e uma serpente?
Essa representação encerrava todos os homens intoxicados que, na alvorada da história, alucinaram imagens do futuro e as petrografaram nas paredes das cavernas. Encerrava todos os feiticeiros e físicos que perceberam o potencial paliativo da peçonha e a empregaram para sarar e para avançar as suas consciências." (Soares, 2011; p. 184)
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