Os abrigos sob rocha e as cavidades subterrâneas,
naturais ou semi-naturais, tal como artificiais, nas suas formas elementares,
constituem, sem dúvida, a tipologia mais remota, rústica e simples de habitação
humana, permanente ou estacional. É comum pensar-se que estes tugúrios foram
abandonados nos alvores das civilizações agrícolas e sedentárias, constituindo
essencialmente abrigos temporários, ou mesmo ocasionais, geralmente
relacionados com determinadas actividades como o pastoreio e a guarda dos
campos. Na verdade, continuaram a ser utilizados até hoje na península de
Lisboa, como abrigo ocasional ou, inclusivamente, como habitação. As Grutas do Vale de Alcântara e as Furnas de Monsanto são, nesse aspecto,
um excelente exemplo ao terem sido habitadas pelo menos até aos anos 60 do
século passado. Mas ainda existem grutas que servem de abrigo extemporâneo ou
temporário (ex. Gruta do Aqueduto)
ou, como no vizinho concelho de Oeiras, de habitação permanente. As cavidades da Quinta da Moura (Oeiras) foram habitadas até ao ano de 2010, altura em que
os ocupantes fora “desalojados” devido às notícias televisivas que deram a
conhecer esses actuais exemplos de trogloditismo!
Em certos casos e regiões, como na península de
Lisboa, os abrigos sobre rocha e as cavernas foram utilizados tal como se
encontram na natureza, sem quaisquer modificações ou arranjos, sendo por isso designados
de “abrigos naturais” s.l.. O engenho
do Homem foi responsável, contudo, apelo afeiçoamento de algumas dessas habitações
naturais através da introdução de melhoramentos, mais ou menos sumários, com
vista ao aumento ou mais perfeito resguardo do espaço abrigado, merecendo então
o nome de “abrigos semi-naturais”. Noutros casos, frequentes no concelho de
Lisboa e limítrofes, conhecem-se diversos exemplos de cavidades escavadas pelo
Homem, com o objectivo de servirem de habitação sendo, portanto, abrigos
artificiais. Estas intervenções, no domínio da designada “arquitectura
subterrânea”, aproveitaram as bancadas de rochas mais brandas do Cretácico para
escavar espaços habitacionais e/ou para armazenamento.
As tão faladas furnas, cavernas ou grutas da Rua
Maria Pia, de Alcântara ou do “Sertão”, que foram alvo de numerosas notícias no Diário de Lisboa e no
Diário de Notícias, em Janeiro de 1938, constituem um bom exemplo de
trogloditismo. Ao contrário das notícias tão sensacionalistas quanto
incorrectas que foram veiculadas, comparando estas com Lascaux e adivinhando um
espólio arqueológico que nunca surgiu, estas cavidades são artificiais: um
claro exemplo de arquitectura subterrânea com fins habitacionais e/ou de
arrumação. A sua localização é, por vezes, confundida com outras ocorrências
situadas igualmente na margem esquerda do vale de Alcântara.
As referências sobre a utilização das grutas de Alcântara como
habitação são numerosas e também assinalam cavidades na margem direita do vale.
Há mesmo quem afirme que aí viviam, ainda nos anos 60 do século passado,
“imensas pessoas” (blogue “Rua dos Dias que Voam”, 21/Nov. 2004). Venância Ribeiro, uma mulher com mais de 70
anos que ainda em 2004 fazia fretes num mercado da cidade, contou que nos
primeiros tempos chovia na furna de Alcântara onde viveu até pelo menos aos 20
anos de idade: "Acordávamos todos encharcados" (ibidem).
As Furnas de Monsanto
também foram muito utilizadas como habitação. Segundo João Martins (comum. pessoal)
a primeira ocupação do Bairro da Liberdade “está ligada à chegada de
migrantes para a recente industrialização do vale de Alcântara implicando a
fixação de população nesta zona de fronteira da cidade de Lisboa. É um conjunto
populacional que tem as suas origens na primeira década do século XX, com uma
ocupação precária de buracos na estrutura da inclinação da Serra do Monsanto,
as chamadas “grutas””. Em 1947,
ainda viviam pessoas nas furnas de Monsanto (Vieira, 2000).
A gruta de maiores
dimensões da Pedreira da Serafina (Furna da Serafina V), onde chegaram a
viver várias famílias, foi completamente atulhada e situava-se no
extremo sul da pedreira (Rui Marques, comum. pessoal). As outras cavidades,
situadas na base da escarpa dessa pedreira, e ainda visíveis, foram
parcialmente obstruídas com terra e blocos e contêm carros abandonados no interior
(ibidem).
A utilização das
grutas não se limitava a habitação permanente, também eram usadas de forma
esporádica nomeadamente por parte de criminosos e até como local de reuniões
clandestinas no período do Antigo Regime. Por esses e por outros motivos é que
grande parte das cavidades foram encerradas…
CUIÇA, Pedro - O TrogloditismoinAmeaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa. Lisboa: UA, 2012. pp. 33-36.
No tocante ao apelo “a
todos aqueles que tenham informações acerca de grutas no concelho de Lisboa”,
no âmbito de um trabalho universitário em que estive envolvido – Ameaças à Geodiversidade – Cavidades subterrâneas
do Concelho de Lisboa – aqui fica o agradecimento aos que de alguma forma responderam
ao dito. Devido à extensão do trabalho publico somente a introdução e as conclusões.
Nos próximos posts conto publicar também os conteúdos referentes ao
trogloditismo e ao “culto das grutas”, tal como as referências toponímicas.
Introdução
21.978
a.C.
Saíram
e dirigiram-se a outra caverna.
Tens
muitos sítios, disse o rapaz.
Há
muitos caminhos debaixo da terra, respondeu o velho, mais que tu possas pensar.
(…)
1936
Era um
dos temas em que [Aquilino Ribeiro] meditava quando passeava pelas
terras da infância, de Sernancelhe à Lapa: que a rudeza pré-histórica não
desaparecera, mesmo nas maiores cidades como Lisboa; apenas ganhara outra
espécie de densidade. O mundo tornara-se hostil à presença do maravilhoso.
Longe deveriam ir os tempos em que andavam faunos pelos bosques.
(…)
1742
(Julho)
Observaram
o local com atenção em busca dos sinais indicados pela Beata de Óbidos.
Contornaram com lentidão o sopé da montanha [Penha de França] retirando os pedregulhos maiores do
caminho para avançar com as carretas e encontraram a entrada da gruta. O
franciscano olhou em volta e não viu vestígios de ocupação; nem ossos, cinzas
ou pegadas: o local estava abandonado há muitos anos. Inclinou-se para
espreitar e cheirou a humidade do interior da terra – musgo e poeira.
(…) ‘Os
Mouros moraram aqui’, disse.
David Soares
(2008) – Lisboa Triunfante
A minha
Lisboa desenhava-se aos poucos como um articulado de pedras engendrado por
gente e cimentado por palavras, sobreposição à primeira vista anárquica de
expressões, gostos, vontades, sonhos e ambições, moldura irremediável da
vivência de quem vem depois e, claro, também, do olhar curioso de quem teima
perceber a trama complexa da evolução da cidade.
José Sarmento
de Matos (2008) – A Invenção de Lisboa – Livro I: As Chegadas
Um trabalho sobre
grutas no concelho de Lisboa pode parecer, à primeira vista, algo de absurdo
tendo em conta que num contexto citadino, onde grande parte do território se
encontra densamente urbanizado, seria difícil encontrar tais cavidades naturais
mesmo que estas já tenham existindo no passado. Esse intento não deixará igualmente de causar alguma estranheza tendo em conta que Lisboa se trata de uma
cidade várias vezes milenar, palco de diversas civilizações, alvo de
cataclismos tão dramáticos quanto o terramoto de 1755 e, não menos importante, na
qual não se ouve hoje falar de tais fenómenos!…
O meu interesse por
esta “desconhecida” temática surgiu, em 1985, com base na leitura de um artigo
da autoria de Octávio da Veiga-Ferreira – Lisboa
há milhões de anos: os homens pré-históricos estabeleceram-se com certeza
nas antigas grutas do Vale de Alcântara!… Desde essa altura, sempre que passo
nesse importante vale lisboeta lembro-me invariavelmente dos nossos ancestrais
pré-históricos e das grutas aí existentes. Memórias que despertam a magia de
outros tempos, nos quais esse vale seria certamente verdejante e no fundo do
qual até uma ribeira corria no seu natural percurso. Um marcado contraste com a
realidade actual em que o antigo curso de água corre encanado sob uma larga
avenida e o vale se encontra pejado de prédios, estradas, viadutos, um
caminho-de-ferro e até uma ETAR.
Enquanto o Vale de
Alcântara, ainda que profundamente descaracterizado, continuar a despertar
memórias de tempos ancestrais, enquanto persistir em ser um hino à lembrança de
outras épocas, não permitirá o esquecimento e, só por isso, funcionará, vezes
sem conta, como uma “máquina do tempo” proporcionando um eterno retorno às saudades
do futuro.
Vale de
Alcântara (PC ã2012)
Conclusões
Há grutas, melhor
seria dizer ainda há grutas, no concelho de Lisboa: os trabalhos de prospecção
permitiram localizar duas dezenas de cavidades. No entanto, a maior parte das
ocorrências confirmadas no terreno encontram-se bastante degradadas, total ou
parcialmente entulhadas e/ou funcionando como depósitos de resíduos de natureza
diversa. Por isso, o acesso às cavidades revela-se impossível, bastante difícil
ou até perigoso, não em termos da dificuldade técnica da progressão mas sim de
“saúde pública”, o que impede ou dificulta a sua caracterização, nomeadamente
no tocante ao seu desenvolvimento ou outros elementos de interesse. O trabalho levado
a cabo também revelou a confirmação de diversas grutas destruídas/desaparecidas
devido à urbanização das áreas onde se encontravam.
A reabilitação da
Gruta do Rio Seco I, no âmbito da sua classificação como geomonumento, revela a
importância dada à preservação da geodiversidade e augura o surgimento de uma
nova mentalidade no que concerne à tomada de consciência acerca dos valores
intrínsecos associados à geologia em geral e às cavidades subterrâneas em
particular. A adequada dinamização desse geomonumento constituirá certamente um
exemplo a seguir e funcionará como estímulo à recuperação de outras cavidades.
A preservação da Furna do Rasto deve ser tida em conta, dado que se trata da
única cavidade existente no concelho relativamente bem conservada, para além de
possuir um desenvolvimento considerável e comportar diversos elementos de valor
inegável.
O trogloditismo e o
“culto das grutas” surgem como valores acrescentados no âmbito das mais
recentes definições de geodiversidade, enfrentando como manifesta ameaça o
esquecimento.
Acabo
de chegar da minha terceira viagem às Canárias. Da primeira vez tratou-se de
uma visita, se assim se poderá dizer, com uma importante componente
espeleológica: tive oportunidade de conhecer alguns túneis vulcânicos em
Tenerife e El Hierro. Esta foi, sem dúvida, uma visita tão inesquecível quanto marcante
sob vários níveis… E certamente não terá sido por conhecer os “perritos calientes con papas locas”!
Da
segunda vez o “assunto” que me conduziu a esse arquipélago foi o pedestrianismo:
participei numas Jornadas de Senderismo em que, numa “escapadela”, acabei por
subir até ao cume do Teide, juntamente com dois companheiros espanhóis, numa
noite memorável (e, na descida, visitei a Cueva del Hielo)… Escusado será dizer
que após essa “directa” cheguei a horas de participar nos trabalhos das
Jornadas aparentemente como se nada se tivesse passado :) Curiosamente, nessa
ocasião, também regressei a El Hierro onde fiz um percurso impressionante pelo
desnível vencido e pela beleza da paisagem. Foi no final dessa segunda “visita”
que recebi a notícia marcante da morte de um companheiro nos Himalaias…
Desta
feita, a terceira, o motivo pelo qual estive nas Canárias voltou a ser o
pedestrianismo. Invariavelmente fiquei “preso” à visão do Teide e recorrentemente,
quer nas deslocações em veículos motorizados quer nos passeios a pé, percorri a
paisagem com o olhar atraído pelos inúmeros “buracos” que aí se encontram…
O
motivo pelo qual escrevo este post centra-se no facto de, após um certo “desconforto”
ou “inadaptação” face à desordenada ocupação urbanística de Tenerife e de um
modo geral à “modernidade”, pelo menos era essa a explicação que encontrava
para o “sentir” das outras vezes (!), me ter “reconciliado” ou “focado” no
espaço e no tempo! Na verdade, descobri uma nova forma de vivenciar o espaço, assente
no presente, mas sentindo ou procurando sentir o passado, com base nos numerosos
testemunhos… guanches e, claro, nos quais as cuevas ocupam um lugar
preponderante.
Já
durante a primeira visita tinha comprado um livro acerca das pinturas rupestres
em cavidades artificiais, mas foi somente durante esta última que descobri e, sobretudo,
senti a intensa e multifacetada presença do espírito guanche. Desde logo na
rica toponímia local, mas não só… Foi desta feita que descobri a Tara – a
grande mãe ou deusa da Terra –, o panteísmo ou animismo desse povo que expressava um culto
ao ar livre fortemente ligado a grutas, montanhas, fontes, “pedras espirituais”
ou “rochas animadas”. Tais concepções não resultaram do facto de estar uma
lua-cheia fascinante ou de se comemorar o Samhain, a festa do ano velho e o
começo do novo, ou até de se celebrar o começo do Inverno, numa fronteira entre
mundos, mas certamente terá ajudado...
Esta
terceira viagem fechou um ciclo mas abriu, sem dúvida, um outro. Esta que foi
uma viagem essencialmente no self – nas profundezas do ser – terá, assim espero,
tradução sob a forma de futuras aventuras no terreno em busca desse espírito da
Terra só agora aflorado… Um caminho que levará, mais uma vez, ao alto de montanhas e às
profundezas de grutas.
Vista do Teide, ao final do dia, desde Orotava (PC ã 3/11/2012).
"A mi entender, esta abundante presencia de símbolos mágicos con un gran significado en determinados lugares (imaginización) o de construcciones como los templos redondos, los círculos de piedra y los altares para ofrendas son elementos que poseen una gran relevancia. Imaginizar significa percebir la magia y las irradiaciones de un lugar y añadir una imagen exterior, visible para todos, a la imagen generada en nuestro interior como consecuencia de dicha percepción.
(...)
Nuestros antepasados estaban en perfecta comunicación con cada una de las manifestaciones naturales y con cada elemento, tanto con el manantial como con el viento, mediante las incisiones, dibujos y pigmentos que hacían en la piedra. Se sentían unidos tanto a lo animado como a lo inanimado, puesto que para ellos todo lo que existía tenía vida, las piedras, la tierra, el cielo y el mar.
La religión de la cultura atlántica occidental - y también esto es un rasgo típico de los aborígenes canarios - se practicaba al aire libre. Los altares se dejaban vacíos pues eran reservados como asientos para los dioses, igual que los roques, y si se llegaban a erigir ídolos (como los "efequenes" de Fuerteventura o la "figura femenina" de Tara, en Gran Canaria), tales actividades se hacían al aire libre.
(...)
La madre ancestral de Tara, hallada cerca del municipio de Telde, Gran Canaria, es considerada, por lo general, una escultura de la máxima elegancia y gusto refinado desde una perspectiva estética. Dicha estatua se exhibe actualmente en el Museo Canario de Las Palmas de Gran Canaria. Esta escultura ha ido adquiriendo cada vez más importancia ya que la palavra "tara" en la lengua de los aborígenes canarios significa "símbolos para recordar" o "escrita". İ Todos los petroglifos son "taras"! "Tara" es pues una palavra preindoeuropea de extraordinaria transcendencia."
Harald Braem in Tras las huellas de los aborígenes - Guia arqueológica de Canarias(Zech, 2010, p. 33-35)
Já não vinha a esta "coisa" - o Spelaion - há bastante tempo e fiquei surpreendido... Na verdade, já é a segunda vez que isto me acontece. Estou a consultar o blogue e começo a ouvir como que um animal com respiração rápida e pesada, rouca!!! Algo verdadeiramente incrível, estranho, mesmo bizarro, mas que dá um certo toque de classe e mistério a este espaço dedicado ao mundo subterrâneo... Comecei a achar-lhe piada e decidi chamar-lhe carinhosamente "The Thing"! Um dia apaguei inadvertidamente o fundo deste blogue onde esvoaçava um conjunto de morcegos que não deixaram saudades, agora surgiu este ser incógnito aparentemente vindo das trevas, do desconhecido. Juro que não fui o autor de tamanha proeza :) E também não ando a snifar esteróides anabolizantes ;-)
P.S.: Não tenham medo que não morde (pelo menos até agora!).
A
datação e a análise genética de coprólitos humanos da gruta de Paisley (Oregon
- USA) vieram, mais uma vez, alterar as concepções existentes acerca dos
primeiros Homo americanos. Segundo a notícia publicada no Públicoon-line: "Não só os excrementos tinham cerca de 14 400 anos de idade - ou seja, eram uns mil anos mais antigos do que qualquer vestígio conhecido da cultura Clóvis - mas, ainda mais, a análise do ADN humano contido nos coprólitos mostrava tratar-se de dejectos de uma comunidade humana originária da Ásia, que poderia ser a antecessora da população indígena norte-americana actual." A bióloga portuguesa que integra a equipa internacional, liderada por Dennis Jenkins da Universidade de Oregon, salientou que "o que realmente nos permitiu caracterizar estes indivíduos como pertencendo a uma cultura diferente de Clóvis, foi o facto de serem mil anos mais antigos que a cultura Clóvis, como também o facto de as ferramentas de pedra encontradas apresentarem uma tecnologia de fabrico claramente distinta da tecnologia da cultura Clóvis".
O antropólogo Alistair Pike e a sua equipa internacional, da qual faz parte o arqueólogo português João Zilhão, divulgou hoje (14/06/2012), na imprensa (videPúblico e abc News), a descoberta de pinturas rupestres na gruta El Castilho (Espanha) supostamente com mais de 40 mil anos, i.e., quatro a cinco mil anos mais antigas do que as anteriormente datadas. Essa descoberta coloca a possibilidade de a arte rupestre, até agora atribuída ao Homo sapiens, poder ter sido efectuada por neandertais. Facto que, a confirmar-se, irá revolucionar as concepções aceites actualmente sobre a evolução dos Homo, nomeadamente no que concerne às capacidades de produzir arte. O artigo científico sobre esta descoberta será divulgado amanhã na revista Science.
P.S. (15/06/2012): Notícias em Expresso, Sol e BBCon line.
Não, desta feita não vamos falar sobre a "franga dos ovos d'ouro"! Não é que a "coisa" não merecesse ser (re)abordada até à exaustão, para demonstrar de forma reiterada a perversidade e o absurdo de tal galináceo... Voltamos ao Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) para, mais uma vez, abordarmos o "marisque"! Não, não nos referimos ao negócio new age das "ventoinhas", tipo "delícias do mar", referimo-nos ao tradicional marisco que dá pelo nome de "pedreiras". Já fizemos alusão ao fenómeno em 2008 e em 2009, mas nunca é demais voltar a um assunto de tal calibre. Ainda para mais quando tal matéria volta a despertar a atenção dos media, estando na "ordem do dia". O Jornal de Leiria publicou hoje um artigo, de Raquel de Sousa Silva, precisamente sobre a extracção de recursos: Exportação de pedra cresce e agrava destruição da paisagem das Serras de Aire e Candeeiros.
Temos perfeita consciência de que a indústria extractiva dá trabalho a bastante gente, no PNSAC tal como noutras áreas curiosamente ditas "protegidas", de que o Parque Natural da Arrábida (PNA) é outro (mau) exemplo, assim como estamos cientes que o vinho já terá dado de comer a um milhão de portugueses! Tudo muda, tudo se transforma e nunca será tarde para investir em novos paradigmas de desenvolvimento, já agora verdadeiramente sustentáveis e que garantam uma eficaz conservação da natureza. Afinal não é para garantir a conservação da natureza que os parques naturais foram criados?
Também já sabemos que pregar aos peixes é algo inglório, tal como pregar a galinhas, a mariscos e, ainda para mais, a delícias do mar; assim como adoptar atitudes quixotescas de combate a "ventoinhas". No entanto, antes ser lírico ou utópico do que alinhar com os vendilhões do templo que é a natureza. Tal como escreveu Manuel Alho no prefácio do livro "Educação Ambiental em Portugal (LPN, 2003): se "o mundo é um lugar perigoso para se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer", como defendia Albert Einstein, essa não é a nossa condição.
Phillip Tobias, especialista no estudo da evolução humana, faleceu na passada quinta-feira (7 de Junho), com 86 anos, em Joanesburgo (África do Sul). Deve-se a este paleo-antropólogo um trabalho pioneiro em diversas jazidas consideradas como "o berço da humanidade", de entre as quais se salienta as Grutas de Sterkfontein (situadas a noroeste de Joanesburgo). Foi nestas grutas, classificadas como património da UNESCO, que surgiu o esqueleto mais completo de Australopithecus (com mais de quatro milhões de anos): o Little Foot.
"So much of the history of rock art studies emanates from the study of Paleolithic rock art in Europe. As noted (...), the abbé Breuil was convinced that making art was a religious activity, so rock art had to have been done by priests and shamans, who would have been male only, because in his experience, only men were priests. Leroi-Gourhan, Guthrie, Onians, and others thought art was made by unters, and in their understanding of world ethnography, only men were unters. Many believe that caves were too deep, dark, and difficult to get into, and so would have been too frightening for women (Russell 1991). As feminist anthropologists have pointed out for decades, the Western scholarly tradition assumes that women remain bound to home, hearth, food preparation, and child rearing for their entire lives. Feminist critics of archaeology have documented the projection into the past of present-day stereotypes of women as passive, uncreative, and subordinate to active, creative men (Watson and Kennedy 1991; Hays-Gilpin 2000d). In fact, women take part in many kinds of ritual activities in many parts of the world, especially after their child-bearing years. Women, especially young women, often hunt small game. In a few hunter-gatherer cultures, such as the Agta of the Philippines, women hunt as often as men do (Estioko-Griffin 1981). Fear of deep, dark places, is likely to be learned and unlearnable, and therefore unlike to be sex-linked (note that today many cavers are women and a woman was first through the discovery hole at Chauvet)."
Kelley A. Hays-Gilpin - Ambiguous Images - Gender and Rock Art (2004, p. 87-88)
Segundo a revista Journal of Human Evolution, uma equipa de arqueólogos fez recentemente uma descoberta notável na gruta de Geissenkloesterle, no sul da Alemanha. Liderados por Tholas Higham, da Universidade de Oxford, os investigadores recuperaram da escavação arqueológica aqueles que são os mais antigos instrumentos musicais conhecidos: duas flautas de ossos de ave e marfim de mamute com 42 a 43 mil anos.
A notícia foi hoje publicada na Naturlink - a ligação à natureza.
"What these early paintings reveal is a very close stylistic continuity with the last phases of rock art in this region. This connection is highlighted by the 'X-ray' infill of the bark painting figures - the characteristic motifs used to represent internal organs within the body cavities of animals - which are also common in the rock art. The outline shape of the species represented, and the devisions indicated between certain limb parts, are also features shared between the two media. The early collections point to the contiguity of painting on the walls of caves used as wet-season shelters. Kunwinjku today, who have sheltered regularly in both bark houses and rock country caves during their youth, and occasionally still do in the present, describe these two contexts of painting as being equivalent. (...) Karrnaradj, a senior Kunwinjku man at Oenpelli in 1982, described it this way:
My father painted two red kangaroos in a cave in my country. Before men painted in bark houses and in caves, for children to look and see. To make them happy. When we tell the story they can look.
Kunwinjku indicate that paintings on bark shelters, and on the walls of caves were people lived, were produced in a relatively informal context as opposed to ceremonial art production.They point to the half-complete and inexpert paintings alonside more careful works to show that this informal atmosphere provided the occasion when young artists were 'trained' to paint. (...) These shelter paintings are described to have four interlinked purposes. The first is to illustrate the public versions of mythical episodes or historical occurences which are 'for fun' and 'to make children happy'. These stories are retold in a fairly relaxed atmosphere for the amusement and education of children as well as for the pleasing decoration of the space. The second purpose is 'practice' for the young artist in completing such illustrations. While the subjects may be outside versions of Ancestral myths, more important ceremonial interpretations could also be attributed to them (...). The third aim of producing motifs such as hand stencils is to personalize the space. This too is carried out in an atmosphere of 'fun' and there are children's hanprints alongside those of the adults in the caves. Spencer recorded a similar explanation for the hand stencils in the caves at Oenpelli in 1912 (1928: 812). Fourthy, these paintings, as well as other more elaborate paintings executed by senior artists, are described as a record or memorial of an individual having visited the site."
Luke Taylor (2007): Seeing the Inside - Bark Painting in Western Arnhem Land (p. 17-19)
No passado sábado (19 de Maio) assisti a uma palestra na qual
me “ensinaram” que há 10 mil anos atrás ocorreu um “cataclismo” resultante da
queda de um meteorito, que originou uma cratera com 300 km de diâmetro e um
tsunami com 500 metros de altura (que passou a 1000 metros em terra);
responsável, concomitantemente, pelo degelo de glaciares com 30 km de altura e
pela extinção dos elefantes na baixa de Loures! Entretanto, antes da dita
sucessão de eventos, era costume esses glaciares no Verão estarem à latitude da
Irlanda e no Inverno descerem até aos Pirenéus!! Por sua vez, há 6000 a.C. deu-se
o enchimento do Mediterrâneo que até aí estava seco de Itália até, pelos
vistos, ao Estreito de Gilbraltar!!! Essa pretensa geo-história não me chocou
pela sua inverosimilhança e, menos ainda, por alterar tudo aquilo que aprendi
na licenciatura de geologia ou nas minhas amadoras leituras sobre pré-história,
afinal a mudança de conceitos é prática corrente em ciência, apenas me deixou
algo mal disposto tendo em conta que não estou habituado a “shakes” que originem
“misturas” tão poderosas!
Nesse mesmo dia adquiri um livro que, por coincidência (?),
também referia que um “cataclysme écologique a entraîné des bouleversements
radicaux”, sem identificar as causas do mesmo; claro está, sem falar em quedas
de meteoritos e tsunamis associados. Espantoso é ignorar que tal se insere numa
sequência de outros eventos similares de glaciações (Biber, Donau, Günz, Mindel e Riss) e de interglaciações que levaram à
definição do Quaternário ou Antropozóico… Os factos são certamente melhor
explicados à luz dos ciclos de Milankovitch do que por tsunamitos ou outras
ausentes "evidências"! A transgressão Flandriana que se seguiu ao final do Würm continua até hoje e, pelos vistos, o próprio aquecimento
global de que tanto se fala, por outro lado é curioso que não se vislumbre a “extinção
em massa” que está a ocorrer agora mesmo “debaixo dos nossos olhos”! É tudo uma
questão de ritmo, melhor seria dizer de tempo: de facto processou-se (e ainda
se está a processar) um “cataclismo”, diremos uniformitarista :)
Já agora, publico aqui um pequeno “vídeo” sobre o Mesolítico como época de transição (entre o Paleolítico e o Neolítico), para uma nova maneira de entender o mundo; não como um período pós-traumático mas como uma nova “janela” de oportunidades evolutivas.
A "galinhola dos ovos d'ouro" deu que falar no Tubo de Ensaio :) "Se uma pessoa andar com um aparelho da via verde na testa já pode andar? (...) Mas isto anda tudo maluco ou é só impressão?..."
Na sequência das anteriores postas sobre a "Galinhola dos Ovos d'Ouro" ficamos muito entusiasmados com os desenvolvimentos verificados nos últimos tempos e que já prevíamos há bastante: quando a lei começasse a ser aplicada no terreno os protestos viriam à tona e voila... Sob o mote "a natureza é de todos", na próxima quarta-feira, dia 25 de Abril, estão marcadas manifestações de montanhistas e pedestrianistas, no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) e no Parque Natural das Serras d'Aire e Candeeiros (PNSAC). Estas manifestações são um protesto contra os pedidos de autorização para praticar actividades de ar livre nas Áreas Protegidas e os consequentes pagamentos de taxas, quer sejam autorizadas ou não. A iniciativa está a ter ampla cobertura noticiosa nos media. Aqui fica o link da notícia publicada no Público: http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1543151.
Hoje, dia 18 de Abril, comemora-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Uma ocasião para lembrar a importância de preservar o património geológico, mormente na sua vertente museológica. De entre as ocorrências consideradas (ou que possam vir ser consideradas) geomonumentos, ou simples geossítios de interesse, não podemos deixar de destacar as grutas. De facto, a geoconservação passa também pelo património (geo)espeleológico, tantas vezes ignorado ou esquecido.
Neste contexto, aproveito também para fazer um apelo a todos aqueles que tenham informações acerca de grutas no concelho de Lisboa. Estou neste momento a efectuar um trabalho, de âmbito universitário, precisamente sobre ameaças à geodiversidade no que concerne às grutas existentes em Lisboa e arredores, e todos os dados acerca dessas ocorrências serão muito bem-vindos. Obrigado.
Tirando a particularidade de a proposta apenas se referir a Parques Nacionais, quando apenas existe um em Portugal (!), será digno de menção alguém se lembrar da "franga" (I, II e III) que se tornou uma rica "galinha" e, entretanto, virou "pomba da paz" podre!!!
P.S.: Já agora, só uma pequena nota, para quem tem andado distraído ou não tem acompanhado o "assalto" que tem vindo a ser perpetrado no tocante aos direitos de usufruto da Natureza e prática de actividades de ar livre: a última novidade, após as taxações de associações e pessoas a título individual, é a concessão da exploração de determinadas zonas/locais e/ou de actividades a privados! Por exemplo, as pessoas terão de pedir autorização para andar a pé numa Área Protegida mas, simultaneamente, um privado tem uma concessão para passear pessoal em motas 4x4 na maior legalidade!!! "Bonito, n'é?"
"Apesar de todo o encanto e valor documental da arte móvel, apesar de todas as vantagens que supõe para a tarefa do arqueólogo, não há dúvida de que a arte mural oferece maior grandiosidade e desafia a imaginação do especialista, obrigado a tentar resolver tantos problemas quantos os que se propuser.
Dá-se aqui o caso curioso de que algumas das grutas hoje mais famosas neste aspecto tinham sido repetidamente visitadas ao longo dos séculos - tal é o exemplo muito conhecido de Rouffignac - sem que, no entanto, alguém tivesse reparado nas pinturas ou nas incisões que hoje nos deleitam. Simplesmente, não se viam porque ninguém podia imaginar que uns seres humanos que se supunha extremamente atrasados pudessem rivalizar, num aspecto tão elevado da vida como é a arte, com as gerações modernas.
(...)
A arte rupestre compreende relevos, gravações e pinturas. O relevo não é frequente, mas apresenta algumas belas mostras: o friso solutrense de Le Roc (Sers), indubitavelmente lugar de culto, por exemplo, com a sua série de animais dispostos em semicírculo, os cavalos de Cap Blanc ou a série de representações rigorosamente femininas na parede da Gruta de Anglès-sur-Anglin.
Incisões há muitas e sempre difíceis de ver, pelo que o seu número cresce constantemente, inclusivamente nas jazidas já exploradas. As linhas gravadas são por vezes muito finas ou confundem-se com as fendas da parede rochosa. Há casos (Combarelles, Los Casares, por exemplo) em que todas as representações são gravadas, mas em geral surgem a par das pinturas ou combinadas com elas no todo ou em parte da silhueta animal, ou em certos pormenores da figura.
É na pintura que a arte rupestre alcança todo o seu esplendor. Se observarmos as suas características, notamos alguns traços gerais. As pinturas rupestres do Quaternário ocidental surgem nas paredes das grutas, inclusivamente a grande distância da entrada, em salas amplas ou corredores estreitos, sendo difícil chegar até eles ou mover-se neles com desenvoltura. Só uma parte das grutas susceptíveis de serem aproveitadas o foram na realidade. Em certas ocasiões os níveis arqueológicos cobrem uma parte das pinturas. Estas costumam representar animais, com certo naturalismo, embora ocorram evidentes convencionalismos ou estilizações e não faltem abundantes signos raros, simbólicos sem dúvida, o que permite acompanhar quase paralelamente a evolução do naturalismo na arte quaternária e a da arte simbólica, que chega em alguns temas a competir com o mais moderno que se possa imaginar. No conjunto, sentimo-nos satisfeitos com esta arte e sentimo-la próxima de nós, prova convincente da nossa analogia espiritual com as gentes do fim do Paleolítico.
Luis Percot Garcia & Juan Maluquer de Motes inA Humanidade Pré-Histórica (Editorial Verbo, 1971, pp 69-71)
Este texto trata-se de uma reflexão sobre o hipotético processo evolutivo da espécie humana, com base no texto de opinião de Paulo Mota, publicado no blogue De Rerum Natura, sobre as declarações proferidas por James Watson, co-descobridor da estrutura da molécula de DNA (1953), numa entrevista ao Sunday Times, publicada no dia 14 de Outubro de 2007.
“A Humanidade não entrou na história da vida de uma forma estrondosa. Os primeiros homens [não]tinham nada de impressionante. Eles esgueiraram-se, na Natureza, pela porta traseira (Hublin & Seytre, 2009: 45)”. Mas, apesar da raridade dos dados disponíveis, não existem hoje dúvidas de que o continente africano é o berço da humanidade. Tal como não existem dúvidas, por via de diversas evidências de evolução, de que o Homem actual é o resultado de um processo evolutivo. Conhecem-se duas espécies do género Homo que terão vivido entre 2.45-1.55 milhões de anos (Ma), o H. rudolfensis e o H. habilis (o hábil inventor da pedra lascada) que, mais tarde, desapareceram e deram lugar ao H. erectus (ou H. ergaster). A expansão das estações arqueológicas onde foram encontrados fósseis com menos de 1.7 Ma mostra que os Homininos já não se encontravam confinados a um pequeno nicho ecológico: tendo explorado novos territórios, ultrapassaram as fronteiras da savana e saíram de África (Hublin & Seytre, 2009: 51).
Há cerca de 1.5 Ma a espécie H. erectus (ou H. ergaster) expandiu-se até à Ásia e, depois, para a Europa. Durante milhares de anos diversas barreiras geográficas (desertos, glaciares e mares interiores) separaram as populações, permitindo a especiação. No norte da Europa surgiu uma espécie adaptada ao frio: o H. neandertalensis. Entretanto, na África sub-tropical desenvolveu-se uma espécie adaptada ao calor: o H. sapiens. Há cerca de 100 mil anos esta espécie expandiu-se até ao Médio Oriente e há 45 mil anos o aquecimento climático proporcionou-lhe um caminho até à Europa. Este fraccionamento da espécie H. erectus em duas espécies-filhas, semelhantes, é um exemplo típico de microevolução.
O estudo do ADN mitocondrial confirmou que as linhagens que deram origem ao Homem Moderno e ao Homem de Neandertal há cerca de meio milhão de anos que divergiram, tal como os fósseis o tinham sugerido. O isolamento geográfico não conduz, por si só, à formação de novas espécies mas, ao permitir uma divergência genética das populações isoladas, contribui para o processo da evolução. O ponto de partida será a geração de variações através de mutações, que são mudanças aleatórias na composição química dos genes, nas posições dos genes nos cromossomas e no número dos próprios cromossomas. Quando um novo mutante ou uma nova combinação de alelos raros ou preexistentes consegue superiorizar-se ao alelo comum, “normal”, há tendência para alastrar pela população ao longo de muitas gerações e, com o tempo, torna-se a nova forma genética (Bacelar-Nicolau & Azeiteiro, 2001: 106). O genótipo é alterado e, em consequência, gera-se um fenótipo diferente. Será igualmente de salientar, de entre os modos de selecção natural, a importância que terá desempenhado a selecção direccionada resultante das mudanças ambientais, provocadas pelas alterações climáticas, e das migrações das populações para novos habitats com diferentes condições ambientais.
O estudo do DNA mitocondrial sugeriu também que todos os humanos modernos tiveram uma origem recente (há cerca de 150 mil anos) no seio de uma população bastante pequena que vivia na África (Sabbatini, 2001 in Paradela et al., s/ data; Hublin & Seytre, 2009:90). O pequeno tamanho desse primeiro povoamento (cerca de 15 mil indivíduos) teve um “efeito fundador”: sendo a sua variabilidade genética excepcionalmente fraca, algumas características presentes na população-mãe de África ficaram marcadas na sua descendência.
Muitas características morfológicas e comportamentais dos seres humanos são determinadas por um conjunto de genes, como a cor da pele e, até, eventualmente a inteligência (Sternberg et al., 2005 in Paradela et al., s/ data). Um modelo para explicar a herança da cor da pele em humanos classifica os indivíduos em cinco fenótipos básicos: negro, mulato escuro, mulato médio, mulato claro e branco. Essa classificação seria controlada por dois pares de genes, cada par composto por dois alelos, sendo que um dos alelos de cada par seria mais activo na produção de melanina em detrimento do outro (King, 1999 in Paradela et al., s/ data). Entretanto, existem outros modelos que afirmam a correlação de três ou mais genes, com os seus respectivos alelos, originando fenótipos diferentes. A determinação dos genes ligados à inteligência é ainda mais incerta e controversa, uma vez que não se sabe quantos e quais são atribuíveis a essa “característica” (Rees, 1993 in Paradela et al., s/ data).
O Homem de Cro-Magnon, tal como é conhecido o primeiro representante da nossa espécie a chegar à Europa, constitui um excelente exemplo no tocante à evolução da “inteligência”. A sua chegada ao Sudoeste francês assinalou uma explosão de inovações tecnológicas e expressões artísticas que passou, desde então, a caracterizar de forma inequívoca os humanos “modernos”. No entanto, tal explosão de “inteligência” não teve expressão detectável em termos genéticos (Le Fanu, 2009: 50).
Conclusão
Devido às suas implicações sociais, a genética e a evolução humanas são assuntos altamente impregnados de emotividade e grande parte da literatura sobre esses temas é influenciada por afirmações que não são baseadas em evidências mas em suposições (Futuyma, 1942 in Paradela et al., s/ data). Nesse contexto, tanto as afirmações de James Watson, publicadas no Sunday Times, como as inúmeras reacções ao artigo em causa devem ser encaradas com as devidas reservas.
É possível estabelecer, com base em critérios biológicos, a existência de duas ou mais subespécies, para uma dada espécie, quando as suas características genéticas são suficientes para as diferenciar, o que não ocorre na espécie humana. Embora a cor de pele e a inteligência estejam no centro de discussões sobre a existência de “raças” humanas, a genética revela que essas polémicas são infundadas.
Pedro Cuiça (2011)
Bibliografia
Bacelar-Nicolau, P. & Azeiteiro, U.M. (2001): Introdução à Biologia; Universidade Aberta, Portugal, pp. 220.
Hublin, Jean-Jacques & Seytre, Bernard (2009): No Tempo em que Outros Homens Viviam na Terra - Novas perspectivas sobre as nossas origens; Publicações Europa-América, Mem Martins (Portugal), pp. 198.
Estamos longe da controvérsia originada por Charles Darwin quando este publicou a obra The Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871): que o Homem descendia do macaco! A genética e a paleontologia revelaram uma realidade bem mais radical do que aquela que tanto chocou os contemporâneos de Darwin. O homem não descende do macaco, na verdade trata-se de um macaco! Sabemos mesmo, exactamente, onde o localizar na sistemática dos seres vivos: ao lado dos chimpanzés1. Estes são o nosso parente vivo mais próximo. Do ponto de vista molecular, a diferença entre o Chimpanzé (Pan troglodytes) e o Homem (Homo sapiens) é das mais ténues. A maior parte das proteínas humanas são idênticas (em mais de 99%) às equivalentes dos chimpanzés. No campo da genética, onde as sequências do ADN das duas espécies podem ser colocadas lado a lado (95% do ADN), o Homem e o Chimpanzé partilham 98.8% do genoma. A nossa “humanidade” reside em 1.2% dos nossos genes2! As aparentemente triviais diferenças genéticas que separam os nossos “primos” Homíneos de nós próprios parecem insuficientes para justificar as diferenças físicas que nos distinguem3, no entanto estas são marcantes. À medida que a hominização se processou, ao longo do tempo, os corpos sofreram melhorias não só tendentes à marcha bípede como adquiriram características de animal corredor.
Duas pernas para um cérebro
Entrámos no século XXI com muitíssima mais informação acerca dos nossos ancestrais do que aquela que esteve ao dispor dos nossos antecessores nos últimos 150 anos, desde que Darwin publicou a Origem das Espécies (1859). Nesse contexto, destacam-se as sensacionais descobertas dos mais antigos antepassados do Homem, em particular os dois esqueletos fossilizados de Lucy e do Rapaz de Turkana que marcam as duas primeiras etapas distintivas da hominização: o bipedismo e a expansão do cérebro. O fóssil denominado “Lucy” (com cerca de 3.5 Ma4) trata-se de um Australopithecus afarensis, o mais antigo antepassado conhecido que terá caminhado erecto5. As pistas vitais para determinar o bipedismo de Lucy residem no ângulo agudo ascendente da cabeça do fémur e na pélvis de forma distinta que, em conjunto, transferem o centro de gravidade para cima dos pés6. O novo método de locomoção de Lucy não tardou a ser confirmado com a descoberta de uma espantosa série de três conjuntos de icnofósseis: pegadas, com cerca de 3.7 Ma, impressas sobre cinzas vulcânicas7, caracterizadas por marcas vincadas do calcanhar, uma curvatura plantar bem desenvolvida e um dedo grande (hallux) forte e alinhado com os outros8. A locomoção bípede, entre os ancestrais dos humanos, remontará segundo alguns autores a 3.5 a 4 Ma9, enquanto outros apontam para pelo menos 4.4 Ma10, 4.5 a 7 Ma11 ou até mesmo 10 a 12 Ma12.
Alguns anos depois foi descoberto outro esqueleto quase completo, o do designado “Rapaz de Turkana”, um pré-adolescente da espécie Homo erectus (ou H. ergaster), com cerca de 1.6 Ma, reflectindo a segunda singular etapa da hominização: possuir um cérebro prodigiosamente alargado13. As nossas cabeças não se terão expandido apenas porque nos tornámos bípedes, segundo o antropólogo Daniel Lieberman melhorámos enquanto corredores porque as nossas cabeças se expandiram, fornecendo mais lastro14.
Estes primeiros Homo africanos eram excelentes bípedes. A capacidade do bipedismo seria aliás, antes de mais, uma adaptação para percorrer longas distâncias15. Estudos recentes realizados por Lieberman e os seus colegas, na Universidade de Harvard, sugerem que o Homo erectus estava perfeitamente adaptado à marcha mas também à corrida de endurance16.
O professor de biologia evolutiva Dennis Bramble, da Universidade do Utah, também estava na senda do Homo corredor. Bramble focou-se num tendão situado por trás da cabeça do Homem, pouco conhecido, que se chama “ligamento da nuca”, uma membrana fibrosa que se estende da protuberância occipital externa até à sétima vértebra cervical (C7), e que está ausente nos chimpanzés. A base posterior do crânio de um Australopithecus é lisa e a de Homo erectus apresenta uma ranhura rasa para o ligamento nucal17. Ora, esse facto é de certo modo desconcertante porque o ligamento da nuca só será útil para estabilizar a cabeça quando um animal se move rapidamente; um caminhante não precisa dele. Tal como possuir um avantajado gluteus maximus (músculo grande glúteo) será apenas necessário para correr! Da mesma forma, o tendão de Aquiles não serve para nada a caminhar, motivo pelo qual os chimpanzés não o possuem. Nem o teria o Astralopithecus; este tendão só terá surgido, há cerca de 3 Ma, no género Homo18. Estas e outras características, que surgiram no decurso da hominização, explicam a evidência de que o Homem é o único primata capaz de efectuar corrida de endurance; capacidade até invulgar nos quadrúpedes, exceptuando carnívoros sociais (como os lobos ou as hienas) ou os ungulados migratórios (como os bois-cavalo)19.
Mais extraordinário é constatar que um ser humano normal tem uma passada mais comprida do que a de um cavalo20 e que não só pode vencer esse animal em corridas de longo curso como praticamente qualquer quadrúpede! Todos os anos corredores e cavaleiros enfrentam-se numa corrida de 80 quilómetros de “Homem Contra Cavalo” em Prescott (Arizona). Paul Bonnet ganhou a corrida em 1999 e no ano seguinte Dennis Poolheco venceu a prova, tal como nas seis edições seguintes, até Bonnet reconquistar o título em 2006. Seriam precisos oito anos até que um cavalo voltasse a vencer!
Bramble ficou igualmente surpreso por descobrir que todos os mamíferos corredores estão restritos ao mesmo ciclo de “dá-um-passo inspira-uma-vez”, excepto o Homem21. Os corredores humanos podem escolher entre uma série de rácios, optando geralmente pelo dois para um.
Os Homo também são os únicos animais que libertam a maior parte do calor corporal através da transpiração. Todas as criaturas cobertas por pêlos arrefecem sobretudo através da respiração, o que restringe o seu sistema de regulação de calor ao nível dos pulmões. “Mas os seres humanos, com os milhões de glândulas sudoríferas, são o melhor motor de ar condicionado que a evolução pôs no mercado”22. Platão tinha alguma razão ao classificar o Homem como um “bípede sem penas”. O Homem será, portanto, um macaco nú23… e que transpira24.
Depois de se tornar evidente que a hominização terá evoluído no sentido de privilegiar a corrida de fundo, a questão que se colocou foi: para que serve, então, a resistência num “campo de batalha” aparentemente concebido apenas para a velocidade? Essa foi a pergunta a que Bramble procurou dar resposta, na década de 90, juntamente com Lieberman. Afinal o Homo não podia escapar a nenhum predador com essa capacidade25, mas também não precisaria tendo em conta que se tratava de um animal gregário, que agia em equipa, e de mãos livres para empunhar armas (como, aliás, o fazem os chimpanzés).
A resposta surgiu na mudança de menu, que se terá verificado há cerca de 2 Ma de anos, quando o simiesco Australopithecus evoluiu para se tornar no Homo erectus, passando de uma dieta de plantas duras e fibrosas para doses regulares de carne. A redução da região abdominal deste último resultou na consequente diminuição do tamanho do intestino e no aumento da ingestão de carne em detrimento da ingestão de vegetais, fibrosos e pobres em energia. O Homo erectus já não tinha necessidade de se refugiar em árvores, na verdade já seria um verdadeiro caçador capaz de percorrer grandes distâncias nas quentes savanas e estepes onde habitava26.
Então outra questão se colocou: como é que os Homo erectus obtinham carne se o arco e a flecha foram inventados há 20 mil anos, a lança há 200 mil anos e estes já por cá andavam há 2 Ma de anos? Isso indicia que durante a maior parte da sua existência os Homininos terão caçado sem armas! Tudo indica que sim, porque apesar de um veado ser muito mais rápido a sprintar, o Homem é mais rápido na corrida de fundo. Quando o veado entra em défice de oxigénio, nós ainda mal estamos a ofegar.
A caça de persistência (como é conhecida pelos antropólogos) não deixa vestígios - não há pontas de flecha, nem lanças - e os caçadores desse estilo são uma raridade; estão em vias de extinção. Apesar da existência de informações, quase lendárias, acerca dos caçadores Tarahumara que caçavam perseguindo as suas presas até à exaustão27, foi muito difícil obter provas de tal proeza. O primeiro relato fidedigno de tais feitos teve origem no testemunho de Louis Liebenberg que viveu seis anos com os bosquímanos do deserto do Kalahari. Estes “fósseis vivos”, cuja sabedoria e vivências remontam ao nosso passado pré-histórico, eram peritos em seguir os rastos de animais e possuíam uma perspicácia mortífera na caça de persistência, muito mais eficaz do que o uso de arco e flecha28. Eureka!
Conclusão
O Homem é o único macaco que anda permanentemente apoiado nas patas traseiras e o único capaz de empreender corridas de endurance. O bipedismo parece ter, se não implicado, pelo menos permitido, outros aspectos importantes da evolução humana: a reorganização do crânio, com um aumento do volume do cérebro; a libertação da mão, que já não está ocupada com a locomoção; e, talvez, até o aparecimento da fala.
O Homem sobreviveu e prosperou porque, ao “seleccionar” as mutações genéticas que favoreceram o bipedismo e o aumento do cérebro, a Natureza o dotou de uma considerável vantagem biológica para lhe maximizar as hipóteses de sobrevivência29.
Porque muitos dos desafios que a corrida de endurance coloca ao Homem são muito diferentes dos exigidos pela marcha, podemos concluir que as capacidades para a corrida de endurance não terão surgido como um resultado secundário30.
Pedro Cuiça (2011)
Notas
1Designa-se por “Antropóides” a superfamília que agrupa os homens e os grandes macacos actuais (Chimpanzé comum, Bonobo, Gorila, Orangotango e Gibão), assim como o ramo dos seus antepassados comuns; por “Hominídeos” a família que inclui o Homem, o Chimpanzé, o Gorila e o Orangotango; por “Homíneos” a subfamília que inclui o Homem e o Chimpanzé; e por “Homininos” a tribo que agrupa o Homem e o ramo dos seus antepassados e parentes desde a separação do Chimpanzé (Hublin & Seytre, 2010:17).
2Hublin & Seytre, 2010; p. 15
3Le Fanu, 2009:61
4Ma: milhão de anos
5Lucy foi descoberta, em 1974, por Donald Johanson e Tom Gray, em Hadar, no Deserto de Afar (Etiópia).
6Le Fanu, 2009:55
7Massada, 2001:106
8Bonito, 1996. Saliente-se que alguns autores defendem esta interpretação(Leakey, 1978; Leakey & Hay, 1979; Clarke, 1979; White, 1980; Day & Wickens, 1980; Hay & Leakey, 1982; Charteris et al., 1982; Tuttle, 1985, 1987; Leakey, 1987; Robbins, 1987; White & Suwa, 1987; Tuttle et al., 1991a, 1991b; Schmid, 2003; in McHenry, 2003), enquanto outros atribuem estes rastos a pré-homininos(Clarke & Tobias, 1995; Clarke, 1999; Berillon, Deloison & Meldurm, 2003; in McHenry, 2003). Os primeiros estudiosos dos australopitecos, tal como outros posteriormente, enfatizaram o seu bipedismo(Gebo, 1992; Johanson et al., 1982; Latimer, 1988; Latimer, 1991; Latimer & Lovejoy, 1989; Latimer & Lovejoy, 1990a, 1990b; Latimer et al., 1982, 1987; Leakey, 1981; Lovejoy et al., 1982; McHenry, 1982, 1984, 1991, 1994; Tuttle et al., 1991b; White, 1980; in McHenry, 2003; Bramble & Lieberman, 2004:351), mas existem autores que não estão de acordo(Bacon, 1994; Christie, 1997; Clarke & Tobias, 1995; Deloison, 1984, 1985, 1991, 1997; Lamy, 1983, 1986; Le Floch-Prigent & Deloison, 1985; Lewis, 1989; Sarmiento & Marcus, 2000; Senut, 1980; Senut & Tardieu, 1985; Stern & Susman, 1983, 1991; Susman & Stern, 1991; Susman et al., 1984; Tuttle, 1981; in McHenry, 2003).
9Zihlman, 1981:75; Lovejoy, 1981:341; McHenry, 1982:153; in Battles, 2004:2
10Bramble & Lieberman, 2004: 345
11Hublin & Seytre, 2009:24
12Mendes, 1985:443; Lovejoy, 1988:118
13O Rapaz de Turkana foi descoberto, em 1984, por Kamoya Kimeu, em Kariokotome, perto do Lago Turkana (Quénia).
14MacDougall, 2010:293
15Washburn, 1960: 173; in Battles, 2004:5
16Hublin & Seytre, 2010:48-49
17Bramble in McDougall, 2010:287
18Bramble & Lieberman, 2004: 347
19Bramble & Lieberman, 2004: 345
20McDougall, 2010:289
21McDougall, 2010:290
22McDougall, 2010:290
23Segundo a feliz expressão que deu título ao livro homónimo de Desmond Morris (1967): The Naked Ape
Bonito, Jorge (1996): Os nossos primeiros passos de adaptação social; Brotéria Genética, XVII (XCII), pp. 33-41. Disponível em http://evunix.uevora.pt/~jbonito/images/BG2.pdf; Acesso em: 11 de Novembro de 2010
Bramble, Dennis M. & Lieberman, Daniel E. (2004): Endurance running and the evolution of Homo; Nature, vol. 432, pp. 345-352; Disponível em http://www.fas.harvard.edu/~skeleton/pdfs/2007i.pdf; Acesso em: 28 de Outubro de 2010
Darwin, Charles (1871): The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex; Penguin Books, London (England), 2004, pp. 792.
Hublin, Jean-Jacques & Seytre, Bernard (2009): No Tempo em que Outros Homens Viviam na Terra - Novas perspectivas sobre as nossas origens; Publicações Europa-América, Mem Martins (Portugal), pp. 198.
Le Fanu, James (2009): Porquê nós? - O mistério da nossa existência; Civilização Editora, Porto (Portugal), pp. 360.
Lieberman et al. (2007): The evolution of endurance running and the tyranny of ethnography: A reply to Pickering and Bunn; Journal of Human Evolution 53, pp. 434-437; Disponível em http://www.fas.harvard.edu/~skeleton/pdfs/2007i.pdf; Acesso em: 28 de Outubro de 2010