"What these early paintings reveal is a very close stylistic continuity with the last phases of rock art in this region. This connection is highlighted by the 'X-ray' infill of the bark painting figures - the characteristic motifs used to represent internal organs within the body cavities of animals - which are also common in the rock art. The outline shape of the species represented, and the devisions indicated between certain limb parts, are also features shared between the two media. The early collections point to the contiguity of painting on the walls of caves used as wet-season shelters. Kunwinjku today, who have sheltered regularly in both bark houses and rock country caves during their youth, and occasionally still do in the present, describe these two contexts of painting as being equivalent. (...) Karrnaradj, a senior Kunwinjku man at Oenpelli in 1982, described it this way:
My father painted two red kangaroos in a cave in my country. Before men painted in bark houses and in caves, for children to look and see. To make them happy. When we tell the story they can look.
Kunwinjku indicate that paintings on bark shelters, and on the walls of caves were people lived, were produced in a relatively informal context as opposed to ceremonial art production.They point to the half-complete and inexpert paintings alonside more careful works to show that this informal atmosphere provided the occasion when young artists were 'trained' to paint. (...) These shelter paintings are described to have four interlinked purposes. The first is to illustrate the public versions of mythical episodes or historical occurences which are 'for fun' and 'to make children happy'. These stories are retold in a fairly relaxed atmosphere for the amusement and education of children as well as for the pleasing decoration of the space. The second purpose is 'practice' for the young artist in completing such illustrations. While the subjects may be outside versions of Ancestral myths, more important ceremonial interpretations could also be attributed to them (...). The third aim of producing motifs such as hand stencils is to personalize the space. This too is carried out in an atmosphere of 'fun' and there are children's hanprints alongside those of the adults in the caves. Spencer recorded a similar explanation for the hand stencils in the caves at Oenpelli in 1912 (1928: 812). Fourthy, these paintings, as well as other more elaborate paintings executed by senior artists, are described as a record or memorial of an individual having visited the site."
Luke Taylor (2007): Seeing the Inside - Bark Painting in Western Arnhem Land (p. 17-19)
No passado sábado (19 de Maio) assisti a uma palestra na qual
me “ensinaram” que há 10 mil anos atrás ocorreu um “cataclismo” resultante da
queda de um meteorito, que originou uma cratera com 300 km de diâmetro e um
tsunami com 500 metros de altura (que passou a 1000 metros em terra);
responsável, concomitantemente, pelo degelo de glaciares com 30 km de altura e
pela extinção dos elefantes na baixa de Loures! Entretanto, antes da dita
sucessão de eventos, era costume esses glaciares no Verão estarem à latitude da
Irlanda e no Inverno descerem até aos Pirenéus!! Por sua vez, há 6000 a.C. deu-se
o enchimento do Mediterrâneo que até aí estava seco de Itália até, pelos
vistos, ao Estreito de Gilbraltar!!! Essa pretensa geo-história não me chocou
pela sua inverosimilhança e, menos ainda, por alterar tudo aquilo que aprendi
na licenciatura de geologia ou nas minhas amadoras leituras sobre pré-história,
afinal a mudança de conceitos é prática corrente em ciência, apenas me deixou
algo mal disposto tendo em conta que não estou habituado a “shakes” que originem
“misturas” tão poderosas!
Nesse mesmo dia adquiri um livro que, por coincidência (?),
também referia que um “cataclysme écologique a entraîné des bouleversements
radicaux”, sem identificar as causas do mesmo; claro está, sem falar em quedas
de meteoritos e tsunamis associados. Espantoso é ignorar que tal se insere numa
sequência de outros eventos similares de glaciações (Biber, Donau, Günz, Mindel e Riss) e de interglaciações que levaram à
definição do Quaternário ou Antropozóico… Os factos são certamente melhor
explicados à luz dos ciclos de Milankovitch do que por tsunamitos ou outras
ausentes "evidências"! A transgressão Flandriana que se seguiu ao final do Würm continua até hoje e, pelos vistos, o próprio aquecimento
global de que tanto se fala, por outro lado é curioso que não se vislumbre a “extinção
em massa” que está a ocorrer agora mesmo “debaixo dos nossos olhos”! É tudo uma
questão de ritmo, melhor seria dizer de tempo: de facto processou-se (e ainda
se está a processar) um “cataclismo”, diremos uniformitarista :)
Já agora, publico aqui um pequeno “vídeo” sobre o Mesolítico como época de transição (entre o Paleolítico e o Neolítico), para uma nova maneira de entender o mundo; não como um período pós-traumático mas como uma nova “janela” de oportunidades evolutivas.
A "galinhola dos ovos d'ouro" deu que falar no Tubo de Ensaio :) "Se uma pessoa andar com um aparelho da via verde na testa já pode andar? (...) Mas isto anda tudo maluco ou é só impressão?..."
Na sequência das anteriores postas sobre a "Galinhola dos Ovos d'Ouro" ficamos muito entusiasmados com os desenvolvimentos verificados nos últimos tempos e que já prevíamos há bastante: quando a lei começasse a ser aplicada no terreno os protestos viriam à tona e voila... Sob o mote "a natureza é de todos", na próxima quarta-feira, dia 25 de Abril, estão marcadas manifestações de montanhistas e pedestrianistas, no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) e no Parque Natural das Serras d'Aire e Candeeiros (PNSAC). Estas manifestações são um protesto contra os pedidos de autorização para praticar actividades de ar livre nas Áreas Protegidas e os consequentes pagamentos de taxas, quer sejam autorizadas ou não. A iniciativa está a ter ampla cobertura noticiosa nos media. Aqui fica o link da notícia publicada no Público: http://ecosfera.publico.pt/noticia.aspx?id=1543151.
Hoje, dia 18 de Abril, comemora-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Uma ocasião para lembrar a importância de preservar o património geológico, mormente na sua vertente museológica. De entre as ocorrências consideradas (ou que possam vir ser consideradas) geomonumentos, ou simples geossítios de interesse, não podemos deixar de destacar as grutas. De facto, a geoconservação passa também pelo património (geo)espeleológico, tantas vezes ignorado ou esquecido.
Neste contexto, aproveito também para fazer um apelo a todos aqueles que tenham informações acerca de grutas no concelho de Lisboa. Estou neste momento a efectuar um trabalho, de âmbito universitário, precisamente sobre ameaças à geodiversidade no que concerne às grutas existentes em Lisboa e arredores, e todos os dados acerca dessas ocorrências serão muito bem-vindos. Obrigado.
Tirando a particularidade de a proposta apenas se referir a Parques Nacionais, quando apenas existe um em Portugal (!), será digno de menção alguém se lembrar da "franga" (I, II e III) que se tornou uma rica "galinha" e, entretanto, virou "pomba da paz" podre!!!
P.S.: Já agora, só uma pequena nota, para quem tem andado distraído ou não tem acompanhado o "assalto" que tem vindo a ser perpetrado no tocante aos direitos de usufruto da Natureza e prática de actividades de ar livre: a última novidade, após as taxações de associações e pessoas a título individual, é a concessão da exploração de determinadas zonas/locais e/ou de actividades a privados! Por exemplo, as pessoas terão de pedir autorização para andar a pé numa Área Protegida mas, simultaneamente, um privado tem uma concessão para passear pessoal em motas 4x4 na maior legalidade!!! "Bonito, n'é?"
"Apesar de todo o encanto e valor documental da arte móvel, apesar de todas as vantagens que supõe para a tarefa do arqueólogo, não há dúvida de que a arte mural oferece maior grandiosidade e desafia a imaginação do especialista, obrigado a tentar resolver tantos problemas quantos os que se propuser.
Dá-se aqui o caso curioso de que algumas das grutas hoje mais famosas neste aspecto tinham sido repetidamente visitadas ao longo dos séculos - tal é o exemplo muito conhecido de Rouffignac - sem que, no entanto, alguém tivesse reparado nas pinturas ou nas incisões que hoje nos deleitam. Simplesmente, não se viam porque ninguém podia imaginar que uns seres humanos que se supunha extremamente atrasados pudessem rivalizar, num aspecto tão elevado da vida como é a arte, com as gerações modernas.
(...)
A arte rupestre compreende relevos, gravações e pinturas. O relevo não é frequente, mas apresenta algumas belas mostras: o friso solutrense de Le Roc (Sers), indubitavelmente lugar de culto, por exemplo, com a sua série de animais dispostos em semicírculo, os cavalos de Cap Blanc ou a série de representações rigorosamente femininas na parede da Gruta de Anglès-sur-Anglin.
Incisões há muitas e sempre difíceis de ver, pelo que o seu número cresce constantemente, inclusivamente nas jazidas já exploradas. As linhas gravadas são por vezes muito finas ou confundem-se com as fendas da parede rochosa. Há casos (Combarelles, Los Casares, por exemplo) em que todas as representações são gravadas, mas em geral surgem a par das pinturas ou combinadas com elas no todo ou em parte da silhueta animal, ou em certos pormenores da figura.
É na pintura que a arte rupestre alcança todo o seu esplendor. Se observarmos as suas características, notamos alguns traços gerais. As pinturas rupestres do Quaternário ocidental surgem nas paredes das grutas, inclusivamente a grande distância da entrada, em salas amplas ou corredores estreitos, sendo difícil chegar até eles ou mover-se neles com desenvoltura. Só uma parte das grutas susceptíveis de serem aproveitadas o foram na realidade. Em certas ocasiões os níveis arqueológicos cobrem uma parte das pinturas. Estas costumam representar animais, com certo naturalismo, embora ocorram evidentes convencionalismos ou estilizações e não faltem abundantes signos raros, simbólicos sem dúvida, o que permite acompanhar quase paralelamente a evolução do naturalismo na arte quaternária e a da arte simbólica, que chega em alguns temas a competir com o mais moderno que se possa imaginar. No conjunto, sentimo-nos satisfeitos com esta arte e sentimo-la próxima de nós, prova convincente da nossa analogia espiritual com as gentes do fim do Paleolítico.
Luis Percot Garcia & Juan Maluquer de Motes inA Humanidade Pré-Histórica (Editorial Verbo, 1971, pp 69-71)
Este texto trata-se de uma reflexão sobre o hipotético processo evolutivo da espécie humana, com base no texto de opinião de Paulo Mota, publicado no blogue De Rerum Natura, sobre as declarações proferidas por James Watson, co-descobridor da estrutura da molécula de DNA (1953), numa entrevista ao Sunday Times, publicada no dia 14 de Outubro de 2007.
“A Humanidade não entrou na história da vida de uma forma estrondosa. Os primeiros homens [não]tinham nada de impressionante. Eles esgueiraram-se, na Natureza, pela porta traseira (Hublin & Seytre, 2009: 45)”. Mas, apesar da raridade dos dados disponíveis, não existem hoje dúvidas de que o continente africano é o berço da humanidade. Tal como não existem dúvidas, por via de diversas evidências de evolução, de que o Homem actual é o resultado de um processo evolutivo. Conhecem-se duas espécies do género Homo que terão vivido entre 2.45-1.55 milhões de anos (Ma), o H. rudolfensis e o H. habilis (o hábil inventor da pedra lascada) que, mais tarde, desapareceram e deram lugar ao H. erectus (ou H. ergaster). A expansão das estações arqueológicas onde foram encontrados fósseis com menos de 1.7 Ma mostra que os Homininos já não se encontravam confinados a um pequeno nicho ecológico: tendo explorado novos territórios, ultrapassaram as fronteiras da savana e saíram de África (Hublin & Seytre, 2009: 51).
Há cerca de 1.5 Ma a espécie H. erectus (ou H. ergaster) expandiu-se até à Ásia e, depois, para a Europa. Durante milhares de anos diversas barreiras geográficas (desertos, glaciares e mares interiores) separaram as populações, permitindo a especiação. No norte da Europa surgiu uma espécie adaptada ao frio: o H. neandertalensis. Entretanto, na África sub-tropical desenvolveu-se uma espécie adaptada ao calor: o H. sapiens. Há cerca de 100 mil anos esta espécie expandiu-se até ao Médio Oriente e há 45 mil anos o aquecimento climático proporcionou-lhe um caminho até à Europa. Este fraccionamento da espécie H. erectus em duas espécies-filhas, semelhantes, é um exemplo típico de microevolução.
O estudo do ADN mitocondrial confirmou que as linhagens que deram origem ao Homem Moderno e ao Homem de Neandertal há cerca de meio milhão de anos que divergiram, tal como os fósseis o tinham sugerido. O isolamento geográfico não conduz, por si só, à formação de novas espécies mas, ao permitir uma divergência genética das populações isoladas, contribui para o processo da evolução. O ponto de partida será a geração de variações através de mutações, que são mudanças aleatórias na composição química dos genes, nas posições dos genes nos cromossomas e no número dos próprios cromossomas. Quando um novo mutante ou uma nova combinação de alelos raros ou preexistentes consegue superiorizar-se ao alelo comum, “normal”, há tendência para alastrar pela população ao longo de muitas gerações e, com o tempo, torna-se a nova forma genética (Bacelar-Nicolau & Azeiteiro, 2001: 106). O genótipo é alterado e, em consequência, gera-se um fenótipo diferente. Será igualmente de salientar, de entre os modos de selecção natural, a importância que terá desempenhado a selecção direccionada resultante das mudanças ambientais, provocadas pelas alterações climáticas, e das migrações das populações para novos habitats com diferentes condições ambientais.
O estudo do DNA mitocondrial sugeriu também que todos os humanos modernos tiveram uma origem recente (há cerca de 150 mil anos) no seio de uma população bastante pequena que vivia na África (Sabbatini, 2001 in Paradela et al., s/ data; Hublin & Seytre, 2009:90). O pequeno tamanho desse primeiro povoamento (cerca de 15 mil indivíduos) teve um “efeito fundador”: sendo a sua variabilidade genética excepcionalmente fraca, algumas características presentes na população-mãe de África ficaram marcadas na sua descendência.
Muitas características morfológicas e comportamentais dos seres humanos são determinadas por um conjunto de genes, como a cor da pele e, até, eventualmente a inteligência (Sternberg et al., 2005 in Paradela et al., s/ data). Um modelo para explicar a herança da cor da pele em humanos classifica os indivíduos em cinco fenótipos básicos: negro, mulato escuro, mulato médio, mulato claro e branco. Essa classificação seria controlada por dois pares de genes, cada par composto por dois alelos, sendo que um dos alelos de cada par seria mais activo na produção de melanina em detrimento do outro (King, 1999 in Paradela et al., s/ data). Entretanto, existem outros modelos que afirmam a correlação de três ou mais genes, com os seus respectivos alelos, originando fenótipos diferentes. A determinação dos genes ligados à inteligência é ainda mais incerta e controversa, uma vez que não se sabe quantos e quais são atribuíveis a essa “característica” (Rees, 1993 in Paradela et al., s/ data).
O Homem de Cro-Magnon, tal como é conhecido o primeiro representante da nossa espécie a chegar à Europa, constitui um excelente exemplo no tocante à evolução da “inteligência”. A sua chegada ao Sudoeste francês assinalou uma explosão de inovações tecnológicas e expressões artísticas que passou, desde então, a caracterizar de forma inequívoca os humanos “modernos”. No entanto, tal explosão de “inteligência” não teve expressão detectável em termos genéticos (Le Fanu, 2009: 50).
Conclusão
Devido às suas implicações sociais, a genética e a evolução humanas são assuntos altamente impregnados de emotividade e grande parte da literatura sobre esses temas é influenciada por afirmações que não são baseadas em evidências mas em suposições (Futuyma, 1942 in Paradela et al., s/ data). Nesse contexto, tanto as afirmações de James Watson, publicadas no Sunday Times, como as inúmeras reacções ao artigo em causa devem ser encaradas com as devidas reservas.
É possível estabelecer, com base em critérios biológicos, a existência de duas ou mais subespécies, para uma dada espécie, quando as suas características genéticas são suficientes para as diferenciar, o que não ocorre na espécie humana. Embora a cor de pele e a inteligência estejam no centro de discussões sobre a existência de “raças” humanas, a genética revela que essas polémicas são infundadas.
Pedro Cuiça (2011)
Bibliografia
Bacelar-Nicolau, P. & Azeiteiro, U.M. (2001): Introdução à Biologia; Universidade Aberta, Portugal, pp. 220.
Hublin, Jean-Jacques & Seytre, Bernard (2009): No Tempo em que Outros Homens Viviam na Terra - Novas perspectivas sobre as nossas origens; Publicações Europa-América, Mem Martins (Portugal), pp. 198.
Estamos longe da controvérsia originada por Charles Darwin quando este publicou a obra The Descent of Man and Selection in Relation to Sex (1871): que o Homem descendia do macaco! A genética e a paleontologia revelaram uma realidade bem mais radical do que aquela que tanto chocou os contemporâneos de Darwin. O homem não descende do macaco, na verdade trata-se de um macaco! Sabemos mesmo, exactamente, onde o localizar na sistemática dos seres vivos: ao lado dos chimpanzés1. Estes são o nosso parente vivo mais próximo. Do ponto de vista molecular, a diferença entre o Chimpanzé (Pan troglodytes) e o Homem (Homo sapiens) é das mais ténues. A maior parte das proteínas humanas são idênticas (em mais de 99%) às equivalentes dos chimpanzés. No campo da genética, onde as sequências do ADN das duas espécies podem ser colocadas lado a lado (95% do ADN), o Homem e o Chimpanzé partilham 98.8% do genoma. A nossa “humanidade” reside em 1.2% dos nossos genes2! As aparentemente triviais diferenças genéticas que separam os nossos “primos” Homíneos de nós próprios parecem insuficientes para justificar as diferenças físicas que nos distinguem3, no entanto estas são marcantes. À medida que a hominização se processou, ao longo do tempo, os corpos sofreram melhorias não só tendentes à marcha bípede como adquiriram características de animal corredor.
Duas pernas para um cérebro
Entrámos no século XXI com muitíssima mais informação acerca dos nossos ancestrais do que aquela que esteve ao dispor dos nossos antecessores nos últimos 150 anos, desde que Darwin publicou a Origem das Espécies (1859). Nesse contexto, destacam-se as sensacionais descobertas dos mais antigos antepassados do Homem, em particular os dois esqueletos fossilizados de Lucy e do Rapaz de Turkana que marcam as duas primeiras etapas distintivas da hominização: o bipedismo e a expansão do cérebro. O fóssil denominado “Lucy” (com cerca de 3.5 Ma4) trata-se de um Australopithecus afarensis, o mais antigo antepassado conhecido que terá caminhado erecto5. As pistas vitais para determinar o bipedismo de Lucy residem no ângulo agudo ascendente da cabeça do fémur e na pélvis de forma distinta que, em conjunto, transferem o centro de gravidade para cima dos pés6. O novo método de locomoção de Lucy não tardou a ser confirmado com a descoberta de uma espantosa série de três conjuntos de icnofósseis: pegadas, com cerca de 3.7 Ma, impressas sobre cinzas vulcânicas7, caracterizadas por marcas vincadas do calcanhar, uma curvatura plantar bem desenvolvida e um dedo grande (hallux) forte e alinhado com os outros8. A locomoção bípede, entre os ancestrais dos humanos, remontará segundo alguns autores a 3.5 a 4 Ma9, enquanto outros apontam para pelo menos 4.4 Ma10, 4.5 a 7 Ma11 ou até mesmo 10 a 12 Ma12.
Alguns anos depois foi descoberto outro esqueleto quase completo, o do designado “Rapaz de Turkana”, um pré-adolescente da espécie Homo erectus (ou H. ergaster), com cerca de 1.6 Ma, reflectindo a segunda singular etapa da hominização: possuir um cérebro prodigiosamente alargado13. As nossas cabeças não se terão expandido apenas porque nos tornámos bípedes, segundo o antropólogo Daniel Lieberman melhorámos enquanto corredores porque as nossas cabeças se expandiram, fornecendo mais lastro14.
Estes primeiros Homo africanos eram excelentes bípedes. A capacidade do bipedismo seria aliás, antes de mais, uma adaptação para percorrer longas distâncias15. Estudos recentes realizados por Lieberman e os seus colegas, na Universidade de Harvard, sugerem que o Homo erectus estava perfeitamente adaptado à marcha mas também à corrida de endurance16.
O professor de biologia evolutiva Dennis Bramble, da Universidade do Utah, também estava na senda do Homo corredor. Bramble focou-se num tendão situado por trás da cabeça do Homem, pouco conhecido, que se chama “ligamento da nuca”, uma membrana fibrosa que se estende da protuberância occipital externa até à sétima vértebra cervical (C7), e que está ausente nos chimpanzés. A base posterior do crânio de um Australopithecus é lisa e a de Homo erectus apresenta uma ranhura rasa para o ligamento nucal17. Ora, esse facto é de certo modo desconcertante porque o ligamento da nuca só será útil para estabilizar a cabeça quando um animal se move rapidamente; um caminhante não precisa dele. Tal como possuir um avantajado gluteus maximus (músculo grande glúteo) será apenas necessário para correr! Da mesma forma, o tendão de Aquiles não serve para nada a caminhar, motivo pelo qual os chimpanzés não o possuem. Nem o teria o Astralopithecus; este tendão só terá surgido, há cerca de 3 Ma, no género Homo18. Estas e outras características, que surgiram no decurso da hominização, explicam a evidência de que o Homem é o único primata capaz de efectuar corrida de endurance; capacidade até invulgar nos quadrúpedes, exceptuando carnívoros sociais (como os lobos ou as hienas) ou os ungulados migratórios (como os bois-cavalo)19.
Mais extraordinário é constatar que um ser humano normal tem uma passada mais comprida do que a de um cavalo20 e que não só pode vencer esse animal em corridas de longo curso como praticamente qualquer quadrúpede! Todos os anos corredores e cavaleiros enfrentam-se numa corrida de 80 quilómetros de “Homem Contra Cavalo” em Prescott (Arizona). Paul Bonnet ganhou a corrida em 1999 e no ano seguinte Dennis Poolheco venceu a prova, tal como nas seis edições seguintes, até Bonnet reconquistar o título em 2006. Seriam precisos oito anos até que um cavalo voltasse a vencer!
Bramble ficou igualmente surpreso por descobrir que todos os mamíferos corredores estão restritos ao mesmo ciclo de “dá-um-passo inspira-uma-vez”, excepto o Homem21. Os corredores humanos podem escolher entre uma série de rácios, optando geralmente pelo dois para um.
Os Homo também são os únicos animais que libertam a maior parte do calor corporal através da transpiração. Todas as criaturas cobertas por pêlos arrefecem sobretudo através da respiração, o que restringe o seu sistema de regulação de calor ao nível dos pulmões. “Mas os seres humanos, com os milhões de glândulas sudoríferas, são o melhor motor de ar condicionado que a evolução pôs no mercado”22. Platão tinha alguma razão ao classificar o Homem como um “bípede sem penas”. O Homem será, portanto, um macaco nú23… e que transpira24.
Depois de se tornar evidente que a hominização terá evoluído no sentido de privilegiar a corrida de fundo, a questão que se colocou foi: para que serve, então, a resistência num “campo de batalha” aparentemente concebido apenas para a velocidade? Essa foi a pergunta a que Bramble procurou dar resposta, na década de 90, juntamente com Lieberman. Afinal o Homo não podia escapar a nenhum predador com essa capacidade25, mas também não precisaria tendo em conta que se tratava de um animal gregário, que agia em equipa, e de mãos livres para empunhar armas (como, aliás, o fazem os chimpanzés).
A resposta surgiu na mudança de menu, que se terá verificado há cerca de 2 Ma de anos, quando o simiesco Australopithecus evoluiu para se tornar no Homo erectus, passando de uma dieta de plantas duras e fibrosas para doses regulares de carne. A redução da região abdominal deste último resultou na consequente diminuição do tamanho do intestino e no aumento da ingestão de carne em detrimento da ingestão de vegetais, fibrosos e pobres em energia. O Homo erectus já não tinha necessidade de se refugiar em árvores, na verdade já seria um verdadeiro caçador capaz de percorrer grandes distâncias nas quentes savanas e estepes onde habitava26.
Então outra questão se colocou: como é que os Homo erectus obtinham carne se o arco e a flecha foram inventados há 20 mil anos, a lança há 200 mil anos e estes já por cá andavam há 2 Ma de anos? Isso indicia que durante a maior parte da sua existência os Homininos terão caçado sem armas! Tudo indica que sim, porque apesar de um veado ser muito mais rápido a sprintar, o Homem é mais rápido na corrida de fundo. Quando o veado entra em défice de oxigénio, nós ainda mal estamos a ofegar.
A caça de persistência (como é conhecida pelos antropólogos) não deixa vestígios - não há pontas de flecha, nem lanças - e os caçadores desse estilo são uma raridade; estão em vias de extinção. Apesar da existência de informações, quase lendárias, acerca dos caçadores Tarahumara que caçavam perseguindo as suas presas até à exaustão27, foi muito difícil obter provas de tal proeza. O primeiro relato fidedigno de tais feitos teve origem no testemunho de Louis Liebenberg que viveu seis anos com os bosquímanos do deserto do Kalahari. Estes “fósseis vivos”, cuja sabedoria e vivências remontam ao nosso passado pré-histórico, eram peritos em seguir os rastos de animais e possuíam uma perspicácia mortífera na caça de persistência, muito mais eficaz do que o uso de arco e flecha28. Eureka!
Conclusão
O Homem é o único macaco que anda permanentemente apoiado nas patas traseiras e o único capaz de empreender corridas de endurance. O bipedismo parece ter, se não implicado, pelo menos permitido, outros aspectos importantes da evolução humana: a reorganização do crânio, com um aumento do volume do cérebro; a libertação da mão, que já não está ocupada com a locomoção; e, talvez, até o aparecimento da fala.
O Homem sobreviveu e prosperou porque, ao “seleccionar” as mutações genéticas que favoreceram o bipedismo e o aumento do cérebro, a Natureza o dotou de uma considerável vantagem biológica para lhe maximizar as hipóteses de sobrevivência29.
Porque muitos dos desafios que a corrida de endurance coloca ao Homem são muito diferentes dos exigidos pela marcha, podemos concluir que as capacidades para a corrida de endurance não terão surgido como um resultado secundário30.
Pedro Cuiça (2011)
Notas
1Designa-se por “Antropóides” a superfamília que agrupa os homens e os grandes macacos actuais (Chimpanzé comum, Bonobo, Gorila, Orangotango e Gibão), assim como o ramo dos seus antepassados comuns; por “Hominídeos” a família que inclui o Homem, o Chimpanzé, o Gorila e o Orangotango; por “Homíneos” a subfamília que inclui o Homem e o Chimpanzé; e por “Homininos” a tribo que agrupa o Homem e o ramo dos seus antepassados e parentes desde a separação do Chimpanzé (Hublin & Seytre, 2010:17).
2Hublin & Seytre, 2010; p. 15
3Le Fanu, 2009:61
4Ma: milhão de anos
5Lucy foi descoberta, em 1974, por Donald Johanson e Tom Gray, em Hadar, no Deserto de Afar (Etiópia).
6Le Fanu, 2009:55
7Massada, 2001:106
8Bonito, 1996. Saliente-se que alguns autores defendem esta interpretação(Leakey, 1978; Leakey & Hay, 1979; Clarke, 1979; White, 1980; Day & Wickens, 1980; Hay & Leakey, 1982; Charteris et al., 1982; Tuttle, 1985, 1987; Leakey, 1987; Robbins, 1987; White & Suwa, 1987; Tuttle et al., 1991a, 1991b; Schmid, 2003; in McHenry, 2003), enquanto outros atribuem estes rastos a pré-homininos(Clarke & Tobias, 1995; Clarke, 1999; Berillon, Deloison & Meldurm, 2003; in McHenry, 2003). Os primeiros estudiosos dos australopitecos, tal como outros posteriormente, enfatizaram o seu bipedismo(Gebo, 1992; Johanson et al., 1982; Latimer, 1988; Latimer, 1991; Latimer & Lovejoy, 1989; Latimer & Lovejoy, 1990a, 1990b; Latimer et al., 1982, 1987; Leakey, 1981; Lovejoy et al., 1982; McHenry, 1982, 1984, 1991, 1994; Tuttle et al., 1991b; White, 1980; in McHenry, 2003; Bramble & Lieberman, 2004:351), mas existem autores que não estão de acordo(Bacon, 1994; Christie, 1997; Clarke & Tobias, 1995; Deloison, 1984, 1985, 1991, 1997; Lamy, 1983, 1986; Le Floch-Prigent & Deloison, 1985; Lewis, 1989; Sarmiento & Marcus, 2000; Senut, 1980; Senut & Tardieu, 1985; Stern & Susman, 1983, 1991; Susman & Stern, 1991; Susman et al., 1984; Tuttle, 1981; in McHenry, 2003).
9Zihlman, 1981:75; Lovejoy, 1981:341; McHenry, 1982:153; in Battles, 2004:2
10Bramble & Lieberman, 2004: 345
11Hublin & Seytre, 2009:24
12Mendes, 1985:443; Lovejoy, 1988:118
13O Rapaz de Turkana foi descoberto, em 1984, por Kamoya Kimeu, em Kariokotome, perto do Lago Turkana (Quénia).
14MacDougall, 2010:293
15Washburn, 1960: 173; in Battles, 2004:5
16Hublin & Seytre, 2010:48-49
17Bramble in McDougall, 2010:287
18Bramble & Lieberman, 2004: 347
19Bramble & Lieberman, 2004: 345
20McDougall, 2010:289
21McDougall, 2010:290
22McDougall, 2010:290
23Segundo a feliz expressão que deu título ao livro homónimo de Desmond Morris (1967): The Naked Ape
Bonito, Jorge (1996): Os nossos primeiros passos de adaptação social; Brotéria Genética, XVII (XCII), pp. 33-41. Disponível em http://evunix.uevora.pt/~jbonito/images/BG2.pdf; Acesso em: 11 de Novembro de 2010
Bramble, Dennis M. & Lieberman, Daniel E. (2004): Endurance running and the evolution of Homo; Nature, vol. 432, pp. 345-352; Disponível em http://www.fas.harvard.edu/~skeleton/pdfs/2007i.pdf; Acesso em: 28 de Outubro de 2010
Darwin, Charles (1871): The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex; Penguin Books, London (England), 2004, pp. 792.
Hublin, Jean-Jacques & Seytre, Bernard (2009): No Tempo em que Outros Homens Viviam na Terra - Novas perspectivas sobre as nossas origens; Publicações Europa-América, Mem Martins (Portugal), pp. 198.
Le Fanu, James (2009): Porquê nós? - O mistério da nossa existência; Civilização Editora, Porto (Portugal), pp. 360.
Lieberman et al. (2007): The evolution of endurance running and the tyranny of ethnography: A reply to Pickering and Bunn; Journal of Human Evolution 53, pp. 434-437; Disponível em http://www.fas.harvard.edu/~skeleton/pdfs/2007i.pdf; Acesso em: 28 de Outubro de 2010
Excluída a hipótese do totemismo "no apogeu do paleolítico, resta-nos a explicação pela teriolatria ou, com mais probabilidades, pelo culto coercitivo, da arte madalenense. As cavernas, onde as pinturas aparecem nos lugares misteriosos, mais escuros e mais afastados da entrada, e os rochedos insculpidos, de difícil acesso, são lugares sagrados para o culto mágico.
Hugo Obermaier, embora pareça não fazer uma distinção nítida entre magia e religião, diz: "Puede afirmarse con seguridad que los grabados son muchas veces del todo-invisibles-y fueron confeccionados sólo para la vista del autor y de la Divindad. Todo esto compele a deducir que los trogloditas fueron arrastados hacia la prolongada noche de las cavernas por un encanto místico que les llevó a praticar en tales lugares la magia de la caza. Ésta se usa aún hoy, por exemplo, en Anam en donde es costumbre grabar en la arena el dibujo del animal a cuya caza se quiere proceder; de esta manera se efectúa el conjuro y la matanza simbólica. Coincide con esto el que en Niaux, en la cueva Castillo y en Pasiega se vean colocadas sobre algunas representaciones de animales flechas o azagayas, pintadas como indiscutibles testimonios, de los conjuros efectuados sobre ellos. Por conseguiente, en las cuevas con pinturas o grabados rupestres espreciso ver los misteriosos lugares de culto reservados para los iniciados. Bajo un punto de vista semejante, deben interpretarse, según nuestra opinión, los abrigos del Oriente y Sureste de España (danza ceremoniosa de Cogul, ídolos, magia de caza, etc.)."
Hernandez-Pacheco é de opinião que as pinturas paleolíticas zoomorfas, de estilo naturalista, das cavernas cantábricas, parecem corresponder de preferência a ideias de magia de caça; e que as composições ou cenas complexas, pertencentes à fase superior das pinturas rupestres do Oriente de Espanha, onde intervém com preponderância a figura humana, também com carácter naturalista, podem em grande parte corresponder a uma significação comemorativa ou histórica.
Com razão diz Reinach que a expressão magia da arte deve ser tomada à letra para esta época de artistas-feiticeiros.
Mas além das representações antropomórficas, fitomórficas e zoomórficas, surgem certos sinais de difícil se não impossível decifração que podem talvez ser encarados como marcas de caça, de propriedade, etc. Muitos deles há que representam esquemas de motivos naturalistas, mas outros aparecem que não são de nenhum modo derivações, nem são o resultado de uma degenerescência de primitivas figuras realistas. Assim os losangulos, as cruzes, os hexágonos e outros ornatos poderão desempenhar talvez o papel de sinais alfabetiformes, longínquos antepassados da escrita. No paleolítico é provável a existência, primeiro, de uma pictografia figurativa, seguida depois de uma pictografia simbólica.
É um erro julgar-se que dentro do período paleolítico se não fez estilização, pródromo de um simbólica complexa que se desenvolve e se acentua mais tarde. Desde o gurdaniano que a estilização se acentua cada vez mais invadindo o naturalismo, transformando lentamente a realidade das figuras em motivos traçados segundo uma muito convencional esquematização.
Breuil estudou a degenerescência das figuras animalistas da época da rena em motivos ornamentais, sendo, por exemplo, absolutamente notável a estilização progressiva da cabeça do bisonte até à espiral e à voluta: os traços essenciais, fundamentais, são os dos olhos e os indicativos dos chifres. A imagem resume-se toda num sinal."
Aarão de Lacerda inO Fenómeno Religioso e a Simbólica (Guimarães Editores, 1998; pp. 99-101), publicado pela primeira vez em 1924)
O paleoantropólogo Darren Curnoe, da Universidade de New South Wales (Austrália), declarou à revista New Scientist que os fósseis descobertos em duas grutas no sudoeste da China correspondem a uma nova espécie de Homo, até agora desconhecida, que terá sobrevivido até ao final da última glaciação (mais precisamente até há cerca de 11 mil anos atrás).
O Homem de Red Deer Cave difere do Homo sapiens moderno, entre outras características, por possuir arcadas supraciliares proeminentes, ossos do crânio espessos, um rosto espalmado, nariz largo maxilares salientes. Outros fósseis similares, com cerca de 14300 a 11500 anos, foram descobertos noutra cavidade, situada próximo da Red Deer Cave, denominada "Loglin Cave".
Segundo foi noticiado no The Guardian, o Homem de Red Deer Cave deve o seu nome ao facto de na Maludong ou Red Deer Cave(Caverna do Veado Vermelho) se terem descoberto inúmeros vestígios de Veado-vermelho-gigante, hoje extinto.