16/03/2012

Magia da Arte

Caverna de Niaux (França)

Excluída a hipótese do totemismo "no apogeu do paleolítico, resta-nos a explicação pela teriolatria ou, com mais probabilidades, pelo culto coercitivo, da arte madalenense. As cavernas, onde as pinturas aparecem nos lugares misteriosos, mais escuros e mais afastados da entrada, e os rochedos insculpidos, de difícil acesso, são lugares sagrados para o culto mágico.

Hugo Obermaier, embora pareça não fazer uma distinção nítida entre magia e religião, diz: "Puede afirmarse con seguridad que los grabados son muchas veces del todo-invisibles-y fueron confeccionados sólo para la vista del autor y de la Divindad. Todo esto compele a deducir que los trogloditas fueron arrastados hacia la prolongada noche de las cavernas por un encanto místico que les llevó a praticar en tales lugares la magia de la caza. Ésta se usa aún hoy, por exemplo, en Anam en donde es costumbre grabar en la arena el dibujo del animal a cuya caza se quiere proceder; de esta manera se efectúa el conjuro y la matanza simbólica. Coincide con esto el que en Niaux, en la cueva Castillo y en Pasiega se vean colocadas sobre algunas representaciones de animales flechas o azagayas, pintadas como indiscutibles testimonios, de los conjuros efectuados sobre ellos. Por conseguiente, en las cuevas con pinturas o grabados rupestres espreciso ver los misteriosos lugares de culto reservados para los iniciados. Bajo un punto de vista semejante, deben interpretarse, según nuestra opinión, los abrigos del Oriente y Sureste de España (danza ceremoniosa de Cogul, ídolos, magia de caza, etc.)."

Hernandez-Pacheco é de opinião que as pinturas paleolíticas zoomorfas, de estilo naturalista, das cavernas cantábricas, parecem corresponder de preferência a ideias de magia de caça; e que as composições ou cenas complexas, pertencentes à fase superior das pinturas rupestres do Oriente de Espanha, onde intervém com preponderância a figura humana, também com carácter naturalista, podem em grande parte corresponder a uma significação comemorativa ou histórica.
Com razão diz Reinach que a expressão magia da arte deve ser tomada à letra para esta época de artistas-feiticeiros.

Mas além das representações antropomórficas, fitomórficas e zoomórficas, surgem certos sinais de difícil se não impossível decifração que podem talvez ser encarados como marcas de caça, de propriedade, etc. Muitos deles há que representam esquemas de motivos naturalistas, mas outros aparecem que não são de nenhum modo derivações, nem são o resultado de uma degenerescência de primitivas figuras realistas. Assim os losangulos, as cruzes, os hexágonos e outros ornatos poderão desempenhar talvez o papel de sinais alfabetiformes, longínquos antepassados da escrita. No paleolítico é provável a existência, primeiro, de uma pictografia figurativa, seguida depois de uma pictografia simbólica.

É um erro julgar-se que dentro do período paleolítico se não fez estilização, pródromo de um simbólica complexa que se desenvolve e se acentua mais tarde. Desde o gurdaniano que a estilização se acentua cada vez mais invadindo o naturalismo, transformando lentamente a realidade das figuras em motivos traçados segundo uma muito convencional esquematização.
Breuil estudou a degenerescência das figuras animalistas da época da rena em motivos ornamentais, sendo, por exemplo, absolutamente notável a estilização progressiva da cabeça do bisonte até à espiral e à voluta: os traços essenciais, fundamentais, são os dos olhos e os indicativos dos chifres. A imagem resume-se toda num sinal."

Aarão de Lacerda in O Fenómeno Religioso e a Simbólica (Guimarães Editores, 1998; pp. 99-101), publicado pela primeira vez em 1924)

Caverna de Niaux (França)

15/03/2012

Red Deer Cave People

O paleoantropólogo Darren Curnoe, da Universidade de New South Wales (Austrália), declarou à revista New Scientist que os fósseis descobertos em duas grutas no sudoeste da China correspondem a uma nova espécie de Homo, até agora desconhecida, que terá sobrevivido até ao final da última glaciação (mais precisamente até há cerca de 11 mil anos atrás).

O Homem de Red Deer Cave difere do Homo sapiens moderno, entre outras características, por possuir arcadas supraciliares proeminentes, ossos do crânio espessos, um rosto espalmado, nariz largo maxilares salientes. Outros fósseis similares, com cerca de 14300 a 11500 anos, foram descobertos noutra cavidade, situada próximo da Red Deer Cave, denominada "Loglin Cave".

Segundo foi noticiado no The Guardian, o Homem de Red Deer Cave deve o seu nome ao facto de na Maludong ou Red Deer Cave (Caverna do Veado Vermelho) se terem descoberto inúmeros vestígios de Veado-vermelho-gigante, hoje extinto.

Folk Lore


O desiderato de compreender a arte rupestre não se centrará sobretudo numa questão de proveniência da informação acerca da mesma mas sim numa questão qualitativa, i.e., na qualidade dessa informação e da sua adequada interpretação. Confundir folclore com folk lore não será, certamente, a melhor opção... Tal como confundir cátedra com catedral :)

We recognize the special significance that rock art continues to have in the traditional culture of Plains Indians. Many Native people regard rock art sites as sacred places and consider pictographs and petroglyphs as links to the spirit world. Rock art is thus far more than an archaeological resource to be classified and managed, or an artwork to be admired – it is part of a living culture and a sacred heritage that must be honored.

(…)

In traditional Plains Indian beliefs, much rock art originates in the spirit world. Oral traditions often describe petroglyphs and pictographs as “writings” of spirit beings – images that, shifting and changing over time, communicate messages from the spirit realm to living people. In this traditional world view, everything in life reflects a celestial order, and objects and beings possess sacred powers. Events are seen as repetitions of mythic precedents taking place in cyclic time, and human actions repeat those of the spirit ancestors.

In contrast, the scientific or historic conception of the world views objects and people independent of the cosmos. Time is a linear progression, in which each event is uniquely related to the historical past, and current cultural conditions are explained as the result of a series of actions taken by human beings. Based on this view, archaeologists identify rock at as the creation of people at various times in the chronological past.

(…)

Too often, rock art researchers have misunderstood or dismissed traditional explanations because they did not fit scientific models. From our viewpoint, traditional explanations offer valuable insights into the meaning and function of the images – in many ways they can be understood as metaphors of how non-Western cultures relate to their world (Whitley, 1994). These sacred interpretations, when understood in terms of their cultural context, often provide information available nowhere else.

James D. Keyser & Michael A. Klassen in Plains Indian Rock Art (University of Washington Press, 2001, pp. x e 28)

14/03/2012

La Caverne

“Il est certain que parmi les monuments sacrés, la caverne offre un cas particulièrement impropre à la systématisation architecturale de la décoration. Univers déconcertant, elle n’est pourtant pas un univers déroutant et l’homme moderne y voit en termes d’architecture terrestre une entrée, des salles, des passages, des couloirs, des alcôves, des culs-de-sac. A ces images génératrices d’un ordre rassurant se superpose un autre monde d’images désordonnées, nées des volumes inconstants des parois; ces images sont empruntées pour une part à l’architecture (colonnes, draperies…) pour une autre part au monde familier ou étrange (arbre de Nöel, Vierge et enfant, betteraves vues par-dessous, concrétions en chou-fleur, animaux…). Enfin un troisième train d’images, moins conscientes, forme un fond assourdi qui se reflète dans l’assimilation de la caverne à un corps (boyau, entrailles, sein de la terre) et par ce qui transparaît dans de nombreuses traditions folkloriques et dans la psychanalyse, d’assimilation à un corps féminine. L’humanisation spatiale, le rapport à des objets connus, les résonnances physiologiques ne sont pas des faits propres à l’homme modern mais relevant d’un système de référence humain au sens le plus large. S’il y a lieu de ne manier qu’avec prudence la comparaison ethnographique, il n’y a pas des raisons pour refuser de vérifier l’application éventuelle d’un schéma aussi général à l’homme paléolithique. La préhistoire traditionnelle lui a accordé sans peine le second point: on ne pouvait pas nier que les paléolithiques aient vu des cuisses de chevaux, des corps de bison, des têtes dans le relief des parois. On a même cite, à Gargas et à Pech-Merle par exemple, des cas de détails naturels dont la décoration montrait l’assimilation à des organes féminins (vulve, seins). Ce n’est pas dépasser les limites de l’objectivité que de tester les trois aspects de l’intégration spatiale de la caverne et de rechercher: 1) si les paléolithiques ont transposé l’espace terrestre; 2) comment ils ont vu dans les accidents de paroi des objets précis et 3) dans quelle mesure la caverne était perçue comme l’intérieur d’un corps.”

André Leroi-Gourhan in L'art pariétal - Langage de la préhistoire (Édition Jérôme Millon, 2009, pp. 197-198)

Gruta de Altamira (Cantábria - Espanha)

13/03/2012

A Idade do Gelo

A datação da arte rupestre americana e, como aborda este filme, a descoberta de industrias solutrenses na América alteraram o cenário tradicionalmente aceite sobre a "colonização" do Novo Mundo a partir do estreito de Bering. Uma nova explicação sobre a forma como chegaram e um significativo retrocesso no tempo em que o fizeram...

09/03/2012

Between...


Aphorismes sur la Lune et autres pensées sauvages…

Numa época em que pululam os espiritualismos new age de trazer por casa e a superficialidade kitsch, não deixa de ser surpreendente a interpretação científica da arte rupestre paleolítica como manifestação xamânica. Desde logo por diversos investigadores denominarem determinados locais da geografia subterrânea como “santuários” mas também, e sobretudo, pela identificação de determinadas figuras teriantrópicas (que denominam “feiticeiros”), mormente no tocante a explícitas práticas sexuais associadas ao êxtase ou ao transe (de “transitar” e/ou “transar”?!) entre mundos (natural/sobre natural, humano/não humano). O reconhecimento de remotas crenças vitais, ainda que incompreendidas, ligadas às grutas enquanto lugares numinosos/sagrados, enquanto lugares de poder (power spots), revelam uma velha faceta das cavidades subterrâneas: o serem locais privilegiados para a vivência de experiências extra-sensoriais.

Há muito que o Homem perdeu a clarividência atávica mas, quem sabe, talvez o regresso à natureza (ao ser natural) possa, por um processo de anamnese, desvelar parte do significado da arte rupestre. Como referiu o escritor Gilberto de Lascariz, “a essência da arte está no corpo” mas como o xamanismo implica a alteração radical da percepção do corpo, sem transcendência dificilmente se poderá empreender a compreensão dessa velha arte, dessa manifestação parietal em espaço(s) sagrado(s). Será preciso um naturalismo transcendente e saudosista, à moda de Pascoaes, ou um transcendentalismo panteísta, pessoano, ou algo ainda mais primevo ao estilo de uma boa batida (caçada)? Talvez tenhamos de nos preparar para viajar no tempo (e no espaço!), tornando-nos de certo modo tribais, religar-nos à natureza de uma forma primária, primitiva, animal… Ao estilo de David Abram, sentir a excitação de “novas sensibilidades”, de uma “recém-encontrada consciência de um mundo mais-do-que-humano, do grande poder da terra e, em particular, de penetrante inteligência de outros animais, grandes e pequenos, cujas vidas e culturas se interpenetram com a nossa”.

Voltemos à interpretação científica da arte rupestre paleolítica como manifestação xamânica, na perspectiva de David S. Whitley (in Cave Paintings and The Human Spirit, 2009, pp. 167-171):

The culmination of our Trois Frères visit was the Sanctuary, another chamber whose relatively small size belied the fact that it contained some of the most notable examples of Paleolithic art. The art here was almost entirely engraved like the open-air panels at Côa. Like them, too, the principle panels were a disorienting palimpsest of engraved lines, taken to another level of confusion: art seemingly gone entirely awry. Careful examination, aided by Breuil’s meticulous copies, revealed a complex array of overlapping yet beautifully executed images: stoic, almost imperious, or alternatively fast-charging bison; short-legged, thick-bellied, and wide-necked horses (fat ponies with broached manes, to my modern eyes); curious ibex and caprids, posed as if peering intently from some high rock or crag; running reindeer and deer, chins jutted forward (lowering and streamlining their antler racks, aiding a run through wooded areas); a large bear, covered by small circular dots with lines flowing out of its mouth and nose; all mixed with a seemingly random array of geometric signs. Intermingled among the “animals” were two human- animal conflations, suggesting that all of these images were more likely spirits in animal form than animals in any normal sense.

One of these conflations stood upright on two legs with its head turned as if looking back, expectantly, over its shoulder. It had a bison’s upper body but seemed human from the waist down, especially its large and erect penis, which emerged from the interior of its groin, like that of a human, rather than from a penis sheath on its belly, like that of a bovine. Another conflation, likewise an upright and noticeably phallic bison, walked forward on two distinctly human legs and feet. Two conjoined lines, creating a bowlike form, seemed to emerge from its nose. (…) Perhaps more importantly, as Breuil first noted, this bison-human seemed to be advancing, upper bison legs out-raised, on a bison-cow, apparently in estrus. Her head was turned back over her shoulder, seemingly looking at the advancing male, as she presented her exposed vagina (shown as concentric circles) for mounting.


The sexual symbolism at Chauvet Cave was to me (and Jim Keyser) obvious; the voluptuous nature of the Trois Frères imagery made the erotic intent of the artists all the clearer, pointing toward another kind of intimacy in this cave. This is the Paleolithic conceptual connection, expressed here in the most intense and biologically fundamental (sexual) form, between humans and bison. These key images signal that this art does not concern animals as food, hunted by man. Nor is it about animals as dangerous creatures, stalking the landscape. It is at least partly about the relationship of humans to animals who, in Native American terms at least, were called “nonhuman people”. This conceptual linkage to humans is materialized here by the bison shaman – this is the only way that these can be reasonably interpreted – exhibiting two common bodily hallucinations associated with altered states: bodily transformation and sexual arousal. Both were employed worldwide, (…), as graphic metaphors for the otherwise ineffable feelings of trance.

(…) Despite the significance of these motifs, the focal point of the Sanctuary was a large painted and engraved image (about two and half feet high), placed above the lower panels, which seemed to command the room. Dubbed the “Horned God” by Breuil, this has been more commonly called the Sorcerer, and is become one of the most famous Paleolithic images. It was a human, of course, or really more than a human for it conflates the features of three, maybe four, different species, poised in a half crouch falling somewhere between an upright two-legged man and a standing quadruped. The hind legs and feet were distinctly human, even to the details of the calf muscles and toes. A large pendant penis and testicles emerged from the creature’s rear, making clear its sex (male) but little else: this is the position of a feline’s sexual organs, not a man’s. A large flowing tail (horse? canid?) also emerged from its rump, which like the rest of the leaning body, appeared to be a cervid (most likely a stag). The ears and antlers confirmed this identification, but the face was different and distinctive, with the deep-set, night eyes and the small beak of an owl. The outward reaching front legs/arms and hands, elbows tucked against the chest, appeared half formed or, better, in a state of transformation. Rather than a sorcerer, this was a shaman transforming, standing at the balance between the natural and supernatural worlds, entering into or emerging from the spirit realm within the cave walls.

Active Destruction

A propósito da preservação passiva – que não deixará de ser uma forma “pró-activa” de se abster de actuar – será conveniente salientar o flagrante oposto: actuar activamente de forma negativa ocultando as respectivas acções sob uma pseudo-passividade que, em última análise, remete para o esquecimento! Complicado? Nem por isso. Um simples exemplo fará luz sobre esse fenómeno referente a estes mundos de escuridão...

Confirmámos há pouco tempo, através de um testemunho oral, aquilo que já suspeitávamos há alguns anos: a construção da Via do Infante (A22/IP1) teve impactes negativos significativos sobre o endocarso algarvio. Impactes que não devendo ser menosprezados puderam ser, pura e simplesmente, ignorados.

Desta feita trata-se da confirmação de algo bem mais gravoso do que os algares destruídos a que fizemos referência no Spelaion: trata-se da destruição de uma gruta de dimensões consideráveis e repleta de concreções de grande beleza… Voilá! O testemunho partiu de um indivíduo que sendo hoje pastor no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), na altura da implementação dessa via rápida participou nos respectivos trabalhos de construção. A gruta, situada a sul de Loulé, foi atulhada e votada ao esquecimento! Simples, não é? Conclusão: “a vida dá muitas voltas” e…

O fenómeno da destruição activa não se circunscreve, infortunadamente, à tipologia do exemplo descrito que, sendo profundamente impactante, pôde curiosamente passar despercebido, excepto no que concerne aos ilusionistas (que criaram a ilusão) de que nada de anormal se estaria a passar! Outras formas de actuar activamente, de forma negativa, revestem-se contudo de roupagens aparentemente positivas podendo, desta forma, surgir “às claras”, branqueadas ou esverdeadas (?), sob a alçada de uma espécie de “marketing cavernoso”. Trata-se de outro tipo de ilusionismo que, se não estivermos numa atitude passiva, poderemos certamente abordar… Um dia, quem sabe?

08/03/2012

Passive Preservation

"(…) the Association Louis Bégouën, chartered for that task [the preservation and care of the Volp caves], which (as the name suggests) is intended to promote the historical vision of his father. This, Robert explained, is relatively simple: the caves have lasted for approximately fourteen thousand years, and there is every reason to assure that they will persist for thousands of years into the future. With the exception of Breuil’s recordings and the excavations in the Enlène living areas, there is no urgent need to disturb the rest of the caves in any fashion, including through additional research. (Any research that archaeologists could currently undertake will be better executed in the future, when our methods and techniques would be improved.) Extreme care and patience are the family’s operating approaches. Passive preservation, as this is labeled, has become the guiding philosophy in the conservation and heritage management fields. The Bégouën family invented this principle almost a century ago.

(…) Because of the concern with preservation, little had been done to improve access to the galleries in Trois Frères, and we wore no helmets to ensure that we caused no damage to the low passages as we scrambled through. (A bruised scalp will heal; a broken chunk of a stalactite will take much longer to repair.)"

David S. Whitley in Cave Paintings and the Human Spirit - The origin of creativity and belief (2009, p.162-163)


O conceito da "preservação passiva" remete para diversas concepções conservacionistas pouco usuais, i.e., que escapam às praxis/lógicas comuns dos frequentadores de cavernas; como explorar uma gruta sem capacete ou pensar que a melhor forma de preservar as cavidades endocársicas (ou outras) será não pôr os pés (e, já agora, o resto do corpinho) nas mesmas ;-)

21/10/2011

The... Trickster?!

"Conspirar e enganar são a base do tipo de inteligência social dos primatas e dos símios. Por qualquer motivo, os lobos nunca enveredaram por esse caminho. Na matilha, há pouca conspiração e poucos enganos.
(...) Esta forma de inteligência, obviamente, atinge o seu máximo no rei dos primatas: o Homo sapiens. Quando falamos na inteligência superior dos primatas, na superioridade da inteligência símia em relação à inteligência lupina, não nos devemos esquecer dos termos desta comparação: os primatas são mais inteligentes do que os lobos porque, em última análise, são melhores a conspirar e a enganar do que os lobos. É a partir daí que decorre a diferença entre símios e lobos.
(...) Se calhar acham que isto é um retrato deliberadamente distorcido da singularidade humana. Que talvez seja verdade que tenhamos uma inclinação natural para a conspiração e para o fingimento; mas que certamente teremos outras características simpáticas. Então e o amor, a empatia e o altruísmo? Obviamente não contesto que os humanos sejam igualmente capazes dessas coisas. Também os grandes macacos o são. Mas o que estou a tentar fazer é identificar não apenas o que é verdadeiro sobre os humanos, mas o que os distingue. E a ideia de que só os humanos possuem esse tipo de características mais positivas não é fácil de sustentar.
(...) O que me interessa, no entanto, não é o que teremos em comum, mas o que nos distingue das outras criaturas. E a maior parte das pessoas aceita - e até insiste - que é a nossa aclamada inteligência que nos separa das "bestas". Se assim é, temos de ganhar consciência de que essa inteligência teve um preço. Essa inteligência surgiu porque, há muito tempo atrás, os nossos antepassados percorreram um caminho que outros animais sociais não percorreram, e esse caminho era feito de falsidades e conspirações.
(...) Resumindo, o aumento da inteligência que encontramos nos primatas e nos macacos, mas aparentemente não encontramos noutras criaturas sociais, é o resultado de dois imperativos: conspirar mais do que ser vítima de conspiração e mentir mais do que ser vítima de mentiras. A natureza da inteligência símia é irremediavelmente delineada por estes dois imperativos. Tornámo-nos mais inteligentes para que pudéssemos compreender melhor a mente dos nossos pares e desse modo enganá-los e usá-los para os nossos objectivos - precisamente a mesma coisa que eles tentavam fazer connosco, óbvio. Tudo o resto - a nossa impressionante compreensão do mundo natural, a nossa criatividade intelectual e artística - vieram depois como consequência."

PhD Mark Rowlands in "O Filósofo e o Lobo" (Lua de Papel, 2010; p. 68-77)

And now, the... CLUB!


08/09/2011

A Contenda (III)


05/09/2011

A Contenda (II)

Possessão?!...

30/08/2011

A CONTENDA

No meio da "buraco-logia" já pouco ou nada me surpreende, mas não é todos os dias que nos deparamos com uma contenda que até mete "cacete"! Sendo certo que se trata de homens das cavernas, este não deixa de ser um lamentável episódio ao nível das piores concepções alternativas sobre os pré-históricos trogloditas, no tempo em que supostamente quase tudo se resolveria à mocada!... Parece que se continuam a utilizar métodos similares quando estão em jogo disputas territoriais, a diferença é que antigamente os nossos antepassados talvez fossem mais expeditos (e realistas) ao passarem a "vias de facto" em vez de se limitarem a pontuais ameaças e crónicas "dores de corno" entre tribos. Portanto, 30 mil ou mais anos depois, ainda temos dificuldade em soletrar a palavra "cooperação" preferindo, ao invés, a recorrente "competição"! E se este fenómeno é "derivado" de algum tique científico ao estilo da luta pela sobrevivência num contexto de selecção natural? A ver vamos, se entretanto se fizer luz :)

25/08/2011

O que é que aconteceu?

"Tanto a juvenil adolescente, como a mulher madura - as primeiras imagens da humanidade moderna - são visíveis e tácteis, constituindo as suas superfícies polidas prova das incontáveis gerações cujas mãos acariciaram esses cabelos entrançados e esses contornos carnudos. Ambas subvertem a percepção habitual da trajectória do Homem, de um passado primitivo até ao presente civilizado, forçando-nos a reconhecer que não ocorreram assim tantas mudanças. Ainda que a história cultural da nossa espécie possa remontar a 35 000 mil anos atrás, é claramente "uma só", desde os seus primórdios ao dia actual.
Acresce que a Dame de Brassempouy tem muito mais para contar do que esta perspectiva reconhecidamente inestimável. À semelhança dos primeiros humanos que há vários milhões de anos atravessaram as planícies da savana africana, os seus antepassados directos na Europa - os Neandertais, com as suas sobrancelhas proeminentes e pescoços atarracados (assim chamados em honra do vale alemão Neander, onde foram descobertos os primeiros restos mortais) - também não seriam capazes de criar objectos tão delicados. Ora, os referidos Neandertais tinham muitas virtudes. Com uma capacidade cerebral ligeiramente maior do que a nossa, tinham sido suficientemente resistentes e inteligentes para sobreviverem 250 mil anos no ambiente mais hostil que se possa imaginar, o das recorrentes glaciações que assolaram o continente de forma periódica. Contudo, não nos deixaram uma só imagem como as supracitadas. Assim sendo, a Dame de Brassempouy leva-nos a centrar a nossa atenção, com excepcional clareza, na questão mais importante de todas: o que é que aconteceu durante a transição para o homem moderno? O que é que nos separa e porque é que somos tão diferentes?"
James Le Fanu (2009): Porquê nós?; Civilização Editora

GRUTA CHAUVET

"Sozinhos na grande vastidão, iluminados pelos débeis feixes de luz das nossas lanternas, fomos invadidos por uma estranha sensação. Era tudo tão belo, tão novo e quase em demasia. O tempo fora abolido, como se as dezenas de milhares de anos que nos separavam dos autores daquelas pinturas já não existissem. Era como se eles tivessem acabado de criar aquelas obras-primas. Subitamente, sentíamo-nos intrusos. Profundamente impressionados, sentimo-nos esmagados pela sensação de que não estávamos sós - estávamos rodeados pelas almas e pelos espíritos dos artistas. Parecia-nos sentir a sua presença."
Jean-Marie Chauvet

24/08/2011

A Vida

"Vida orgânica sob as ondas sem praia,
Nasceu e nutriu-se nas cavernas cor de pérola dos oceanos;
Primeiro, formas diminutas, invisíveis aos vidros esféricos,
Moveram-se na lama, ou através da massa de água;
Lá, enquanto gerações se sucediam,
E novos poderes adquiriam, com membros cada vez maiores,
Incontáveis grupos de vegetação surgiram,
E entidades com barbatanas, pés e asas respiraram."
Erasmus Darwin (O Jardim Botânico, 1791)

21/07/2011

As casas dos espíritos

Fusão de imagens como nos "sonhos" dos xamãs - Ensaio Mulher Yanomani, autoria: Claudia Andujar.

Um grupo de cientistas brasileiros visitou, pela primeira vez, algumas cavernas consideradas sagradas pela etnia ianomâni situadas na região do Alto Rio Negro (Amazonas). Segundo a notícia de Isabel Fraga publicada na revista Ciência Hoje, a antropóloga Maria Inês Smiljanic, da Universidade Federal do Paraná, defende que o povo ianomâni possui concepções xamânicas nomeadamente no que concerne à sacralidade de determinados locais que terão sido criados pela divindade Omawe como casas para os hekula - espíritos de plantas, animais e seres mitológicos. Para essa antropóloga: "Os locais de moradia dos espíritos devem ser respeitados, pois da boa vontade destes depende toda a vida sobre a terra. Essa ideia não se refere especificamente às cavernas, mas, como há predominância de alguns espíritos em certas regiões, pode ser que o local de moradia de alguns espíritos coincida com a presença de alguma caverna." Daí a necessidade, pelo que pensam os ianomânis, de se realizar um ritual de protecção, conduzido pelo cacique Joaquim Figueiredo, de modo a que os espíritos pudessem "reconhecer o cheiro e o visual do homem branco, que poderia ser visto como ameaça". Na área correspondente ao Paque Nacional do Pico da Neblina, onde se situam terras ianomâni, não são permitidas actividades turísticas e o posicionamento dos índios não suscita quaisquer dúvidas: "não querem abrir as cavernas para visitação turística, pois muitas delas são sagradas para esses povos". E fazem muito bem...

20/07/2011

Vida Subterrânea


"As luzes pulsaram e mudaram de cor... assim como tudo à minha volta! Voltou a ser tudo escuro... Ah, estamos debaixo do solo... é um planeta onde a Vida só pôde desenvolver-se nas suas entranhas!
Que organismos eram aqueles? Moviam-se lentamente e tudo parecia uma cena em câmara lenta! Que criaturas mais estranhas... são pequenas e não têm olhos, movem-se lentamente arrastando-se neste túneis que cavaram. Lambem as paredes cobertas de microorganismos que se alimentam da química destas rochas..." (Lin Yun, 2011; p. 75-76)*

"Finalmente é de referir os organismos que vivem nos poros das rochas a vários quilómetros abaixo da superfície da Terra, descobertos em minas. Estes organismos obtêm energia não do Sol que nunca atinge estes locais, mas das reacções químicas entre as rochas e a água aqui presente. Retiram nutrientes dos minerais que constituem as rochas e dióxido de carbono do ar. As necessidades destes organismos são totalmente preenchidas pelas condições que se pensa existirem no subsolo marciano, tornando pois mais plausível a existência deste tipo de vida em Marte." (Lin Yun, 2011; p. 78)*

"Na realidade, as visitas ao planeta Marte feitas pelas sucessivas sondas que sobrevoaram ou pousaram na superfície de Marte excluem a possibilidade de existência de seres vivos complexos, pelo menos à superfície do planeta. Não é contudo de excluir a possibilidade de existência de vida microscópica subterrânea." (Lin Yun, 2011; 94-95)*

"O subsequente desaparecimento da água líquida superficial não exclui a possibilidade de que alguns desses seres se tenham adaptado às actuais condições físicas e sobrevivam no subsolo de Marte." (Lin Yun, 2011, p. 97)*


*LIN YUN, João - Vida no Universo. Editorial Presença, Queluz de Baixo, 2011.

14/07/2011

E agora, a LUA!...




Porque por estas noites está (quasi) Lua Cheia e porque, na sequência dos últimos posts, estará na altura de inter-relacionar algumas das temáticas afloradas vamos recorrer a uma obra da autoria de Moisés Espírito Santo para tal efeito: Cinco Mil Anos de Cultura a Oeste - Etno-história da Religião Popular numa Região da Estremadura (Assírio & Alvim, 2004). Pode parecer estranho num blog sobre espeleologia falar acerca da Senhora da Conceição, da Serpente, da Caverna enquanto "Ventre" e, agora, da Lua mas na verdade fará mais sentido do que, à primeira vista, possa parecer. Aproveitemos, então, a luminosidade selenita do plenilúnio que se anuncia, nesta noite ventada de Norte, para deixar algumas frases soltas desse magnífico tratado de Espírito Santo. Noutra Lua, na qual disponha de mais tempo para a escrita, tentarei ir mais além no assunto...


"A Senhora ibérica da Conceição/Concepción - a autêntica Senhora da Conceição popular - é a herdeira directa do mais antigo culto da Magna Mater criadora, a Lua-Mãe em sintonia com a Terra-Mãe." (Espírito Santo, 2004; p. 12)

"O protótipo da lenda portuguesa da Moura Encantada - que é da cultura fenícia ou púnica - foi criado a partir da palavra m'wra ("luzeiro, sol ou lua")." Espírito Santo, 2004; p. 79) Segundo o autor, essa palavra m'wra (maora) tem igualmente afinidades com mowrh (mauora) com o significado de "cova, caverna" e, curiosamente, "nudez", entre outras significações.


"A Senhora da Conceição é a que concebe, a que engendra, a que dá à luz. O nome é entendido de modo activo, como um agente com iniciativa de conceber. (...) Ela é a da Concepção." (Espírito Santo, 2004; p. 102)
"Esta invocação e esta imagem foram o melhor caminho para se passar do culto matriarcal da Magna Mater, da Criadora para o de Maria." (Espírito Santo, 2004; p. 105)

"As imagens populares da Conceição (a que concebe), além de terem um menino, identificam-se pelo crescente lunar, por uma serpente aos pés (por vezes, a serpente enrola-se ao busto) e um diadema de doze estrelas. O crescente lunar aos pés e a serpente são os sinais identificadores da "verdadeira imagem" da Conceição. Nas espanholas e alentejanas o crescente é larguíssimo, desproporcionado relativamente à imagem (também evoca chifres de bovino); geralmente é postiço ou amovível, de modo que, aquando das procissões, tira-se para não tocar nos acompanhantes." (Espírito Santo, 2004; p. 107)


"A serpente das imagens da Conceição (a que concebe) é um símbolo da Magna Mater. Segundo as crenças antigas, a serpente reproduz-se por partenogénese (engendra filhos por sua única iniciativa, sem participação masculina) e é imortal, porque muda de pele. Por isso, é um avatar da Lua e da Terra que também mudam, morrem e renascem." (Espírito Santo, 2004; p. 108)

"O crescente lunar da Senhora da Conceição denuncia que esta sucedeu ao culto da Lua considerada a autora da procriação humana e animal e dos ritmos naturais. Em Portugal, o culto à Lua durou até ao século XX como veremos, e é de origem oriental (babilónica, fenícia, egípcia e púnica). (...) Todas as antigas religiões do Mediterrâneo (excepto a romana oficial) veneravam a Lua. Era a autora da procriação humana, animal e vegetal. No Próximo Oriente foi antropomorfizada com imagens e nomes próprios: Sin, Istar, Astarté, Ísis e, em Cartago romanizado, Celestis, representadas como uma mulher com um crescente lunar sobre a fronte. A Senhora Ibérica da Conceição/Concepción (a que concebe) é a sua herdeira directa." (Espírito Santo, 2004; p. 109)

"Para os lusitanos, a Lua foi uma potência divina. Há trinta ou cinquenta anos, o povo português ainda rezava à Lua." (Espírito Santo, 2004; p. 178)

"O morro mais elevado da serra dos Candeeiros (520 metros) chama-se, segundo consta na Cartografia militar, Monte da Lua e as colinas em volta deste, Serra da Lua. (...) Foi a serra da Lua como a de Sintra." (Espírito Santo, 2004; p. 381)


13/07/2011

A atracção... (II)

Há cerca de duas semanas fui abordado por um companheiro de actividades de montanha que me telefonou indagando sobre um artigo que eu teria escrito, e que se encontrava na internet, sobre a Gruta do Abade. Ele estava a elaborar um plano de resgate para a área da Arrábida e gostaria de saber mais pormenores sobre essa cavidade, acontece que, como lhe expliquei desde logo, nunca escrevi sobre a Gruta do Abade! No entanto, ele assegurava-me que tinha lido um artigo acerca dessa gruta assinado por mim, no qual se falava de uma cidade subterrânea, com iluminação "própria", um povo troglodita e outras estranhas alusões... Fiquei bastante preocupado! Depois de uma busca na internet cheguei rapidamente à conclusão que face ao conjunto de prints que lhe tinham sido entregues, incluindo alguns do Spelaion sobre grutas da Arrábida, gerou-se um mal-entendido... De facto, existem diversos artigos e comentários on-line sobre a Gruta do Abade mas nenhum foi escrito por mim e também, de facto, essa gruta está envolvida por estórias do "arco-da-velha". Mas tal não será de espantar tendo em conta que o mundo subterrâneo sempre foi alvo de uma inegável atracção, nomeadamente por estar oculto e, por isso, envolto em mistério. O mundo subterrâneo, personificando o desconhecido, dá azo a inúmeras concepções alternativas, dá asas à imaginação, à geração de abundantes lendas e... historietas. Ao estilo dos caçadores e pescadores, as pessoas do campo que falam de grutas da sua região contam que estas vão dar "não sei onde" invariavelmente demasiado longe ou num onde manifestamente impossível de ser verdade. Curioso é verificar que pessoas pretensamente cultas também embarcam nessas cantilenas e ainda para mais em geografias difíceis de sustentar tais relatos como na Serra de Sintra! Por outro lado, a alusão a seres e habitantes das cavernas, desde duendes a mouras encantadas, para não falar de estranhos bestiários, como aquele que é apresentado no Mundus Subterraneus de Athanasius Kircher, são ainda hoje vulgares. Mais curioso ainda é constatar que muitos desses narradores, também ao estilo kircheneano, nunca entraram numa gruta ou, pelo menos, nas espeluncas que descrevem e pretensamente dizem conhecer. Estes tratam-se, sem dúvida, de fenómenos bastante interessantes que importa abordar com alguma profundidade e, portanto, voltaremos a esta fenomenologia um dia destes...