
Há cerca de duas semanas fui abordado por um companheiro de actividades de montanha que me telefonou indagando sobre um artigo que eu teria escrito, e que se encontrava na internet, sobre a
Gruta do Abade. Ele estava a elaborar um plano de resgate para a área da Arrábida e gostaria de saber mais pormenores sobre essa cavidade, acontece que, como lhe expliquei desde logo, nunca escrevi sobre a Gruta do Abade! No entanto, ele assegurava-me que tinha lido um artigo acerca dessa gruta assinado por mim, no qual se falava de uma cidade subterrânea, com iluminação "própria", um povo troglodita e outras estranhas alusões... Fiquei bastante preocupado! Depois de uma busca na internet cheguei rapidamente à conclusão que face ao conjunto de
prints que lhe tinham sido entregues, incluindo alguns do Spelaion sobre grutas da Arrábida, gerou-se um mal-entendido... De facto, existem diversos artigos e comentários
on-line sobre a Gruta do Abade mas nenhum foi escrito por mim e também, de facto, essa gruta está envolvida por estórias do "arco-da-velha". Mas tal não será de espantar tendo em conta que o mundo subterrâneo sempre foi alvo de uma inegável atracção, nomeadamente por estar oculto e, por isso, envolto em mistério. O mundo subterrâneo, personificando o desconhecido, dá azo a inúmeras concepções alternativas, dá asas à imaginação, à geração de abundantes lendas e... historietas. Ao estilo dos caçadores e pescadores, as pessoas do campo que falam de grutas da sua região contam que estas vão dar "não sei onde" invariavelmente demasiado longe ou num onde manifestamente impossível de ser verdade. Curioso é verificar que pessoas pretensamente cultas também embarcam nessas cantilenas e ainda para mais em geografias difíceis de sustentar tais relatos como na Serra de Sintra! Por outro lado, a alusão a seres e habitantes das cavernas, desde duendes a mouras encantadas, para não falar de estranhos bestiários, como aquele que é apresentado no
Mundus Subterraneus de Athanasius Kircher, são ainda hoje vulgares. Mais curioso ainda é constatar que muitos desses narradores, também ao estilo kircheneano, nunca entraram numa gruta ou, pelo menos, nas espeluncas que descrevem e pretensamente dizem conhecer. Estes tratam-se, sem dúvida, de fenómenos bastante interessantes que importa abordar com alguma profundidade e, portanto, voltaremos a esta fenomenologia um dia destes...