11/07/2011

Grutas...

"...Oh grutas frias / oh gemedouras fontes, oh suspiros. / De namoradas selvagens, brandas veigas, / verdes outeiros, gigantescas serras."
Almeida Garrett


Imagem do post A Gruta do blog Nelson Bloggado.

Batalha (II)

Depois de ter "devorado" o último livro de David Soares - Batalha - recomendo vivamente a sua leitura e devo dizer que só não fiquei surpreendido por ser mais uma obra surpreendente e fantástica... Deixo aqui um pequeno trecho para "abrir o apetite", vão ver que se poderá tornar num caso sério de "bibliofagia".

"O fruto que a serpente ofereceu foi o seu próprio veneno.

Uma inoculação de insurreição, uma poção de prosperidade, amanhada de propósito para abanar os ânimos adormecidos pelo sacratíssimo aprazimento.
Do ponto de vista da serpente, a criação celestial precisava, com urgência, de progredir para não estagnar e nada a despertaria com tanto dinamismo, com tanta potência, quanto uma dentada - se viesse com veneno, ainda melhor. Não foi à toa que a cobra foi considerada a mais sábia das criaturas do Éden oriental: a sua zurrapa zerumbáticodôntrica discissou a burrice barrenta para deixar à mostra o gérmen genial que nos séculos seguintes iria transformar a terra.
Tónicos neurotóxicos que, não nos conseguindo matar, nos deixaram mais perspicazes. Mais astutos. Veneno ofídico, espremido para cadinhos de pedra, amalgamado com aromas saboreáveis e libado como medicamento?
Como fármaco - cujo hierografito genérico é, ainda, um crisol e uma serpente?
Essa representação encerrava todos os homens intoxicados que, na alvorada da história, alucinaram imagens do futuro e as petrografaram nas paredes das cavernas. Encerrava todos os feiticeiros e físicos que perceberam o potencial paliativo da peçonha e a empregaram para sarar e para avançar as suas consciências." (Soares, 2011; p. 184)

Azulejo na Estação dos Caminhos de Ferro do Rossio: Pessoa e "O caminho da serpente" (Mestre Lima de Freitas, 1996)

A Concepção da Rocha

Santuários rupestres, incontornáveis da geografia do sagrado, as grutas surgem desde tempos imemorias como redutos naturais associados a cultos pagãos. Fenómeno retomado pelo cristianismo que se apropriou de alguns desses espaços para aí implementar outra forma de culto. Talvez o caso mais conhecido corresponda à Gruta de Massabielle (Pirenéus franceses) que, depois de alegadas aparições marianas atribuídas a Conceição (de "concepção"), passou a ser conhecida como "Gruta de Nossa Senhora de Lourdes". Mas os exemplos são inúmeros e Portugal também é pródigo em santuários cavernícolas: Lapa de Santa Margarida (Setúbal), Gruta de Nossa Senhora da Luz (Rio Maior), Capela de Nossa Senhora da Estrela (Redinha), Gruta de Nossa Senhora do Tojo (Abrantes), Gruta da Capela da Memória (Nazaré), etc.. Mas, neste particular, o que motivou este post foi a Gruta da Rocha (Carnaxide), situada na margem direita da ribeira do Jamor, no lugar do Casal da Rocha, nas vizinhanças de onde moro. Esta abre-se em calcários do Cenomaniano superior, à semelhança de muitas das cavidades naturais que ocorrem na Península de Lisboa e, nesse contexto, não se destaca das suas congéneres não fosse possuir uma história algo curiosa que culminou na edificação de uma igreja cujo altar-mor se situa precisamente sobre a mesma. Hoje em dia continua a celebrar-se missa nesse templo, realiza-se uma festividade anual e até existe uma Irmandade da Nossa Senhora da Conceição da Rocha mas poucos conhecem a existência de uma gruta nas suas fundações e da lenda que deu origem a tudo isso.



A primeira referência a esta gruta reporta-se à sua (re)descoberta, em 1822, e à estória que se seguiu ao suposto achamento no seu interior de uma "imagem de cerâmica envolta em pobre manto a delir-se de velhice e humidade": a Senhora da Conceição. Os eventos que se sucederam levaram à construção do Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha.
Na verdade, esta gruta já tinha sido descoberta há muito. Tal como tantas outras, suas congéneres da Península de Lisboa, foi utilizada como necrópole e abrigo, tendo sido encontrados ossos humanos e materiais pré-históricos (líticos e cerâmicos) atribuídos aos períodos Neolítico, Calcolítico e Contemporâneo. Não devemos ignorar que a escassos quilómetros se situam as Grutas da Quinta da Moira, as Grutas de Leceia e a Gruta da Ponte da Laje, para não falar das Grutas do Vale de Alcântara ou da Serra de Monsanto, entre outras. Aliás, existem registos (que tivemos oportunidade de confirmar em parte) que dão conta de sete abrigos/grutas nas imediações da Gruta da Rocha onde também foram recolhidos materias pré-históricos e históricos.




09/07/2011

Cova da Raposa

É um lugar à parte, no espaço e no tempo. Rodeado pelo vulgar, surge manifestamente um lugar invulgar, raro nos dias que correm, um locus especial. Já o era há muito tempo, muito antes de ter sido rodeado/cercado pela "civilização", por estradas, casas, barulhos motorizados!... Uma geografia ímpar desde logo pela geomorfologia marcada sob a forma de vale encaixado e pela densa mancha verde do arvoredo arbustivo, contrastante com os calcários cinza, onde se esconde um seco leito de ribeira à sombra do fresco emaranhado vegetal. No Inverno far-se-ão ouvir efémeras águas de escorrência mas, hoje, ao calor do estio apenas se escuta o zumbido de insectos voadores e a vegetação animada pela aragem. E contudo esse local, situado a uma vintena de quilómetros de Lisboa, subsiste na sua quase pureza ancestral, como que olvidado, alheio na sua altaneira vista sobre a ampla planura que se estende para poente. É um desses sítios recônditos, de difícil acesso ou cuja rústica aridez pedregosa manteve a modernidade afastada, precisamente pelos mesmos motivos que atraiu os antigos. Estes encontraram aí abrigo e certamente mais que isso... Hoje a sua presença inefável prova-se pelos testemunhos materiais aí encontrados sob a forma de restos osteológicos de humanos e de animais, instrumentos de sílex e fragmentos de cerâmica que remontam ao Paleolítico e ao Neolítico. Mas essa improvável existência inefável é tão presente quanto o inconfundível odor a raposa que aí se emana. Não será por acaso que a maior das três cavernas que aí surgem se chama "Cova da Raposa". Talvez aí não haja acasos...

08/07/2011

Batalha

Já passou bastante tempo desde que publiquei os posts "Toca(s) da Raposa" e "A Zorra Berrou" nos quais, para além das alusões a esse mamífero (!), fiz referência igualmente às obras A Conspiração dos Antepassados (2007) e Lisboa Triunfante (2008). Nessa altura afirmei que só me restava "aguardar com bastante expectativa a próxima obra de David Soares". Pois é, já tive não só a oportunidade de ler O Evangelho do Enforcado (2010) como terei o grato prazer de, dentro de poucos dias, ler a nova obra desse autor. O lançamento do seu novo livro - Batalha - irá decorrer no próximo dia 15 de Julho, às 19 horas, na FNAC do Centro Comercial Colombo.
Na página da editora Saída de Emergência podemos ler o seguinte comentário acerca deste novo trabalho: "Em Batalha, David Soares apresenta uma história em que os animais são protagonistas. Passado no início do século XV, Batalha é um romance sombrio, filosófico e comovente, que observa o fenómeno religioso do ponto de vista dos animais e especula sobre o que significa ser-se humano.
Batalha, a ratazana, procura por sentido, numa viagem arrojada que a levará até ao local de construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, o derradeiro projecto do mestre arquitecto Afonso Domingues. Entre o romance fantástico e a alegoria hermética, Batalha cruza, com sensibilidade e sofisticação, o encantamento das fábulas com o estilo negro do autor."

Éticas e Estéticas da Terra

Ontem, ao final da tarde, decorreu no auditório 3 da Fundação Calouste de Gulbenkian mais um evento no âmbito do ciclo de conferências "Ambiente, porquê ler os clássicos?". Este ciclo de seis conferências, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian através do seu Programa Gulbenkian Ambiente em parceria com a Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, gravita em torno de seis obras literárias que pela sua importância e actualidade se transformaram em clássicos de ambiente. Segundo os mentores desta iniciativa: "Estes clássicos são obras que se impõem como referências incontornáveis no imaginário da cultura contemporânea em torno do ambiente. Cada livro transporta-nos, de forma singular, numa viagem de reflexão sobre a nossa identidade e o nosso compromisso com um futuro sustentável, em harmonia com a Natureza."
A primeira conferência, que decorreu no dia 6 de Maio, versou sobre a obra Walden ou a Vida nos Bosques (1854), da autoria de Henry Davis Thoreau, tendo sido apresentada por Viriato Soromenho Marques e comentada por Isabel Capeloa Gil. Ontem foi a vez do livro Pensar como uma Montanha (A Sand County Almanac, 1949), de Aldo Leopold, apresentado por John Baird Callicott e comentado por Maria José Varandas.
A razão de noticiar esta iniciativa no Spelaion prende-se precisamente com as temáticas da visão, da relação e da expressão/representação da e na Natureza por parte dos Humanos. De certa forma, continuamos na sequência de posts acerca da relação do Humano com o Não-Humano, consigo mesmo, com o outro e com a Natureza como um todo de que se faz parte... Nesse contexto, tanto Walden como Pensar como uma Montanha, sendo uma celebração do mundo natural, aproximam os leitores da Natureza através da estreita vivência no seu seio, preparando-os para sensitivos voos que os conduzirão a novas (ou, quem sabe, antigas) espiritualidades e éticas baseadas em visões holísticas, segundo Callicott, "incompatible with our Abrahamic concept of the world". Essa "toxic mix of biblic anthropocentric dominionism and consumerism" levou esse filósofo americano a defender a necessidade de primeiro destruir para depois construir uma nova metafísica, baseada nomeadamente na tentativa de acabar com as vigentes dualidades de modo a atingir a unidade na busca de uma mundividência sustentada. E, muito importante, como salientou Maria José Varandas: "A ética da Terra é também uma estética da Terra".

Quando o Xamã Voava

Ainda na sequência dos recentes posts publicados no Spelaion, não poderei deixar de destacar o lançamento, no passado sábado (dia 2 de Julho), do livro Quando o Xamã Voava - Sonho, Erotismo e Morte no Xamanismo, da autoria de Gilberto de Lascariz. Essa obra, com a chancela da editora Zéfiro, que foi apresentada pelo autor na Casa do Fauno (Sintra), versa precisamente, entre outras temáticas, sobre a ligação entre o xamanismo e a arte rupestre. Em contraposição ao "xamanismo light" de Michael Harner ou outros na linha do "xamanismo de trazer por casa", Quando o Xamã Voava remete-nos para a clarividência atávica de arcaicas práticas traduzidas nomeadamente na arte rupestre. Ao ponto do autor ter salientado na apresentação da obra: "mesmo que se perdessem todos os livros sobre xamanismo temos tudo registado nos santuários rupestres".
Na impossibilidade de resumir esta extensa obra de 490 páginas direi apenas que se trata de um texto marcadamente original, que foge a lugares comuns e às simplificações (para não dizer adulterações) a que muitos livros sobre xamanismo nos têm habituado. Este é um livro que, não temendo adentrar-se na natureza do fenómeno xamânico, procura trilhar os remotos e antiquíssimos caminhos dos nossos ancestrais. Quando começa "a perceber-se, finalmente, que muita da arte rupestre é essencialmente um conjunto de imagens recebidas em transe que dão forma visual às crenças subjacentes que enformam a prática extática do Xamanismo" (Lascariz, 2011; p. 96).

07/07/2011

Chamanismo en las cuevas paleolíticas

Pretensa imagem entóptica na Cueva del Castillo (Cantábria- Espanha).

Sobre a arte rupestre, as imagens entópticas e o xamanismo é bastante interessante a abordagem sumária apresentada pelo distinto pré-historiador francês Jean Clottes na palestra proferida no "40 Congreso de Filósofos Jovens" (Sevilha, 2003): "Chamanismo en las cuevas paleolíticas".
"La arqueología y la antropología física mostraron hace tiempo que las gentes del Paleolítico Superior, nuestros ancestros Cromañones, eran exactamente como nosotros. (...) Ellos y/o sus descendientes fueron los creadores de lo que llamamos arte rupestre. Puesto que muchas de esas pinturas y grabados fueron realizadas en las profundidades de las cuevas, donde nadie vivía, ya desde su descubrimiento la mayoría de los especialistas han coincidido en que respondían a un fin religioso y en que, a través de ellas, podíamos aproximarnos a algunas de las creencias de aquellas antiguas gentes. Se hicieron comparaciones con el arte rupestre de cazadores recolectores modernos existente en otras partes del mundo. La universalidad de la religiosidad humana, así como el hecho irrebatible de que pertenecemos todos a la misma especie, con las mismas faculdades, necesidades y anhelos, hacían posibles tales comparaciones.
Es una idea propuestra hace medio siglo (Eliade, 1951) que las religiones paleolíticas europeas podían ser chamánicas. La hipótesis fue desarrollada en años posteriores (particularmente por Lewis-Williams & Dowson, 1988). Antes de que se aplicara a lo que conocemos de las cuevas pintadas, tres series distintas de observaciones fueron tenidas en cuenta: los trabajos de neuropsicología acerca de los estados de consciencia alterada, las sociedades chamánicas en el mundo, y el arte rupestre de culturas chamánicas conocidas, como los San de África del Sur y numerosos grupos nativos americanos del Este de E.E.U.U.. En los 90, trabajé con Lewis-Williams para comprobar si la teoría podía ser aplicada o no al arte rupestre Europeo (Clottes & Lewis-Williams, 1996, 1997, 2001). Recientemente, Lewis-Williams ha desarrollado y expandido su modelo e ideas en un innovador libro (Lewis-Williams, 2002). (...)"
Para ler o artigo completo, consulte: http://www.nodulo.org/ec/2003/n021p01.htm.
Figura ornitomórfica com erecção na "Cena do Poço" da Gruta de Lascaux (Dordonha - França).

Imagens inclusas no texto: imagens teriomórficas da Gruta de Gabillou (Dordonha - França), em cima à esquerda, e da Gruta de Trois-Frères (Ariège - França), em abaixo à esquerda e à direita.

Imagens entópticas

Long forgotten dreams (III)

Long forgotten dreams (II)

Long forgotten dreams