08/07/2011

Éticas e Estéticas da Terra

Ontem, ao final da tarde, decorreu no auditório 3 da Fundação Calouste de Gulbenkian mais um evento no âmbito do ciclo de conferências "Ambiente, porquê ler os clássicos?". Este ciclo de seis conferências, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian através do seu Programa Gulbenkian Ambiente em parceria com a Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, gravita em torno de seis obras literárias que pela sua importância e actualidade se transformaram em clássicos de ambiente. Segundo os mentores desta iniciativa: "Estes clássicos são obras que se impõem como referências incontornáveis no imaginário da cultura contemporânea em torno do ambiente. Cada livro transporta-nos, de forma singular, numa viagem de reflexão sobre a nossa identidade e o nosso compromisso com um futuro sustentável, em harmonia com a Natureza."
A primeira conferência, que decorreu no dia 6 de Maio, versou sobre a obra Walden ou a Vida nos Bosques (1854), da autoria de Henry Davis Thoreau, tendo sido apresentada por Viriato Soromenho Marques e comentada por Isabel Capeloa Gil. Ontem foi a vez do livro Pensar como uma Montanha (A Sand County Almanac, 1949), de Aldo Leopold, apresentado por John Baird Callicott e comentado por Maria José Varandas.
A razão de noticiar esta iniciativa no Spelaion prende-se precisamente com as temáticas da visão, da relação e da expressão/representação da e na Natureza por parte dos Humanos. De certa forma, continuamos na sequência de posts acerca da relação do Humano com o Não-Humano, consigo mesmo, com o outro e com a Natureza como um todo de que se faz parte... Nesse contexto, tanto Walden como Pensar como uma Montanha, sendo uma celebração do mundo natural, aproximam os leitores da Natureza através da estreita vivência no seu seio, preparando-os para sensitivos voos que os conduzirão a novas (ou, quem sabe, antigas) espiritualidades e éticas baseadas em visões holísticas, segundo Callicott, "incompatible with our Abrahamic concept of the world". Essa "toxic mix of biblic anthropocentric dominionism and consumerism" levou esse filósofo americano a defender a necessidade de primeiro destruir para depois construir uma nova metafísica, baseada nomeadamente na tentativa de acabar com as vigentes dualidades de modo a atingir a unidade na busca de uma mundividência sustentada. E, muito importante, como salientou Maria José Varandas: "A ética da Terra é também uma estética da Terra".

Quando o Xamã Voava

Ainda na sequência dos recentes posts publicados no Spelaion, não poderei deixar de destacar o lançamento, no passado sábado (dia 2 de Julho), do livro Quando o Xamã Voava - Sonho, Erotismo e Morte no Xamanismo, da autoria de Gilberto de Lascariz. Essa obra, com a chancela da editora Zéfiro, que foi apresentada pelo autor na Casa do Fauno (Sintra), versa precisamente, entre outras temáticas, sobre a ligação entre o xamanismo e a arte rupestre. Em contraposição ao "xamanismo light" de Michael Harner ou outros na linha do "xamanismo de trazer por casa", Quando o Xamã Voava remete-nos para a clarividência atávica de arcaicas práticas traduzidas nomeadamente na arte rupestre. Ao ponto do autor ter salientado na apresentação da obra: "mesmo que se perdessem todos os livros sobre xamanismo temos tudo registado nos santuários rupestres".
Na impossibilidade de resumir esta extensa obra de 490 páginas direi apenas que se trata de um texto marcadamente original, que foge a lugares comuns e às simplificações (para não dizer adulterações) a que muitos livros sobre xamanismo nos têm habituado. Este é um livro que, não temendo adentrar-se na natureza do fenómeno xamânico, procura trilhar os remotos e antiquíssimos caminhos dos nossos ancestrais. Quando começa "a perceber-se, finalmente, que muita da arte rupestre é essencialmente um conjunto de imagens recebidas em transe que dão forma visual às crenças subjacentes que enformam a prática extática do Xamanismo" (Lascariz, 2011; p. 96).

07/07/2011

Chamanismo en las cuevas paleolíticas

Pretensa imagem entóptica na Cueva del Castillo (Cantábria- Espanha).

Sobre a arte rupestre, as imagens entópticas e o xamanismo é bastante interessante a abordagem sumária apresentada pelo distinto pré-historiador francês Jean Clottes na palestra proferida no "40 Congreso de Filósofos Jovens" (Sevilha, 2003): "Chamanismo en las cuevas paleolíticas".
"La arqueología y la antropología física mostraron hace tiempo que las gentes del Paleolítico Superior, nuestros ancestros Cromañones, eran exactamente como nosotros. (...) Ellos y/o sus descendientes fueron los creadores de lo que llamamos arte rupestre. Puesto que muchas de esas pinturas y grabados fueron realizadas en las profundidades de las cuevas, donde nadie vivía, ya desde su descubrimiento la mayoría de los especialistas han coincidido en que respondían a un fin religioso y en que, a través de ellas, podíamos aproximarnos a algunas de las creencias de aquellas antiguas gentes. Se hicieron comparaciones con el arte rupestre de cazadores recolectores modernos existente en otras partes del mundo. La universalidad de la religiosidad humana, así como el hecho irrebatible de que pertenecemos todos a la misma especie, con las mismas faculdades, necesidades y anhelos, hacían posibles tales comparaciones.
Es una idea propuestra hace medio siglo (Eliade, 1951) que las religiones paleolíticas europeas podían ser chamánicas. La hipótesis fue desarrollada en años posteriores (particularmente por Lewis-Williams & Dowson, 1988). Antes de que se aplicara a lo que conocemos de las cuevas pintadas, tres series distintas de observaciones fueron tenidas en cuenta: los trabajos de neuropsicología acerca de los estados de consciencia alterada, las sociedades chamánicas en el mundo, y el arte rupestre de culturas chamánicas conocidas, como los San de África del Sur y numerosos grupos nativos americanos del Este de E.E.U.U.. En los 90, trabajé con Lewis-Williams para comprobar si la teoría podía ser aplicada o no al arte rupestre Europeo (Clottes & Lewis-Williams, 1996, 1997, 2001). Recientemente, Lewis-Williams ha desarrollado y expandido su modelo e ideas en un innovador libro (Lewis-Williams, 2002). (...)"
Para ler o artigo completo, consulte: http://www.nodulo.org/ec/2003/n021p01.htm.
Figura ornitomórfica com erecção na "Cena do Poço" da Gruta de Lascaux (Dordonha - França).

Imagens inclusas no texto: imagens teriomórficas da Gruta de Gabillou (Dordonha - França), em cima à esquerda, e da Gruta de Trois-Frères (Ariège - França), em abaixo à esquerda e à direita.

Imagens entópticas

Long forgotten dreams (III)

Long forgotten dreams (II)

Long forgotten dreams

06/07/2011

Sem palavras...

Arte rupestre da Cueva de la Pileta

Outras Artes...

A ideia de uma natureza viva, essa visão panteísta segundo a qual tudo na natureza está vivo, possui uma alma, proporcionando uma estreita ligação cósmica entre todos os seus componentes, revela ainda hoje reflexos profundos no inconsciente colectivo e na religião popular do nosso país (tal como no estrangeiro). Reflexos que se manifestam através de um rico "imaginário" em torno de penedos da fertilidade, fontes santas, mouras encantadas ou cavernas que encerram antigos tesouros... Essa dimensão "psíquica" da natureza demonstra que não é só necessário defender as rochas, os rios, as árvores ou os animais, é também fundamental empreender a defesa das tradições, como a vivência do espaço sagrado e do tempo mítico; mesmo que o conhecimento antigo se encontre "desenhado" na pedra, ainda que não se compreenda de todo ou em parte ;-) Deixo aqui duas curiosas imagens acerca desse "folk-lore" a que faço referência :) Trata-se de uma imagem com conotações teriomórficas, mais precisamente ornitomórficas, provavelmente de um xamã, da Cueva de la Serreta (Cienza, Murcia - Espanha), que já tive a felicidade de visitar, e uma mescla de mãos humanas e marcas tridáctilas (de uma gruta na Patagónia - Argentina).


Not for sail...

Como diz o conhecido ditado popular: "Quem é vivo, sempre aparece" :) Depois de mais de um ano sem novidades é certo que o Spelaion criou teias de aranha mas ainda não é desta que acabou e, também, não está à venda... Isto só demonstra que andámos "out there" ou "somewhere" e que, portanto, a vida não é feita só de buracos mas inevitavelmente estes, mais tarde ou mais cedo, (re)aparecem nas nossas vidas. Vamos lá ver se é desta que damos alguma continuidade às "postas" subterrâneas... Saudações espeleológicas ;-)

07/05/2010

Temos algo de Neandertal


O debate durou anos: o homem moderno (nós) e o Homem de Neandertal, hoje extinto, ter-se-iam cruzado e procriado juntos – ou não? Hoje a questão foi definitivamente arrumada pela genética, com a publicação na "Science" do primeiro rascunho do genoma dos Neandertais. A resposta? Sim! A criança do Lapedo teve de facto Neandertais entre os seus antepassados.É assim que o jornal Público notícia o estudo que foi publicado na última edição da prestigiada revista Science.

Segundo os estudos genéticos efectuados em materiais osteológicos, recolhidos numa caverna na Croácia, cerca de 1 a 4% do DNA das populações actuais terá sido herdado dos neandertais. A evidência de reprodução entre as duas espécies foi encontrada graças ao primeiro “esboço” do genoma neandertal, onde se identificou 60% do código genético da espécie extinta. O genoma neandertal foi obtido a partir de materiais osteológicos com cerca de 40.000 anos, encontrados numa caverna na Croácia.