08/07/2011

Quando o Xamã Voava

Ainda na sequência dos recentes posts publicados no Spelaion, não poderei deixar de destacar o lançamento, no passado sábado (dia 2 de Julho), do livro Quando o Xamã Voava - Sonho, Erotismo e Morte no Xamanismo, da autoria de Gilberto de Lascariz. Essa obra, com a chancela da editora Zéfiro, que foi apresentada pelo autor na Casa do Fauno (Sintra), versa precisamente, entre outras temáticas, sobre a ligação entre o xamanismo e a arte rupestre. Em contraposição ao "xamanismo light" de Michael Harner ou outros na linha do "xamanismo de trazer por casa", Quando o Xamã Voava remete-nos para a clarividência atávica de arcaicas práticas traduzidas nomeadamente na arte rupestre. Ao ponto do autor ter salientado na apresentação da obra: "mesmo que se perdessem todos os livros sobre xamanismo temos tudo registado nos santuários rupestres".
Na impossibilidade de resumir esta extensa obra de 490 páginas direi apenas que se trata de um texto marcadamente original, que foge a lugares comuns e às simplificações (para não dizer adulterações) a que muitos livros sobre xamanismo nos têm habituado. Este é um livro que, não temendo adentrar-se na natureza do fenómeno xamânico, procura trilhar os remotos e antiquíssimos caminhos dos nossos ancestrais. Quando começa "a perceber-se, finalmente, que muita da arte rupestre é essencialmente um conjunto de imagens recebidas em transe que dão forma visual às crenças subjacentes que enformam a prática extática do Xamanismo" (Lascariz, 2011; p. 96).

07/07/2011

Chamanismo en las cuevas paleolíticas

Pretensa imagem entóptica na Cueva del Castillo (Cantábria- Espanha).

Sobre a arte rupestre, as imagens entópticas e o xamanismo é bastante interessante a abordagem sumária apresentada pelo distinto pré-historiador francês Jean Clottes na palestra proferida no "40 Congreso de Filósofos Jovens" (Sevilha, 2003): "Chamanismo en las cuevas paleolíticas".
"La arqueología y la antropología física mostraron hace tiempo que las gentes del Paleolítico Superior, nuestros ancestros Cromañones, eran exactamente como nosotros. (...) Ellos y/o sus descendientes fueron los creadores de lo que llamamos arte rupestre. Puesto que muchas de esas pinturas y grabados fueron realizadas en las profundidades de las cuevas, donde nadie vivía, ya desde su descubrimiento la mayoría de los especialistas han coincidido en que respondían a un fin religioso y en que, a través de ellas, podíamos aproximarnos a algunas de las creencias de aquellas antiguas gentes. Se hicieron comparaciones con el arte rupestre de cazadores recolectores modernos existente en otras partes del mundo. La universalidad de la religiosidad humana, así como el hecho irrebatible de que pertenecemos todos a la misma especie, con las mismas faculdades, necesidades y anhelos, hacían posibles tales comparaciones.
Es una idea propuestra hace medio siglo (Eliade, 1951) que las religiones paleolíticas europeas podían ser chamánicas. La hipótesis fue desarrollada en años posteriores (particularmente por Lewis-Williams & Dowson, 1988). Antes de que se aplicara a lo que conocemos de las cuevas pintadas, tres series distintas de observaciones fueron tenidas en cuenta: los trabajos de neuropsicología acerca de los estados de consciencia alterada, las sociedades chamánicas en el mundo, y el arte rupestre de culturas chamánicas conocidas, como los San de África del Sur y numerosos grupos nativos americanos del Este de E.E.U.U.. En los 90, trabajé con Lewis-Williams para comprobar si la teoría podía ser aplicada o no al arte rupestre Europeo (Clottes & Lewis-Williams, 1996, 1997, 2001). Recientemente, Lewis-Williams ha desarrollado y expandido su modelo e ideas en un innovador libro (Lewis-Williams, 2002). (...)"
Para ler o artigo completo, consulte: http://www.nodulo.org/ec/2003/n021p01.htm.
Figura ornitomórfica com erecção na "Cena do Poço" da Gruta de Lascaux (Dordonha - França).

Imagens inclusas no texto: imagens teriomórficas da Gruta de Gabillou (Dordonha - França), em cima à esquerda, e da Gruta de Trois-Frères (Ariège - França), em abaixo à esquerda e à direita.

Imagens entópticas

Long forgotten dreams (III)

Long forgotten dreams (II)

Long forgotten dreams

06/07/2011

Sem palavras...

Arte rupestre da Cueva de la Pileta

Outras Artes...

A ideia de uma natureza viva, essa visão panteísta segundo a qual tudo na natureza está vivo, possui uma alma, proporcionando uma estreita ligação cósmica entre todos os seus componentes, revela ainda hoje reflexos profundos no inconsciente colectivo e na religião popular do nosso país (tal como no estrangeiro). Reflexos que se manifestam através de um rico "imaginário" em torno de penedos da fertilidade, fontes santas, mouras encantadas ou cavernas que encerram antigos tesouros... Essa dimensão "psíquica" da natureza demonstra que não é só necessário defender as rochas, os rios, as árvores ou os animais, é também fundamental empreender a defesa das tradições, como a vivência do espaço sagrado e do tempo mítico; mesmo que o conhecimento antigo se encontre "desenhado" na pedra, ainda que não se compreenda de todo ou em parte ;-) Deixo aqui duas curiosas imagens acerca desse "folk-lore" a que faço referência :) Trata-se de uma imagem com conotações teriomórficas, mais precisamente ornitomórficas, provavelmente de um xamã, da Cueva de la Serreta (Cienza, Murcia - Espanha), que já tive a felicidade de visitar, e uma mescla de mãos humanas e marcas tridáctilas (de uma gruta na Patagónia - Argentina).


Not for sail...

Como diz o conhecido ditado popular: "Quem é vivo, sempre aparece" :) Depois de mais de um ano sem novidades é certo que o Spelaion criou teias de aranha mas ainda não é desta que acabou e, também, não está à venda... Isto só demonstra que andámos "out there" ou "somewhere" e que, portanto, a vida não é feita só de buracos mas inevitavelmente estes, mais tarde ou mais cedo, (re)aparecem nas nossas vidas. Vamos lá ver se é desta que damos alguma continuidade às "postas" subterrâneas... Saudações espeleológicas ;-)

07/05/2010

Temos algo de Neandertal


O debate durou anos: o homem moderno (nós) e o Homem de Neandertal, hoje extinto, ter-se-iam cruzado e procriado juntos – ou não? Hoje a questão foi definitivamente arrumada pela genética, com a publicação na "Science" do primeiro rascunho do genoma dos Neandertais. A resposta? Sim! A criança do Lapedo teve de facto Neandertais entre os seus antepassados.É assim que o jornal Público notícia o estudo que foi publicado na última edição da prestigiada revista Science.

Segundo os estudos genéticos efectuados em materiais osteológicos, recolhidos numa caverna na Croácia, cerca de 1 a 4% do DNA das populações actuais terá sido herdado dos neandertais. A evidência de reprodução entre as duas espécies foi encontrada graças ao primeiro “esboço” do genoma neandertal, onde se identificou 60% do código genético da espécie extinta. O genoma neandertal foi obtido a partir de materiais osteológicos com cerca de 40.000 anos, encontrados numa caverna na Croácia.

09/04/2010

Nova espécie de hominídeo

Acabo de saber por e-mail, através de Sandro Secutti (in EcoSubterraneo, Brasil), a novidade de que foram descobertos na África do Sul dois esqueletos subfósseis de uma nova espécie de hominídeo: Australopithecus sediba. Os trabalhos foram publicados ontem (quinta-feira, 8 de Abril) na revista Science e amplamente divulgados pelos media em tudo o mundo. Deixo-vos com a notícia que se encontra publicada no Yahoo Brasil sobre o assunto, mas este encontra-se amplamente difundido on-line. Para mais informações basta procurar num motor de busca.


«Qui, 08 Abr, 01h35


WASHINGTON, EUA (AFP) - Dois esqueletos parcialmente fossilizados de uma espécie de hominídeo, com quase dois milhões de anos, foram descobertos na África do Sul, levantando o véu sobre uma nova etapa da evolução humana, segundo trabalhos divulgados nesta quinta-feira pela revista americana Science.
A nova espécie de hominídeo foi batizada de 'Australopithecus sediba'. Dois espécimes - uma mulher adulta e um homem jovem - com uma idade estimada entre 1,95 e 1,78 milhão de anos foram encontrados perto um do outro, em 2008, em boas condições de conservação numa caverna situada a 40 km de Johannesburgo.
"Estes fósseis nos dão um olhar extraordinariamente detalhado a um novo capítulo da evolução humana e abrem uma janela paa um período crítico, quando os hominídeos fizeram a mudança da dependência na vida nas árvores à vida no solo", disse Lee Berger, principal autor do artigo.
Eles caminhavam eretos e compartilhavam vários traços das primeiras espécies conhecidas de 'Homo sapiens', com braços longos como os símios, e mãos curtas e fortes, o que poderá ajudar a responder a alguns questionamentos científicos, enfatizaram os pesquisadores.
Tinham pélvis evoluídas, dentes pequenos e pernas longas que permitiam que corressem como um homem. Também é provável que fossem capazes de subir em árvores.
"O 'Australopithecus sediba' parece apresentar um mosaico de características que apontam para um animal que vivia confortavelmente nos dois mundos", disse Berger, paleo-antropólogo da Universidade de Witwatersrand, em Johnnesburgo.
Os dois espécimes tinham cerca de 1,27 metro de altura. A fêmea pesava 33 quilos e o jovem macho, cuja idade é estimada em 10 anos, 27 kg.
As espécies tinham cérebros pequenos, de tamanho correspondente a um terço o volume do dos homens modernos.
Mas Berger destacou, durante coletiva de imprensa por telefone, que o formato de seus cérebros parece ter evoluído com relação ao de outras espécies de australopitecos.
A nova espécie tinha muitas características físicas similares às dos primeiros hominídeos, o que ajudaria a explicar o que significa ser um humano, afirmou.
A estrutura do esqueleto dos dois fósseis é similar à das primeiras espécies de 'homos', mas os novos exemplares parecem tê-lo empregado da mesma forma que "Lucy," que talvez seja o mais famoso fóssil de hominídeo. Encontrada em 1974, Lucy tinha 3,2 milhões de anos e foi considerada o ancestral comum da humanidade até a descoberta de "Ardi" (Ardipithecus ramidus), com 4,4 milhões de anos, que aponta para um ancestral comum com o chimpanzé.
Berger disse não ser possível estabelecer a posição "precisa" da nova espécie com relação aos primeiros homens.
"Podemos concluir que esta nova espécie partilha mais características derivadas dos primeiros 'homos' do que qualquer outra espécie de australopiteco, e por isso representa um candidato a ancestral para o gênero...", afirmou.
O local da descoberta é rico em fósseis e pelo menos outros dois espécimes de sediba foram retirados da terra e estão sendo analisados, disse Berger. Os cientistas também identificaram os fósseis de pelo menos 25 outras espécies de animais, incluindo uma hiena, um cão selvagem, antílopes e um cavalo.»