02/03/2009

Mais uma derrocada no Zambujal?!

O Diário de Notícias de hoje apresenta um artigo, da autoria de Roberto Dores, sob o titulo “Derrocada Ameaça Gruta do Zambujal”. Trata-se, mais uma vez, de um alerta por parte do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) acerca da destruição da Gruta do Zambujal. O assunto já não é novo (bem pelo contrário), a novidade refere-se a uma pretensa “derrocada com a construção de uma estrada na zona”. Sobre o assunto, a destruição do Zambujal, já tivemos oportunidade de escrever diversas peças jornalísticas sendo, deste modo, interessante seguir a evolução dos acontecimentos. Só para dar alguns exemplos (outros se encontram no Spelaion): Encerramento do Zambujal I, II, III e IV ou Zambujal: Tudo na mesma ou Zambujal I (da autoria do meu querido amigo António Martins).
A notícia de hoje foi veiculada por Francisco Rasteiro, presidente do NECA, que ao ter visitado a gruta recentemente deparou com um cenário “desolador”. Segundo descreve Roberto Dores, do DN, esse espeleólogo sesimbrense deparou com “formações únicas completamente destruídas, como consequência das obras de construção dos acessos a uma torre de controlo do tráfego marítimo na Serra dos Pinheirinhos”.
Houve a necessidade de retirar rocha num processo que durou seis meses. Nós denunciámos o risco que isso representava para a gruta, até porque se avançou para os trabalhos sem um estudo de impacte ambiental que permitisse apurar os danos que as obras iriam causar. A derrocada que se registou não nos surpreendeu totalmente", lamentou o presidente do NECA ao DN.
A notícia em causa prossegue com alguns considerandos acerca do aproveitamento turístico da gruta (questão também recorrente), no entanto resta saber se tal será sensato ou até possível... É que tantos anos de destruições, mais ou menos paulatinas, desfiguraram aquela que já foi considerada a "pérola da espeleologia a sul do Tejo" de forma irreversível. A Gruta do Zambujal não é hoje mais do que uma caricatura daquilo que já foi!


[Fotografias: Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro]

30º Congresso Brasileiro de Espeleologia

O professor Ronaldo Lucrécio Sarmento enviou-nos um e-mail de divulgação do 30º Congresso Brasileiro de Espeleologia. O evento é organizado pela Sociedade Brasileira de Espeleologia (SBE) e irá decorrer, de 6 a 15 de Julho, na cidade de Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. Um dos “eixos temáticos do evento” centra-se no Decreto 6.640-2008 sobre a protecção de grutas e abrigos e, dessa forma, também sobre o futuro da própria espeleologia brasileira. Além deste assunto central vão também estar sobre a mesa outras temáticas de igual relevância e interesse, nomeadamente diversas actividades de campo.
Para mais informações sobre o 30º Congresso Brasileiro de Espelelogia, consulte o site da Sociedade Brasileira de Espeleologia ou contacte directamente o Presidente da Comissão Organizadora do evento, prof. Ronaldo Sarmento, através dos seguintes e-mails: ronacapcaverna@gmail.com, ronacapcaverna@hotmail.com e ronaldo_sarmento@yahoo.com.br.

Descoberta de cavernas

Colômbia
Complexo subterrâneo


© Javier Casella/AFP
O exército colombiano divulgou, no passado sábado (dia 28 de Fevereiro), a descoberta de um complexo de cavernas naturais na selva da região meridional do país (estado de Meta). O complexo subterrâneo descoberto merece especial relevância pois era usado pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como importante centro de comando. A missão do exército consistia na busca do esconderijo utilizado por um alto comandante das FARC, mas em vez disso acabou por encontrar cavernas (11) com capacidade para abrigar até meio milhar de guerrilheiros em caso de ataques aéreos.
Segundo as informações veiculadas, as cavernas, até há pouco secretas, interligam-se entre si formando uma complexa rede subterrânea. Esta rede servia de depósito de equipamento, fábrica de armamento, “hospital” e refúgio. O exército descobriu milhares de quilos de explosivos fabricados in situ, nomeadamente minas terrestres e morteiros. Segundo o Ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, o exército também encontrou instalações médicas: “Em algumas cavernas, encontramos hospitais completos. Isso prova que os feridos, inclusive os líderes do bloco oriental das FARC, podem ter se recuperado lá de seus ferimentos, e ter sido enviados de volta para o combate”. Os hospitais subterrâneos encontrados na Colômbia lembram os usados pelos combatentes comunistas durante a Guerra do Vietname. As instalações incluem uma sala de cirurgia improvisada e equipamento para executar uma operação odontológica. Os soldados também encontraram instrumentos médicos usados em cirurgias de aborto nas guerrilheiras das FARC.

26/02/2009

A Evolução de Darwin II

Na sequência da "posta" anterior e, igualmente, das comemorações do bicentenário do nascimento de Charles Darwin gostaríamos de destacar a Agenda Cultural da Câmara Municipal de Lisboa. No primeiro caso, porque ao longo do ano poderá informar-se acerca das actividades do Espaço Monsanto (Centro de Interpretação), nomeadamente no tocante às actividades “Na Mira da Mina”, entre outras numerosas e diversas iniciativas. No segundo caso porque a edição de Fevereiro (nº 219) é dedicada a Darwin. Para além da panóplia de informações úteis, a que já nos habituou, esta Agenda Cultural contém uma entrevista a João Caraça, director do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian, sobre a exposição A Evolução de Darwin (p. 4-9), um artigo da autoria de Rui Cintra intitulado A evolução está na rua (p. 10-19) e uma pequena notícia sobre a exposição A Evolução de Darwin (p. 73). Por razões sobretudo estéticas, mas também de conteúdos, não resistimos a publicar esta “posta” sobre a Agenda Cultural publicada pela Câmara Municipal de Lisboa e reproduzir a sua bonita capa. Mas não fique por aqui, adquira este número e veja também o seu interior…

Monsanto Subterrâneo

A Divisão de Educação e Sensibilização Ambiental (DESA), parte integrante do Departamento de Ambiente e Espaços Verdes da Câmara Municipal de Lisboa, desenvolve anualmente um amplo conjunto de actividades, lúdicas e pedagógicas, dirigidas a diversos públicos. Sejam escolas ou pessoas a título individual, os objectivos centram-se invariavelmente na sensibilização para o desenvolvimento sustentável, na interpretação da natureza e/ou na educação ambiental. É nesse contexto que, durante o presente ano, a DESA realiza, todos os sábados e domingos dos segundos fins-de-semana de cada mês, visitas guiadas a minas de água, abertas ao público em geral. As escolas, dos 2º e 3º Ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário, poderão efectuar visitas em dias de semana. Ambos os tipos de visitas carecem de marcação prévia.
A iniciativa designada “Na Mira da Mina” numa primeira fase circunscreve-se à Mina de Água Teresa Saldanha e Sousa mas posteriormente estender-se-á a outras minas de água. As visitas iniciam-se no Espaço Monsanto (Centro de Interpretação), são enquadradas por Rui Marques (técnico da DESA) e os participantes são equipados devidamente, com capacete, galochas e iluminação.
Neste momento, a actividade “Na Mira da Mina” centra-se na descoberta da Mina de Água Teresa Saldanha e Sousa, situada no Espaço Biodiversidade do Parque Florestal de Monsanto. Após um primeiro momento de acolhimento e enquadramento, por parte de Rui Marques, os participantes exploram um percurso subterrâneo onde são abordadas várias temáticas, focando em particular a problemática da água e da geologia na Serra de Monsanto e sua envolvente, nomeadamente no que concerne à abertura de diversas minas de água. Actualmente conhecem-se 28 minas de água em Monsanto, das quais cinco são passíveis de serem visitadas.
Esta actividade constitui uma oportunidade única de conhecer outra faceta da Serra de Monsanto (o seu lado subterrâneo), devidamente enquadrado. Esta trata-se de uma iniciativa tão inusual e diferente quanto interessante e cativante. Vá e veja…
A realização das actividades está dependente das condições meteorológicas. Para mais informações ou marcação de visitas, contacte a DESA através do telefone 218 170 200 ou do e-mail desa@cm-lisboa.pt.

Mina de Água Teresa Saldanha e Sousa © Pedro Cuiça (2009)

[fotografia topo: Rui Marques/Mina de Água Teresa Saldanha e Sousa © Pedro Cuiça (2009)]

13/02/2009

Parabéns Martel

E visto que estamos em “maré” de comemorações, não devemos esquecer que no presente ano também se comemora o nascimento daquele que é considerado o pai da espeleologia: Édouard-Alfred Martel. De facto, este grande pioneiro da exploração e estudo das cavernas nasceu em Pontoise (França) no dia 1 de Julho de 1859, há 150 anos. Martel visitou milhares de grutas no seu país e muitas outras no estrangeiro, incluindo Portugal. Donc, félicitations Monsieur Martel...

A Evolução de Darwin

A exposição A Evolução de Darwin encontra-se aberta ao público, na Fundação Calouste Gulbenkian, desde ontem (dia 12 de Fevereiro) até dia 24 de Maio de 2009. O evento integra-se nas comemorações do bicentenário do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação de A Origem das Espécies.
A Evolução de Darwin trata-se de uma exposição sobre a história das concepções acerca da evolução das espécies desde o século XVIII até aos nossos dias. “A partir de uma recriação da viagem do Beagle, percebemos como Charles Darwin chegou à teoria da Evolução por Selecção Natural e convenceu o mundo de que todas as espécies evoluíram a partir de um ancestral comum.
Esta é sem dúvida uma das melhores exposições a nível mundial sobre Darwin e a evolução; uma iniciativa a não perder. Para mais informações, consulte a Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian (aberta de terça a domingo das 10.00 às 18.00), o site da exposição ou utilize o telefone 217 823 523.


Outra iniciativa, que decorre em paralelo com a referida exposição, trata-se do Ciclo de Conferências A Evolução de Darwin que se inicia hoje, com a palestra À Descoberta da Árvore da Vida, apresentada por Niles Eldredge (do American Museum of Natural History de Nova Iorque), e se estende até Maio do presente ano. O programa do ciclo de converências também pode ser consultado no site da Fundação Calouste Gulbenkian.

Genoma dos neandertais


Svante Pääbo, director do departamento de Antropologia Genética do Instituto Max Planck, anunciou oficialmente, ontem (dia 12 de Fevereiro), no congresso da Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Chicago (USA), que a sua equipa conseguiu fazer aquilo que andava há anos a tentar: ler o genoma dos neandertais, “esses homens das cavernas que viveram na Europa e partes da Ásia ao mesmo tempo que os primeiros Homo sapiens sapiens (os nossos avós) – e que se extinguiram, ninguém sabe porquê, há 30 mil anos”.
Os antropólogos e geneticistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, e da firma 454 Life Sciences Corp., uma filial do grupo suíço Roche especialista nas técnicas de sequenciação genética, sedeado nos Estados Unidos, sequenciaram mais de três mil milhões de pares base de ADN extraídos de ossos sub-fósseis de três neandertais, provenientes da Gruta de Vindija (Croácia). Para o conseguir, desenvolveram métodos específicos e utilizaram novas técnicas elaboradas especialmente para este projecto de modo a ter a certeza de que estavam realmente a sequenciar o genoma dos neandertais – e não o dos microorganismos que tenham colonizado os ossos, nem o dos próprios técnicos que fizeram a sequenciação. Os humanos actuais e os neandertais partilham entre 99.5 e 99.9 por cento do ADN.
O primeiro “esboço” do genoma dos neandertais ontem apresentado corresponde a cerca de 60 por cento da totalidade do património genético dos neandertais. O trabalho não acabou, mas já revelou novidades. Uma delas, anunciada por Pääbo à BBC News, é que, segundo os resultados preliminares, “não há razão para não terem falado como nós”. Os neandertais tinham a mesma variante que nós de um gene chamado FOXP2, que está associado à linguagem e à fala – ao passo que, por exemplo, os chimpanzés não partilham essa variante do gene. Mas a questão principal que se coloca é a de saber se os neandertais se terão ou não cruzado com os Homo sapiens sapiens.
A sequenciação deste genoma fóssil deverá ajudar a identificar as alterações genéticas que permitiram que os humanos saíssem de África, há 100 mil anos, e se espalhassem pelo mundo. Mas há um enigma que Pääbo não acredita que vá ser resolvido pelos genes: o da extinção dos neandertais. “Não me parece que tenha sido devido ao seu genoma,” disse. “Teve claramente a ver com o ambiente ou com os humanos modernos.

Crânio de Homo neanderthalensis descoberto, em 1908, na gruta de la Chapelle-aux-Saints (França).

12/02/2009

XX Jornadas SEDECK



As XX Jornadas Científicas da SEDECK - Sociedad Española de Espeleologia y Ciências del Karst realizam-se, de 3 a 5 de Abril, em Lekunberri (Navarra).




Programa em castelhano e em basco

"Viernes 3 de Abril / Apirilak 3 Ostirala
20:00h. Recepción en el Hotel Ayestarán (Lekunberri) / Harrera Ayestaran Hotelean

Sábado 4 de Abril / Apirilak 4 Larunbata
9:00h. Entrega de documentación / Dokumentazio banaketa.
9:15h. Bienvenida y presentación de las Jornadas / Ongi etorria eta Jardunaldien aurkezpena. Ana Isabel Ortega (Presidenta de la SEDECK / SEDECKeko Lehendakaria)
Eneko Agirre (Gerente Cuevas de Astitz S.L. / Astitzko Kobak S.M.-ko Gerentea)
9:30h. El contexto geológico de la cueva de Mendukilo: la Sierra de Aralar / Mendukiloko kobaren testuinguru geologikoa: Aralarko Mendizerra. Mª Isabel Millán (Dpto. de Estratigrafía y Paleontología, Facultad de Ciencia y Tecnología UPV / EHUko Zientzia eta Tecnología Fakultateko, Estratigrafia eta Paleontologia Departamentua)
10:10h. Exploraciones Subterráneas en el Aralar Navarro / Lur azpiko esplorazioak Nafarroa aldeko Aralarren. Grupo Espeleológico Satorrak / Satorrak Espeleologi Taldea
10:50h. Quirópteros de la Sierra de Aralar / Aralar Mendizerrako kiropteroak. Juan Tomas Alcalde (Biólogo especialista en quirópteros / kiropteroetan espezializaturiko Biologoa) 11:30h. Pausa-Café / Geldialdia – kafea
12:00h. El yacimiento de oso de las cavernas (Ursus spelaeus Ros.-Hein.) de la cueva de Amutxate (Aralar-Navarra) / Amutxate leizeko kobazuloetako hartzen (Ursus spelaeus Ros.-Hein.) aztarnategia (Aralar-Nafarroa). Trinidad de Torres, José Eugenio Ortiz (Dpto. de Ingeniería Geológica. E.T.S.I. Minas. Universidad Politécnica de Madrid / Madrideko Unibertsitate Politeknikoko Ingenieritza Geologikoko Departamentua).
12:40h. Tres años de estudios microclimáticos en la Cueva de Mendukilo – Navarra / Hiru urtetako ikerketa mikroklimatikoak Mendukiloko leizean – Nafarroa. Vladimir Otero Collazo, Jabier Les Ortiz de Pinedo, Rakel Malanda Ruiz (Sociedad de Ciencias Espeleológicas Alfonso Antxía / Alfonso Antxia Zientzia Espeleologikoen Elkartea)
13:20h. Hidroquímica y Microbiología en la Cueva de Mendukilo / Mendukiloko leizearen Hidrokimika eta Mikrobiologia. Nagore Irazábal (Sociedad de Ciencias Espeleológicas Alfonso Antxía / Alfonso Antxia Zientzia Espeleologikoen Elkartea)
14:00h Pausa - Comida / Geldialdia - Bazkaria
16:00h Visita guiada a la Cueva de Mendukilo / Mendukiloko leizera bisita gidatua 18:00h Cueva de Mendukilo: de establo de montaña a cueva turística, laboratorio subterráneo y aula de educación ambiental. Eneko Agirre (Biólogo y Gerente Cuevas de Astitz S.L. / Astitzko Kobak S.M.-ko Gerentea eta Biologoa)
18:40h Debate – Mesa redonda / Mahai ingurua – Eztabaida.
20:30h Cena en la sidrería Martintxonea / Afaria Martintxonea Sagardotegian.

Domingo 5 de Abril / Apirilak 5 Igandea
10:00h Excursión al nacedero de Aitzarrateta y la sima de Lezegalde (actividad espeleológica)/ Aitzarratetako iturburura irteera, Lezegaldeko leize edo osina ikuskatuz (jarduera espeleologikoa)."

Para mais informações, consulte o site da SEDECK.

Bicentenário de Darwin


Charles Darwin nasceu precisamente há 200 anos (no dia 12 de Fevereiro de 1809) e este famoso naturalista inglês publicou o seu não menos famoso livro A Origem das Espécies há 150 anos.
Depois de uma infância durante a qual terá preferido a “vida campestre” e coleccionar "bichos" em vez da escola (consta que terá sido um aluno medíocre!), Darwin entrou para o curso de Medicina, em 1825, mas saiu pouco depois desgostoso com as autópsias e as cirurgias. Após essa primeira experiência académica foi estudar teologia para Cambridge e foi aí que conheceu John Henslow, que acabaria por ser decisivo na sua carreira de naturalista.
Quando embarcou, em 1831, no navio HMS Beagle, para uma viagem científica à volta do mundo Charles Darwin não imaginava que isso iria mudar radicalmente o curso da sua vida e, muito menos, intuir a revolução que daí resultaria no domínio das Ciências da Terra e da Vida. A sua influência, como não poderia deixar de ser, também atingiu a espeleologia...



No dia em que se comemora o bicentenário do nascimento de Charles Darwin vão ser lançados vários livros e organizados diversos eventos sobre esse naturalista inglês. O Pavilhão do Conhecimento, na Expo (Lisboa), assinala a data, hoje às 10.30 a.m., colocando em prática a receita do bolo preferido de Darwin. A receita, da autoria da sua mulher, Emma Darwin, foi optimizada para que o bolo pudesse ser levado para o campo sem se desfazer.
Quem tem Medo de Charles Darwin? É o tema da primeira sessão do 4º Ciclo de Conversas na Aldeia Global que começa hoje, às 21.30, na Biblioteca Municipal de Oeiras. A Fundação Calouste Gulbenkian associa-se às homenagens com a exposição A Evolução de Darwin, inaugurada também no dia hoje. Henriqueta, a Tartaruga de Darwin é o livro de José Jorge Letria, lançado hoje, que dá a conhecer às crianças a vida do autor de A Origem das Espécies, pela voz de uma tartaruga centenária das Ilhas Galápagos.
As iniciativas ocorrem um pouco por todo o país...

Material individual

Quando é organizada uma saída de campo confrontamo-nos recorrentemente com a frase “os participantes deverão possuir material individual” ou algo de semelhante! No entanto, não é raro surgirem praticantes com material diferente daquele que é aconselhado/tipificado ou, então, é o recomendado mas empregue de forma menos correcta… Acerca deste tema será interessante consultar o artigo de Sergio García-Dils de la Vega, Director da Escola Espanhola de Espeleologia e membro da Cavex Team, sobre “Equipo personal de progresión vertical del espeleólogo”, publicado na revista Subterrânea nº 29, onde se analisa a problemática do material individual e se faz referência a erros frequentes.

[Fonte: blog do EC/DC; fotografia: Sergio García-Dils de la Vega © Pedro Cuiça (Cantábria, 2007)]

Arrábida

O carso da Arrábida
Dar novos mundos ao mundo

Cordilheira da Arrábida © Pedro Cuiça (1996)

A espeleologia, ciência-desporto que estuda as cavernas, encerra uma componente rara nos dias de hoje: a descoberta. Com efeito, ainda é possível ter a imensa alegria de descobrir novas cavidades, salas de grande beleza ou galerias inexploradas. O Carso da Arrábida não é excepção e o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) assim o tem demonstrado. A descoberta de grutas na Cadeia da Arrábida tem sido frequente. Salientam-se, entre outras, a Garganta do Cabo, Gande Falha, Lapa das Conchas, Lapa das Areias, Lapa Verde, Gruta do Vale da Figueira Brava, Algar da Cobra e Lapa do Mosquito. Aliás, a geomorfologia cársica, o predomínio da drenagem subterrânea e a rica toponímia da região (Calhau da Cova, Cova da Mijona, Cova da Raposa, Praia da Cova, etc.) sugerem a existência de inúmeras formas endocársicas. As grutas são cavidades naturais de dimensões e morfologia variáveis que se formam geralmente por acção das águas de escorrência, em diversas rochas. Desde túneis de lava às grutas de gelo, até às cavernas em rochas graníticas, gessíferas ou areníticas, existe uma ampla variedade de tipos de cavidades. No entanto, as rochas carbonatadas (calcários, dolomias, etc.) são, por excelência, o meio onde as cavernas expressam o seumaior desenvolvimento, complexidade e abundância. As características físico-químicas das rochas condicionam os processos erosivos (alteração e transporte) responsáveis pela génese da grande maioria das grutas. A solubilidade do carbonato de cálcio - sob a forma de bicarbonato de cálcio - em presença de águas com dióxido de carbono e/ou ácidos (normalmente orgânicos) em solução é uma propriedade das rochas carbonatadas que explica o relevo peculiar associado a essas litologias: a geomorfologia cársica. Aqui reside a diferença fundamental entre um calcário relativamente puro (rico em carbonato de cálcio) e um granito ou mesmo um arenito de cimento carbonatado. Em condições favoráveis, a arenização de rochas graníticas, por alteração dos feldspatos (minerais constituintes dessas rochas), poderá originar depressões pseudocársicas (“dolinas” e “uvalas”) e formas lapiáres menores (caneluras, escudelas de dissolução, etc.). No entanto, as rochas cuja meteorização (ou alteração) produz um resíduo sólido considerável apresentam as fracturas colmatadas com tendência para a impermeabilização do terreno e consequente domínio da escorrência superficial.
Pelo contrário, nas rochas carbonatadas, em que os resíduos de descalcificação representam uma pequena quantidade do volume total de rocha dissolvida, ocorre um alargamento das fracturas (diáclases, falhas e/ou juntas de estratificação) com consequente aumento da permeabilidade e drenagem subterrânea (ou criptorreica). Constatamos, pois, que a litologia desempenha um papel primordial quando se procede à prospecção de uma determinada região. Na Cadeia da Arrábida, os calcários cristalinos do Lusitaniano e/ou as dolomias cristalinas com intercalações de calcário do Bajociano serão as litologias onde, potencialmente, poderão surgir um maior número de cavidades ou as de maior desenvolvimento. Será igualmente de destacar que à morfologia cársica sobrepõe-se a morfologia costeira, responsável pela formação de diversas furnas: Lapa do Bugio, Lapa do Piolho ou da Furada, Lapa do Fumo, etc.. As arribas sobranceiras ao litoral, franjadas de baías fechadas por alterosos promontórios, constituem locais preferenciais para a descoberta de cavernas. A prospecção e descoberta de cavidades são fundamentais para a inventariação do património espeleológico de uma região. Património que urge conhecer para preservar. O Museu Nacional de História Natural (MNHN) tem vindo a conceber e propor um grande projecto à escala nacional de musealização in situ de ocorrências passíveis de serem consideradas monumentos naturais ao abrigo da legislação em vigor (Dec.-Lei nº 19/23, de 23 de Janeiro). As grutas, testemunhos do percurso histórico do nosso planeta, constituem, sem dúvida, geomonumentos que deverão ser preservados. Mas, para a sua efectiva protecção, antes de mais, será necessário saber quantas são, onde se situam e quais as suas características. Sem esse trabalho apenas se poderão efectuar intervenções pontuais, como será o infeliz exemplo da Gruta do Zambujal. Dar novos mundos ao mundo será, pois, uma tarefa de grande importância. Para que não se repitam os erros do passado!

Pedro Cuiça
in Maravilhas Subterrâneas da Costa Azul
(Núcleo de Espeleologia da Costa Azul, 1998, pp. 18-19)