30/01/2009

Críticos e Simplórios

O American Way of Science

É comum ver hoje designadas as nossas sociedades como “sociedades do conhecimento”. A produção e a difusão de saber científico são aspectos-chave do funcionamento deste tipo de sociedades, o que confere às suas comunidades científicas um papel estratégico. É por isso que, com regularidade, os governos reafirmam ritualmente o seu investimento na sociedade do conhecimento em geral (…). Ora, a Fundação para a Ciência e Tecnologia tornou públicas, no final do ano passado, as classificações dos centros de investigação que financia.
(…)
As investigações norte-americana e inglesa têm vindo a adquirir progressiva influência no sistema científico internacional, convertendo-se numa verdadeira dominação. (…) No caso vertente, elas ditam aquilo que deve ser investigado, o formato em que devem decorrer os certames de especialistas, em que órgãos da comunicação da ciência devem ser publicados os resultados e em que língua os investigadores devem expressar-se (…)
Para os avaliadores da FCT, não conta publicar um artigo numa revista brasileira ou espanhola? E polaca ou grega? Os polacos ou os gregos não conseguem fazer uma revista científica que valha pontos? Quando fazemos investigação solicitada e financiada por instituições portuguesas, devemos escrever os relatórios em inglês? E, se a problemática for pouco interessante para os norte-americanos, por razões da nossa especificidade sociocultural, não podendo publicá-las nesses países, esta investigação não vale pontos? Publicá-la aqui não serve para nada? Então a produção de saber não deve ser utilizada pela comunidade a que diz respeito? Não visa agir na nossa realidade próxima? E, se publicar aqui não vale nada, como pode algum dia chegar-se a ter uma boa revista científica? (…)
Que fazemos do pensamento crítico, que devíamos ter tão treinado?
Como somos tão complexos e críticos para umas coisas e tão simplórios e amorfos para outras? (…)



P.S.: Recebi este artigo, da autoria do investigador Luís Fernandes, que foi publicado no jornal Público (in Opinião, de 27/01/2009), através de e-mail enviado por um amigo, também ele investigador. O primeiro é investigador na área das ciências sociais e humanas, o segundo na área das ciências da Terra e da vida. Não resisti a colocar no Spelaion alguns trechos do artigo em causa. Numa sociedade dita “do conhecimento” antes de mais estará subjacente o acto de conhecer… Ou não será assim? :)

Diletâncias diurnas!


Quiro-pro-tec-ção

Conservação da Natureza
A noite dos morcegos

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 303, 3 de Outubro de 2000]

As populações de morcegos diminuíram nas últimas décadas e algumas espécies enfrentam a ameaça de extinção. A “Noite Europeia dos Morcegos” decorreu no castelo de S. Jorge, com o objectivo de promover a conservação desses mamíferos voadores.

© DR

A “Noite Europeia dos Morcegos” decorreu, nos dias 22 e 23 de Setembro, no Castelo de S. Jorge, em Lisboa. A iniciativa, que visou a sensibilização dos cidadãos para a situação critica em que se encontram várias espécies de morcegos, foi organizada pelo Instituto de Conservação da Natureza e pela Associação dos Tempos Livres de Lisboa. O evento contou com a participação da Associação de Espeleólogos de Sintra, do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul e do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens.
A ameaça de extinção de algumas espécies de morcegos levou à criação do “Acordo sobre a Conservação dos Morcegos da Europa”. Acordo que Portugal aprovou e passou a aplicar através do Decreto-Lei nº 31/95, de 18 de Agosto. A “Noite Europeia dos Morcegos” resultou desse acordo e já se realiza desde 1997 em diversos países. Os países da Europa Central e de Leste foram os primeiros a aderir, mas o alargamento aos restantes países do acordo verificou-se no ano passado. Portugal não participou nessa iniciativa mas, este ano, foram organizados dois eventos distintos: em Viana do Castelo (5 de Junho) e em Lisboa (22 e 23 de Setembro).

Morcegos no castelo
A “Noite Europeia dos Morcegos”, no Castelo de S. Jorge, foi animada por diversas iniciativas com vista à conservação dos quirópteros (os morcegos). O dia de sexta-feira foi dedicado fundamentalmente às turmas do ensino pré-primário, do 1º ciclo e ATL. As actividades de sábado foram dirigidas essencialmente às crianças, mas a participação esteve aberta a todos os visitantes. Estes puderam participar num pedipaper, assistir à passagem de diapositivos sobre morcegos, ver uma exposição de trabalhos preparados por alunos ou conhecer o atelier “Grutas dos Morcegos” (com a exploração de duas grutas artificiais). Foi possível ainda participar numa sessão de detecção de morcegos, utilizando conversores de ultra-sons.
Nas últimas décadas tem-se assistido, especialmente na Europa, a um declínio das populações de algumas das espécies de morcegos, especialmente na Europa. Das 24 espécies de morcegos presentes em Portugal continental, nove estão em perigo de extinção.


© Pedro Cuiça

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Perturbação dos morcegos
A situação de ameaça de extinção em que se encontram diversas espécies de morcegos europeias torna imperativa a defesa das suas colónias. A perturbação antrópica das colónias de morcegos cavernícolas é apontada como sendo um dos factores mais importantes de declínio.
O desaparecimento de uma colónia provoca consequências difíceis de avaliar nos ecossistemas da região e das próprias grutas, onde se poderá verificar o colapso da comunidade de invertebrados cavernícolas. O guano que se acumula no interior das cavernas é o suporte de uma fauna particular.
A fim de proteger as populações de morcegos, será necessário regulamentar o acesso de pessoas às grutas onde se localizam as mais importantes colónias. A conservação das populações de quirópteros terá de passar pela consciencialização e sensibilização das pessoas para a importância da conservação desses peculiares animais. Não visitar ou explorar grutas-abrigo de morcegos na época de hibernação (Novembro a Março) ou de criação (Março a Maio) será um bom começo.

29/01/2009

Propriedades de Titan

O fabricante de cordas espanhol Korda’s colocou um pequeno filme no You Tube sobre o sistema Titan. Este é muito mais do que um simples acabamento, trata-se de um novo sistema de fabrico devidamente testado e patenteado. Até agora as cordas utilizadas em espeleologia, canyoning, montanhismo ou escalada eram constituídas por camisa e alma, daí serem designadas internacionalmente por “kernmantle” (de kern: alma e mantle: camisa).
O sistema Titan incorpora uma terceira estrutura constituída por uma série de fios paralelos ao eixo da corda e no interior da estrutura da camisa. Estrutura responsável pelo maior desempenho dessas cordas face às tradicionais...

Escola de Altamira


Os documentos da vida pré-histórica, dia a dia acumulados pela investigação dos arqueólogos, vagamente anunciam o que de maior podia surgir na história do espírito, os apogeus da alma, a ascese do homem para o absoluto, para a unidade, para a eterna perfeição. Esses documentos não diziam tudo: a eloquência da escola de Altamira, dos magos pintores que ornamentam “a Capela Sistina da arte quaternária”, a lógica monumental dos arquitectos dos dólmenes e dos cromeleques, dos menires não dizia tudo da energética que animava os nossos longínquos antepassados. Era preciso recolher fórmulas vivas, bem existentes que ajudassem a abrir e a ler melhor as páginas de duplo sentido, os hieroglíficos dizeres dos pintores e canteiros que desapareceram com o seu segredo, o seu possível e rudimentaríssimo esoterismo, mágico e religioso.

AArão de Lacerda
in O Fenómeno Religioso e a Simbólica (1924)
Guimarães Editores (1998)

IV EuroSpeleo Forum


O quarto EuroSpeleo Forum, Icnussa 2009, vai decorrer, de 24 de Abril a 3 de Maio, em Urzulei (Sardenha - Itália); uma iniciativa no âmbito da Federação Europeia de Espeleologia (European Speleological Federation – ESF).

Grutas vulcânicas

Algar do Carvão © Os Montanheiros

Vulcano-espeleologia
Visita à Terceira subterrânea


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 295, 8 de Agosto de 2000]

O desenvolvimento da espeleologia nos Açores e a exploração do Algar do Carvão estão profundamente associados. A Forum Ambiente visitou o “mundo subterrâneo” da ilha Terceira, que agora dispõe também da Gruta do Natal e da Furna da Água.

Furna da Água (Terceira, Açores) @ Anabela Trindade (1995)

As cavidades vulcânicas dos Açores constituem um património natural de inegável valor. Um património que urge conhecer e preservar. O Algar do Carvão, a cavidade mais visitada no arquipélago, foi a primeira a revelar a sua beleza ao público. Mas, existem outras cavidades de grande interesse, algumas também passíveis de serem visitadas. A ilha Terceira, para além do Algar do Carvão, conta agora com a Gruta do Natal e a Furna da Água.
A Forum Ambiente visitou o “mundo subterrâneo” da ilha Terceira e constatou a importância do mesmo. Descer às profundezas da Terra é conhecer um pouco da história da Terra e da vida. Uma visita diferente às paisagens subterrâneas dessas ilhas atlânticas.

Um algar chamado “Carvão”
A vulcano-espeleologia surgiu no arquipélago dos Açores nos finais do século passado e encontra-se estreitamente ligada ao Algar do Carvão. Uma chaminé vulcânica, que se desenvolve sob dois cones de escórias (bagacina), associada ao Complexo Vulcânico do Pico Alto (Terceira). O algar situa-se na Caldeira de Guilherme Moniz, a cerca de 1300 metros do Tentadero de Santo Antão e a 14 quilómetros de Angra do Heroísmo.
O Algar do Carvão inicia-se num troço sub-vertical de 45 metros de altura que dá acesso a três salas de dimensões consideráveis. Na zona mais afastada da entrada, a cerca de 90 metros de profundidade, encontra-se um pequeno lago alimentado pelas águas de infiltração.
A exploração do Algar do Carvão remonta ao dia 26 de Janeiro de 1893 e deve-se a Cândido Corvelo e José Luís Sequeira. Didier Couto efectuou a segunda descida, em 1934, tendo elaborado o primeiro esboço (um perfil) da cavidade. Mas a primeira topografia do Algar do Carvão deve-se a Montserrat e Romero (1983).

Algar do Carvão © Os Montanheiros

“Os Montanheiros” desceram ao Algar do Carvão, em Agosto de 1963 (ano da sua fundação), sob a direcção de Américo Lemos. As obras de abertura do túnel de acesso à cavidade decorreram de 28 de Maio de 1965 a 28 de Novembro de 1966. A primeira escadaria no interior do algar foi instalada em 1968. No final desse ano (a 1 de Dezembro) verificou-se a abertura ao público. Na década de 70 foi instalada luz eléctrica (1970), construída a actual escadaria (1977) e a casa-abrigo (1978). O Algar do Carvão foi classificado, em 1987, como Reserva Natural Geológica (Decreto Legislativo Regional nº 13/87/A). Na reserva, definida pela linha que dista 100 metros da base dos cones onde se abre o algar, são proibidas quaisquer alterações no terreno, fauna ou flora.
A Gruta do Natal, um túnel de lava com cerca de 697 metros de desenvolvimento total, foi aberta ao público, também pela associação “Os Montanheiros”, no dia 1 de Dezembro de 1998. A cavidade, devidamente acondicionada e com instalações de apoio, localiza-se na Reserva Florestal Natural da Serra de Santa Bárbara e Mistérios Negros.
A Furna da Água situa-se no lado oeste da Caldeira de Guilherme Moniz, entre o Pico Espigão Barreiro e o Pico da Cruz, próximo da lagoa artificial do Cabrito. Trata-se também de um túnel de lava, com cerca de 560 metros de desenvolvimento, incluindo os túneis abertos pelo Homem. Calcula-se que a extensão original fosse de 458 metros. As visitas devem ser solicitadas aos serviços municipalizados da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.
A Gruta do Natal e a Furna da Água apresentam características muito diferentes das do Algar do Carvão, complementando, por isso, o conhecimento do “mundo subterrâneo” em terrenos vulcânicos. Visitar o Algar do Carvão e a Gruta do Natal ou a Furna da Água representa uma lição ímpar sobre o património espeleológico açoriano.

Algar do Carvão © Os Montanheiros

28/01/2009

Mustierense em Ceuta

Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Um grupo de investigadores da Universidade de Cádis (Espanha) localizou várias peças mustierenses, com idade superior a 200 mil anos, durante uma escavação numa gruta em Ceuta, junto da fronteira com Marrocos. As peças incrustadas em rocha permitiram determinar a presença de populações humanas da cultura mustierense nessa zona do Norte de África. Os vestígios da presença humana surgiram quando foi escavado um dos estratos mais baixos (i.e., mais antigos) da referida gruta.
O achado ocorreu uns dias depois do Governo de Ceuta ter anunciado um apoio no valor de 45 mil euros para a Universidade de Cádis continuar os trabalhos na gruta. Esse apoio irá permitir prosseguir os trabalhos iniciados em Setembro de 2008, tal como adquirir novo material especializado para os trabalhos em curso na cavidade, recentemente declarada Bem de Interesse Cultural (Bien de Interés Cultural - BIC). A gruta, conhecida como “La Cabililla”, foi descoberta em 2001 e desde 2002 que tem sido alvo de campanhas anuais de escavações arqueológicas.
Os primeiros testemunhos da presença humana em Ceuta, localizados no abrigo de Benzú, remontam a cerca de 270 mil anos. Trata-se de um abrigo ocupado ocasionalmente por comunidades de caçadores-recolectores. A escassos metros do abrigo encontra-se uma gruta utilizada por grupos neolíticos durante o sexto milénio antes de Cristo.
As investigações que se desenvolveram em Benzú e, agora, em La Cabililla abrem novas perspectivas no estudo dos contactos entre as populações de ambas as margens do Estreito de Gilbraltar...

Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)
Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)
Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Uma Lisboa desconhecida

Alguns subterrâneos de Lisboa vão estar acessíveis ao público durante o presente ano, no âmbito de um acordo estabelecido entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Empresa Portuguesa das Águas Livre (EPAL). A notícia foi veicula, em Outubro de 2008, numa conferência de imprensa na qual o vereador do pelouro do Ambiente e Espaços Verdes, José Sá Fernandes, revelou o desiderato de estabelecer um protocolo com esse objectivo: “Estamos a completar o protocolo e espero que daqui a um ano, senão antes, todos os subterrâneos entre o Príncipe Real e o Largo do Teatro de São Carlos sejam visitáveis”.
O protocolo em causa foi assinado, no passado dia 15 de Janeiro, no Reservatório da EPAL das Amoreiras, tal como outros quatro acordos de cooperação com vista à dinamização patrimonial da cidade. Presentes na cerimónia estiveram o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, e o presidente da EPAL, João Fidalgo, representando as duas instituições, tal como o vereador do Ambiente e Espaços Verdes, Sá Fernandes.
Os acordos de cooperação entre a CML e a EPAL consistem na abertura de diversos espaços públicos, que têm até agora estado encerrados e sob a gestão da EPAL, ao mesmo tempo que se procede à sua requalificação. António Costa salientou que a assinatura destes protocolos resultou da estreita colaboração entre as duas entidades, com o objectivo de dar a conhecer ao público uma Lisboa desconhecida, “por estar fechada entre muros, por se tratar de espaços subterrâneos ou porque, estando à vista, não têm visibilidade”. A iniciativa prevê a abertura ao público de dois percursos subterrâneos: Patriarcal (no Principe Real)-Chafariz do Vinho e Patriarcal-Largo do Teatro de São Carlos, respectivamente.

Espeleo-mergulho

Espeleologia
Explorar o mundo submerso


[FORA DE PORTAS ●jornal Forum Ambiente nº 293, 25 de Julho de 2000]

As Jornadas Técnicas de Espeleo-Mergulho, que decorreram no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, contaram com a presença de participantes de vários países.

© Piotr Gajek (2000)

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) acolheu, nos dias 18 a 24 de Junho, um encontro internacional de espeleo-mergulho, que reuniu portugueses, franceses, um inglês e um polaco (residente em Portugal). As Jornadas Técnicas de Espeleo-Mergulho, inseridas no Projecto da Bacia do Alviela, foram organizadas pela Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), com o apoio da Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas (FPAS) e o patrocínio do PNSAC, Empresa das Águas Livres (EPAL) e Câmara Municipal de Alcanena (CMA). A coordenação técnica esteve a cargo da Fédération Française de Spéléologie (FFS) - Commission de la Plongée Souterraine (CPS). A organização teve ainda a colaboração da Oceanox e da Action Glob.
As jornadas contaram com a presença de quatro instrutores franceses de espeleo-mergulho, entre os quais o presidente da comissão francesa de espeleo-mergulho da FFS. Os “espeleonautas” acolheram-se na casa rural de Valverde, onde decorreram as sessões teórico-práticas matinais. À tarde realizaram-se sessões práticas nos Olhos de Água do Alviela, nomeadamente acerca das técnicas de progressão e estudo de cavidades molhadas.

Encontro de espeleo-mergulhadores
As Jornadas Técnicas de Espeleologia, segundo Piotr Gajek do Centro de Espeleo-Mergulho da SPE, pretenderam estimular a troca de experiências no sentido de tentar uniformizar regras, discutindo sempre se uma determinada maneira de fazer será ou não adequada em todos os locais ou condições. As jornadas foram pensadas como um curso (com respectivo manual), ministrado por quatro instrutores franceses e dois portugueses, cuja frequência com aproveitamento deu direito ao cartão Cave Diver CMAS (Confederação Mundial das Actividades Subaquáticas).
De manhã, abordaram-se variados aspectos do espeleo-mergulho, intercalados com pequenas sessões práticas em seco. Como “usar fio de ariane, usar carretos e qual a melhor maneira de equipar galerias subaquáticas, treinando de vez em quando com os olhos tapados para adaptar os participantes ao que pode acontecer sem luz dentro de uma gruta ou na situação de haver muito sedimento e a água ficar muito turva”.
No final das sessões teórico-práticas, os participantes preparavam o equipamento para, depois do almoço, agarrarem os sacos de material de espeleologia e de mergulho e irem praticar para o Alviela. A totalidade dos mergulhos foram efectuados no Alviela, com excepção de segunda-feira (dia 19 de Junho) em que os instrutores franceses foram (re)ver algumas grutas estremenhas.
As partes molhadas não podem ser exploradas da forma tadicional, através das técnicas usadas na designada “espeleologia seca”. Os pequenos sifões poderão ser ultrapasados através de técnicas de apneia, mas o espeleo-mergulho é que permite realmente explorar o património espeleológico submerso. Nos Olhos de Água do Alviela, mergulhadores franceses já desceram até 98 metros de profundidade, ao longo de cerca de um quilómetro de desenvolvimento, e “ainda não se conhece a zona onde o sifão começa a subir”.
Nas jornadas só foram admitidos mergulhadores consumados, com perfeito controlo da flutuabilidade (usando equipamento de diferentes configurações). As pessoas que pretendem iniciar-se no espeleo-mergulho precisam de possuir um bom nível no mergulho autónomo.
© Piotr Gajek (2000)

27/01/2009

Espeleologia Científica

As III Jornadas de Espeleologia Científica (Jornades d’Espeleologia Científica) realizam-se, de 2 a 5 de Julho de 2009, em Cueva El Soplao (Cantábria - Espanha). Para mais informações, consulte o folheto abaixo.


[Fonte: Espeleobloc]

Direitos das pedras

Conservar a Terra
Monumentos de Pedra


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 321, 6 de Fevereiro de 2001]

As rochas, as grutas ou as montanhas têm direitos? A legislação é omissa e o tema torna-se premente face à destruição dos testemunhos da história da Terra.

Cantábria © Pedro Cuiça (2007)

Portugal continental apresenta uma significativa “geodiversidade”, ou seja, é rico em geo-recursos culturais, sendo alguns de reconhecido valor supra-nacional (como o Cabo Mondego). Mas, as regiões autónomas da Madeira e dos Açores também apresentam testemunhos monumentais da história da Terra. No entanto, o património geológico encontra-se completamente desprotegido do ponto de vista legal, tanto no continente como nas ilhas.
Na legislação portuguesa os “geótopos” não têm qualquer existência formal, ao contrário do que acontece com os biótopos. O conceito de recurso geológico está contemplado, mas refere-se apenas a recursos económicos existentes na crusta terrestre: recursos hidrotermais ou geotérmicos, jazigos minerais ou água de nascente.
Os recursos geológicos de índole cultural, que são igualmente não renováveis e susceptíveis de aproveitamento económico, não são considerados. Particularmente vulneráveis por não serem abrangidos, nem na legislação ambiental, nem na legislação sobre exploração de recursos geológicos, os geo-recursos culturais estão à mercê da destruição, muitas vezes devido à ignorância ou à incúria, outras vezes intencionalmente, mas sempre de forma impune.
Ao contrário do que acontece com a arqueologia, em que é obrigatória a comunicação de achados e a autorização para escavação, não existem normas o tocante à paleontologia ou à mineralogia, importantes disciplinas da geologia em que se verificam recolhas de materiais um pouco por todo o país, sem qualquer impedimento legal. Enquanto o espólio arqueológico é propriedade do Estado, o património geológico é “de quem o apanhar”. A comunicação de achados geológicos, a autorização para recolha ou escavação, a posse ou venda de espécimes descobertos, nada está enquadrado por legislação específica. Esta é completamente omissa, deixando o caminho aberto à saída de espólio para o estrangeiro e/ou para colecções particulares. Deste modo, o património geológico fica empobrecido e a comunidade científica privada de peças porventura importantes para o conhecimento da heo-história.

Preservar para conservar
Os espaços naturais que não estão abrangidos por legislação específica, caso dos geomonumentos ou geo-recursos culturais (em que se inserem jazidas de pegadas de dinossáurios, afloramentos, túneis de lava, entre outros), necessitam de urgente enquadramento legal. Reivindicação que, não sendo nova, continua a aguardar melhores dias. Entretanto, já foram protegidas diversas ocorrências, ao abrigo da legislação existente. Conhecem-se pouco mais de uma dezena de “geótopos” com estatuto de protecção, enquadrados em diferentes figuras de classificação. A protecção efectiva, no terreno, tem-se revelado contudo frequentemente ineficaz.
Um problema tão importante quanto a falta de legislação específica prende-se precisamente com a conservação, valorização e dinamização das ocorrências. O controlo do uso e gestão correcta de geo-recursos culturais, baseado idealmente em legislação específica sobre a matéria, será uma importante medida a implementar, assim como se torna premente o conhecimento dos locais de interesse geológico em que é necessária uma rápida intervenção conservacionista.
Os investigadores são unânimes em defender a necessidade de legislação que enquadre o património geológico português. Os instrumentos legais actualmente em vigor sobre as áreas protegidas são demasiado vagos para abarcarem os testemunhos da história da Terra. A criação da figura de geomonumento ou geo-recurso cultural evitaria a necessidade de recorrer à insuficiente legislação existente. Os investigadores defendem igualmente que o património geológico deve ser alvo de urgente inventariação e classificação, assim como de uma adequada divulgação junto do público.