
AArão de Lacerda
in O Fenómeno Religioso e a Simbólica (1924)
Guimarães Editores (1998)
Um blogue sobre espeleosofia ● A blog about speleosophy


Algar do Carvão © Os Montanheiros
Furna da Água (Terceira, Açores) @ Anabela Trindade (1995)As cavidades vulcânicas dos Açores constituem um património natural de inegável valor. Um património que urge conhecer e preservar. O Algar do Carvão, a cavidade mais visitada no arquipélago, foi a primeira a revelar a sua beleza ao público. Mas, existem outras cavidades de grande interesse, algumas também passíveis de serem visitadas. A ilha Terceira, para além do Algar do Carvão, conta agora com a Gruta do Natal e a Furna da Água.
A Forum Ambiente visitou o “mundo subterrâneo” da ilha Terceira e constatou a importância do mesmo. Descer às profundezas da Terra é conhecer um pouco da história da Terra e da vida. Uma visita diferente às paisagens subterrâneas dessas ilhas atlânticas.
Um algar chamado “Carvão”
A vulcano-espeleologia surgiu no arquipélago dos Açores nos finais do século passado e encontra-se estreitamente ligada ao Algar do Carvão. Uma chaminé vulcânica, que se desenvolve sob dois cones de escórias (bagacina), associada ao Complexo Vulcânico do Pico Alto (Terceira). O algar situa-se na Caldeira de Guilherme Moniz, a cerca de 1300 metros do Tentadero de Santo Antão e a 14 quilómetros de Angra do Heroísmo.
O Algar do Carvão inicia-se num troço sub-vertical de 45 metros de altura que dá acesso a três salas de dimensões consideráveis. Na zona mais afastada da entrada, a cerca de 90 metros de profundidade, encontra-se um pequeno lago alimentado pelas águas de infiltração.
A exploração do Algar do Carvão remonta ao dia 26 de Janeiro de 1893 e deve-se a Cândido Corvelo e José Luís Sequeira. Didier Couto efectuou a segunda descida, em 1934, tendo elaborado o primeiro esboço (um perfil) da cavidade. Mas a primeira topografia do Algar do Carvão deve-se a Montserrat e Romero (1983).

Algar do Carvão © Os Montanheiros“Os Montanheiros” desceram ao Algar do Carvão, em Agosto de 1963 (ano da sua fundação), sob a direcção de Américo Lemos. As obras de abertura do túnel de acesso à cavidade decorreram de 28 de Maio de 1965 a 28 de Novembro de 1966. A primeira escadaria no interior do algar foi instalada em 1968. No final desse ano (a 1 de Dezembro) verificou-se a abertura ao público. Na década de 70 foi instalada luz eléctrica (1970), construída a actual escadaria (1977) e a casa-abrigo (1978). O Algar do Carvão foi classificado, em 1987, como Reserva Natural Geológica (Decreto Legislativo Regional nº 13/87/A). Na reserva, definida pela linha que dista 100 metros da base dos cones onde se abre o algar, são proibidas quaisquer alterações no terreno, fauna ou flora.
A Gruta do Natal, um túnel de lava com cerca de 697 metros de desenvolvimento total, foi aberta ao público, também pela associação “Os Montanheiros”, no dia 1 de Dezembro de 1998. A cavidade, devidamente acondicionada e com instalações de apoio, localiza-se na Reserva Florestal Natural da Serra de Santa Bárbara e Mistérios Negros.
A Furna da Água situa-se no lado oeste da Caldeira de Guilherme Moniz, entre o Pico Espigão Barreiro e o Pico da Cruz, próximo da lagoa artificial do Cabrito. Trata-se também de um túnel de lava, com cerca de 560 metros de desenvolvimento, incluindo os túneis abertos pelo Homem. Calcula-se que a extensão original fosse de 458 metros. As visitas devem ser solicitadas aos serviços municipalizados da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.
A Gruta do Natal e a Furna da Água apresentam características muito diferentes das do Algar do Carvão, complementando, por isso, o conhecimento do “mundo subterrâneo” em terrenos vulcânicos. Visitar o Algar do Carvão e a Gruta do Natal ou a Furna da Água representa uma lição ímpar sobre o património espeleológico açoriano.

Alguns subterrâneos de Lisboa vão estar acessíveis ao público durante o presente ano, no âmbito de um acordo estabelecido entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Empresa Portuguesa das Águas Livre (EPAL). A notícia foi veicula, em Outubro de 2008, numa conferência de imprensa na qual o vereador do pelouro do Ambiente e Espaços Verdes, José Sá Fernandes, revelou o desiderato de estabelecer um protocolo com esse objectivo: “Estamos a completar o protocolo e espero que daqui a um ano, senão antes, todos os subterrâneos entre o Príncipe Real e o Largo do Teatro de São Carlos sejam visitáveis”.
© Piotr Gajek (2000)






[Fonte: Espeleobloc]
Portugal continental apresenta uma significativa “geodiversidade”, ou seja, é rico em geo-recursos culturais, sendo alguns de reconhecido valor supra-nacional (como o Cabo Mondego). Mas, as regiões autónomas da Madeira e dos Açores também apresentam testemunhos monumentais da história da Terra. No entanto, o património geológico encontra-se completamente desprotegido do ponto de vista legal, tanto no continente como nas ilhas.
Na legislação portuguesa os “geótopos” não têm qualquer existência formal, ao contrário do que acontece com os biótopos. O conceito de recurso geológico está contemplado, mas refere-se apenas a recursos económicos existentes na crusta terrestre: recursos hidrotermais ou geotérmicos, jazigos minerais ou água de nascente.
Os recursos geológicos de índole cultural, que são igualmente não renováveis e susceptíveis de aproveitamento económico, não são considerados. Particularmente vulneráveis por não serem abrangidos, nem na legislação ambiental, nem na legislação sobre exploração de recursos geológicos, os geo-recursos culturais estão à mercê da destruição, muitas vezes devido à ignorância ou à incúria, outras vezes intencionalmente, mas sempre de forma impune.
Ao contrário do que acontece com a arqueologia, em que é obrigatória a comunicação de achados e a autorização para escavação, não existem normas o tocante à paleontologia ou à mineralogia, importantes disciplinas da geologia em que se verificam recolhas de materiais um pouco por todo o país, sem qualquer impedimento legal. Enquanto o espólio arqueológico é propriedade do Estado, o património geológico é “de quem o apanhar”. A comunicação de achados geológicos, a autorização para recolha ou escavação, a posse ou venda de espécimes descobertos, nada está enquadrado por legislação específica. Esta é completamente omissa, deixando o caminho aberto à saída de espólio para o estrangeiro e/ou para colecções particulares. Deste modo, o património geológico fica empobrecido e a comunidade científica privada de peças porventura importantes para o conhecimento da heo-história.
Preservar para conservar
Os espaços naturais que não estão abrangidos por legislação específica, caso dos geomonumentos ou geo-recursos culturais (em que se inserem jazidas de pegadas de dinossáurios, afloramentos, túneis de lava, entre outros), necessitam de urgente enquadramento legal. Reivindicação que, não sendo nova, continua a aguardar melhores dias. Entretanto, já foram protegidas diversas ocorrências, ao abrigo da legislação existente. Conhecem-se pouco mais de uma dezena de “geótopos” com estatuto de protecção, enquadrados em diferentes figuras de classificação. A protecção efectiva, no terreno, tem-se revelado contudo frequentemente ineficaz.
Um problema tão importante quanto a falta de legislação específica prende-se precisamente com a conservação, valorização e dinamização das ocorrências. O controlo do uso e gestão correcta de geo-recursos culturais, baseado idealmente em legislação específica sobre a matéria, será uma importante medida a implementar, assim como se torna premente o conhecimento dos locais de interesse geológico em que é necessária uma rápida intervenção conservacionista.
Os investigadores são unânimes em defender a necessidade de legislação que enquadre o património geológico português. Os instrumentos legais actualmente em vigor sobre as áreas protegidas são demasiado vagos para abarcarem os testemunhos da história da Terra. A criação da figura de geomonumento ou geo-recurso cultural evitaria a necessidade de recorrer à insuficiente legislação existente. Os investigadores defendem igualmente que o património geológico deve ser alvo de urgente inventariação e classificação, assim como de uma adequada divulgação junto do público.

A Câmara Municipal de Cascais efectuou, no dia 27 de Novembro de 2008, o lançamento da obra A utilização pré-histórica da gruta de Porto Covo (Cascais), da autoria do arqueólogo Victor S. Gonçalves. O livro sobre essa emblemática cavidade inicia uma nova colecção de edições municipais: Cascais - Tempos Antigos. Com esta colecção, a autarquia pretende incentivar a publicação e a divulgação de estudos monográficos sobre o passado remoto do concelho de Cascais. Na calha estão mais dois títulos, de que se destaca A ocupação pré-histórica das furnas de Poço Velho, também da autoria de Victor S. Gonçalves.
© Francisco RasteiroO Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) comemorou, no dia 24 de Outubro, o seu quarto aniversário. O Retiro dos Amigos, situado na Azóia, foi o local escolhido pelos espeleólogos sesimbrenses para reunir os sócios do núcleo, bem como alguns vereadores da Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), num jantar comemorativo, que contou com a presença de um bolo de aniversário alusivo ao evento em questão: quatro anos de espeleologia no Carso da Arrábida indiscutivelmente protagonizados pelo NECA. Após o jantar de confraternização, decorreu uma mostra de diapositivos na sede do NECA: a escola primária situada à entrada da povoação de Pedreiras, junto à Serra do Risco.
As comemorações continuaram a 30 e 31 de Outubro, com uma acção de limpeza na ribeira do Cavalo e no porto da Baleeira, acção levada a cabo com o apoio da CMS e aberta a todos aqueles que desejam uma Arrábida mais limpa.
Em defesa da Arrábida
O NECA surgiu de uma visita de amigos, realizada em 1994, à Gruta do Zambujal, a então "pérola da espeleologia a sul do Tejo”, considerada Sítio Classificado de Interesse Espeleológico (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). O avançado estado de degradação em que se encontrava (e se encontra) a cavidade despertou o interesse desses jovens pela defesa do mundo subterrâneo da Arrábida. Daí à fundação do NECA foi um passo. Francisco Rasteiro, João Luz (o “Catola”), Carlos Sirgado, Paulo Marques, Hugo Páscoa e Cândido Guerra, alguns dos sócios fundadores, iniciaram um projecto que comemora agora quatro anos de plena existência. Existência que passou pela denúncia da actividade extractiva junto da Serra do Risco e da arriba mais alta da Europa continental, pelo alerta face ao estado da Gruta do Zambujal, o entulhamento do Algar dos Oliveira após trabalhos de desobstrução, as escavações ilegais na Lapa do Fumo, entre outros “cavalos de batalha”. Mas nem tudo foram críticas…
O NECA também organizou ou participou em diversas acções de limpeza da Arrábida, assim como em acções de educação ambiental e sensibilização dos mais jovens para a conservação do meio subterrâneo têm sido, aliás, as grandes apostas do NECA. Quer no que respeita à conservação da Gruta do Zambujal, em particular, quer à defesa de outros locais de interesse espeleológico. O lançamento do livro e a exposição “Marvilhas Subterrâneas da Costa Azul”, em Agosto de 98, são apenas um exemplo do trabalho desenvolvido.
Além disso, o NECA tem descoberto diversas cavidades. Geralmente são cavidades de pequenas dimensões e pouco concrecionadas, mas a última descoberta dos espeleólogos sesimbrenses foi verdadeiramente excepcional. Se a Gruta do Zambujal era a “pérola da espeleologia a sul do Tejo”, a cavidade agora descoberta é um autêntico tesouro. Tesouro que augura muitos e mais anos devotados à espeleologia.
Parabéns ao NECA e que conte muitos mais anos em prol da descoberta e defesa do Carso da Arrábida.
P.S.: Estamos em 2009, dez anos passados sobre a publicação do artigo acima, e o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) continua a desenvolver iniciativas em prol do conhecimento e defesa do carso e grutas da Arrábida.
O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) tem acompanhado de perto a evolução do Sítio Classificado da Gruta do Zambujal desde a interrupção dos trabalhos de encerramento da cavidade. Acompanhamento que gerou os alertas lançados ao Parque Natural da Arrábida (PNA) e à Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), em cartas datadas de 11 de Setembro e 7 de Novembro, “para os últimos actos de vandalismo no interior da Gruta do Zambujal”.
O Núcleo de Espeleologia da Universidade de Aveiro (NEUA) promove, durante o presente ano, um ciclo de conferências intitulado “Descoberta das Profundezas”. Este evento, que conta com o apoio do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, pretende “divulgar as diferentes vertentes científicas e exploratórias das profundezas, contando com diversos cientistas e espeleólogos”.
O Spelaion