29/01/2009

Escola de Altamira


Os documentos da vida pré-histórica, dia a dia acumulados pela investigação dos arqueólogos, vagamente anunciam o que de maior podia surgir na história do espírito, os apogeus da alma, a ascese do homem para o absoluto, para a unidade, para a eterna perfeição. Esses documentos não diziam tudo: a eloquência da escola de Altamira, dos magos pintores que ornamentam “a Capela Sistina da arte quaternária”, a lógica monumental dos arquitectos dos dólmenes e dos cromeleques, dos menires não dizia tudo da energética que animava os nossos longínquos antepassados. Era preciso recolher fórmulas vivas, bem existentes que ajudassem a abrir e a ler melhor as páginas de duplo sentido, os hieroglíficos dizeres dos pintores e canteiros que desapareceram com o seu segredo, o seu possível e rudimentaríssimo esoterismo, mágico e religioso.

AArão de Lacerda
in O Fenómeno Religioso e a Simbólica (1924)
Guimarães Editores (1998)

IV EuroSpeleo Forum


O quarto EuroSpeleo Forum, Icnussa 2009, vai decorrer, de 24 de Abril a 3 de Maio, em Urzulei (Sardenha - Itália); uma iniciativa no âmbito da Federação Europeia de Espeleologia (European Speleological Federation – ESF).

Grutas vulcânicas

Algar do Carvão © Os Montanheiros

Vulcano-espeleologia
Visita à Terceira subterrânea


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 295, 8 de Agosto de 2000]

O desenvolvimento da espeleologia nos Açores e a exploração do Algar do Carvão estão profundamente associados. A Forum Ambiente visitou o “mundo subterrâneo” da ilha Terceira, que agora dispõe também da Gruta do Natal e da Furna da Água.

Furna da Água (Terceira, Açores) @ Anabela Trindade (1995)

As cavidades vulcânicas dos Açores constituem um património natural de inegável valor. Um património que urge conhecer e preservar. O Algar do Carvão, a cavidade mais visitada no arquipélago, foi a primeira a revelar a sua beleza ao público. Mas, existem outras cavidades de grande interesse, algumas também passíveis de serem visitadas. A ilha Terceira, para além do Algar do Carvão, conta agora com a Gruta do Natal e a Furna da Água.
A Forum Ambiente visitou o “mundo subterrâneo” da ilha Terceira e constatou a importância do mesmo. Descer às profundezas da Terra é conhecer um pouco da história da Terra e da vida. Uma visita diferente às paisagens subterrâneas dessas ilhas atlânticas.

Um algar chamado “Carvão”
A vulcano-espeleologia surgiu no arquipélago dos Açores nos finais do século passado e encontra-se estreitamente ligada ao Algar do Carvão. Uma chaminé vulcânica, que se desenvolve sob dois cones de escórias (bagacina), associada ao Complexo Vulcânico do Pico Alto (Terceira). O algar situa-se na Caldeira de Guilherme Moniz, a cerca de 1300 metros do Tentadero de Santo Antão e a 14 quilómetros de Angra do Heroísmo.
O Algar do Carvão inicia-se num troço sub-vertical de 45 metros de altura que dá acesso a três salas de dimensões consideráveis. Na zona mais afastada da entrada, a cerca de 90 metros de profundidade, encontra-se um pequeno lago alimentado pelas águas de infiltração.
A exploração do Algar do Carvão remonta ao dia 26 de Janeiro de 1893 e deve-se a Cândido Corvelo e José Luís Sequeira. Didier Couto efectuou a segunda descida, em 1934, tendo elaborado o primeiro esboço (um perfil) da cavidade. Mas a primeira topografia do Algar do Carvão deve-se a Montserrat e Romero (1983).

Algar do Carvão © Os Montanheiros

“Os Montanheiros” desceram ao Algar do Carvão, em Agosto de 1963 (ano da sua fundação), sob a direcção de Américo Lemos. As obras de abertura do túnel de acesso à cavidade decorreram de 28 de Maio de 1965 a 28 de Novembro de 1966. A primeira escadaria no interior do algar foi instalada em 1968. No final desse ano (a 1 de Dezembro) verificou-se a abertura ao público. Na década de 70 foi instalada luz eléctrica (1970), construída a actual escadaria (1977) e a casa-abrigo (1978). O Algar do Carvão foi classificado, em 1987, como Reserva Natural Geológica (Decreto Legislativo Regional nº 13/87/A). Na reserva, definida pela linha que dista 100 metros da base dos cones onde se abre o algar, são proibidas quaisquer alterações no terreno, fauna ou flora.
A Gruta do Natal, um túnel de lava com cerca de 697 metros de desenvolvimento total, foi aberta ao público, também pela associação “Os Montanheiros”, no dia 1 de Dezembro de 1998. A cavidade, devidamente acondicionada e com instalações de apoio, localiza-se na Reserva Florestal Natural da Serra de Santa Bárbara e Mistérios Negros.
A Furna da Água situa-se no lado oeste da Caldeira de Guilherme Moniz, entre o Pico Espigão Barreiro e o Pico da Cruz, próximo da lagoa artificial do Cabrito. Trata-se também de um túnel de lava, com cerca de 560 metros de desenvolvimento, incluindo os túneis abertos pelo Homem. Calcula-se que a extensão original fosse de 458 metros. As visitas devem ser solicitadas aos serviços municipalizados da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.
A Gruta do Natal e a Furna da Água apresentam características muito diferentes das do Algar do Carvão, complementando, por isso, o conhecimento do “mundo subterrâneo” em terrenos vulcânicos. Visitar o Algar do Carvão e a Gruta do Natal ou a Furna da Água representa uma lição ímpar sobre o património espeleológico açoriano.

Algar do Carvão © Os Montanheiros

28/01/2009

Mustierense em Ceuta

Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Um grupo de investigadores da Universidade de Cádis (Espanha) localizou várias peças mustierenses, com idade superior a 200 mil anos, durante uma escavação numa gruta em Ceuta, junto da fronteira com Marrocos. As peças incrustadas em rocha permitiram determinar a presença de populações humanas da cultura mustierense nessa zona do Norte de África. Os vestígios da presença humana surgiram quando foi escavado um dos estratos mais baixos (i.e., mais antigos) da referida gruta.
O achado ocorreu uns dias depois do Governo de Ceuta ter anunciado um apoio no valor de 45 mil euros para a Universidade de Cádis continuar os trabalhos na gruta. Esse apoio irá permitir prosseguir os trabalhos iniciados em Setembro de 2008, tal como adquirir novo material especializado para os trabalhos em curso na cavidade, recentemente declarada Bem de Interesse Cultural (Bien de Interés Cultural - BIC). A gruta, conhecida como “La Cabililla”, foi descoberta em 2001 e desde 2002 que tem sido alvo de campanhas anuais de escavações arqueológicas.
Os primeiros testemunhos da presença humana em Ceuta, localizados no abrigo de Benzú, remontam a cerca de 270 mil anos. Trata-se de um abrigo ocupado ocasionalmente por comunidades de caçadores-recolectores. A escassos metros do abrigo encontra-se uma gruta utilizada por grupos neolíticos durante o sexto milénio antes de Cristo.
As investigações que se desenvolveram em Benzú e, agora, em La Cabililla abrem novas perspectivas no estudo dos contactos entre as populações de ambas as margens do Estreito de Gilbraltar...

Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)
Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)
Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Uma Lisboa desconhecida

Alguns subterrâneos de Lisboa vão estar acessíveis ao público durante o presente ano, no âmbito de um acordo estabelecido entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Empresa Portuguesa das Águas Livre (EPAL). A notícia foi veicula, em Outubro de 2008, numa conferência de imprensa na qual o vereador do pelouro do Ambiente e Espaços Verdes, José Sá Fernandes, revelou o desiderato de estabelecer um protocolo com esse objectivo: “Estamos a completar o protocolo e espero que daqui a um ano, senão antes, todos os subterrâneos entre o Príncipe Real e o Largo do Teatro de São Carlos sejam visitáveis”.
O protocolo em causa foi assinado, no passado dia 15 de Janeiro, no Reservatório da EPAL das Amoreiras, tal como outros quatro acordos de cooperação com vista à dinamização patrimonial da cidade. Presentes na cerimónia estiveram o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, e o presidente da EPAL, João Fidalgo, representando as duas instituições, tal como o vereador do Ambiente e Espaços Verdes, Sá Fernandes.
Os acordos de cooperação entre a CML e a EPAL consistem na abertura de diversos espaços públicos, que têm até agora estado encerrados e sob a gestão da EPAL, ao mesmo tempo que se procede à sua requalificação. António Costa salientou que a assinatura destes protocolos resultou da estreita colaboração entre as duas entidades, com o objectivo de dar a conhecer ao público uma Lisboa desconhecida, “por estar fechada entre muros, por se tratar de espaços subterrâneos ou porque, estando à vista, não têm visibilidade”. A iniciativa prevê a abertura ao público de dois percursos subterrâneos: Patriarcal (no Principe Real)-Chafariz do Vinho e Patriarcal-Largo do Teatro de São Carlos, respectivamente.

Espeleo-mergulho

Espeleologia
Explorar o mundo submerso


[FORA DE PORTAS ●jornal Forum Ambiente nº 293, 25 de Julho de 2000]

As Jornadas Técnicas de Espeleo-Mergulho, que decorreram no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, contaram com a presença de participantes de vários países.

© Piotr Gajek (2000)

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) acolheu, nos dias 18 a 24 de Junho, um encontro internacional de espeleo-mergulho, que reuniu portugueses, franceses, um inglês e um polaco (residente em Portugal). As Jornadas Técnicas de Espeleo-Mergulho, inseridas no Projecto da Bacia do Alviela, foram organizadas pela Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), com o apoio da Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas (FPAS) e o patrocínio do PNSAC, Empresa das Águas Livres (EPAL) e Câmara Municipal de Alcanena (CMA). A coordenação técnica esteve a cargo da Fédération Française de Spéléologie (FFS) - Commission de la Plongée Souterraine (CPS). A organização teve ainda a colaboração da Oceanox e da Action Glob.
As jornadas contaram com a presença de quatro instrutores franceses de espeleo-mergulho, entre os quais o presidente da comissão francesa de espeleo-mergulho da FFS. Os “espeleonautas” acolheram-se na casa rural de Valverde, onde decorreram as sessões teórico-práticas matinais. À tarde realizaram-se sessões práticas nos Olhos de Água do Alviela, nomeadamente acerca das técnicas de progressão e estudo de cavidades molhadas.

Encontro de espeleo-mergulhadores
As Jornadas Técnicas de Espeleologia, segundo Piotr Gajek do Centro de Espeleo-Mergulho da SPE, pretenderam estimular a troca de experiências no sentido de tentar uniformizar regras, discutindo sempre se uma determinada maneira de fazer será ou não adequada em todos os locais ou condições. As jornadas foram pensadas como um curso (com respectivo manual), ministrado por quatro instrutores franceses e dois portugueses, cuja frequência com aproveitamento deu direito ao cartão Cave Diver CMAS (Confederação Mundial das Actividades Subaquáticas).
De manhã, abordaram-se variados aspectos do espeleo-mergulho, intercalados com pequenas sessões práticas em seco. Como “usar fio de ariane, usar carretos e qual a melhor maneira de equipar galerias subaquáticas, treinando de vez em quando com os olhos tapados para adaptar os participantes ao que pode acontecer sem luz dentro de uma gruta ou na situação de haver muito sedimento e a água ficar muito turva”.
No final das sessões teórico-práticas, os participantes preparavam o equipamento para, depois do almoço, agarrarem os sacos de material de espeleologia e de mergulho e irem praticar para o Alviela. A totalidade dos mergulhos foram efectuados no Alviela, com excepção de segunda-feira (dia 19 de Junho) em que os instrutores franceses foram (re)ver algumas grutas estremenhas.
As partes molhadas não podem ser exploradas da forma tadicional, através das técnicas usadas na designada “espeleologia seca”. Os pequenos sifões poderão ser ultrapasados através de técnicas de apneia, mas o espeleo-mergulho é que permite realmente explorar o património espeleológico submerso. Nos Olhos de Água do Alviela, mergulhadores franceses já desceram até 98 metros de profundidade, ao longo de cerca de um quilómetro de desenvolvimento, e “ainda não se conhece a zona onde o sifão começa a subir”.
Nas jornadas só foram admitidos mergulhadores consumados, com perfeito controlo da flutuabilidade (usando equipamento de diferentes configurações). As pessoas que pretendem iniciar-se no espeleo-mergulho precisam de possuir um bom nível no mergulho autónomo.
© Piotr Gajek (2000)

27/01/2009

Espeleologia Científica

As III Jornadas de Espeleologia Científica (Jornades d’Espeleologia Científica) realizam-se, de 2 a 5 de Julho de 2009, em Cueva El Soplao (Cantábria - Espanha). Para mais informações, consulte o folheto abaixo.


[Fonte: Espeleobloc]

Direitos das pedras

Conservar a Terra
Monumentos de Pedra


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 321, 6 de Fevereiro de 2001]

As rochas, as grutas ou as montanhas têm direitos? A legislação é omissa e o tema torna-se premente face à destruição dos testemunhos da história da Terra.

Cantábria © Pedro Cuiça (2007)

Portugal continental apresenta uma significativa “geodiversidade”, ou seja, é rico em geo-recursos culturais, sendo alguns de reconhecido valor supra-nacional (como o Cabo Mondego). Mas, as regiões autónomas da Madeira e dos Açores também apresentam testemunhos monumentais da história da Terra. No entanto, o património geológico encontra-se completamente desprotegido do ponto de vista legal, tanto no continente como nas ilhas.
Na legislação portuguesa os “geótopos” não têm qualquer existência formal, ao contrário do que acontece com os biótopos. O conceito de recurso geológico está contemplado, mas refere-se apenas a recursos económicos existentes na crusta terrestre: recursos hidrotermais ou geotérmicos, jazigos minerais ou água de nascente.
Os recursos geológicos de índole cultural, que são igualmente não renováveis e susceptíveis de aproveitamento económico, não são considerados. Particularmente vulneráveis por não serem abrangidos, nem na legislação ambiental, nem na legislação sobre exploração de recursos geológicos, os geo-recursos culturais estão à mercê da destruição, muitas vezes devido à ignorância ou à incúria, outras vezes intencionalmente, mas sempre de forma impune.
Ao contrário do que acontece com a arqueologia, em que é obrigatória a comunicação de achados e a autorização para escavação, não existem normas o tocante à paleontologia ou à mineralogia, importantes disciplinas da geologia em que se verificam recolhas de materiais um pouco por todo o país, sem qualquer impedimento legal. Enquanto o espólio arqueológico é propriedade do Estado, o património geológico é “de quem o apanhar”. A comunicação de achados geológicos, a autorização para recolha ou escavação, a posse ou venda de espécimes descobertos, nada está enquadrado por legislação específica. Esta é completamente omissa, deixando o caminho aberto à saída de espólio para o estrangeiro e/ou para colecções particulares. Deste modo, o património geológico fica empobrecido e a comunidade científica privada de peças porventura importantes para o conhecimento da heo-história.

Preservar para conservar
Os espaços naturais que não estão abrangidos por legislação específica, caso dos geomonumentos ou geo-recursos culturais (em que se inserem jazidas de pegadas de dinossáurios, afloramentos, túneis de lava, entre outros), necessitam de urgente enquadramento legal. Reivindicação que, não sendo nova, continua a aguardar melhores dias. Entretanto, já foram protegidas diversas ocorrências, ao abrigo da legislação existente. Conhecem-se pouco mais de uma dezena de “geótopos” com estatuto de protecção, enquadrados em diferentes figuras de classificação. A protecção efectiva, no terreno, tem-se revelado contudo frequentemente ineficaz.
Um problema tão importante quanto a falta de legislação específica prende-se precisamente com a conservação, valorização e dinamização das ocorrências. O controlo do uso e gestão correcta de geo-recursos culturais, baseado idealmente em legislação específica sobre a matéria, será uma importante medida a implementar, assim como se torna premente o conhecimento dos locais de interesse geológico em que é necessária uma rápida intervenção conservacionista.
Os investigadores são unânimes em defender a necessidade de legislação que enquadre o património geológico português. Os instrumentos legais actualmente em vigor sobre as áreas protegidas são demasiado vagos para abarcarem os testemunhos da história da Terra. A criação da figura de geomonumento ou geo-recurso cultural evitaria a necessidade de recorrer à insuficiente legislação existente. Os investigadores defendem igualmente que o património geológico deve ser alvo de urgente inventariação e classificação, assim como de uma adequada divulgação junto do público.

26/01/2009

Gruta de Porto Covo

A Câmara Municipal de Cascais efectuou, no dia 27 de Novembro de 2008, o lançamento da obra A utilização pré-histórica da gruta de Porto Covo (Cascais), da autoria do arqueólogo Victor S. Gonçalves. O livro sobre essa emblemática cavidade inicia uma nova colecção de edições municipais: Cascais - Tempos Antigos. Com esta colecção, a autarquia pretende incentivar a publicação e a divulgação de estudos monográficos sobre o passado remoto do concelho de Cascais. Na calha estão mais dois títulos, de que se destaca A ocupação pré-histórica das furnas de Poço Velho, também da autoria de Victor S. Gonçalves.
Ao estrear a série com um volume dedicado à Gruta de Porto Covo denota-se a intenção de começar por sítios arqueológicos menos divulgados. O estudo desta gruta iniciou-se no final do século XIX, sob orientação do arqueólogo Carlos Ribeiro, tendo, nos 40 e 50 do século XX, sido retomado por Afonso do Paço e Maxime Vaultier. Justificava-se, pois uma revisão monográfica à luz dos conhecimentos e tecnologias actuais. Mais do que o próprio espaço da gruta, foi o espólio proveniente das antigas escavações que agora mereceu uma análise minuciosa por parte do Prof. Doutor Victor S. Gonçalves, com a colaboração da Prof.ª Ana Maria Silva, que realizou a análise antropológica, e da Dr.ª Ana Ávila de Melo, que teve a seu cargo toda a pesquisa de arquivo do Instituto Geológico e Mineiro.
O espólio da gruta reúne conjuntos de artefactos de pedra lascada, de pedra polida e cerâmicos, fauna malacológica e ossos humanos. Através da realização de uma análise por radiocarbono foi possível definir duas ocupações distintas no quarto milénio (3710-3630 e 3620-3120 a.C.) e no terceiro milénio (2870-2500 a.C.). Curiosamente na gruta do Poço Velho, situada no centro de Cascais, apenas se regista presença humana a partir do quarto milénio, como poderá comprovar-se no terceiro volume da colecção (a editar).
De forma conclusiva, o autor dá por findas as actuais investigações com as seguintes palavra: “(…) certamente e sem qualquer dúvida, [Porto Covo] foi uma necrópole onde se depositaram sete indivíduos, seguramente três mulheres e duas crianças (com menos de cinco anos) e quase certamente dois homens. A sua pequena dimensão e situação isolada podem permitir a conclusão de que se tratava da necrópole ocasional de um minúsculo núcleo de povoamento pouco estável, pela cronologia que os ossos revelaram.”.

[Fonte: Cascais -agenda cultural (nº 36, Jan./Fev. 09) e A utilização pré-histórica da gruta de Porto Covo (Cascais)]


Gruta de Porto Covo © Pedro Cuiça (2008)

Aniversário do NECA

Espeleologia
Um núcleo de parabéns

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 255, 2 de Novembro de 1999]

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul comemorou quatro anos de actividades em prol do mundo subterrâneo. Um trabalho que se saldou na defesa do carso da Arrábida, na descoberta de inúmeras cavidades e na sedimentação de um núcleo, que está de parabéns.

© Francisco Rasteiro

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) comemorou, no dia 24 de Outubro, o seu quarto aniversário. O Retiro dos Amigos, situado na Azóia, foi o local escolhido pelos espeleólogos sesimbrenses para reunir os sócios do núcleo, bem como alguns vereadores da Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), num jantar comemorativo, que contou com a presença de um bolo de aniversário alusivo ao evento em questão: quatro anos de espeleologia no Carso da Arrábida indiscutivelmente protagonizados pelo NECA. Após o jantar de confraternização, decorreu uma mostra de diapositivos na sede do NECA: a escola primária situada à entrada da povoação de Pedreiras, junto à Serra do Risco.
As comemorações continuaram a 30 e 31 de Outubro, com uma acção de limpeza na ribeira do Cavalo e no porto da Baleeira, acção levada a cabo com o apoio da CMS e aberta a todos aqueles que desejam uma Arrábida mais limpa.

Em defesa da Arrábida
O NECA surgiu de uma visita de amigos, realizada em 1994, à Gruta do Zambujal, a então "pérola da espeleologia a sul do Tejo”, considerada Sítio Classificado de Interesse Espeleológico (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). O avançado estado de degradação em que se encontrava (e se encontra) a cavidade despertou o interesse desses jovens pela defesa do mundo subterrâneo da Arrábida. Daí à fundação do NECA foi um passo. Francisco Rasteiro, João Luz (o “Catola”), Carlos Sirgado, Paulo Marques, Hugo Páscoa e Cândido Guerra, alguns dos sócios fundadores, iniciaram um projecto que comemora agora quatro anos de plena existência. Existência que passou pela denúncia da actividade extractiva junto da Serra do Risco e da arriba mais alta da Europa continental, pelo alerta face ao estado da Gruta do Zambujal, o entulhamento do Algar dos Oliveira após trabalhos de desobstrução, as escavações ilegais na Lapa do Fumo, entre outros “cavalos de batalha”. Mas nem tudo foram críticas…
O NECA também organizou ou participou em diversas acções de limpeza da Arrábida, assim como em acções de educação ambiental e sensibilização dos mais jovens para a conservação do meio subterrâneo têm sido, aliás, as grandes apostas do NECA. Quer no que respeita à conservação da Gruta do Zambujal, em particular, quer à defesa de outros locais de interesse espeleológico. O lançamento do livro e a exposição “Marvilhas Subterrâneas da Costa Azul”, em Agosto de 98, são apenas um exemplo do trabalho desenvolvido.
Além disso, o NECA tem descoberto diversas cavidades. Geralmente são cavidades de pequenas dimensões e pouco concrecionadas, mas a última descoberta dos espeleólogos sesimbrenses foi verdadeiramente excepcional. Se a Gruta do Zambujal era a “pérola da espeleologia a sul do Tejo”, a cavidade agora descoberta é um autêntico tesouro. Tesouro que augura muitos e mais anos devotados à espeleologia.
Parabéns ao NECA e que conte muitos mais anos em prol da descoberta e defesa do Carso da Arrábida.


P.S.: Estamos em 2009, dez anos passados sobre a publicação do artigo acima, e o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) continua a desenvolver iniciativas em prol do conhecimento e defesa do carso e grutas da Arrábida.

23/01/2009

Encerramento do Zambujal (IV)

Atentados ao interior da Terra
Grutas sem Protecção

[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 311, 28 de Novembro de 2000]

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul alerta para novos atentados contra o património natural do concelho de Sesimbra. A Gruta do Zambujal é, mais uma vez, o centro das atenções.

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) tem acompanhado de perto a evolução do Sítio Classificado da Gruta do Zambujal desde a interrupção dos trabalhos de encerramento da cavidade. Acompanhamento que gerou os alertas lançados ao Parque Natural da Arrábida (PNA) e à Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), em cartas datadas de 11 de Setembro e 7 de Novembro, “para os últimos actos de vandalismo no interior da Gruta do Zambujal”.
O estado deplorável em que se encontra aquela que foi considerada a “pérola da espeleologia a sul do Tejo” é fácil de constatar (ver jornal Forum Ambiente nº 310, de 21 de Novembro). O abandono e a destruição prosseguem enquanto a cavidade aguarda a protecção merecida. O encerramento da Gruta do Zambujal estava previsto para Março do presente ano mas, desde a destruição das obras efectuadas no terreno, os trabalhos pararam até hoje.

Longe da conservação
O NECA começou a efectuar acções de vigilância da cavidade já antes de Maio. Nesse mês, os espeleólogos sesimbrenses dispararam com “um emaranhado de fios de sisal com bolor nas zonas mais húmidas” da gruta. Os espeleólogos também notaram “que algumas excêntricas e uma asa de borboleta tinham desaparecido”.
As acções de vigilância da Gruta do Zambujal levaram, no mês de Agosto, à descoberta de duas mochilas junto da antiga entrada, o que indicou a presença de indivíduos no interior da cavidade. Quando os espeleólogos do NECA desceram a rampa que dá acesso à gruta ouviram “formações a ser quebradas na galeria inferior”. AGNR foi alertada e dois jovens escuteiros foram detidos “para identificação e foram levados à esquadra de Alfarim”. Os espeleólogos verificaram que, no interior da gruta, “os fios da topografia ainda ali estavam esquecidos”.
As acções de vigilância prosseguiram e os espeleólogos do NECA constataram, no dia 5 de Novembro, “que os fios de sisal não foram levados para fora da cavidade, mas estavam em rolos espalhados pelo chão por toda a cavidade”. Segundo os espeleólogos do NECA, “nas zonas onde os fios de sisal estavam amarrados encontram-se destruídas dezenas de formações”, entre as quais “a maior excêntrica da gruta”. Os espeleólogos afirmam ainda que encontraram “tectos e formações sujas do fumo de acetileno (usado normalmente por espeleólogos)”. Os espeleólogos do NECA detectaram igualmente “um aumento dos amontoados de formações, escolhidas para presumível roubo” e “outras abandonadas no caminho para o exterior por terem sido quebradas ou serem demasiado pesadas”.
Para o NECA, é incompreensível “que, após tantos anos de atentados à cavidade, não haja ainda vontade política para resolver o seu futuro no sentido de a proteger de forma a possibilitar o estudo para a dinamização do espaço”. Os espeleólogos sesimbrenses defendem que “estes atentados só terão termo quando se realizar o simples fecho adequado da gruta”. Uma medida que, na sua opinião, “acabará com actos que parecem visar a total destruição destes reconhecidos valores patrimoniais”.

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro

22/01/2009

À Descoberta das Profundezas

O Núcleo de Espeleologia da Universidade de Aveiro (NEUA) promove, durante o presente ano, um ciclo de conferências intitulado “Descoberta das Profundezas”. Este evento, que conta com o apoio do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, pretende “divulgar as diferentes vertentes científicas e exploratórias das profundezas, contando com diversos cientistas e espeleólogos”.
As conferências terão lugar no anfiteatro do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, às sextas-feiras, a partir das 21.30 p.m., conforme o seguinte calendário:

● 13 Fevereiro: Francisco Almeida, Arqueologia em gruta: do Almonda ao Lapedo;
● 27 Fevereiro: Sofia Reboleira, Vulcanoespeleologia no arquipélago Canário;
● 21 Março: Comemorações dos 29 anos do NEUA;
● 27 Março: Alejandro Martínez, Fauna anquialina Atlântica: historias de crustáceos olvidados y poliquetos aberrantes;
● 8 Abril: Paulo Borges, Geodiversidade e Biodiversidade do habitat cavernícola dos Açores;
● 24 Abril: Jabier Les, Aplicaciones de diversas técnicas en la Fotografía Subterránea;
● Abril: Nuno Farinha, Iluminar as Profundezas;
● Maio: Fadi Nader, International Speleological Expedition to Iran;
● 29 Maio: Marina Cunha, Nascentes hidrotermais: a vida nas profundezas do mar;
● 5 Junho: Luísa Rodrigues, Conservação dos Morcegos Cavernícolas em Portugal;
● 31 Julho: João Neves, Mergulho Subterrâneo: os novos desafios e o uso dos Rebreather;
● Setembro: Rui Andrade, "Humpleu Project" – Expedições Espeleológicas na Roménia;
● Setembro: Manuel Freire, As cavernas gigantes do Peruaçu (Brasil).

Para maior comodidade, é necessário efectuar inscrição prévia e obrigatória, ainda que gratuita, através do e-mail conferencias2009@neua.org, por forma a garantir lugares sentados a todos os participantes.
Para mais informações, consulte o site do NEUA http://www.neua.org/.