© Musaeum Hermeticum (1749)Para que terras vai e donde vem?
Não sei… Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subterrâneo (…)”
Fernando Pessoa (1914)
Caeiro © Bartolomeu Cid dos Santos
Um blogue sobre espeleosofia ● A blog about speleosophy
A descoberta da Gruta do Zambujal, em 1978, suscitou um interesse pouco usual. Foram colocados guardas junto das entradas, para evitar a vandalização do espaço e requeridos os pareceres dos geólogos Georges Zbyszewski e Octávio da Veiga Ferreira, assim como à Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica (APIE).
Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro
Gruta do Zambujal (Arrábida) © Pedro Cuiça (1998)
Abismos (Cerro da Cabeça) © João Humberto Viegas/CEEAA (1978)
Francisco Xavier d’Ataíde Oliveira (1842-1915)
As XX Jornadas SEDECK realizam-se, de 3 a 5 de Abril, em Lekumberri (na Sierra de Aralar, Espanha). Os participantes serão alojados num mesmo hotel, de modo a facilitar a comunicação e o contacto entre eles. Será instalada uma exposição monográfica sobre o tema principal das jornadas. Durante o evento serão efectuadas visitas a diversas cavidades, nomeadamente a Cuevas de Mendukilo e, possivelmente, à Cueva de Lantz. Logo que surjam novos dados, para além destas informações preliminares, divulgaremos.
Gruta do Zambujal © Francisco Rasteiro (FA, 2000)A Gruta do Zambujal já não é a maravilhosa cavidade de há 20 anos atrás. Com grande parte das concreções destruídas, parcialmente entulhada por blocos e desmoronada, o seu valor patrimonial e científico, bem como o seu aproveitamento turístico, encontram-se seriamente comprometidos. Mas “mais vale tarde do que nunca”. Os trabalhos com vista ao encerramento da Gruta do Zambujal iniciaram-se há duas semanas e estão a decorrer a bom ritmo. A finalização está prevista para o próximo mês.
O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) nunca desistiu da conservação e da dinamização da Gruta do Zambujal, bem como da respectiva área envolvente. O NECA surgiu de uma visita de amigos, realizada em 1994, à Gruta do Zambujal, a então “pérola da espeleologia a sul do Tejo”. O avançado estado de degradação em que se encontrava (e se encontra) a cavidade despertou o interesse desse grupo de jovens pela defesa do mundo subterrâneo da Arrábida. Daí à fundação do NECA foi um passo.
O Parque Natural da Arrábida (PNA) e a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS) também não abandonaram a conservação da cavidade e o encerramento, desta feita, está para breve.
Duas décadas depois
A Gruta do Zambujal foi descoberta em 1978, tendo suscitado um interesse pouco usual. Foram colocados guardas junto das entradas, para evitar a vandalização do espaço, e requeridos os pareceres dos geólogos George Zbyszewski e Veiga Ferreira, assim como da Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica (APIE). Com base nos pareceres efectuados, a Gruta do Zambujal tornou-se a primeira cavidade portuguesa a beneficiar do estatuto de “Sítio Classificado de Interesse Espeleológico” (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). Esperava-se uma nova era para as cavidades e carsos do país, mas tal não sucedeu. Passados poucos anos, as grades que bloqueavam as entradas foram forçadas e as incursões começaram a deixar as suas marcas.
Durante duas décadas a gruta esteve mais ou menos ao abandono, à mercê de incursões, que se traduziram na destruição e pilhagem de concreções. A actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância da cavidade, foi igualmente questionada. A frente de desmonte da Gruta do Zambujal foi abandonada, mas a actividade extractiva continua na área leste da Serra dos Pinheirinhos e Ribeira do Cavalo. O problema das visitas continuou a processar-se até há pouco tempo.
O PNA previa o encerramento da cavidade para o ano de 1998. O plano de actividades desse ano contemplava “uma verba para resolver de uma vez por todas o problema da Gruta do Zambujal”, um problema considerado “prioritário”. O ano de 1998 encerrou, mas a cavidade permaneceu aberta. As previsões apontavam, posteriormente, para o encerramento em Fevereiro de 1999. Essa medida de conservação, tão desejada e premente, só seria concretizada um ano depois. As obras iniciaram-se há duas semanas e deverão estar concluídas no próximo mês.
Américo Gonçalves Condinho, sócio-fundador da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), faleceu aos 93 anos de idade. Condinho distinguiu-se pelo impulso dado na construção de equipamento de espeleologia, nomeadamente escadas de cabo de aço e guinchos de subida.

Algar dos Oliveira © DR
O Algar dos Oliveira foi descoberto pelo Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), no dia 9 de Novembro de 1998, numa pedreira abandonada na área do Zambujal (concelho de Sesimbra). Tendo a actividade extractiva cessado nos anos 30, a antiga pedreira é hoje usada como vasadouro de lixo e entulho (motos, pilhas, plásticos, roupa, rádios, pneus, etc.). Nessa área encontraram-se três ou quatro algares obstruídos, tendo o NECA apostado na desobstrução do Algar da Oliveira.
Poucos meses depois da descoberta desse algar, uma equipa do NECA iniciou os trabalhos de desobstrução, tendo sido abordada prontamente pelos proprietários do terreno. Estes mostraram-se relutantes face aos trabalhos em curso, mas depois dos devidos esclarecimentos não se opuseram a que os espeleólogos efectuassem a desobstrução da cavidade. Segundo o NECA, “ao fim de um resumido esclarecimento acerca das nossas reais intenções e da importância da descoberta de uma nova gruta para o concelho e até para o país, autorizaram-nos a continuar os trabalhos, tendo-nos apenas advertido para que protegesse-mos as crianças de possíveis acidentes selando a entrada da gruta de modo a respeitar essas importantíssimas normas de segurança”.
Depois de 14 dias de trabalho de desobstrução, a uma média de 80 baldes por dia de “lama, blocos e lixo”, as equipas do NECA atingiram “10 metros de profundidade”, sendo “fortíssimas as probabilidades de encontrar seguimento para o sistema cársico”. O NECA cumpriu “escrupulosamente com o prometido”, tendo o cuidado de tapar a entrada da cavidade após cada jornada de trabalho. No entanto, depois da intensa actividade desenvolvida e dos resultados promissores, os espeleólogos do NECA constataram o entulhamento da cavidade. A acção, tão brusca quanto inexplicável, despertou a indignação daqueles que depositaram tantas esperanças no novo algar, que poderia dar acesso à rede subterrânea. Não se conhecem os autores de tal acção ou as motivações que a desencadearam, mas os resultados estão à vista, ou melhor, os resultados não estão à vista porque foram entulhados. A Câmara Municipal de Sesimbra está ao corrente da situação e o NECA aguarda, agora, os resultados do processo em curso. “Só nos resta esperar que se faça justiça e que as consequências de actos deste tipo, sejam sentidas pelos infractores”, salientam os espeleólogos do NECA.
Grutas ao abandono
A espeleologia encerra uma componente rara nos dias de hoje: a descoberta. Com efeito, ainda é possível ter a imensa alegria de descobrir novas cavidades, salas de grande beleza ou galerias inexploradas. O Carso da Arrábida não é excepção e o NECA assim o tem demonstrado. O Algar dos Oliveira constitui mais um exemplo das frequentes descobertas de grutas na Cadeia da Arrábida. A prospecção e descoberta de cavidades são fundamentais para a inventariação do património espeleológico de uma determinada área. Património que urge conhecer para preservar. As grutas, testemunhos do percurso histórico do planeta, constituem, sem dúvida, geomonumentos que devem ser preservados. Mas, para a sua efectiva protecção, antes de mais, será necessário saber quantas são, onde se situam e quais as suas características. Sem esse trabalho apenas se poderão efectuar intervenções pontuais, como será o infeliz exemplo da Gruta do Zambujal. Dar novos mundos ao mundo será, pois, uma tarefa de grande importância, para que não se repitam os erros do passado. É caso para os espeleólogos do NECA dizerem: “Deixem-nos trabalhar!”.
Algar dos Oliveira © DR
A gruta esteve mais ou menos ao abandono, à mercê de incursos antrópicas que se traduziram na destruição e pilhagem de concreções. A actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância da cavidade (o que contraria o disposto no Decreto-Lei nº 89/90, de 16de Março) foi igualmente questionada. Para alguns, a destruição que se verificou no interior da cavidade resultou fundamentalmente de vandalismo. Para outros, a extracção de pedra foi a causadora dos impactes verificados (ver jornal Forum Ambiente nº 134, de 20 de Junho de 1997). A frente de desmonte junto da Gruta do Zambujal foi abandonada, apesar da actividade extractiva continuar na área leste da Serra dos Pinheirinhos e Ribeira do Cavalo. O problema das visitas, que continuam a processar-se impunemente, ainda subsiste.


O livro em questão começa, na actualidade, em torno de uma pretensa fotografia de Aquilino Ribeiro…“Uma raposa que corria em duas patas.
O Spelaion