21/01/2009
Outra dimensão
Encerramento do Zambujal (II)
Uma aposta na conservação
[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 269, 8 de Fevereiro de 2000]
A Gruta do Zambujal vai ser finalmente protegida. Os trabalhos de encerramento já estão em curso e outras iniciativas esperam-se para breve. É a aposta na conservação, depois de um longo período de espera.
Gruta do Zambujal (Arrábida) © Pedro Cuiça (1998)Para um futuro melhor
Segundo Celso Santos, director do PNA, em declarações à Forum Ambiente, a colocação de uma vedação no exterior da Gruta do Zambujal tem por objectivo “preservar todas as formações geológicas” aí existentes, sendo que “durante algum tempo a cavidade foi devassada por muita gente”, assim como proteger a colónia de morcegos que utiliza a gruta.
“O encerramento está praticamente concluído” e, paralelamente, está a ser efectuado um estudo da estabilidade geológica e geotécnica da gruta por parte de uma equipa da Universidade Nova de Lisboa (UNL), para determinar os efeitos da indústria extractiva que labora nas imediações da cavidade.
As visitas à Gruta do Zambujal serão condicionadas, sendo apenas autorizadas para investigação ou outros fins que assim o justifiquem. Não estão previstas futuras visitas interpretativas e/ou turísticas. A aposta centra-se na utilização de novas tecnologias de informação e não está posta de parte a reabilitação da área envolvente, nomeadamente através da instalação de um centro de interpretação. O director do PNA manifestou o “interesse que todo o local fosse preservado e requalificado”.
Luís Ferreira, da CMS, declarou que a “colocação de vedação exterior estará concluída em meados de Fevereiro”. Além disso, a Forum Ambiente ficou a saber que o levantamento topográfico da Gruta do Zambujal, a três dimensões, terá início ainda esta semana. O levantamento será coordenado por Joanaz de Melo. Luís Ferreira afirmou ainda que “o NECA está a preparar um projecto de reabilitação da gruta”, nomeadamente tendo em vista a criação de um espaço-museu na área.
O NECA espera efectuar trabalhos de limpeza no interior da cavidade e “deseja fortemente que a gruta seja recuperada”. Para Francisco Rasteiro, presidente dessa associação de espeleólogos, resta aguardar as directivas do PNA e da CMS.
Espeleologia no Algarve
Segundo João Varela, do CEEAA, “uma das grutas desobstruídas veio posteriormente a revelar uma beleza desconhecida, mostrando grande valor espeleológico: microgours, várias bandeiras, excêntricas, algumas tubulares e estalactites de calcite”. Durante os trabalhos efectuados, foi igualmente detectada a presença de fauna cavernícola (insectos). Segundo esse espeleólogo algarvio, “devido ao facto de se encontrar entulhada há muitos anos, a gruta apresentava um bom estado de conservação sem sinais visíveis de destruição, sendo “de destacar a existência de excêntricas numa bandeira”.
20/01/2009
Cavernas, encantamentos e facínoras
Abismos (Cerro da Cabeça) © João Humberto Viegas/CEEAA (1978)No começo do serro da Cabeça, ao lado do mar, existe uma cavidade cercada de pedras, uma espécie de pequena sala, que vai comunicar para um grande Algueirão, denominado o Abismo. Esta grande caverna tem diversas câmaras e diferentes ramificações.
Como o próprio nome indica, tem uma enorme profundidade, onde não chega a luz do sol, oferecendo a quem a visita um aspecto medonho e horrível. Se os poetas da Grécia a visitassem, colocariam ali o palácio da morte: aquilo não é apenas uma caverna é um inferno.
É tradição corrente entre os habitantes dos sítios vizinhos que aquela caverna se comunica subterraneamente com o castelo de Tavira, comunicação de que faziam uso os mouros no tempo em que dominavam a província do Algarve.
Junto da caverna têm sido encontrados objectos de uma feição estranha, como machados de pedra polida e outros de origem neolítica, que os habitantes daquela freguesia consideram de origem sarracena. Estes objectos aparecidos uma ou outra vez têm sido atribuídos ao trabalho manual dos mouros que ficaram encantados depois da expulsão da sua raça.
No mesmo serro e não distante desta caverna, há mais duas, cujas denominação são características - Ladroeira Grande e Ladroeira Pequena. Não será talvez difícil procurar a origem destes nomes, sabendo-se que ali se acolheram em 1883 os facínoras que assaltavam os pobres moradores dos sítios próximos, servindo aqueles dois antros de verdadeiras cavernas de Caco. No Algôs, povoação do concelho de Silves, há no sítio do Guiné, uma semelhante caverna onde por muitos anos se escondeu um grande criminoso conhecido pelo Diogo do Guiné.
Também a voz vaga afirma que nestas estão encantados alguns mouros, fugidos do castelo de Tavira, quando este foi tomado pelo grande D. Paio; assim como também se diz que estas duas cavernas se comunicavam subterraneamente com a grande caverna do Abismo.
Existe entre o nosso algarvio a constante tradição que afirma comunicarem-se todos os castelos da província entre si subterraneamente; e raro será encontrar algum desses grandes algueirões, cavernas ou furnas, que os habitantes dos próximos sítios não digam que se comunicam com o castelo mais próximo.
Como em quase todas as freguesias do Algarve onde aparecem tais cavernas, na freguesia de Moncarapacho há a opinião de que os mouros a habitaram em tempo, e que ainda hoje ali se conservam encantados. Para confirmar essa opinião, contam-se diversas histórias de indivíduos que foram surpreendidos de noite por aqueles misteriosos seres. As cavernas são para o nosso povo uma espécie de mapa corográfico dos sarracenos. Onde encontra uma caverna, ali lhe parece uma antiga residência mourisca, que ainda hoje conserva como reféns um triste mouro ou uma formosa moura, mas encantados.
(…)"
Francisco Xavier d’Ataíde Oliveira (1842-1915) in As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve (1898)
XX Jornadas SEDECK
As XX Jornadas SEDECK realizam-se, de 3 a 5 de Abril, em Lekumberri (na Sierra de Aralar, Espanha). Os participantes serão alojados num mesmo hotel, de modo a facilitar a comunicação e o contacto entre eles. Será instalada uma exposição monográfica sobre o tema principal das jornadas. Durante o evento serão efectuadas visitas a diversas cavidades, nomeadamente a Cuevas de Mendukilo e, possivelmente, à Cueva de Lantz. Logo que surjam novos dados, para além destas informações preliminares, divulgaremos.
Encerramento do Zambujal
Um fecho que já tardava
[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 268, 1 de Fevereiro de 2000]
O encerramento da Gruta do Zambujal devia ter ocorrido há alguns anos. Mas os trabalhos já estão em curso e a cavidade vai ser finalmente protegida dos atentados a que tem sido sujeita. Uma prioridade para a efectiva conservação daquela que foi considerada “a pérola da espeleologia a sul do Tejo”.
Gruta do Zambujal © Francisco Rasteiro (FA, 2000)A Gruta do Zambujal já não é a maravilhosa cavidade de há 20 anos atrás. Com grande parte das concreções destruídas, parcialmente entulhada por blocos e desmoronada, o seu valor patrimonial e científico, bem como o seu aproveitamento turístico, encontram-se seriamente comprometidos. Mas “mais vale tarde do que nunca”. Os trabalhos com vista ao encerramento da Gruta do Zambujal iniciaram-se há duas semanas e estão a decorrer a bom ritmo. A finalização está prevista para o próximo mês.
O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) nunca desistiu da conservação e da dinamização da Gruta do Zambujal, bem como da respectiva área envolvente. O NECA surgiu de uma visita de amigos, realizada em 1994, à Gruta do Zambujal, a então “pérola da espeleologia a sul do Tejo”. O avançado estado de degradação em que se encontrava (e se encontra) a cavidade despertou o interesse desse grupo de jovens pela defesa do mundo subterrâneo da Arrábida. Daí à fundação do NECA foi um passo.
O Parque Natural da Arrábida (PNA) e a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS) também não abandonaram a conservação da cavidade e o encerramento, desta feita, está para breve.
Duas décadas depois
A Gruta do Zambujal foi descoberta em 1978, tendo suscitado um interesse pouco usual. Foram colocados guardas junto das entradas, para evitar a vandalização do espaço, e requeridos os pareceres dos geólogos George Zbyszewski e Veiga Ferreira, assim como da Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica (APIE). Com base nos pareceres efectuados, a Gruta do Zambujal tornou-se a primeira cavidade portuguesa a beneficiar do estatuto de “Sítio Classificado de Interesse Espeleológico” (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). Esperava-se uma nova era para as cavidades e carsos do país, mas tal não sucedeu. Passados poucos anos, as grades que bloqueavam as entradas foram forçadas e as incursões começaram a deixar as suas marcas.
Durante duas décadas a gruta esteve mais ou menos ao abandono, à mercê de incursões, que se traduziram na destruição e pilhagem de concreções. A actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância da cavidade, foi igualmente questionada. A frente de desmonte da Gruta do Zambujal foi abandonada, mas a actividade extractiva continua na área leste da Serra dos Pinheirinhos e Ribeira do Cavalo. O problema das visitas continuou a processar-se até há pouco tempo.
O PNA previa o encerramento da cavidade para o ano de 1998. O plano de actividades desse ano contemplava “uma verba para resolver de uma vez por todas o problema da Gruta do Zambujal”, um problema considerado “prioritário”. O ano de 1998 encerrou, mas a cavidade permaneceu aberta. As previsões apontavam, posteriormente, para o encerramento em Fevereiro de 1999. Essa medida de conservação, tão desejada e premente, só seria concretizada um ano depois. As obras iniciaram-se há duas semanas e deverão estar concluídas no próximo mês.
19/01/2009
Em memória
Américo Gonçalves Condinho, sócio-fundador da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), faleceu aos 93 anos de idade. Condinho distinguiu-se pelo impulso dado na construção de equipamento de espeleologia, nomeadamente escadas de cabo de aço e guinchos de subida.O funeral decorreu, no dia 4 de Janeiro, no crematório do cemitério do Alto de S. João (Lisboa).
[Fonte: SPE]
Esoterismo arqueológico!?
“No final de 1998, foi descoberto no vale do Lapedo, a poucos quilómetros de Leiria, o esqueleto de uma criança que viveu há 25 mil anos. As características muito particulares desse esqueleto criaram um “facto arqueológico” que teve repercussões em todo o mundo, apaixonou os media e deu origem a uma vivíssima polémica.
Este é o tema de Lapedo - Uma Criança no Vale.
Não se trata de um romance, nem de um livro de contos: não é, de todo, uma obra de ficção. Alguma vez eu haveria de tentar sair (momentaneamente, claro) da ficção para explorar outros caminhos de escrita…
Mas também é verdade que este assunto é tão interessante, tão apaixonante quanto um bom romance deve ser. E, factor adicional de sedução (para mim) trata-se de transmitir algo que, até agora, se tem mantido, em grande parte, no domínio restrito, quase “esotérico”, da Arqueologia.
É certo que o caso da “criança do Lapedo”, quando veio a lume, teve uma larga cobertura mediática. Porém, a informação foi veiculada, necessariamente, de modo parcelar e com pouca profundidade. Além disso, uma vez passada a “onda”, saiu da ribalta e voltou, portanto, a confinar-se ao espaço académico.
Este foi um segundo motivo que me levou a escrever: quis reavivar a memória do que sucedeu, além de fornecer esse material pela primeira vez àqueles que dele ainda não tomaram conhecimento; e quis fazê-lo tentando cobrir todos os factos relevantes e chamar a atenção para as possíveis implicações de ordem científica - mas também, digamos, psicológica e cultural. O relato dos factos é complementado - mas nunca misturado - com alguma especulação. O que me pareceu natural: para mim, pelo menos, seria impossível, tendo nas mãos estes dados, limitar-me a uma seca descrição sem pensar sobre eles.”
Uma obra a não perder...
Deixem-nos trabalhar!
Novo atentado em Sesimbra
[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 225, 6 de Abril de 1999]
O Algar dos Oliveira, descoberto no ano passado, foi misteriosamente entulhado após os trabalhos de desobstrução, motivo para mais um alerta do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul. O património espeleológico continua a ser destruído no concelho de Sesimbra.

Algar dos Oliveira © DR
O Algar dos Oliveira foi descoberto pelo Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), no dia 9 de Novembro de 1998, numa pedreira abandonada na área do Zambujal (concelho de Sesimbra). Tendo a actividade extractiva cessado nos anos 30, a antiga pedreira é hoje usada como vasadouro de lixo e entulho (motos, pilhas, plásticos, roupa, rádios, pneus, etc.). Nessa área encontraram-se três ou quatro algares obstruídos, tendo o NECA apostado na desobstrução do Algar da Oliveira.
Poucos meses depois da descoberta desse algar, uma equipa do NECA iniciou os trabalhos de desobstrução, tendo sido abordada prontamente pelos proprietários do terreno. Estes mostraram-se relutantes face aos trabalhos em curso, mas depois dos devidos esclarecimentos não se opuseram a que os espeleólogos efectuassem a desobstrução da cavidade. Segundo o NECA, “ao fim de um resumido esclarecimento acerca das nossas reais intenções e da importância da descoberta de uma nova gruta para o concelho e até para o país, autorizaram-nos a continuar os trabalhos, tendo-nos apenas advertido para que protegesse-mos as crianças de possíveis acidentes selando a entrada da gruta de modo a respeitar essas importantíssimas normas de segurança”.
Depois de 14 dias de trabalho de desobstrução, a uma média de 80 baldes por dia de “lama, blocos e lixo”, as equipas do NECA atingiram “10 metros de profundidade”, sendo “fortíssimas as probabilidades de encontrar seguimento para o sistema cársico”. O NECA cumpriu “escrupulosamente com o prometido”, tendo o cuidado de tapar a entrada da cavidade após cada jornada de trabalho. No entanto, depois da intensa actividade desenvolvida e dos resultados promissores, os espeleólogos do NECA constataram o entulhamento da cavidade. A acção, tão brusca quanto inexplicável, despertou a indignação daqueles que depositaram tantas esperanças no novo algar, que poderia dar acesso à rede subterrânea. Não se conhecem os autores de tal acção ou as motivações que a desencadearam, mas os resultados estão à vista, ou melhor, os resultados não estão à vista porque foram entulhados. A Câmara Municipal de Sesimbra está ao corrente da situação e o NECA aguarda, agora, os resultados do processo em curso. “Só nos resta esperar que se faça justiça e que as consequências de actos deste tipo, sejam sentidas pelos infractores”, salientam os espeleólogos do NECA.
Grutas ao abandono
A espeleologia encerra uma componente rara nos dias de hoje: a descoberta. Com efeito, ainda é possível ter a imensa alegria de descobrir novas cavidades, salas de grande beleza ou galerias inexploradas. O Carso da Arrábida não é excepção e o NECA assim o tem demonstrado. O Algar dos Oliveira constitui mais um exemplo das frequentes descobertas de grutas na Cadeia da Arrábida. A prospecção e descoberta de cavidades são fundamentais para a inventariação do património espeleológico de uma determinada área. Património que urge conhecer para preservar. As grutas, testemunhos do percurso histórico do planeta, constituem, sem dúvida, geomonumentos que devem ser preservados. Mas, para a sua efectiva protecção, antes de mais, será necessário saber quantas são, onde se situam e quais as suas características. Sem esse trabalho apenas se poderão efectuar intervenções pontuais, como será o infeliz exemplo da Gruta do Zambujal. Dar novos mundos ao mundo será, pois, uma tarefa de grande importância, para que não se repitam os erros do passado. É caso para os espeleólogos do NECA dizerem: “Deixem-nos trabalhar!”.
Algar dos Oliveira © DR
Zambujal
Tudo na mesma
A Gruta do Zambujal foi descoberta em 1978 e, passado pouco tempo, tornou-se a primeira cavidade portuguesa a beneficiar do estatuto de Sítio Classificado de Interesse Espeleológico (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). Depois foi lentamente votada ao esquecimento!
A gruta esteve mais ou menos ao abandono, à mercê de incursos antrópicas que se traduziram na destruição e pilhagem de concreções. A actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância da cavidade (o que contraria o disposto no Decreto-Lei nº 89/90, de 16de Março) foi igualmente questionada. Para alguns, a destruição que se verificou no interior da cavidade resultou fundamentalmente de vandalismo. Para outros, a extracção de pedra foi a causadora dos impactes verificados (ver jornal Forum Ambiente nº 134, de 20 de Junho de 1997). A frente de desmonte junto da Gruta do Zambujal foi abandonada, apesar da actividade extractiva continuar na área leste da Serra dos Pinheirinhos e Ribeira do Cavalo. O problema das visitas, que continuam a processar-se impunemente, ainda subsiste.O ano de 1998 encerrou-se, mas a Gruta do Zambujal continuou aberta. As previsões apontaram posteriormente, para um “fecho provisório” em Fevereiro do corrente ano (ver jornal Forum Ambiente nº 214, de 15 de Janeiro de 1999). O mês de Abril aproxima-se e a gruta permanece “aberta ao público”. O regulamento do Sitio Classificado da Gruta do Zambujal tinha seis meses para entrar em vigor, mas também aguarda melhores dias.
16/01/2009
Ne-ander (e) tal

1) “A Chave na Gruta dos Ossos”, sobre a escavação de uma jazida arqueológica na Roménia por uma equipa liderada pelo arqueólogo e espeleólogo português João Zilhão;
2) e “Os Últimos Neandertais”, a peça que foi capa desse número (92) da National Geographic.
A publicação da tal nota não se verificou, por manifesta falta de tempo, mas, como diz o povo, antes tarde do que nunca…
O primeiro artigo a que fazemos referência não mereceria grande destaque não fosse o facto de os restos osteológicos em causa apresentarem traços morfológicos correspondentes simultaneamente ao homem moderno (Homo sapiens sapiens) e aos neandertais (Homo sapiens neanderthalensis). Essa descoberta, na sequência do denominado “menino do Lapedo”, um esqueleto de uma criança com cerca de 30 mil anos, veio ao encontro daquilo que os investigadores João Zilhão e Erik Trinkaus sugeriram então: o esqueleto da criança do Lapedo provaria a miscigenação entre os neandertais, que subsistiram na Península Ibérica até há cerca de 35 a 37 mil anos, e os homens modernos
O capítulo seguinte desta história seria escrito na Roménia, numa região onde o Danúbio corre encaixado num profundo canyon. Um grupo romeno de espeleologia descobriu, naquela que seria baptizada “Gruta dos Ossos”, uma jazida com restos ósseos, entre os quais uma mandíbula humana com cerca de 40 mil anos. Os difíceis trabalhos arqueológicos que se seguiram, conduzidos por Zilhão e Trinkaus, levaram à conclusão de que os humanos aí descobertos possuíam uma herança genética não africana, atribuível a um legado de intercâmbio biológico com os neandertais.
“Os Últimos Neandertais” aborda, entre outras, a descoberta e o estudo de uma grande jazida de neandertais na gruta de El Sidrón (Espanha), de que resultou a reconstituição de uma mulher Neandertal baseada em anatomia fóssil e DNA antigo. “Numa caverna francesa, junto a Arcy-sur-Cure, foi descoberto um osso de Neandertal numa camada de sedimentos que também continha objectos ornamentais como dentes de animal furados e anéis de marfim, um indício de arte decorativa. Mais recentemente, os cientistas Francesco d’Errico e Marie Soressi analisaram centenas de blocos de dióxido de manganésio oriundos de Pech de l’Azé, outra caverna francesa onde viveram Neandertais, e sugeriram que o material era um pigmento negro utilizado para decorar o corpo.” As surpresas não ficam por aqui… O ideal será ler ambos os artigos na integra. Por último, também recomendamos a leitura do artigo “O ser humano parou de evoluir?”, sobre o trabalho desenvolvido pelo cientista Steve Jones do University College de Londres (Courrier Internacional nº 155, de Janeiro de 2009, pg. 67).

15/01/2009
Tocas (d)a raposa
“- Olhe lá, comadre, não é intrujice?
- Intrujice! Ora essa, como podia isso ser…”
Aquilino Ribeiro, O romance da Raposa

Raposas! Mas porque é que se abordou esse tema? Não é este um blogue sobre espeleologia? Sim, é certo. Mas, que mais não fosse, falámos sobre a raposinha falecida no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros porque tudo (ou quase tudo) se interrelaciona e, não nos esqueçamos, que essa espécie apresenta, com frequência, comportamentos trogloxenos, não é?
Quanto à “brincadeira” da Zorra Berradeira deveu-se ao facto de no mês passado ter tido oportunidade de apreciar, mais uma vez, o quadro de Carlos Porfírio sobre a dita e ter lido um livro altamente cativante sobre esse “mamífero”, grutas e muito mais: Lisboa Triunfante, da autoria de David Soares (Edições Saída de Emergência, 2008).
O livro em questão começa, na actualidade, em torno de uma pretensa fotografia de Aquilino Ribeiro…“Uma raposa que corria em duas patas.Em duas patas!
Parecia uma raposa verdadeira. Era uma mistura de raposa com caricatura de raposa. Como os desenhos que ilustram as histórias para crianças. Tinha um sorriso rasgado e a língua dependurada.
Parecia um boneco. Parecia um fantoche.
A raposa que corria em duas patas parecia verdadeira.
Quase se podia ver o movimento dela na fotografia. Quase?”
Segue-se um curto mas impressionante episódio passado há 90 milhões de anos, para prosseguir a história no ano 21983 a.C., na região da actual Grande Lisboa, mais precisamente em Monsanto (Monte Santo) e Rio Seco. A chefe de uma tribo pré-histórica “trazia muitos anéis para disfarçar as articulações deformadas pela artrite e um dos colares apresentava um zoomorfo parecido com uma raposa. Usava com vaidade uma peruca feita com a juba de um leão das grutas por cima da cabeça rapada; o ocre com que pintava o rosto e os braços parecia carvão sob a Lua.” Cinco anos mais tarde (21978 a.C.) dá-se uma tragédia que potencia mudanças e descobertas…“Saíram e dirigiram-se a outra caverna.
Tens muitos sítios, disse o rapaz.
Há muitos caminhos debaixo da terra, respondeu o velho, mais que tu possas pensar.”
A obra é profícua em saltos temporais e espaciais…No ano de 1255 revela-se nova referência sobre grutas. “Se queres mesmo ir ter com o Homem Verde tens de sair da cidade e ir para Norte, mas não há nenhuma estrada que te leve ao sítio certo. Passas pelo Mosteiro de São Vicente de Fora e viras um pouco para poente assim que deixares o mosteiro para trás. Continuas a andar e verás uma grande penha. Contorna o sopé da montanha e encontrarás a entrada de uma gruta.”
E o mesmo se passa no ano de 1903. “Os bairros de Campo de Ourique e de Alcântara, e também a Junqueira e a Ajuda, começaram a ser examinados pelas equipas de pesquisa da Associação de Arqueólogos Portugueses fundada por Joaquim Possidónio da Silva e do Museu Nacional de Arqueologia do etnólogo José Leite de Vasconcelos. Toda a Rua Maria Pia, mais o Sertão, assim como a área do Rio Seco, possuíam furnas, cavernas e grutas pré-históricas inexploradas. Uma sepultura de Neandertal acabada de ser descoberta na Tapada da Ajuda, a juntar-se a outra, mais moderna, encontrada no mesmo local há vinte e quatro anos: os vestígios de pólenes, pigmentos e bric-à-brac de osso e pedra sugeriam que os ritos fúnebres eram elaborados e que aqueles antepassados já tinham religião. Aquilino lera-o no Diário de Notícias e ficara muito intrigado.”
Salientamos igualmente uma interessante referência no ano de 1905: “As jovens procuravam as moiras nas copas das árvores e nas lapas para que elas as tornassem mais belas - Moira ou Mater Deas: espécie de Parca pagã que nada tinha a ver com as “mulheres dos mouros”. Às vezes, saia de dentro das próprias árvores e dos penedos: como a moira transvertida na Nossa Senhora da Lapa, enfiteuta do Santuário rochoso que ficava atrás do colégio jesuíta para onde Aquilino Ribeiro fora estudar aos dez anos de idade.”
Por fim, destacamos no ano de 1742 as seguintes linhas sobre o que dizia a Beata de Óbidos: “Vossa Majestade… continuou Leal ‘…ela diz ver uma ilha… subterrânea!...’
D. João V inclinou-se para a frente e arregalou os olhos. Um burburinho andou à solta pela sala.
‘Uma ilha subterrânea? Onde?’
‘Aparentemente, debaixo de Lisboa. Vossa Majestade, ela…’ Calou-se e baixou a cabeça.”
E mais: “Quem passasse pelo Caracol da Penha de madrugada poderia pasmar-se com a passagem de um cortejo prodigioso; excepto os guinchos das rodas das carretas carregadas de vitualhas, armas e um barco desmontado com uma vela enrolada, o campo encontrava-se em silêncio. O grupo de catorze indivíduos avançou para fora do caminho e pisou a erva molhada pela humidade da noite; um pingo cor-de-rosa foi ejaculado pelo horizonte e vento espalhou-o, diluindo a tonalidade escura do céu.
(…) Contornaram com lentidão o sopé da montanha retirando os pedregulhos maiores do caminho para avançar com as carretas e encontraram a entrada da gruta. O franciscano olhou em volta e não viu vestígios de ocupação, nem cinzas ou pegadas: o local estava abandonado há muitos anos. Inclinou-se para espreitar e cheirou a humidade do interior da terra - musgo e poeira.
Uma espécie de brisa que cheirava a maresia vinha lá de dentro.
Seria a imaginação dele?
Sentiu a pele arrepiar-se
(…) ‘Os mouros moraram aqui’, disse. ‘Quando o exército de Afonso I conquistou Lisboa fugiram para Oriente. Este local foi o último refúgio deles.’ Apontou para a gruta e disse: ‘Esta é Covadonga! Símbolo da vitória cristã sobre o infiel: da Luz sobre a Treva - mas cuidado! Olhem uns pelos outros! Sabe-se lá se não chegámos, invés disso, à entrada do Inferno.’”
Portanto, já se perceberá o porquê de termos falado de uma raposa num blogue de espeleologia, não é? Mas fico por aqui…. Não podendo deixar de recomendar vivamente a leitura de Lisboa Triunfante. Depois de ter lido A Conspiração dos Antepassados e Lisboa Triunfante só me resta aguardar com bastante expectativa a próxima obra de David Soares.
A propósito já me esquecia de dizer que, em Lisboa Triunfante, para além do "mamífero" referido, também surge de forma persistente um "réptil"…
12/01/2009
A Zorra "berrou"?
A lenda da Zorra Berradeira é tão antiga quanto esquecida pelo sedimentar das recordações dos velhos tempos passados. Esta lenda foi bastante veiculada no Algarve, com destaque para a região de Silves, nomeadamente por Francisco Xavier d’Athaíde Oliveira.
A Zorra Berradeira era conhecida pelos ruídos monstruosos que produzia em certa noites. Com o aspecto de cabra, produzia silvos de fúria que anunciavam desgraça iminente! Ninguém os queria ouvir. Contavam-se histórias de pessoas que os tinham escutado e, pouco depois, terão sido vítimas de terríveis desastres, sobretudo mortes de entes queridos.
As lendas associadas a essa "raposa" de tendências algo ruidosas não se cingem contudo ao Algarve, também são conhecidas noutras zonas do País e no estrangeiro. Por exemplo, no Brasil esse “mito” é conhecido, mas também bastante olvidado, nos Estados de Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Também chamado de "Berrador", "Barrulheiro" ou "Bicho Barulhento", a Zorra Berradeira é um ser sem descrição física, que assusta os sertões, através da emissão de altos berros, "compassados, intermitentes e horríveis". A "raposa" atravessa os campos, correndo, todas as sextas-feiras, depois da meia-noite. É uma alma penada… Diz a lenda que a terra não a aceita e só o fará quando ela cumprir sua sina. Na Argentina a bicha chama-se “Kaparilo”…
Essa figura inumana, que povoa o imaginário popular algarvio (e não só), sob a forma de lendas e superstições, pode ser visualizada numa pintura de Carlos Porfírio, da colecção «Lendas do Algarve», que se encontra no Museu de Arqueologia de Faro.

07/01/2009
É o que se arranja…
Para não nos esquecermos do consumismo, que atinge o seu pico mais altaneiro precisamente nesta época que acabámos de vivenciar, aqui fica mais um tesourinho deprimente neste nosso tão saudoso Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC). Palavras para quê?
P.S.: Já agora, BOM ANO NOVO para todos os que acompanham o Spelaion; que seja um ano de amplos horizontes...
