11/12/2008

Água e Vinho subterrâneos

Uma equipa de espeleólogos húngaros descobriu, no passado mês de Novembro, um grande lago de águas termais na cavidade Molnár János, em Budapeste (Hungria). Essa cavidade, conhecida desde 1970, forma parte de uma vasta rede subterrânea de origem hidrotermal responsável pelos famosos banhos termais da cidade de Budapeste.
O presidente da câmara do Distrito 2 de Budapeste, Zsol Láng, onde se situa a Molnár János (em Buda), diz que irá fazer tudo o que esteja ao seu alcance para que a UNESCO declare esta cavidade como património mundial. O lago, considerado um dos maiores hidrotermais de que se tem conhecimento, com 86 metros de comprimento, 26 metros de largura e 8 metros de profundidade mínima, apresenta uma temperatura de 27º C.

[Fonte: Espeleobloc]








Post Scriptum: Na nossa última estadia em Budapeste não tivemos oportunidade de conhecer as águas termais mas, em contrapartida, vimos o Pai Natal na Szemlo-hegy e descobrimos não águas termais, nem água mineral, mas vinho no Budavári Labirintus! Nem mais… :)

Szemlo-hegy (Budapeste) © Pedro Cuiça (2006)

Budavári Labirintus (Budapeste) © Pedro Cuiça (2006)

Isso é tudo especulação

Gruta do Zambujal
Derrocada de Sítio Classificado

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 186, 19 de Junho de 1998]

O fecho da Gruta do Zambujal estava marcado para Junho. Infelizmente, a derrocada de parte do nível inferior da cavidade constituiu a novidade do mês. A conservação desse Sítio Classificado revela-se, cada vez mais, uma impossibilidade e os espeleólogos temem o pior: a derrocada de toda a gruta.

Gruta do Zambujal © Francisco Rasteiro (1998)

Não é todos os dias que se faz futurologia. Na verdade, a previsão do futuro da Gruta do Zambujal não suscitava grandes dúvidas. Era tudo uma questão de tempo. Passa-se a explicar. O jornal Forum Ambiente alertou, na edição de 5 de Junho, para o abandono e destruição da Gruta do Zambujal. No dia seguinte (sábado, 6 de Junho), o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) constatou que parte do nível inferior da cavidade tinha sofrido uma derrocada recente.
O alerta não se fez esperar, a derrocada na Gruta do Zambujal saltou para as páginas dos jornais. A pérola da espeleologia portuguesa voltou a ser notícia e, mais uma vez, por motivos relacionados com a sua destruição. Destruição que, ao longo de duas décadas, transformou essa “jóia”, de forma inexorável, num “buraco” em perigo de ruir na sua totalidade. É que as rochas nas quais a gruta se encontra estão intensamente fracturadas, demonstrando de modo cada vez mais evidente a instabilidade da mesma.
Os vereadores da Câmara Municipal de Sesimbra reuniram-se de urgência, no dia 9 de Junho (terça-feira), para avaliarem o sucedido na Gruta do Zambujal, tendo posto ao corrente da situação o primeiro-ministro, António Guterres, e a ministra do Ambiente, Elisa Ferreira. Os responsáveis do Parque Natural da Arrábida (PNA) estiveram incontactáveis até ao fecho da edição e a pedreira de José Galo limitou-se a dizer: “Isso é tudo especulação”.
Em visita à gruta, no dia 10 de Junho, a Forum Ambiente presenciou a área afectada pela derrocada e, em conversa com a população confirmou que “os rebentamentos são quase todos os dias”. A Guarda Nacional Republicana, de Sesimbra, referiu que não foi participada qualquer ocorrência de explosão fora do comum. No entanto, o “povo” já está habituado aos “abalos de terra” e, por medo ou indiferença, já não se dá ao trabalho de reclamar.

Vergonhosa indiferença, manifesta incompetência
A Gruta do Zambujal já não é a maravilhosa cavidade de há 20 anos atrás. Com grande parte das concreções destruídas, parcialmente entulhada por blocos e desmoronada, o seu valor patrimonial e científico, bem como o seu aproveitamento turístico, encontram-se seriamente comprometidos. Duas décadas após a sua classificação como área protegida de interesse espeleológico, a Gruta do Zambujal continua à mercê da burocracia e da ineficiência das entidades responsáveis, entre as quais se inclui o Instituto da Conservação da Natureza (ICN), que alega invariavelmente carência crónica de meios.
Para o NECA, “o ICN mostra-se completamente desinteressado pela conservação da Gruta do Zambujal, alegando existirem problemas de maior prioridade para serem resolvidos”. O PNA e a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS) também não têm um historial famoso, no que se refere à conservação e dinamização desse geo-recurso cultural. A CMS, ao tempo do anterior executivo, chegou mesmo a entulhar uma das entradas da cavidade com toneladas de blocos. Por incrível que pareça, não foram apuradas responsabilidades e ninguém foi punido.
A indiferença a que a gruta tem sido votada ao longo dos anos está bem patente no terreno. Resultado de diversos actos de vandalismo, bem como da incompreensível extracção de pedra, a incúria e desresponsabilização são bem evidentes. Aliás, segundo o NECA, os recentes desmoronamentos verificados na Gruta do Zambujal terão sido originados por fortes explosões provocadas pela laboração da Pedreira de José Galo. Mas será um “pleonasmo” referir a ilegalidade da laboração da pedreira a menos dos 500 metros desse Sítio Classificado, a destruição de grande parte do vale da Ribeira do Cavalo ou o desaparecimento das pegadas de dinossáurios aí existentes. “Outros valores se levantam…” e a (des)responsabilidade é de todos em geral e de ninguém em particular.
O património espeleológico é que não se compadece com a actuação de quem de direito. Tal como foi referido no jornal Forum Ambiente (nº 184, de 5 de Junho de 1998), talvez o concelho de Sesimbra perca um pólo de desenvolvimento local e o país uma das mais belas grutas conhecidas em território nacional, se é que já não perdeu.



OPINIÃO
Há que dizê-lo…
Com ou sem frontalidade


15 horas: o senhor engenheiro ainda não chegou. 15 horas e 30 minutos: espera-se o senhor engenheiro, a qualquer momento. 16 horas: o senhor engenheiro já se encontra nas instalações, mas em paradeiro desconhecido! 17 horas e 25 minutos: o senhor engenheiro está ao telefone, no entanto não poderá aguarda por ele, em linha, porque a central telefónica ficará ocupada. 17 horas e 30 minutos: o senhor engenheiro acaba de sair. Não, não é o director do Parque Natural da Arrábida (PNA). Esse encontra-se de férias. A pessoa que a Forum Ambiente tentou contactar na terça-feira (dia 9 de Junho), para prestar declarações acerca do sucedido na Gruta do Zambujal e da posição do PNA, é supostamente a que estaria a substituir o director.
O presidente do Instituto da Conservação da Natureza (ICN) também se encontrava incontactável e não havia ninguém no instituto que prestasse esclarecimentos sobre a Gruta do Zambujal. Aconselharam-nos a contactar o PNA, o que já tínhamos feito talvez “umas poucas três dezenas de vezes”. Na Câmara Municipal de Sesimbra o panorama não foi mais animador. O presidente da edilidade encontrava-se de férias e os vereadores estiveram incontactáveis, pois encontravam-se reunidos devido à preocupante situação da Lagoa de Albufeira e face ao recente abatimento da Gruta do Zambujal. Nos dias 12, 15 e 16 de Junho, a Forum Ambiente voltou à carga, dando descanso aos visados nos feriados e fim-de-semana. Mas sem resultados. Até ao fecho da edição (dia 16) a situação de incomunicabilidade das pessoas e entidades referidas manteve-se.
Sem comentários…

03/12/2008

Ena pá!

Serra de Candeeiros © Pedro Cuiça (2008)
Serra de Candeeiros © Pedro Cuiça (2008)
Serra de Candeeiros © Pedro Cuiça (2008)
Serra de Candeeiros © Pedro Cuiça (2008)
Ena pá! 2008? Sim, estamos de facto no século XXI e num novo milénio... Não parece, mas assim é!!!
Como se costuma dizer: uma imagem vale mais do que mil palavras. E estas, sendo meia dúzia, falarão por si… Portanto, palavras para quê? O que é natural é bom, não é? E quando se encontra num parque natural (como o PNSAC) as expectativas ainda serão maiores! Mais natural, mais natureza, mais verde, mais ecológico, mais sustentável, mais… Blá, blá, blá...
De qualquer modo, para quem ache imprescindível uma explicaçãozinha, aqui fica... À falta de algum considerando mais profundo, só nos ocorre mesmo algo bem superficial :

“Marisco é bom,
Marisco satisfação,
Marisco é bom,
Marisco é-i…”


Serra de Candeeiros © Pedro Cuiça (2008)
Serra de Candeeiros © Pedro Cuiça (2008)

Grande pedra...

Ordenamento do Território
O reino da pedra

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente, nº 159, 12 de Dezembro de 1997]

Serra da Arrábida © Francisco Rasteiro (1997)

O Núcleo Cicloturista de Sesimbra organizou um debate sobre desenvolvimento sustentável no concelho. Na passada semana demos a conhecer as novidades acerca da prática de actividades de ar livre no Parque Natural da Serra da Arrábida. Mas não poderíamos deixar passar em branco as pedreiras e a Gruta do Zambujal.

No dia 29 de Novembro, o Núcleo Cicloturista de Sesimbra (NCS) organizou um debate sobre desenvolvimento sustentável no concelho. Espaço de discussão sobre preservação das riquezas naturais do concelho de Sesimbra, contou com o apoio do Instituto de Promoção Ambiental (IPAMB), Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA) e Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA).
O mar constituiu o primeiro tema, onde se debateram sobretudo aspectos ligados à indústria pesqueira. Mas foi a serra, o segundo tema do debate, que levantou as mais acesas polémicas. Na semana passada abordaram-se as novidades acerca da prática de actividades de ar livre na área do Parque Natural da Arrábida (PNA). Agora vamos focar a indústria extractiva e o problema da Gruta do Zambujal. Questões, aliás, em torno das quais se centrou a maior parte do debate. Carlos Costa, da Universidade Nova de Lisboa, iniciou o segundo tema do debate afirmando que “na serra vamos ter que privilegiar a temática das pedreiras. São ou não as pedreiras que laboram no PNA essenciais para o concelho de Sesimbra, para a área metropolitana de Lisboa e para o País?” questionou esse geólogo. A clivagem situar-se-á entre aqueles que pensam que as pedreiras são essenciais e os que pensam que poderíamos prescindir delas.
A utilidade das pedreiras será inquestionável. No ano passado foram retiradas oito milhões de toneladas de pedra do PNA (fundamentalmente britas para a construção civil), o que correspondeu a dois milhões e meio de contos. A localização das ditas pedreiras é que não gera consensos. “À semelhança do que defendeu há cerca de dez anos o Grupo de Trabalho da Arrábida da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), é necessário a interdição de novas frentes de pedreiras dentro do perímetro do PNA, bem como da ampliação de outras que possam perigar áreas de especial interesse ecológico, como por exemplo a área da Serra do Risco”, salientou Carlos Costa.
Por outro lado, as pedreiras de Sesimbra encontram-se no esforço máximo de laboração e espera-se que a indústria extractiva venha a sofrer um refluxo económico no próximo ano, devido à finalização dos trabalhos da Expo 98 e da Ponte Vasco da Gama. Alguns mais fundamentalistas da área do ambiente suspirarão de alívio. No entanto, isso poderá implicar que as empresas não possuam verbas para fazer aquilo que já deveriam de ter feito há muito tempo: a recuperação paisagística. “Desiludam-se aqueles que pensam, que aceitam, teorias do género: primeiro exploramos, depois recuperamos. Isso não existe em nenhuma parte do mundo. O que se faz é um plano sequencial de exploração e de recuperação. Porque a recuperação custa qualquer coisa como 10 a 27 por cento do valor da produção. Ninguém vai aplicar esses valores na recuperação, se não estiver a colher lucros de exploração.
Mas não houve só más notícias no debate sobre desenvolvimento sustentável no concelho de Sesimbra. O plano de ordenamento das pedreiras de Sesimbra está prestes a ser aprovado. “Se esse plano for aprovado, a vantagem que tem, relativamente a não ser aprovado (depois de se realizarem as negociações parciais), é acima de tudo a de que pode ser um plano conjugado. Um plano que contempla soluções que se articulem e que permitam a garantia de que a qualidade do ambiente vai novamente pode ser colocada a níveis elevados compatíveis com o nível de protecção da área.
Para Ricardo Paiva, director do PNA, “convém não esquecer que somente três por cento da área do parque é ocupada por pedreiras, os restantes 97 por cento não têm pedreiras”. Esses 97 por cento pertencem à zona que está minimamente lesada por pressões económicas, políticas ou dos mais variados interesses. “Apesar de tudo, quem for dar uma volta na Arrábida, com os defeitos que tem - há lixos, há entulhos, há agressões ao ambiente,… e eu não os quero esconder - de qualquer forma se não houvesse parque o que é que seria actualmente esta área.
Outro dos assuntos que mereceu aturada atenção foi o da Gruta do Zambujal. Esta, após o longo interregno a que foi votada sob a alçada do ICN, passou este ano para a jurisdição do PNA. Ricardo Paiva referiu que “no plano de actividades do ano que vem inscrevi uma verba para resolver de uma vez por todas o problema da Gruta do Zambujal”. Segundo Ricardo Paiva, as reuniões - nomeadamente com a Câmara Municipal de Sesimbra, Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) e ICN (pelo passado que teve no estudo e na condução de todo o processo da Gruta do Zambujal) - irão continuar.
Mas foi estabelecido um calendário com vista ao encerramento da cavidade. Aliás, já foi efectuado um encontro com especialistas tendo em vista o encerramento da mesma. A gruta vai ser encerrada, mas o acesso aos morcegos será assegurado. Apenas a entrada do Homem será interditada por tempo indeterminado, até que esteja finalizado um estudo de aproveitamento turístico da caverna. “Mas com base em estudos científicos, para sabermos a capacidade de carga e o potencial aproveitamento ou não das grutas do Zambujal”, assegurou o director do PNA. “Neste momento estamos a avançar, penso que a bom ritmo, e quase que poderia dizer que em meados do ano que vem teremos esta questão do encerramento da gruta resolvida”, finalizou.
Por último, refira-se que está em curso a reclassificação do PNA e espera-se que o Cabo Espichel venha a fazer parte do Parque Natural. Mas a área da Gruta do Zambujal e Vale da Ribeira do Cavalo, bem como zonas sensíveis do ponto de vista da construção clandestina, estão, à partida, excluídas. O parque relega as responsabilidades para outras entidades. “Nós somos Instituto de Conservação da Natureza, não somos instituto do desordenamento territorial”. Novos rumos estão traçados, agora é esperar para ver.

P.S.: Não é um Instituto de Desordenamento do Território. E de Ordenhamento?

19/11/2008

Conferência em Coimbra

O Instituto de Estudos Geográficos da Universidade de Coimbra, no âmbito do Mestrado em Geografia Física - Ambiente e Ordenamento do Território, vai realizar no próximo dia 28 de Novembro (6º feira), na Sala Fernandes Martins do Colégio de S. Jerónimo (2º andar), pelas 17.00 horas, uma conferência subordinado ao tema “Carso e Paleocarsos em Itália meridional (Puglia) - As morfo-sequências subterrâneas enquanto arquivos de dados” a proferir pelo Doutor Vincenzo Iurilli do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Bari (Itália).

[Fonte: Sérgio Medeiros in Espeleo.pt]

04/11/2008

Ecologia Subterrânea

[Fonte: blog do EC/DC]

Na boa... (II)

Espeleologia
Lapa do Médico

Cavidade ideal para o desenvolvimento de técnicas de progressão dentro de gruta. Com algumas passagens estreitas entre salas, a geologia é diversa nesta gruta, passando por zonas de espeleotemas, a outras onde os movimentos tectónicos estão bem latentes.
Preço: 16 €
Duração: manhã
Grau de dificuldade: médio/alto
Informações: (…)
Ponto de encontro: Praia das Bicas
Org.: (…)”

[Sesimbra'acontece - Agenda de Acontecimentos do Concelho de Sesimbra, Ano 3, nº 32, Novembro 2008]

Mata do Solitário © Joana Santos

*****

Apraz-nos saber que a geologia é diversa e que os movimentos tectónicos são latentes... Antes isso do que lactentes! O que nos surpreende é a situação de se estar a publicitar uma actividade numa área de reserva integral em pleno Parque Natural da Arrábida (PNA)! Pois, porque a sua simples realização, sem divulgação, é o pão-nosso de cada dia. O fenómeno não é de hoje, nem de ontem...

Cordilheira da Arrábida

Ordenamento Turístico
Regras na Arrábida

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 158, 5 de Dezembro de 1997]

As actividades de ar livre, no Parque Natural da Arrábida, vão estar sujeitas a regras precisas, integradas num plano de ordenamento turístico. O debate organizado pelo Núcleo Cicloturista de Sesimbra, no passado sábado, centrou-se sobretudo nas pedreiras e na Gruta do Zambujal. No entanto, o turismo foi apontado como um dos problemas mais graves dessa área protegida.

No passado sábado, dia 29 de Novembro, o Núcleo Cicloturista de Sesimbra (NCS) organizou, no auditório - Centro de Formação Profissional para Sector das Pescas, em Sesimbra, um debate sobre desenvolvimento sustentável neste concelho. Espaço de discussão sobre a preservação das riquezas naturais do concelho de Sesimbra, contou com o apoio do Instituto de Promoção Ambiental (IPAMB), Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA) e Núcleo de Espeleologia da costa Azul (NECA). O mar constituiu o primeiro tema, onde se debateram sobretudo aspectos ligados com a pesca, base da economia local. Salientou-se igualmente a necessidade de classificação do litoral como área protegida submarina, classificação necessária à própria salvaguarda da actividade piscatória. Não ficou esquecida a necessidade de enquadramento das actividades aquáticas (nomeadamente o mergulho).
Mas Sesimbra caracteriza-se por uma dualidade entre o mar e a serra. E foi a serra precisamente o tema da segunda parte do debate, que causou as maiores polémicas e onde se manifestaram os ânimos mais exaltados.
Um dos pontos quentes da discussão centrou-se nas declarações do director do Parque Natural da Serra da Arrábida (PNA) acerca do turismo nessa área protegida. Ricardo Paiva começou por salientar que o debate tratava o desenvolvimento sustentável no concelho de Sesimbra, não se circunscrevendo este somente ao caso das pedreiras. A reacção à passagem do documentário “Escrava de Pedra”, da jornalista Rita Saldanha, que abriu o debate sobre a serra.
Há muitas questões na Arrábida. Não são apenas as pedreiras, não é apenas a Gruta do Zambujal.” Segundo o director do PNA, a grande ameaça ou uma das grandes ameaças da Arrábida, em termos ambientais, consiste principalmente no “desordenamento turístico”. E “a circulação desenfreada de milhares de pessoas que procuram esta área especialmente apetecível” requer uma conveniente gestão.
Para Ricardo Paiva, a área do PNA apresenta “características óptimas para a prática dos novos turismos (ecoturismo, turismos radicais, turismos de natureza, etc.)”, mas por vezes esta colide com a conservação.
Com o intuito de minimizar os impactes das actividades out-door, o PNA encontra-se a elaborar o plano de ordenamento turístico da Arrábida. Em princípio, será do conhecimento público já no início do ano que vem, integrando a reclassificação do parque. “Será apresentada a discussão pública uma concepção de ordenamento turístico que vai passar pela limitação e interdição das actividades turísticas, nomeadamente as motorizadas e muitas das não motorizadas”, assegurou o director dessa área protegida.
As alusões à prática do cicloturismo não passaram desapercebidas ao anfitrião do debate, o NCS. “O cicloturismo passa a ser proibido no Parque Natural da Arrábida. Atenção, passa a ser proibido se for feito de uma forma desordenada. Ele passará a ser perfeitamente apoiado, passa a ser perfeitamente desejado, desde que devidamente enquadrado em regras que são definidas pela área protegida.
O director do parque referiu a incapacidade de “vigiar e controlar estas dezenas ou centenas de milhares de transeuntes que praticam todo o tipo de turismo”. Uns absolutamente inofensivos, outros extremamente agressivos para o ambiente. “Como não temos capacidade de controlar, com quatro guardas (que é o que nós temos na Arrábida), estes milhares de pessoas, a solução encontrada foi: vamos ter com as associações, vamos ter com as empresas, vamos definir as regras em que cada uma opera, quantas pessoas operam, onde operam, quando operam e vamos ordenar tudo isso.
No futuro plano de ordenamento turístico da Arrábida, as empresas e associações passam a ser responsáveis pela aplicação das regras fixadas pelo parque. Quando alguma não as cumprir, ser-lhes-á tirado, digamos assim, o “alvará” que terão de possuir para poderem desenvolver actividades nessa área classificada. O director do PNA reconheceu que a discussão pública não vai ser pacífica, mas salientou que “é uma forma perfeitamente legitima que o parque tem de preservar o espaço que está sob sua gestão”.
Carlos Sirgado, em representação do NECA, fez notar que não interessa proibir eventuais actividades úteis para o concelho. “Interessa sim condicioná-las a um nível e a um volume em que não se tornem muito gravosas”. Para este geógrafo, quando o engenheiro Ricardo Paiva referiu “que o usufruto e as intervenções turísticas na área do parque vão ser limitadas a acções concretas para que se saiba quem é que faz o quê, onde e quando”, só há que aplaudir. “Defendo que deve haver um controlo rigoroso do espaço, para que depois as coisas possam ser chamadas pelos seus nomes”, assegurou.
O representante dos espeleólogos mostrou-se igualmente céptico com a falta de guardas no PNA. É que, não havendo pessoal para efectuar o acompanhamento das actividades, poderá não haver autorização para a realização das mesmas. De facto, a crónica carência de meios, quer do PNA, quer do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), poderá impossibilitar por completo a aplicação, no terreno, do ordenamento das actividades turísticas.
O geólogo Carlos Costa, da Universidade Nova de Lisboa, por seu turno, lembrou que muitas vezes os planos não têm aplicabilidade no terreno. Por outro lado, acentuou a importância destes serem amplamente participativos, de consulta pública abrangente. “Um processo que permita o envolvimento da população de forma desassombrada. Ou então corremos o risco destas situações continuarem relegadas para o amanhã.
Algumas das associações de actividades de ar livre é que, ao que tudo indica, não terão sido contactadas para contribuírem com os seus pontos de vista. A reacção de José Manuel Caetano, do NCS e presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta, não se fez esperar. Para este cicloturista, as palavras proferidas pelo director do parque foram ofensivas e despropositadas. O NCS é uma associação de defesa do ambiente que pauta as suas actividades no respeito pela conservação da natureza, pelo que as proibições, a avançarem, serão injustificadas. Francisco Rasteiro, do NECA, referiu que os espeleólogos não foram informados do ordenamento das actividades turísticas e desconhecem o conteúdo do mesmo.
Um plano de ordenamento das actividades turísticas que não passe por uma profunda discussão entre os cidadãos e instituições directamente envolvidas não terá certamente grande futuro. Serão mais um conjunto de normas inaplicáveis e desajustadas da realidade. Letra morta da lei ou plano aplicável? A ver vamos.

03/11/2008

Síndroma do Nariz Branco

© DR

Identificada uma causa da doença dos morcegos

Biologia. Um pequeno fungo está a dizimar a espécie, no Nordeste dos Estados Unidos.

Uma equipa de cientistas conseguiu identificar a causa (ou uma das causas) da doença conhecida por síndroma do nariz branco e que já matou mais de 100mil morcegos nos Estados Unidos, nos últimos dois anos. Segundo um estudo publicado na Science, trata-se de um fungo branco que aparece nos cadáveres dos animais mortos durante a hibernação.
Os investigadores dizem que este fungo se desenvolve melhor em condições muito frias, preferindo temperaturas típicas de um frigorífico.
Os cientistas ainda não conseguiram determinar se o fungo existia nas cavernas de hibernação dos morcegos ou se as contaminou, não havendo também certezas desta ser a única causa da morte. A confirmar-se uma contaminação, a causa poderá ser humana.
Os morcegos têm importante função ecológica, sobretudo no controlo de insectos, e a sua população conheceu um declínio de 75% no nordeste dos Estdos Unidos, em apenas dois anos.


[Diário de Notícias Ano 144º, nº 50982, 2 de Novembro de 2008, pg. 45]

À margem da lei

Lapa do Fumo
O património está a saque

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 181, 15 de Maio de 1998]

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul descobriu que o património arqueológico existente na Lapa do Fumo está a ser devassado. A Câmara Municipal de Sesimbra e a Guarda Nacional Republicana já tomaram conta da ocorrência. Espera-se uma intervenção rápida para pôr fim ao sucedido.

Lapa do Fumo (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1998)

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) alertou a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), no final de Abril, para as estranhas escavações em curso na Lapa do Fumo. Os espeleólogos encontraram, a par de detritos actuais (roupa, velas, sacos, garrafas de plástico, etc.), materiais cerâmicos, líticos e ósseos, dispersos à superfície. Destacavam-se dois baldes de plástico cheios de fragmentos de cerâmicas, espólio amontoado e terras revolvidas.
A edilidade sesimbrense despoletou rapidamente o processo de averiguação da situação e protecção da cavidade. O arqueólogo da CMS, Luís Ferreira, deslocou-se à Lapa do Fumo, acompanhado da GNR, a fim de ser tomada conta da ocorrência. Paralelamente, os serviços técnicos da CMS estão a decidir qual a forma de fecharem a Lapa do Fumo, porque as soluções anteriores revelaram-se infrutíferas perante os actos de vandalismo. Segundo Luis Ferreira, a última autorização para efectuar trabalhos na Lapa do Fumo remonta a 1988. Quem cavou o solo da gruta procedeu à margem da lei.

Caçadores de tesouros
A Lapa do Fumo situa-se na vertente sul da Serra dos Pinheirinhos (concelho de Sesimbra). Corresponde a uma galeria fóssil, com cerca de 70 metros de comprimento, orientada segundo SE-NW. A largura e altura máximas são de 12 e 6 metros respectivamente. Possui abundantes estalactites e estalagmites, quase na sua totalidade destruídas. As colunas são das poucas formações que conseguiram resistir à destruição. Os grupos de colunatas, dispostos ao longo do eixo longitudinal da cavidade, dividem a galeria em dois corredores onde, apenas no final, é necessário rastejar. De resto, a progressão é fácil e acessível a qualquer individuo, mesmo sem equipamento especializado. A Forum Ambiente visitou o local, na companhia de Francisco Rasteiro (do NECA), e constatou a devassa do espólio arqueológico, a destruição quase total das concreções e o acesso livre a um arqueo-sítio de valor inquestionável. É que as duas portas gradeadas, os cadeados e as paredes da casa-mata não resistiram à fúria daqueles que, à força, quiseram visitar a Lapa do Fumo.
Como refere Marc Jasinski (no livro La Speleologie, 1978): “penetrar numa habitação do Paleolítico, sem permissão de visita, simplesmente para satisfazer alguma mania de coleccionista ou de antiquário, ainda que seja 30 mil anos depois da partida dos seu proprietários (…) continua sendo um delito”. Mais, destruir os fradeamentos e as paredes que impediam o acesso à Lapa do Fumo e/ou saquear o espólio ai existente será um delito grave, um crime agravado, mais não fosse porque a cavidade é um Imóvel de Interesse Público (Decreto-Lei nº 28/82, de 26 de Fevereiro).
Para Luís Ferreira, o “tráfico de material arqueológico, apesar de não estar fundamentada a sua existência, será uma das possíveis explicações para as escavações” em curso na Lapa do Fumo. Segundo esta fonte, os indivíduos envolvidos neste atentado ao património concelhio estariam documentados, pois a área cavada corresponde àquela onde foram descobertas moedas árabes. Os incógnitos, curiosos, coleccionadores ou antiquários serão autênticos “caçadores de tesouros”.

“Estilo Lapa do Fumo”
Hermanfrid Schunbart, Bosh-Gimpera, J. Pedro Garcia Roiz ou Juan de Mata Carriazo, entre outros, colocam em destaque a cerâmica da Lapa do Fumo quando abordam a fase do Bronze final ibérico. Trata-se da “cerâmica com ornatos brunidos”, que alguns denominam “estilo Lapa do Fumo”.
A “Cerâmica com ornatos brunidos” da Lapa do Fumo destaca-se por diverso motivos. Foi a primeira do género a ser divulgada no nosso país (aquando da sua descoberta, em 1956, somente eram conhecidos escassos fragmentos desse tipo cerâmico). É a mais variada e bela, de entre as restantes estações portuguesas e espanholas onde ocorre. Proporcionou ao seu descobridor, Eduardo da Cunha Serrão, a primeira cronologia coerente da “cerâmica com ornatos brunidos” (Idade do Ferro). E, actualmente, esta cerâmica sesimbrense é considerada como sendo do final da Idade do Bronze, transição para a Idade do Ferro.
H. N. Savoy, na obra Espanha e Portugal (1968), assinala e reproduz (figura 85, página 243) um exemplar da “cerâmica com ornatos brunidos” da Lapa do Fumo. O. da Veiga Ferreira e M. Leitão, em Portugal Pré-Histórico (1983), não referem este notável tipo de cerâmica, porque a sua obra exclui a Idade do Bronze. No entanto, reproduzem duas gravuras de vasos neolíticos da Lapa do Fumo (na página 152).
A Lapa do Fumo revelou níveis do Neolítico antigo evolucionado, do Neolítico recente, do Calcolítico, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e das épocas romana e árabe. O espólio arqueológico é muito variado: tumulações; objectos de carácter religioso (placas de xisto gravadas, ídolos-falange e “coelhinhos” de osso; raspadores e micrólitos geométricos de sílex; punhais, cabos cilíndricos, cabeças de alfinete, furadores, espátulas e adornos de osso; vasos, taças, tigelas, pratos e copos de cerâmica; contas bicónicas e polidas de azeviche, etc..
A presença dos romanos na Lapa do Fumo está representada por cerâmicas, nomeadamente pelos bicos de ânforas. A ocupação muçulmana também é testemunha pela presença de cerâmicas. Foram também descobertas provas numismáticas (quirates do século XII) que identificaram a existência, até então desconhecida, de oficinas monetárias muçulmanas em Silves e Beja.
Imóvel de Interesse Público, geomonumento que nos conta um pouco de história da Terra e arqueo-sítio que no revela muito da história do Homem, a Lapa do Fumo está a se pilhada. Urge defender esta gruta antes que seja tarde.

*****

Nota: Estamos em 2008, dez anos passados, e a Lapa do Fumo continua a receber visitas... A Sesimbra'acontece - Agenda de Acontecimentos do Concelho de Sesimbra (Ano 3, nº 32, Novembro 2008) divulga uma actividade a realizar-se no próximo dia 22 de Novembro, às 9.30 a.m.! Na boa...

30/10/2008

Cave Protection

Na sequência da notícia que publicámos no Spelaion sobre a Declaração WD66/2008, destacamos que no próximo dia 4 de Dezembro vai ser votada, no Parlamento Europeu, a proposta sobre a protecção das grutas como património cultural, natural e ambiental. A proposta apresentada por Mikel Irujo Amenaza, Rebecca Harms e Csaba Sándor Tabajdi, da European Cave Protection Comission, é sem dúvida um importantíssimo passo para a efectiva protecção do meio subterrâneo.

Mortero de Astrana (Cantábria) © Pedro Cuiça (2007)

29/10/2008

Jornadas de Desporto e Mulher

As I Jornadas Deporte y Mujer realizam-se, de 21 a 23 de Novembro, no Centro de Alto Rendimento de Granada (Andaluzia). A inscrição é livre, cobrando-se apenas o alojamento em regime de pensão completa: 49 € por pessoa/dia.
As inscrições devem ser enviadas para a Federação Espanhola de Espeleologia (FEE) através do e-mail fedespeleo@fedespeleo.com. O prazo de inscrição finaliza no dia 17 de Novembro.

[Fonte: blog do EC/DC]