04/11/2008
Na boa... (II)
Lapa do Médico
Cavidade ideal para o desenvolvimento de técnicas de progressão dentro de gruta. Com algumas passagens estreitas entre salas, a geologia é diversa nesta gruta, passando por zonas de espeleotemas, a outras onde os movimentos tectónicos estão bem latentes.
Preço: 16 €
Duração: manhã
Grau de dificuldade: médio/alto
Informações: (…)
Ponto de encontro: Praia das Bicas
Org.: (…)”
[Sesimbra'acontece - Agenda de Acontecimentos do Concelho de Sesimbra, Ano 3, nº 32, Novembro 2008]
Mata do Solitário © Joana Santos
Apraz-nos saber que a geologia é diversa e que os movimentos tectónicos são latentes... Antes isso do que lactentes! O que nos surpreende é a situação de se estar a publicitar uma actividade numa área de reserva integral em pleno Parque Natural da Arrábida (PNA)! Pois, porque a sua simples realização, sem divulgação, é o pão-nosso de cada dia. O fenómeno não é de hoje, nem de ontem...
Cordilheira da Arrábida
Regras na Arrábida
[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 158, 5 de Dezembro de 1997]
As actividades de ar livre, no Parque Natural da Arrábida, vão estar sujeitas a regras precisas, integradas num plano de ordenamento turístico. O debate organizado pelo Núcleo Cicloturista de Sesimbra, no passado sábado, centrou-se sobretudo nas pedreiras e na Gruta do Zambujal. No entanto, o turismo foi apontado como um dos problemas mais graves dessa área protegida.
No passado sábado, dia 29 de Novembro, o Núcleo Cicloturista de Sesimbra (NCS) organizou, no auditório - Centro de Formação Profissional para Sector das Pescas, em Sesimbra, um debate sobre desenvolvimento sustentável neste concelho. Espaço de discussão sobre a preservação das riquezas naturais do concelho de Sesimbra, contou com o apoio do Instituto de Promoção Ambiental (IPAMB), Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA) e Núcleo de Espeleologia da costa Azul (NECA). O mar constituiu o primeiro tema, onde se debateram sobretudo aspectos ligados com a pesca, base da economia local. Salientou-se igualmente a necessidade de classificação do litoral como área protegida submarina, classificação necessária à própria salvaguarda da actividade piscatória. Não ficou esquecida a necessidade de enquadramento das actividades aquáticas (nomeadamente o mergulho).
Mas Sesimbra caracteriza-se por uma dualidade entre o mar e a serra. E foi a serra precisamente o tema da segunda parte do debate, que causou as maiores polémicas e onde se manifestaram os ânimos mais exaltados.
Um dos pontos quentes da discussão centrou-se nas declarações do director do Parque Natural da Serra da Arrábida (PNA) acerca do turismo nessa área protegida. Ricardo Paiva começou por salientar que o debate tratava o desenvolvimento sustentável no concelho de Sesimbra, não se circunscrevendo este somente ao caso das pedreiras. A reacção à passagem do documentário “Escrava de Pedra”, da jornalista Rita Saldanha, que abriu o debate sobre a serra.
“Há muitas questões na Arrábida. Não são apenas as pedreiras, não é apenas a Gruta do Zambujal.” Segundo o director do PNA, a grande ameaça ou uma das grandes ameaças da Arrábida, em termos ambientais, consiste principalmente no “desordenamento turístico”. E “a circulação desenfreada de milhares de pessoas que procuram esta área especialmente apetecível” requer uma conveniente gestão.
Para Ricardo Paiva, a área do PNA apresenta “características óptimas para a prática dos novos turismos (ecoturismo, turismos radicais, turismos de natureza, etc.)”, mas por vezes esta colide com a conservação.
Com o intuito de minimizar os impactes das actividades out-door, o PNA encontra-se a elaborar o plano de ordenamento turístico da Arrábida. Em princípio, será do conhecimento público já no início do ano que vem, integrando a reclassificação do parque. “Será apresentada a discussão pública uma concepção de ordenamento turístico que vai passar pela limitação e interdição das actividades turísticas, nomeadamente as motorizadas e muitas das não motorizadas”, assegurou o director dessa área protegida.
As alusões à prática do cicloturismo não passaram desapercebidas ao anfitrião do debate, o NCS. “O cicloturismo passa a ser proibido no Parque Natural da Arrábida. Atenção, passa a ser proibido se for feito de uma forma desordenada. Ele passará a ser perfeitamente apoiado, passa a ser perfeitamente desejado, desde que devidamente enquadrado em regras que são definidas pela área protegida.”
O director do parque referiu a incapacidade de “vigiar e controlar estas dezenas ou centenas de milhares de transeuntes que praticam todo o tipo de turismo”. Uns absolutamente inofensivos, outros extremamente agressivos para o ambiente. “Como não temos capacidade de controlar, com quatro guardas (que é o que nós temos na Arrábida), estes milhares de pessoas, a solução encontrada foi: vamos ter com as associações, vamos ter com as empresas, vamos definir as regras em que cada uma opera, quantas pessoas operam, onde operam, quando operam e vamos ordenar tudo isso.”
No futuro plano de ordenamento turístico da Arrábida, as empresas e associações passam a ser responsáveis pela aplicação das regras fixadas pelo parque. Quando alguma não as cumprir, ser-lhes-á tirado, digamos assim, o “alvará” que terão de possuir para poderem desenvolver actividades nessa área classificada. O director do PNA reconheceu que a discussão pública não vai ser pacífica, mas salientou que “é uma forma perfeitamente legitima que o parque tem de preservar o espaço que está sob sua gestão”.
Carlos Sirgado, em representação do NECA, fez notar que não interessa proibir eventuais actividades úteis para o concelho. “Interessa sim condicioná-las a um nível e a um volume em que não se tornem muito gravosas”. Para este geógrafo, quando o engenheiro Ricardo Paiva referiu “que o usufruto e as intervenções turísticas na área do parque vão ser limitadas a acções concretas para que se saiba quem é que faz o quê, onde e quando”, só há que aplaudir. “Defendo que deve haver um controlo rigoroso do espaço, para que depois as coisas possam ser chamadas pelos seus nomes”, assegurou.
O representante dos espeleólogos mostrou-se igualmente céptico com a falta de guardas no PNA. É que, não havendo pessoal para efectuar o acompanhamento das actividades, poderá não haver autorização para a realização das mesmas. De facto, a crónica carência de meios, quer do PNA, quer do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), poderá impossibilitar por completo a aplicação, no terreno, do ordenamento das actividades turísticas.
O geólogo Carlos Costa, da Universidade Nova de Lisboa, por seu turno, lembrou que muitas vezes os planos não têm aplicabilidade no terreno. Por outro lado, acentuou a importância destes serem amplamente participativos, de consulta pública abrangente. “Um processo que permita o envolvimento da população de forma desassombrada. Ou então corremos o risco destas situações continuarem relegadas para o amanhã.”
Algumas das associações de actividades de ar livre é que, ao que tudo indica, não terão sido contactadas para contribuírem com os seus pontos de vista. A reacção de José Manuel Caetano, do NCS e presidente da Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta, não se fez esperar. Para este cicloturista, as palavras proferidas pelo director do parque foram ofensivas e despropositadas. O NCS é uma associação de defesa do ambiente que pauta as suas actividades no respeito pela conservação da natureza, pelo que as proibições, a avançarem, serão injustificadas. Francisco Rasteiro, do NECA, referiu que os espeleólogos não foram informados do ordenamento das actividades turísticas e desconhecem o conteúdo do mesmo.
Um plano de ordenamento das actividades turísticas que não passe por uma profunda discussão entre os cidadãos e instituições directamente envolvidas não terá certamente grande futuro. Serão mais um conjunto de normas inaplicáveis e desajustadas da realidade. Letra morta da lei ou plano aplicável? A ver vamos.
03/11/2008
Síndroma do Nariz Branco
© DRBiologia. Um pequeno fungo está a dizimar a espécie, no Nordeste dos Estados Unidos.
Uma equipa de cientistas conseguiu identificar a causa (ou uma das causas) da doença conhecida por síndroma do nariz branco e que já matou mais de 100mil morcegos nos Estados Unidos, nos últimos dois anos. Segundo um estudo publicado na Science, trata-se de um fungo branco que aparece nos cadáveres dos animais mortos durante a hibernação.
Os investigadores dizem que este fungo se desenvolve melhor em condições muito frias, preferindo temperaturas típicas de um frigorífico.
Os cientistas ainda não conseguiram determinar se o fungo existia nas cavernas de hibernação dos morcegos ou se as contaminou, não havendo também certezas desta ser a única causa da morte. A confirmar-se uma contaminação, a causa poderá ser humana.
Os morcegos têm importante função ecológica, sobretudo no controlo de insectos, e a sua população conheceu um declínio de 75% no nordeste dos Estdos Unidos, em apenas dois anos.”
[Diário de Notícias Ano 144º, nº 50982, 2 de Novembro de 2008, pg. 45]
À margem da lei
O património está a saque
[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 181, 15 de Maio de 1998]
O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul descobriu que o património arqueológico existente na Lapa do Fumo está a ser devassado. A Câmara Municipal de Sesimbra e a Guarda Nacional Republicana já tomaram conta da ocorrência. Espera-se uma intervenção rápida para pôr fim ao sucedido.
O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) alertou a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), no final de Abril, para as estranhas escavações em curso na Lapa do Fumo. Os espeleólogos encontraram, a par de detritos actuais (roupa, velas, sacos, garrafas de plástico, etc.), materiais cerâmicos, líticos e ósseos, dispersos à superfície. Destacavam-se dois baldes de plástico cheios de fragmentos de cerâmicas, espólio amontoado e terras revolvidas.
A edilidade sesimbrense despoletou rapidamente o processo de averiguação da situação e protecção da cavidade. O arqueólogo da CMS, Luís Ferreira, deslocou-se à Lapa do Fumo, acompanhado da GNR, a fim de ser tomada conta da ocorrência. Paralelamente, os serviços técnicos da CMS estão a decidir qual a forma de fecharem a Lapa do Fumo, porque as soluções anteriores revelaram-se infrutíferas perante os actos de vandalismo. Segundo Luis Ferreira, a última autorização para efectuar trabalhos na Lapa do Fumo remonta a 1988. Quem cavou o solo da gruta procedeu à margem da lei.
Caçadores de tesouros
A Lapa do Fumo situa-se na vertente sul da Serra dos Pinheirinhos (concelho de Sesimbra). Corresponde a uma galeria fóssil, com cerca de 70 metros de comprimento, orientada segundo SE-NW. A largura e altura máximas são de 12 e 6 metros respectivamente. Possui abundantes estalactites e estalagmites, quase na sua totalidade destruídas. As colunas são das poucas formações que conseguiram resistir à destruição. Os grupos de colunatas, dispostos ao longo do eixo longitudinal da cavidade, dividem a galeria em dois corredores onde, apenas no final, é necessário rastejar. De resto, a progressão é fácil e acessível a qualquer individuo, mesmo sem equipamento especializado. A Forum Ambiente visitou o local, na companhia de Francisco Rasteiro (do NECA), e constatou a devassa do espólio arqueológico, a destruição quase total das concreções e o acesso livre a um arqueo-sítio de valor inquestionável. É que as duas portas gradeadas, os cadeados e as paredes da casa-mata não resistiram à fúria daqueles que, à força, quiseram visitar a Lapa do Fumo.
Como refere Marc Jasinski (no livro La Speleologie, 1978): “penetrar numa habitação do Paleolítico, sem permissão de visita, simplesmente para satisfazer alguma mania de coleccionista ou de antiquário, ainda que seja 30 mil anos depois da partida dos seu proprietários (…) continua sendo um delito”. Mais, destruir os fradeamentos e as paredes que impediam o acesso à Lapa do Fumo e/ou saquear o espólio ai existente será um delito grave, um crime agravado, mais não fosse porque a cavidade é um Imóvel de Interesse Público (Decreto-Lei nº 28/82, de 26 de Fevereiro).
Para Luís Ferreira, o “tráfico de material arqueológico, apesar de não estar fundamentada a sua existência, será uma das possíveis explicações para as escavações” em curso na Lapa do Fumo. Segundo esta fonte, os indivíduos envolvidos neste atentado ao património concelhio estariam documentados, pois a área cavada corresponde àquela onde foram descobertas moedas árabes. Os incógnitos, curiosos, coleccionadores ou antiquários serão autênticos “caçadores de tesouros”.
“Estilo Lapa do Fumo”
Hermanfrid Schunbart, Bosh-Gimpera, J. Pedro Garcia Roiz ou Juan de Mata Carriazo, entre outros, colocam em destaque a cerâmica da Lapa do Fumo quando abordam a fase do Bronze final ibérico. Trata-se da “cerâmica com ornatos brunidos”, que alguns denominam “estilo Lapa do Fumo”.
A “Cerâmica com ornatos brunidos” da Lapa do Fumo destaca-se por diverso motivos. Foi a primeira do género a ser divulgada no nosso país (aquando da sua descoberta, em 1956, somente eram conhecidos escassos fragmentos desse tipo cerâmico). É a mais variada e bela, de entre as restantes estações portuguesas e espanholas onde ocorre. Proporcionou ao seu descobridor, Eduardo da Cunha Serrão, a primeira cronologia coerente da “cerâmica com ornatos brunidos” (Idade do Ferro). E, actualmente, esta cerâmica sesimbrense é considerada como sendo do final da Idade do Bronze, transição para a Idade do Ferro.
H. N. Savoy, na obra Espanha e Portugal (1968), assinala e reproduz (figura 85, página 243) um exemplar da “cerâmica com ornatos brunidos” da Lapa do Fumo. O. da Veiga Ferreira e M. Leitão, em Portugal Pré-Histórico (1983), não referem este notável tipo de cerâmica, porque a sua obra exclui a Idade do Bronze. No entanto, reproduzem duas gravuras de vasos neolíticos da Lapa do Fumo (na página 152).
A Lapa do Fumo revelou níveis do Neolítico antigo evolucionado, do Neolítico recente, do Calcolítico, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e das épocas romana e árabe. O espólio arqueológico é muito variado: tumulações; objectos de carácter religioso (placas de xisto gravadas, ídolos-falange e “coelhinhos” de osso; raspadores e micrólitos geométricos de sílex; punhais, cabos cilíndricos, cabeças de alfinete, furadores, espátulas e adornos de osso; vasos, taças, tigelas, pratos e copos de cerâmica; contas bicónicas e polidas de azeviche, etc..
A presença dos romanos na Lapa do Fumo está representada por cerâmicas, nomeadamente pelos bicos de ânforas. A ocupação muçulmana também é testemunha pela presença de cerâmicas. Foram também descobertas provas numismáticas (quirates do século XII) que identificaram a existência, até então desconhecida, de oficinas monetárias muçulmanas em Silves e Beja.
Imóvel de Interesse Público, geomonumento que nos conta um pouco de história da Terra e arqueo-sítio que no revela muito da história do Homem, a Lapa do Fumo está a se pilhada. Urge defender esta gruta antes que seja tarde.
*****
Nota: Estamos em 2008, dez anos passados, e a Lapa do Fumo continua a receber visitas... A Sesimbra'acontece - Agenda de Acontecimentos do Concelho de Sesimbra (Ano 3, nº 32, Novembro 2008) divulga uma actividade a realizar-se no próximo dia 22 de Novembro, às 9.30 a.m.! Na boa...
30/10/2008
Cave Protection
Na sequência da notícia que publicámos no Spelaion sobre a Declaração WD66/2008, destacamos que no próximo dia 4 de Dezembro vai ser votada, no Parlamento Europeu, a proposta sobre a protecção das grutas como património cultural, natural e ambiental. A proposta apresentada por Mikel Irujo Amenaza, Rebecca Harms e Csaba Sándor Tabajdi, da European Cave Protection Comission, é sem dúvida um importantíssimo passo para a efectiva protecção do meio subterrâneo.Mortero de Astrana (Cantábria) © Pedro Cuiça (2007)
29/10/2008
Jornadas de Desporto e Mulher
As I Jornadas Deporte y Mujer realizam-se, de 21 a 23 de Novembro, no Centro de Alto Rendimento de Granada (Andaluzia). A inscrição é livre, cobrando-se apenas o alojamento em regime de pensão completa: 49 € por pessoa/dia.As inscrições devem ser enviadas para a Federação Espanhola de Espeleologia (FEE) através do e-mail fedespeleo@fedespeleo.com. O prazo de inscrição finaliza no dia 17 de Novembro.
[Fonte: blog do EC/DC]
28/10/2008
Na boa...
Lapa da Furada
Esta gruta apresenta vestígios de ocupação humana que podem ser observados pelos seus visitantes. Apesar de ter uma progressão horizontal em corda, trata-se de uma gruta acessível para quem quer ter um primeiro contacto com a espeleologia.
Preço: 18 €
Duração: manhã
Grau de dificuldade: médio
Inscrição: até 10 de Outubro
Informações: (…)
Ponto de encontro: junto ao Campo de Futebol da Azoia
Org.: (…)”
[sesimbr’acontece - Agenda de Acontecimentos do Concelho de Sesimbra, Ano 3, nº 31, Outubro 08, pg. 19]
Na boa! Será preciso apenas estar licenciado ou nem isso? A conservação da natureza em Portugal continua a revelar-se titubeante e cronicamente precária. Espeleo enquanto desporto-aventura, como qualquer outra actividade comercial, explorando o filão da descoberta das belezas e maravilhas do mundo subterrâneo! Pois bem, na boa! A nós não nos move motivações do tipo “provedor da espeleologia” ou qualquer tipo de brotoeja associada a inveja ou ameaça de pretensos posicionamentos… Portanto, não nos interessa qual a empresa envolvida nestas explorações comerciais: é-nos igual que seja a A, a B ou a C (por isso não termos identificado a dita). A questão é outra: a conservação do património espeleológico. Só isso! E já basta, não é?
P.S.: E já agora, para quem ande distraido ou ao engano, "na boa" é o contrário de "na má". O.K.?
24/10/2008
Budapest underground
Budapeste, a capital da Hungria, esconde um “mundo subterrâneo” de certo modo pouco conhecido e que encerra segredos bem guardados. As grutas e subterrâneos que se encontram por baixo da cidade acolheram diversos "habitantes", desde os homens pré-históricos até aos comunistas. Todos levaram o seu "habitat" para as profundezas desse mundo paralelo. “O apresentador Eric Geller teve acesso especial a esta cápsula do tempo hermeticamente selada, onde descobrirá um hospital da Segunda Guerra Mundial altamente secreto, encontrará a origem das águas quentes curativas, que utilizavam tanto os romanos como os turcos, para além de ver os diferentes níveis que foram construídos através dos séculos para sustentar o mundo de hoje, para que este não acabe por se desmoronar como aconteceu com o que se encontra enterrado sob a cidade.” Um documentário sobre o Budavári Labirintus a não perder…
Vulcano-espeleologia (VIII)
Dez anos de Espeleologia
[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 179, 1 de Maio de 1998]
A espeleologia açoriana está de parabéns. Os Amigos dos Açores desenvolvem actividades nas grutas da região desde há uma década. Uma oportunidade para abordar o historial da descoberta e conservação do “mundo subterrâneo” micaelense.
© Francisco Rasteiro A associação ecológica Amigos dos Açores, sedeada na ilha de S. Miguel, está a comemorar uma década de trabalhos espeleológicos. As actividades subterrâneas iniciaram-se no ano de 1998, tendo sido visitadas todas as cavidades micaelenses então conhecidas. Dez anos de explorações no interior da Terra, que permitiram um maior conhecimento do património espeleológico do arquipélago e o despoletar de medidas conservacionistas na Gruta do Carvão.
Uma história de grutas e algares
O interesse pelas cavidades da ilha de S. Miguel surgiu em 1998, mas o Grupo de Trabalho de Espeleologia dos Amigos dos Açores (GTEAA) só seria criado em 1991, o que não impediu o desenvolvimento de diversas acções espeleológicas por parte dessa associação ambientalista. Os Amigos dos Açores colaboraram, em 1989, com especialistas das universidades de Edimburgo (Escócia) e La Laguna (Canárias) em estudos de vulcano-espeleologia. No ano seguinte, em estreita colaboração com a associação espeleológica Os Montanheiros (da ilha Terceira) e a Universidade dos Açores, efectuaram trabalhos de campo no âmbito do projecto Biospel – S. Miguel. Em 1991, depois da fundação do GTEAA, foram estudadas diversas cavidades da ilha de S. Miguel, com especial destaque para a Gruta do Carvão (Ponta Delgada). No ano seguinte, foi elaborado um documento em vídeo sobre esta gruta, onde se salienta a sua importância turística, didáctica e científica, vídeo este que foi apresentado no I Encontro Internacional de Vulcano-espeleologia das ilhas Atlânticas, que decorreu em Angra do Heroísmo (na ilha Terceira). Como corolário das acções desenvolvidas, o GTEAA elaborou uma proposta de intervenção museológica na Gruta do Carvão, proposta que foi apresentada em Março de 1994, durante os trabalhos do 1º Encontro das Instituições Museológicas dos Açores, realizado no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada (S. Miguel). Em Janeiro de 1995, com o apoio da Junta de Freguesia de S. José, foram efectuados trabalhos de desobstrução e limpeza da gruta, o que permitiu a circulação em toda a extensão do troço jusante, o qual se desenvolve desde a Rua de Lisboa até à Avenida Antero Quental (num total de 600 metros). Simultaneamente, a associação reuniu com os secretários regionais do Turismo e Ambiente e da Educação e Cultura, com o propósito de apresentar a proposta de musealização da Gruta do Carvão. O GTEAA foi igualmente recebido pelo presidente do Governo Regional dos Açores, a 27 de Abril, e pelo presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, no mesmo mês.
Educação, ambiente e património espeleológico
Em Fevereiro de 1995, foi entregue à Secretaria Regional da Juventude, Emprego, Comércio, Indústria e Energia (SRJECIE) uma memória descritiva e uma estimativa de custos para a proposta de intervenção museológica e dinamização e manutenção. Em Maio, a SRJECIE atribuiu um subsídio destinado à elaboração da primeira fase da referida proposta. Esse apoio permitiu iniciar acções de limpeza, electrificação, estabilização e construção de acessos no troço jusante (Rua de Lisboa) da Gruta do Carvão, troço no qual o GTEAA pretende implementar o projecto de musealização e onde o acesso ao público (nomeadamente escolas) se fará de forma organizada.
No dia 21 de Agosto de 1996 efectuou-se o primeiro reconhecimento do troço montante da Gruta do Carvão, troço que se desenvolve para norte da 2ª Circular de Ponta Delgada. Tal como preconizado no projecto de musealização dos Amigos dos Açores, este troço da gruta, dadas as suas características, será de acesso condicionado. Depois dos trabalhos de campo no referido troço (Rua do Paim), decorreu (em Outubro de 1996) uma nova reunião entre os Amigos dos Açores e a Junta de Freguesia de S. José, onde foi apresentado um esboço do troço em questão e foram discutidas as acções concretas a desenvolver naquela zona da cavidade.
Em Agosto de 1997 realizou-se um encontro com o presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, onde foi entregue o livro “Património Espeleológico da Ilha de São Miguel”, bem como o levantamento topográfico de pormenor da Gruta do Carvão e sua localização na malha urbana. A reunião teve como objectivo a inclusão da Gruta do Carvão no Plano Director Municipal (PDM) e no Plano Geral de Urbanização (PGU).
Em Outubro do mesmo ano foi formalmente apresentada à Secretaria Regional da Agricultura, Pescas e Ambiente, a proposta de classificação da Gruta do Carvão, como Monumento Natural Regional, que foi dada a conhecer a diversas entidades, nomeadamente ao presidente da Assembleia Legislativa Regional (ALR), ao presidente do Governo Regional, aos grupos parlamentares da ALR, à Câmara Municipal de Ponta Delgada e ao secretário regional da Educação e Assuntos Sociais.
Com o intuito de conhecer melhor a riqueza biológica do troço da Gruta do Carvão, que se desenvolve para norte da 2ª circular, foi programada uma campanha bioespeleológica para o primeiro semestre de 1998. Estes estudos permitirão fazer um levantamento das espécies cavernícolas existentes, bem como a seriação de medidas a implementar, tendo em vista a sua conservação, atendendo a que aquela zona esteve, até às obras da 2ª circular, Freguesia de S. José, com o apoio dos Amigos dos Açores, será dada continuidade aos trabalhos de remoção das terras acumuladas, junto à entrada existente nos secadores da Fábrica de Tabaco Micaelense. Na sequência de informações recentes, será efectuada uma exploração à gruta localizada na freguesia de Arrifes, que poderá corresponder ao troço mais setentrional da Gruta do Carvão (referenciado em documentos históricos).
Para além da classificação e recuperação da Gruta do Carvão, os Amigos dos Açores, durante o ano de 98, vão dar seguimento ao projecto que visa a urgente integração da cavidade no roteiro turístico dos Açores.
*****
Os Amigos dos Açores estão duplamente de parabéns, não só por cumprirem este ano duas décadas de actividade, mas também pela constância e empenho que levaram à classificação e abertura ao público da Gruta do Carvão. Que contém muitos mais anos em prol da espeleologia açoriana e nacional.
© Amigos dos açores
23/10/2008
Vulcano-espeleologia (VII)
Classificação adiada
[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 210, 4 de Dezembro de 1998]
Os Amigos dos Açores pretendem que a Gruta do Carvão seja classificada como Monumento Natural Regional. Mas a classificação tarda, inviabilizando a sua conveniente conservação. Os espeleólogos micaelenses, no entanto, prometem não baixar os braços.
© Amigos dos AçoresA Gruta do Carvão, situada no Complexo Vulcânico dos Picos (na zona poente de Ponta Delgada), é o maior túnel lávico da ilha de S. Miguel (Açores). Actualmente, conhecem-se dois troços distintos, com uma extensão total de cerca de um quilómetro, uma altura máxima de cinco a seis metros e uma largura que ultrapassa os 12 metros. Do tecto pendem numerosas estalactites de lava e as paredes apresentam-se estriadas e ladeadas por longos balcões, surgindo galerias ramificadas e canais sobrepostos.
Não admira que o Grupo de Trabalho de Espeleologia dos Amigos dos Açores (criado em 1991) se tenha envolvido, desde logo, no estudo e apresentação de propostas de conservação dessa gruta (ver jornal Forum Ambiente nº 153, de 31 de Outubro de 1997). O grande interesse suscitado por essa cavidade mereceu inclusivamente a edição de opúsculo intitulado “Proposta de Intervenção Museológica na Gruta do Carvão, Ilha de S. Miguel”, um trabalho de J. P. Constância, J. C. Nunes e T. Braga, editado pelos Amigos dos Açores (1997). No entanto, a tão esperada classificação tarda em ocorrer.
Musealizar para conservar
Os Amigos dos Açores consideram que “a musealização de sítios pode constituir um poderoso instrumento de intervenção sobre o património natural”. Mas não esquecem que o processo de musealização deve conciliar-se com a conservação da natureza. A associação defende assim que a abertura da Gruta do Carvão ao público deve basear-se num programa museológico, mas sem qualquer intervenção museográfica no seu intrior. Para a prossecução destes objectivos, será essencial a classificação da cavidade.
A classificação da Gruta do Carvão afigura-se de primordial importância, pois a conservação da mesma depende do estatuto jurídico que lhe for imputado. Nesse sentido, foi proposta a classificação como Monumento Natural Regional ao abrigo do Decreto Legislativo Regional nº 21/93/A (que aplica, nos Açores, o regime jurídico estabelecido na Rede Nacional de Áreas Protegidas). Os espeleólogos micaelenses julgam igualmente fundamental a criação de um espaço exterior para exposições - um centro de interpretação vulcanológico onde se inicie a visita e que esteja vocacionado para a realização de acções de dinamização pedagógica, ocupação dos tempos livres ou outras.
As potencialidades da Gruta do Carvão podem ser repartidas em aspectos científicos, didácticos e turísticos, sendo reconhecida a sua importância na interpretação de fenómenos vulcânicos. Um excelente cenário para a dinamização de visitas de estudo e de acções de educação ambiental.
Os Amigos dos Açores destacam que “deverá ser dada especial atenção às escolas, articulando as visitas com os programas ecolares”. Apesar de se desejar que as actividades venham a tornar-se instrumentos didácticos ao serviço das escolas, espera-se igualmente a aderência da comunidade em geral.
Classificação aguarda-se
Em Outubro de 1997, os Amigos dos Açores apresentaram à Secretaria Regional da Agricultura, Pescas e Ambiente, a “Proposta de Classificação da Gruta do Carvão como Monumento Natural Regional”, proposta que foi transmitida, nomeadamente, ao Presidente da Assembleia Legislativa Regional, ao Presidente do Governo Regional, à Secretaria Regional da Educação e Assuntos Sociais e à Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Os Amigos dos Açores, em Fevereiro de 1998, realizaram uma visita de trabalho ao troço da Rua de Lisboa, com a Directora Regional do Ambiente, o Director Regional do Turismo e um responsável da junta de Feguesia de S. José. Essa incursão no “mundo da escuridão” serviu para verificar in loco as razões que levaram a encetar esforços no sentido da recuperação edinamização museológica da Gruta do Carvão, bem como para solicitar a sua classificação.
O Conselho de Governo, reunido na Madalena (ilha do Pico), a 5 de Junho de 1998, viria a aprovar a resolução nº 149/98, no âmbito da qual foi manifestada a intenção de proceder à classificação de algumas grutas vulcânicas dos Açores. Para efeito, foi criado um grupo de trabalho composto por diversas entidades públicas, associações espeleológicas e/ou de defesa do ambiente dos Açores. No entanto, passados vários meses, não houve qualquer indício do dito grupo de trabalho ter sido formalmente constituído ou de estar a trabalhar nos objectivos para os quais foi criado, situação que os Amigos dos Açores estranharam, nomeadamente por não terem sido contactados para integrarem o grupo. Sendo a única associação que, em S. Miguel. Tem trabalhado de modo contínuo e com provas dadas no estudo e divulgação das cavernas vulcânicas, existentes na ilha, não seria para menos.
O aparente desinteresse face à urgente classificação da Gruta do Carvão é tanto mais grave quando está prevista a urbanização da zona adjacente à cavidade. E a conveniente conservação da gruta só será viável mediante um mecanismo legal que proteja esse georrecurso cultural. Até lá, restam as boas intenções por parte de diversas entidades, nomeadamente da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Independentemente da evolução do processo, os Amigos dos Açores prometem que “não deixarão de pugnar pela classificação jurídica da Gruta do Carvão e continuarão a realizar trabalho que permita conhecer ainda melhor esta cavidade subterrânea da ilha de S. Miguel”.
Geomonumento a reconhecer
A Gruta do Carvão é a cavidade mais conhecida da ilha de S. Miguel. No século XVI foi descrita por Gaspar Frutuoso na sua obra “Saudades da Terra”. John White Webster (1821) referiu a existência de uma gruta na área dos Arrifes, correspondente ao prolongamento para montante (actualmente inacessível) da Gruta do Carvão. George Hartung (1860) descreveu o interior da gruta e Ernesto do Canto (1881) designou-a “a Gruta da Rua Formosa”. Walter Frederic Walker (1886) referiu o prolongamento da gruta para norte de Ponta Delgada e descreveu algumas estruturas existentes no interior da mesma (“vêm-se agulhas de lava”). Emygdio da Silva (1893) indicou a Gruta do Carvão como sendo “o mais notável dos túneis vulcânicos dos Açores”. Notabilidade que aguarada ainda o devido reconhecimento.
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22/10/2008
Gralhas em alta
Cafés, casas, centros e calorias
Quiz. Se a gralha-de-bico-vermelho está em vias de extinção, os centros comerciais continuam em expansão; e se uma casa cara pode ser barata, o que não cessa de aumentar são os problemas de obesidade em Portugal.
1. A gralha-de-bico-vermelho está à beira da extinção. Quantas se estima existirem em Portugal?
a) Menos de mil
b) Menos de 600
c) Menos de 500
d) Menos de cem
(…)”
[Abel Coelho de Morais · Diário de Notícias, Ano 144º, nº 50 968, 19 de Outubro de 2008, pg. 63]
(Moncorvo @ J. C. Farinha, 1986)Conhecer para preservar?
“Cafés, casas, centros e calorias!” Uma aparentemente estranha mistura de temas que, no entanto, talvez estejam mais interligados do que à primeira vista se possa pensar… Só falta juntar a este leque temático as alterações climáticas!?
A Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax erythrorhamphus Veillot) encontra-se, sem dúvida, em vias de extinção. Mas parece encontrar-se em alta na comunicação social… Talvez o mediatismo a que a espécie está agora sujeita possa servir como alerta e sensibilização para a sua problemática situação de extinção. Situação que, contudo, não é de agora… Há mais de duas décadas que a diminuição do número de efectivos tem sido motivo de preocupação por parte dos investigadores que têm estudado a espécie. Destaca-se, nesse particular, o trabalho efectuado pelo biólogo João Carlos Farinha, do então Instituto para a Conservação da Natureza (ICN) e agora também da Biodiversidade (ICNB).
No que concerne à conservação desta espécie salientam-se o trabalho em curso por parte do Projecto Bico-vermelho e, em fase inicial de desenvolvimento, o projecto da Quercus.
Já agora, a solução apresentada para a pergunta “1” é a “c”: menos de 500.
