14/10/2008

Atenção à hibernação


O presidente da Comissão Científica da Federação Portuguesa de Espeleologia, Gabriel Mendes, solicitou em comunicado veiculado através do Espeleo.pt que os espeleólogos não visitem diversas grutas devido à época de hibernação dos morcegos (Novembro a Março, com maior incidência entre Dezembro e Fevereiro):
● Serra de Sicó – Algar da Lagoa e Santa Maria da Estrela
● Portunhos-Cantanhede - Gruta d'el Rei
● S. Mamede – Algar da Malhada de Dentro e Almonda (apenas na gruta da Oliveira e Sala Torre Eiffel)
● Santo António – Algar de Picos, Lajoeira, Ladoeiro, Laçarote e Lapa da Ovelha
● Arrábida/Espichel – Fojo dos Morcegos, Zambujal e Grande Falha
● Montejunto – Gralhas
● Marvão – Cova da Moura
● Algarve - Amarela (Costa Vicentina), Ibne Ammar (Portimão) e Caverna do Poço dos Mouros (Rocha da Pena)
Segundo Gabriel Mendes: “Apesar de Novembro e Março serem alturas "tampão" podendo ainda não haver hibernação, não deixa de ser uma altura crítica por escassez de alimento (Novembro e pré-criação em Março) pelo que deverá ser evitado ao máximo actividades neste período em especial se as equipas tiverem muita gente.”

Aniversário

O Grupo de Espeleología Huesos-Damiel (Ciudad Real) celebra o seu 30º aniversário e convida todos os espeleólogos a participarem no evento comemorativo dessa data.

[Fonte: EC/DC]

Declaração europeia

Mortero de Astrana (Cantábria) © Pedro Cuiça (2007)

Help the caves and karst in Europe!

Os deputados do Parlamento Europeu podem assinar, até ao dia 4 de Dezembro de 2008, uma declaração para a protecção das grutas (“WD 66”): declaration on the protection of caves as a cultural, natural and environmental heritage. A declaração, que foi subscrita por todas as federações europeias, pretende que se implementem regras, a nível europeu, no que concerne à protecção do “mundo subterrâneo”. A iniciativa agora em curso está a ser implementada pela Comissão Europeia de Protecção das Grutas (European Cave Protection Commission), da Federação Europeia de Espeleologia.
Para mais informações, consulte http://www.cavedeclaration.eu/ e http://protection.eurospeleo.org/ ou contacte a presidente da comissão, Christiane Grebe, através do e-mail http://us.mc656.mail.yahoo.com/mc/compose?to=protection%40eurospeleo.org.


Written declaration on the protection of caves as a cultural, natural and environmental heritage

The European Parliament,
– having regard to the UNESCO Convention concerning the Protection of the World Cultural and Natural Heritage,
– having regard to Rule 116 of its Rules of Procedure,
A. whereas there is at present no European law or directive on the protection of caves and their contents,
B. whereas caves represent unique geotopes in the European heritage, which can only be preserved by protecting them and their surroundings,
C. whereas conservation of archaeological and speleological heritage elements provides a foundation for further social and economic development, enhancing European integration,
1. Calls on the Commission to implement effectively cultural protection, as stated in Article 151 of the EC Treaty, with regard to karsts and caves as natural sites, and cultural settlements, in order to ensure that measures to promote them are embodied in all EU policies;
2. Considers that measures to develop these areas, must include:
(a) a systematic survey of caves and their surroundings, and their environmental and archaeological heritage;
(b) the establishment of a legislative framework to guarantee their protection, and measures to ensure that new buildings and industrial activities are compatible with the nearby environmental and archaeological heritage;
(c) incentives for conservation of caves, ensuring that they will be studied by specialists like geo(morpho)logists, archaeologists, biologists, climatologists, etc.;
(d) financial assistance for projects, conservation and restoration;
3. Calls on the Member States, in cooperation with the Commission, to promote the protection and conservation of caves and their archaeological heritage;
4. Instructs its President to forward this declaration, together with the names of the signatories, to the governments of the Member States, and to regional and local authorities.


[Fonte: Espeleo.pt]
Mortero de Astrana (Cantábria) © Pedro Cuiça (2007)

Vulcano-espeleologia (III)

Grutas dos Açores
Classificar para proteger


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 163, 9 de Janeiro de 1998]

O arquipélago dos Açores está a crescer. Todos os anos são descobertas novas galerias e salas subterrâneas. Mas a protecção das grutas e algares não tem acompanhado o ritmo dos espeleólogos, que reivindicam a protecção de todas as cavidades. Conservação do património vulcano-espeleológico, para que não se repitam os erros do passado.

© Os Montanheiros

Os Montanheiros - Sociedade de Exploração Espeleológica, fundada em 1 de Dezembro de 1963 na Ilha Terceira, é a mais antiga associação açoriana a dedicar-se ao estudo das grutas e algares do arquipélago. Para além desta sociedade, existe ainda a Secção de Espeleologia dos Amigos dos Açores (na Ilha de S. Miguel) e o GEADA (na Ilha do Pico).
No periodo de 1963 a 1987, a actividade de Os Montanheiros foi sobretudo de carácter recreativo. No entanto, muitos dos trabalhos efectuados (Mottet, 1974; Halliday, 1980, 1981; Montserrat e Romero, 1983; etc.) contaram com o apoio dessa associação espeleológica. Nos últimos anos, porém, Os Montanheiros organizaram e participaram em diversas expedições nas ilhas do Pico, Faial, Flores, Graciosa, São Jorge, São Miguel e Santa Maria, tendo ido exploradas e topografadas mais de 10 mil metros de túneis de lava e 400 metros de algares.
A importância do património vulcano-espeleológico, nomeadamente o seu interesse científico, foi reconhecido pelos espeleólogos. A constatação da progressiva destruição das riquezas subterrâneas da região autónoma levou a que estes desenvolvessem iniciativas com vista à protecção desses valores únicos. Nesse sentido, é de salientar a iniciativa de P. Borges, A. Silva e F. Pereira que defenderam, no sexto Simpósio Internacional de Vulcanoespeleologia (1991), a protecção de todos os túneis lávicos e algares dos Açores. No entanto, até hoje apenas o Algar do Carvão (na Ilha Terceira) se encontra classificado por lei. Das restantes cavidades apenas se conhece um número reduzido (cerca de seis) que são protegidas pelos proprietários dos terrenos.

Um património de valor incalculável
Como já foi notado por Holliday (1981), os Açores apresentam um particular interesse vulcano-espeleológico. Aí encontram-se chaminés vulcânicas de grande espectacularidade (Algar do Carvão, Algar do Cabeço Bravo, Algar do Tambor, Furna Ruim ou Algar do Montoso) e tubos de lava de dimensões consideráveis (Balcões, Chocolate, Queimada, Agulhas, Torres, Montanheiros, Frei Matias ou Soldão).
O estudo dessas cavidades (génese, geomorfologia, etc.), bem como da geologia das áreas onde ocorrem, revela-se bastante gratificante. Sobretudo quando ainda resta tanto por descobrir. A classificação das cavidades geologicamente mais importantes será um passo importante para a conservação desses geomonumentos subterrâneos.
Infortunadamente, algumas grutas (Furna do Cabrito ou Furna d’Água) foram fechadas e modificadas pelo Governo Regional, para aproveitamento e protecção de mananciais. Outras, como a bonita Gruta do Camelo (na Terceira), encontram-se totalmente destruídas pelo mesmo motivo.
Por outro lado, as cavernas proporcionam um meio ideal para o desenvolvimento de uma fauna específica. Aí surgem espécies endémicas que devem ser preservadas a todo o custo. Se o habitat for perturbado, as espécies cavernícolas poderão extinguir-se. Por exemplo, o Trechus montanheirorum Oromí e Borges vive somente junto da entrada da Gruta dos Montanheiros (no Pico). As cavidades com fauna cavernícola devem, pois, ser salvaguardadas de quaisquer impactes, nomeadamente incursões antrópicas.
Entre as cavernas açorianas de interesse zoológico salientam-se, além da Gruta dos Montanheiros, a Furna Ruim, Anelares e Cabeço do Canto (Faial), Gruta do Soldão, Henrique Maciel, Capucha, Arcos e Esqueletos (no Pico), Algar das Bocas do Fogo e Beira (em São Jorge), Gruta dos Balcões, Agulhas, Madre de Deus e Algar do Carvão (na Terceira) e Gruta do Esqueleto e Água de Pau (em São Miguel).
Além do interesse científico e patrimonial, as grutas e algares poderão e devem ser utilizados para acções de interpretação do meio subterrâneo e sensibilização para a sua conservação. O aproveitamento turístico de certas cavidades (como o Algar do Carvão) revela-se igualmente de grande interesse, com benefícios evidentes no desenvolvimento da economia local. Aliás, os espeleólogos verificaram que, por vezes, é possível compatibilizar as actividades de índole turística com a conservação.

Longe da vista, longe do coração
Muitos túneis de lava existentes na Terceira (e também em outras ilhas) são visitados por turistas e população em geral. Segundo os espeleólogos, essas visitas serão positivas, pois as grutas merecem ser visitadas, não fosse os impactes que se verificam. Encontra-se grande quantidade de lixo nas cavidades mais frequentadas, como sejam as grutas do Natal, Balcões e Agulhas (Terceira). Os Montanheiros, no início dos anos 90, limparam as grutas do Natal e das Agulhas e, desde então, têm zelado pela conservação dessas cavidades. Mas os atentados ao património espeleológico continuam a verificar-se noutros locais.
O costume de fazer das grutas e algares vazadouros de lixo é infelizmente prática corrente nos Açores (e não só). Tal como nos carsos do Continente, onde essa prática tem originado problemas de poluição dos aquíferos, nos Açores o lema “longe da vista, longe do coração” parece ser de aplicação geral. Ainda prevalece o hábito de deitar animais mortos para as cavidades, como acontece na Gruta do Galeão, assim como lixos de natureza vária e entulhos, como se verifica na Gruta do Galeão, Gruta do Carvão ou Gruta da Merda.
A conservação das grutas dos Açores torna-se cada vez mais premente. Os espeleólogos defendem a classificação de todas as cavidades. Mas, na impossibilidade de tal acontecer, afirmam que é urgente a determinação das cavernas em que é prioritário actuar nesse sentido. A inventariação das cavernas do arquipélago, efectuada pelos espeleólogos açorianos, revela-se pois o instrumento de trabalho essencial para defesa do património subterrâneo da região.



As 112 cavidades

No anterior FORA DE PORTAS (jornal Forum Ambiente nº 162, de 2/Jan. 98) foi referido que P. Borges, A. Silva e F. Pereira (1991) indicaram perto de uma centena de cavidades nos Açores. Na realidade ultrapassaram esse número, indicaram 112 (88 grutas e 24 algares). Pelo lapso, as nossas desculpas.

13/10/2008

Morte em gruta submarina

© Jackes de Ville

Um mergulhador de 43 anos, residente na localidade de Parchal (Lagoa), morreu na passada noite de sexta-feira (10 de Outubro) enquanto praticava caça submarina na Ponta da Atalaia, entre o porto da Baleeira e a praia da Mareta, junto da Fortaleza de Sagres (Algarve).
O homem estava na companhia de um primo que deu o alerta por volta da 1.30 a.m. e as buscas, por parte do Instituto de Socorros a Náufragos, Policia Marítima, Protecção Civil e voluntários, iniciaram-se por volta das 6.30 a.m..
O corpo do malogrado mergulhador foi encontrado, por volta das 2.30 p.m., dentro de uma gruta a cerca de 15 metros de profundidade, com várias santolas e peixes presos à cintura. Saliente-se que a pesca submarina à noite é ilegal.
Pode visualizar um vídeo das buscas no site da RTP.

Exposição sobre Nery Delgado

A cerimónia inaugural da exposição “Nery Delgado (1835-1908), Geólogo do Reino” decorreu, no passado dia 30 de Setembro, no museu dos extintos Serviços Geológicos de Portugal. O museu está situado no segundo andar do edifício do antigo Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de S. Francisco, na Rua da Academia das Ciências nº 19 - 2º, em Lisboa. A exposição estará patente até ao dia 31 de Março de 2009.
Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado foi um prestigiado pioneiro da geologia portuguesa mas também da espeleologia, nomeadamente no que concerne à arqueologia em grutas. O seu nome está associado a estudos realizados nas Grutas de Santo Adrião, Grutas da Cesareda, Casa da Moura, Gruta da Furninha,...

Caveman, Oh!, Oh!, Oh! (II)

© Museo Arqueológico Nacional

O Homem pré-histórico que habitou as cavernas ou as utilizou como necrópole, que fez desses lugares subterrâneos cenários de sagradas cerimónias esquecidas pelo tempo ou suportes de manifestações artísticas impares, não seria tão primitivo ou “básico” quanto muitos fizeram ou querem fazer crer. Na mesma edição da revista Sábado (nº 232, de 9 a 15 de Outubro de 2008), em que se expõe a tradicional concepção alternativa de associar a palavra “cavernícola” a noções pejorativas, encontra-se uma notícia que desmente, de todo, esses “pontos de vista”. Os trogloditas eram bem mais desenvolvidos do que frequentemente se pensa…

Altamira levou 20 mil anos a pintar
Pode ter parecido uma eternidade a Miguel Ângelo o tempo que passou a pintar a Capela Sistina, em Roma: quatro anos. Mas sabe-se agora que a outra Capela Sistina, a gruta de Altamira, em Espanha, demorou muito mais a ser concluída. Ao longo de 20 mil anos, centenas de gerações foram retocando as cenas de caça pré-histórica. Esta surpreendente descoberta deita por terra as anteriores teorias, que acreditavam que estas pinturas tinham sido feitas de uma só vez.
A nova teoria foi apresentada no início da semana no sítio da internet
Planet Earth e é o resultado das investigações feitas pela equipa do arqueólogo Alistair Pike, da universidade de Bristol. À semelhança das pinturas rupestres de Altamira, as figuras encontradas em centenas de outras grutas em toda a Europa também terão demorado dezenas de milhares de anos a ser concluídas.
Até agora, os cientistas tinham dificuldades em identificar com precisão as datas das pinturas. Mas uma técnica pioneira promete acabar com esse obstáculo. A solução é medir os níveis de urânio nas grutas, tal como fazem os geólogos quando querem datar as formações rochosas.
” [sic.]
*****

Vulcano-espeleologia (II)

Grutas dos Açores
Governo regional prepara legislação


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 162, 2 de Janeiro de 1998]

O património espeleológico dos Açores vai ser salvaguardado. A Direcção Regional do Ambiente está a elaborar legislação para minimizar a degradação que se verifica em algumas grutas. É o resultado da denúncia de Os Montanheiros, que alertaram para a obstrução da entrada da Gruta da Caldeira.

© Os Montanheiros

As grutas açorianas, com interesse turístico ou científico, vão ser protegidas por legislação regional. A elaboração de normas legais para salvaguardar as grutas do arquipélago foi anunciada, em Outubro passado, pela directora regional do Ambiente, Eduarda Goulart.
A notícia coincidiu com a denúncia por parte de Os Montanheiros - Sociedade de Exploração Espeleológica, da obstrução da Gruta da Caldeira (nos Biscoitos). Esta cavidade, uma das mais importantes da Ilha Terceira e ainda com troços por explorar, não constitui, infelizmente, o único exemplo.
Outras cavidades foram fechadas, inclusivamente com arame farpado. Os Montanheiros já alertaram para diversas situações semelhantes e há muitos anos que reclamam legislação para as evitar, mas apenas encontraram a “passividade das autoridades”. Para José Botelho, de Os Montanheiros, “o Governo já criou legislação para proteger a paisagem, flora e fauna mas tem-se esquecido das grutas e cavidades naturais”.

Legislação precisa-se
A conservação do património espeleológico passará pela criação de legislação específica que mitigue possíveis impactes ambientais no meio subterrâneo. O problema é sentido nos Açores, mas também no Continente e provavelmente na Madeira.
Em Portugal continental, face à crescente pressão no sentido da utilização das cavidades (para fins sobretudo turísticos), os espeleólogos têm igualmente defendido a regulamentação do uso das grutas. Nomeadamente, para impedir a instalação de conflitos entre os diferentes interesses em jogo. A realização de esforços no sentido de sensibilizar as populações, bem como as entidades competentes, para a importância do património cársico - cuja valorização pode influir decisivamente na melhoria das condições económicas e sociais a nível local - é igualmente apontada. Olímpio Martins, espeleólogo do Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros (PNSAC), refere as novas concepções metodológicas que podem passar, a titulo de exemplo, “pela hierarquização do uso do território espeleológico e definição de utilizadores”.
O controlo, nomeadamente pela administração local, do uso e gestão correctos das cavidades, baseado em legislação específica, será pois uma medida a implementar. Apesar de diversas propostas tendentes à classificação das caverns, a Gruta do Zambujal (na Arrábida), o Algarão do Poço dos Mouros ou as Solestreiras (no Carso do Algarve) são das poucas que se encontram protegidas por lei.
Nos Açores, o Algar do Carvão (na Ilha Terceira), classificado como Reserva Natural Geológica pelo Decreto Legislativo Regional nº 13/87/A (e candidato ao título de Património Mundial Natural), constitui o único exemplo. Recorde-se que a associação ambientalista Amigos dos Açores propôs recentemente (jornal FORUM AMBIENTE nº 153 de 31/ Out. 97) a classificação da Gruta do Carvão (na ilha de S. Miguel) como Monumento Natural Regional, ao abrigo do Decreto Regional nº 21/93/A.
A protecção do património espeleológico português encontra-se, pois, no início, restando muito por fazer. Actualmente, torna-se urgente o conhecimento das cavernas em que é necessário uma rápida intervenção conservacionista e, sobretudo, actuar. É nesse sentido que a Direcção Regional do Ambiente, nos Açores, sensível à problemática da conservação das cavernas, pretende agir. “Não podemos optar por uma situação de interditar intervenções em todas as grutas, especialmente as que se encontram em terrenos particulares. Vamos analisar a situação caso a caso”, declarou Eduarda Goulart.

Açores subterrâneo
Embora o património vulcano-espeleológico dos Açores seja único em Portugal e mundialmente conhecido, tem ainda muito por revelar e encontra-se subaproveitado no respeitante às acções de educação ambiental e de interpretação da natureza. O inventário das cavidades terceirenses é bastante exaustivo (já se assinalaram cerca de meia centena de cavidades), resultado do trabalho de Os Montanheiros (associação fundada em 1963), mas noutras ilhas ainda há muito por explorar. Como no Pico, onde também já se registou o fecho de várias entradas de grutas.
O estudo das grutas açorianas remonta ao século passado (Fouque, 1873; Wesber, 1821; Hartung, 1860; Canto, 1881; Walker, 1886; Silva, 1893), mas o primeiro inventário espeleológico do arquipélago surgiu somente em 1989. Neste primeiro censo, realizado por Ogawa, foram referidas 33 grutas e 7 algares, mas P. Borges, A. Silva e F. Pereira, em 1991, assinalaram perto de uma centena de cavidades. Número, hoje, francamente ultrapassado.
O maior túnel de lava - Gruta das Torres (5429 m) -situa-se na Ilha do Pico e o maior algar - Algar do Matoso (137.5 m) - situa-se em S. Jorge. Cerca de 75 por cento das cavidades apresentam um desenvolvimento inferior a 300 metros, mas algumas correspondem a troços de um mesmo túnel lávico. O trabalho que está a ser realizado pela Direcção Regional do Ambiente não se espera, portanto, de fácil execução. Prevê-se que sejam apenas classificadas algumas das muitas cavidades. Mas mais vale poucas que nenhuma. Para que não se repitam casos como o da Gruta do Camelo (na Ilha Terceira), parcialmente destruída para aproveitamento da nascente aí existente.

10/10/2008

Palestra Cavex Team

O espeleólogo andaluz Sergio García-Dils de la Veja, membro da Cavex Team, vai apresentar, no próximo dia 25 de Outubro, uma palestra sobre as “Explorações à Krubera Voronya (que com 2191 metros é actualmente a cavidade mais funda do planeta) e outras explorações da Cavex Team”. O evento, que terá início às 17.00, decorrerá no "El Casino" de Sant Esteve Sesrovires (Catalunha).

Caveman, oh!, oh!, oh!


José Pacheco Pereira na rubrica semanal que publica na revista Sábado brinda-nos, na última edição (nº 232, de 9 a 15 de Outubro), com considerandos digamos, à falta de definição mais apropriada, pseudo-espeleológicos ou para-espeleológicos :) Senão vejamos… Entre uma série de questões pertinentes, que coloca ao primeiro-ministro José Sócrates, destaca-se: “Será que Vossa Excelência me permite não engolir a propaganda governamental sem ser chamado de “velho do Restelo”, “pessimista”, “do contra”, “bota-abaixista”, pouco patriota, reaccionário, iliterato tecnológico, cavernícula, etc., etc.?” (sic.)
Passando sobre os diversos epítetos atribuídos aos que pretensamente não estão para “engolir propaganda governamental” detenhamo-nos no “cavernícula”. Antes de mais, será conveniente repor a verdade dos factos: nenhum crítico com espaço nos media habita numa caverna. E isto não é algo de somenos ou uma tentativa de fazer humor fácil com coisas, aliás, bastante sérias. É que na região da grande Lisboa existem, pasme-se, diversas pessoas que vivem em cavernas naturais e não são certamente escrevinhadores de artigos de opinião ou tecnocratas da política. Por outro lado, não foi também certamente uma opção de mudança de vida, mais ecológica ou "freak", o facto de viverem numa gruta. Se fosse possível entrarem nessas lógicas “finórias” seria mais probabilístico que tivessem um monte alentejano como “casa de repouso” e uma bela moradia ou apartamento na capital. Não é?
Retomando as temáticas subterrâneas, será de todo conveniente acabar com as concepções alternativas que sistematicamente associam às grutas, seus habitantes ou simples frequentadores com primitivismo, brutalidade ou tacanhez, entre outros atributos pouco abonatórios. É que estes “trocadilhos” que encerram abscônditos e perniciosos significados, pecam sistematicamente pelo disparate e absurdo que encerram… Acontece que ao contrário de outras asneirolas consideradas politicamente incorrectas, estas “brincadeiras” asininas são perfeitamente aceites… É nesse contexto que expressões como “troglodita” ou “homem das cavernas” surgem frequentemente mal empregues. Foi por essas e por outras que, por exemplo, a palavra “espelunca” tem o significado que hoje em dia lhe é geralmente atribuído. E, pior ainda, não surge um mísero caga-lume que contribua com uma réstia de luz neste mundo de trevas. Já agora, a palavra “cavernícola” refere-se tão somente ao que vive ou habita em grutas e, caso ainda não tenham reparado, escreve-se com “o”. Oh! Oh! Oh!

Vulcano-espeleologia (I)

Gruta do Carvão
Classificar uma gruta vulcânica

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 153, 31 de Outubro de 1997]

Os Amigos dos Açores querem classificar a Gruta do Carvão como Monumento Natural Regional. A conservação do maior túnel lávico de S. Miguel é importante. Bem como a interpretação e musealização do local.

© Amigos dos Açores

A Associação Ecológica Amigos dos Açores acaba de propor a classificação da Gruta do Carvão como Monumento Regional, ao abrigo do Decreto Legislativo Regional nº 21/93/A. Nesse sentido, a associação elaborou um estudo onde caracterizou a cavidade sob diversos aspectos, designadamente históricos e geológicos.
As grutas estão geralmente associadas a áreas cársicas (Maciço Calcário Estremenho ou Barrocal Algarvio), no entanto, não se circunscrevem somente às rochas carbonatadas (calcários ou dolomias). O arquipélago dos Açores constitui, nesse aspecto, um excelente exemplo. Essa região é particularmente rica em túneis lávicos, devido à abundância de escoadas de natureza basáltica (sobretudo basaltos e hawaiitos), onde são comuns as estruturas do tipo pahoehoe.
As ilhas de S. Miguel, Pico e Terceira apresentam as cavidades mais conhecidas, chamando-se a atenção para a possível confusão entre o Algar do Carvão e a Gruta do Carvão. A primeira situa-se na Ilha Terceira e a segunda, proposta para classificação pelos Amigos dos Açores, localiza-se na Ilha de S. Miguel.
A Gruta do Carvão fica na zona ocidental de Ponta Delgada, no Complexo Vulcânico dos Picos - uma área de vulcanismo fissural recente, composta por cerca de 200 cones de escórias e escoadas lávicas -, e é o maior túnel lávico de S. Miguel. Actualmente, é possível percorrer uma extensão de 1150 metros, em dois troços separados. O troço meridional desenvolve-se ao longo de 600 metros, desde a Rua de Lisboa até ao cruzamento da Rua Pintor Domingos Rebelo (antiga Rua do Carvão) com a Avenida Antero de Quental. O troço setentrional desenvolve-se para noroeste da Rua do Paim, em direcção à Rua da Saúde.
São de destacar, no troço sul, a existência de locais onde o túnel apresenta mais de cinco metros de altura (e, por vezes, mais de 10 metros de largura), amplas salas e microformas vulcânicas. No troço norte salienta-se a existência de dois túneis sobrepostos numa extensão considerável (cerca de 200 metros) e numerosas estalactites de lava.
No troço meridional, a cavidade desenvolve-se sob os secadores da Fábrica de Tabaco Micaelense (FTM), Escola Primária do Carvão e parte das moradias do Bairro da Misericórdia. Entre este bairro e a Escola do Carvão existem terrenos não urbanizados, ocupados presentemente por pastagens. Entre a Rua de Lisboa e os terrenos da FTM, a gruta desenvolve-se em terrenos com moradias. O troço setentrional da gruta encontra-se essencialmente sob terrenos de cultivo e estufas.
Nalguns locais da gruta, próximo do extremo sul dos terrenos da FTM, foram construídos muros de pedra, visando assegurar a estabilidade da mesma. A presença destes muros e de uma antiga instalação eléctrica no interior da gruta atestam a sua utilização pelo Homem desde tempos idos.

Evitar construções
João Carlos Nunes, do Departamento de Geologia da Universidade dos Açores e da associação Amigos dos Açores, declarou à FORUM AMBIENTE que a classificação da Gruta do Carvão visa a sua conservação. Nomeadamente, evitar eventuais construções que ponham em risco esse património nacional. Os Montanheiros, que contam com a equipa de espeleólogos mais antiga existente nos Açores, manifestaram igualmente o grande interesse na preservação da Gruta do Carvão. Luís Parreira, dessa associação terceirense, afirmou à FORUM AMBIENTE que é importante conservar o património espeleológico açoriano.
O valor da Gruta do Carvão reside sobretudo na grande variedade de aspectos geológicos, estruturas e fenómenos típicos do vulcanismo que aí se podem observar. É o caso de estruturas como as bolhas-de-gás ou fendas resultantes do arrefecimento da lava. No tecto da cavidade existem numerosas estalactites primárias (resultantes da solidificação de pingos de lava) e secundárias (fruto da deposição de materiais transportados pelas águas de escorrência).
A interpretação dos fenómenos geológicos inerentes à Gruta do Carvão é reconhecida pelos Amigos dos Açores. A musealização do espaço e a sua utilização priviligiada para acções de educação ambiental contam-se entre os objectivos dessa associação ecológica.



Uma gruta com história

A Gruta do Carvão é a cavidade vulcânica mais conhecida da Ilha de S. Miguel. No século XVI foi descrita por Gaspar Fructuoso, na obra “Saudades da Terra”. Em 1821, John White referiu a existência de uma gruta na zona dos Arrifes correspondente ao prolongamento para montante da Gruta do Carvão. George Hartung, em 1860, referiu-se igualmente a esta caverna. A Gruta do Carvão recebeu também a designação de “Gruta da Rua Formosa”, de acordo com Ernesto do Canto (1881). Em 1886, Walter Frederic Walker, para além de evidenciar a existência do prolongamento da Gruta do Carvão para norte da cidade de Ponta Delgada, descreveu algumas estruturas da cavidade. Emygdio da Silva, na obra “S. Miguel em 1893”, escreve “…é o mais notável dos túneis vulcânicos dos Açores…”.

© Forum Ambiente (1997)

09/10/2008

(Des)conservação

Carso do Algarve
Descentralizar e conservar


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 207, 13 de Novembro de 1998]

A regionalização foi peremptoriamente rejeitada pelos portugueses. Espera-se agora que avance a descentralização. Em termos de conservação, a questão que subsiste prende-se com os resultados concretos no terreno. Vamos apostar no “desordenamento” do território ou avançar para um ordenamento efectivo? O Carso do Algarve é exemplo de reflexão.

Gruta da Senhora (Algarve) @ P. Cuiça (2008)

Os portugueses decidiram dar um “não” à regionalização. Face aos resultados, o projecto das regiões dificilmente irá avançar nos próximos anos. Contudo, a eventualidade da criação de regiões-piloto não foi posta de parte, nomeadamente no Alentejo (onde o “sim” saiu vitorioso) e no Algarve (onde o “não” constituiu uma surpresa). A alternativa das regiões-piloto levanta, no entanto, diversos problemas, pois será preciso contornar o expressivo “não” a nível nacional.
O debate que antecedeu o referendo evidenciou as assimetrias regionais e a burocracia existente no país. Espera-se agora que, após o “chumbo” da regionalização, se incremente a descentralização. A questão que subsiste prende-se com os resultados concretos no terreno. Como resolver as assimetrias e a burocracia? Como conciliar desenvolvimento e conservação da natureza? Vamos apostar no desordenamento do território ou avançar para um ordenamento efectivo? O Carso do Algarve constitui um excelente exemplo de reflexão.

Antes, durante e depois
O Algarve atravessou um rápido desenvolvimento urbano e agrícola, a partir da década de 60, guiado e implementado pela indústria turística e incrementado pela entrada na Comunidade Europeia, que teve como consequência uma degradação ambiental e paisagística que, afectando sobretudo o Litoral, também atingiu o Barrocal. Os problemas relacionados com o Litoral algarvio são amplamente conhecidos. Mas a crescente pressão sobre o Barrocal, não sendo um dado novo, está longe de ser questionada. O alerta para a importância das grutas algarvias remonta ao século passado (Estácio da Veiga, 1886), mas o património espeleológico da região tem sido votado ao ostracismo. A degradação do carso subterrâneo tem-se processado perante a inoperância ou desinteresse das entidades responsáveis, tal como acontece com o carso superficial. A urbanização das colinas calcárias (que começou a ter expressão significativa na década de 90) tem aumentado a “olhos vistos”, provocando a adulteração da beleza natural do Barrocal. Existem diversas casas nas linhas de cumeada e nas vertentes, o lixo e entulho marcam presença e aquilo que era campo começa a transformar-se em área suburbana. Vejam-se os cerros da Goldra (288 m) ou Nexe (360 m). As casas cercam S. Miguel (410 m), Bita (119 m) ou Guilhim (313 m) e aproximam-se da vertente nordeste do Cerro da Cabeça. Os exemplos são diversos.
O grande desenvolvimento da rede viária, de que a Via do Infante e acessos serão o exemplo mais expressivo, também contribuíram para a degradação e adulteração do Barrocal. O impacte sobre o Algar dos Amendoais constitui um caso encoberto (porque subterrâneo) da influência das vias de comunicação sobre o meio. A acção das pedreiras sobre a paisagem e afloramentos, apesar de pontual, também é questionável.
Não se questionando as transformações do meio, inerentes à própria evolução das populações, reconhece-se, no entanto, a necessidade de implementar um desenvolvimento sustentado que não descure as componentes social, ambiental e cultural, devendo-se optar pela preservação in situ de monumentos naturais, como defende A. M. Galopim de Carvalho do Museu Nacional de História Natural.
Resta agora aguardar que a descentralização resolva os problemas apontados. As autarquias, no entanto, terão e apresentar uma postura diferente da que têm tido até ao presente. A defesa do meio ambiente é urgente e não se compadece com os erros do passado.


Degradação do Barrocal

Gruta da Senhora (Algarve) @ P. Cuiça (2008)

O Barrocal algarvio apresenta uma rede de drenagem pouco desenvolvida, escassos cursos de água de caudal permanente e a ocorrência de perdas (sumidouros) e ganhos (exsurgências). A importância da drenagem subterrânea em detrimento da drenagem superficial, associada a uma geomofologia peculiar, permite definir o Carso do Algarve como a segunda maior área de rochas carbonatadas do país. Designa-se por “carso” uma área onde a hidrologia subterrânea (hidrogeologia) e os fenómenos de dissolução desempenham um papel preponderante na modelação do relevo.
O Carso do Algarve apresenta diversas grutas, muitas delas sujeitas a degradação, desde há anos, devido a incursões antrópicas, sendo fundamental a sua protecção. A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a determinadas grutas, tem vindo a degradá-las de maneira rápida e irreversível. O endocarso algarvio está ameaçado, mas o carso superficial também o está.
A geóloga Maria Julieta Azevedo Macedo (1985) propôs a classificação (ao abrigo do Decreto-Lei nº 613/76) de “todas as grutas, algares, sumidouros e exsurgências” do Algarve. Propôs igualmente a classificação dos campos de lapiás do Cerro da Cabeça, Monte Peral, Algar Seco, Ponta da Piedade, promontório de Sagres e Alto Barrocal (Salir). A criação de Reservas Naturais Integrais - Gruta Amarela, G. do Monte Clérigo, G. de Ibne Ammar, G. da Igrejinha dos Soidos, G. da Solustreira Grande, G. da Solustreira Pequena, G. da Rocha da Pena e G. dos Arrifes - também foi avançada.
A Directiva Habitats (92/43/CEE) impõe que cada Estado Membro deva designar “Zonas Especiais de Conservação” (ZEC), tendo em vista a sua posterior incorporação na Rede Natura 2000. Desta rede europeia de sítios farão igualmente parte as “Zonas de Protecção Especial” (ZPE) declaradas ao abrigo da Directiva das Aves (79/409/CEE). Na proposta preliminar da lista nacional de sítios constam, no Algarve: Arade-Odelouca, Ribeira de Quarteira, Fonte Filipe-Amendoeira e Cerro da Cabeça.
Na lista de sítios incluídos no projecto biótopos CORINE encontram-se Aljezur-Monte Clérigo, Ponta de Sagres, Cabo de S. Vicente, Serra do Espinhaço de Cão, Serra de Monte Figo, Cerro da Cabeça, Rocha da Pena, Gruta Amarela, Barrocal de Alte, Ponta da Piedade, Rio Arade, Gruta da Igrejinha dos Soidos, Grutas da Salustreira, Gruta da Rocha da Pena, Gruta de Monte Clérigo e Gruta de Ibne Ammar.
Até hoje foram criados os sítios classificados da Rocha da Pena e Fonte Benémola (Decreto-Lei nº 392/91, de 10 de Outubro).


9/10/2008: Não ou sim à regionalização? Centralizar ou descentralizar? Desburocratizar ou burocratizar? Mais ou menos leis? Questões que se levantam quando se pensa sobre ordenamento do território, conservação da natureza e opções a adoptar… E, claro, numa perspectiva de defesa das regiões cársicas.
A minha opinião acerca do assunto em causa tem vindo a alterar-se ao longo dos últimos anos. A produção de mais legislação tem-se revelado manifestamente desadequada, porque umas vezes é contraproducente e outras tantas perfeitamente inócuas. Nesse contexto, torna-se essencial a procura de novas soluções e abordagens…
Quando a ignorância se instala no seio das sociedades e a desordem nos espíritos, as leis tornam-se numerosas. Os homens tudo esperam da legislação e, constituindo cada lei nova um novo erro de contas, são levados a pedir-lhe incessantemente o que só pode vir deles próprios, da sua educação, do estado dos seus costumes.
Não é com certeza um revolucionário quem diz isto, nem sequer um reformador. É um jurisconsulto, Dalloz, autor da compilação das leias francesas conhecida pelo nome de “Repertório de Legislação”. No entanto, estas linhas, ainda que escritas por um homem que era ele mesmo um fabricante e admirador de leis, representam perfeitamente o estado normal das nossas sociedades.
” [Júlio Carrapato (2008): Para uma critica Libertária do Direito]