13/10/2008

Exposição sobre Nery Delgado

A cerimónia inaugural da exposição “Nery Delgado (1835-1908), Geólogo do Reino” decorreu, no passado dia 30 de Setembro, no museu dos extintos Serviços Geológicos de Portugal. O museu está situado no segundo andar do edifício do antigo Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de S. Francisco, na Rua da Academia das Ciências nº 19 - 2º, em Lisboa. A exposição estará patente até ao dia 31 de Março de 2009.
Joaquim Filipe Nery da Encarnação Delgado foi um prestigiado pioneiro da geologia portuguesa mas também da espeleologia, nomeadamente no que concerne à arqueologia em grutas. O seu nome está associado a estudos realizados nas Grutas de Santo Adrião, Grutas da Cesareda, Casa da Moura, Gruta da Furninha,...

Caveman, Oh!, Oh!, Oh! (II)

© Museo Arqueológico Nacional

O Homem pré-histórico que habitou as cavernas ou as utilizou como necrópole, que fez desses lugares subterrâneos cenários de sagradas cerimónias esquecidas pelo tempo ou suportes de manifestações artísticas impares, não seria tão primitivo ou “básico” quanto muitos fizeram ou querem fazer crer. Na mesma edição da revista Sábado (nº 232, de 9 a 15 de Outubro de 2008), em que se expõe a tradicional concepção alternativa de associar a palavra “cavernícola” a noções pejorativas, encontra-se uma notícia que desmente, de todo, esses “pontos de vista”. Os trogloditas eram bem mais desenvolvidos do que frequentemente se pensa…

Altamira levou 20 mil anos a pintar
Pode ter parecido uma eternidade a Miguel Ângelo o tempo que passou a pintar a Capela Sistina, em Roma: quatro anos. Mas sabe-se agora que a outra Capela Sistina, a gruta de Altamira, em Espanha, demorou muito mais a ser concluída. Ao longo de 20 mil anos, centenas de gerações foram retocando as cenas de caça pré-histórica. Esta surpreendente descoberta deita por terra as anteriores teorias, que acreditavam que estas pinturas tinham sido feitas de uma só vez.
A nova teoria foi apresentada no início da semana no sítio da internet
Planet Earth e é o resultado das investigações feitas pela equipa do arqueólogo Alistair Pike, da universidade de Bristol. À semelhança das pinturas rupestres de Altamira, as figuras encontradas em centenas de outras grutas em toda a Europa também terão demorado dezenas de milhares de anos a ser concluídas.
Até agora, os cientistas tinham dificuldades em identificar com precisão as datas das pinturas. Mas uma técnica pioneira promete acabar com esse obstáculo. A solução é medir os níveis de urânio nas grutas, tal como fazem os geólogos quando querem datar as formações rochosas.
” [sic.]
*****

Vulcano-espeleologia (II)

Grutas dos Açores
Governo regional prepara legislação


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 162, 2 de Janeiro de 1998]

O património espeleológico dos Açores vai ser salvaguardado. A Direcção Regional do Ambiente está a elaborar legislação para minimizar a degradação que se verifica em algumas grutas. É o resultado da denúncia de Os Montanheiros, que alertaram para a obstrução da entrada da Gruta da Caldeira.

© Os Montanheiros

As grutas açorianas, com interesse turístico ou científico, vão ser protegidas por legislação regional. A elaboração de normas legais para salvaguardar as grutas do arquipélago foi anunciada, em Outubro passado, pela directora regional do Ambiente, Eduarda Goulart.
A notícia coincidiu com a denúncia por parte de Os Montanheiros - Sociedade de Exploração Espeleológica, da obstrução da Gruta da Caldeira (nos Biscoitos). Esta cavidade, uma das mais importantes da Ilha Terceira e ainda com troços por explorar, não constitui, infelizmente, o único exemplo.
Outras cavidades foram fechadas, inclusivamente com arame farpado. Os Montanheiros já alertaram para diversas situações semelhantes e há muitos anos que reclamam legislação para as evitar, mas apenas encontraram a “passividade das autoridades”. Para José Botelho, de Os Montanheiros, “o Governo já criou legislação para proteger a paisagem, flora e fauna mas tem-se esquecido das grutas e cavidades naturais”.

Legislação precisa-se
A conservação do património espeleológico passará pela criação de legislação específica que mitigue possíveis impactes ambientais no meio subterrâneo. O problema é sentido nos Açores, mas também no Continente e provavelmente na Madeira.
Em Portugal continental, face à crescente pressão no sentido da utilização das cavidades (para fins sobretudo turísticos), os espeleólogos têm igualmente defendido a regulamentação do uso das grutas. Nomeadamente, para impedir a instalação de conflitos entre os diferentes interesses em jogo. A realização de esforços no sentido de sensibilizar as populações, bem como as entidades competentes, para a importância do património cársico - cuja valorização pode influir decisivamente na melhoria das condições económicas e sociais a nível local - é igualmente apontada. Olímpio Martins, espeleólogo do Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros (PNSAC), refere as novas concepções metodológicas que podem passar, a titulo de exemplo, “pela hierarquização do uso do território espeleológico e definição de utilizadores”.
O controlo, nomeadamente pela administração local, do uso e gestão correctos das cavidades, baseado em legislação específica, será pois uma medida a implementar. Apesar de diversas propostas tendentes à classificação das caverns, a Gruta do Zambujal (na Arrábida), o Algarão do Poço dos Mouros ou as Solestreiras (no Carso do Algarve) são das poucas que se encontram protegidas por lei.
Nos Açores, o Algar do Carvão (na Ilha Terceira), classificado como Reserva Natural Geológica pelo Decreto Legislativo Regional nº 13/87/A (e candidato ao título de Património Mundial Natural), constitui o único exemplo. Recorde-se que a associação ambientalista Amigos dos Açores propôs recentemente (jornal FORUM AMBIENTE nº 153 de 31/ Out. 97) a classificação da Gruta do Carvão (na ilha de S. Miguel) como Monumento Natural Regional, ao abrigo do Decreto Regional nº 21/93/A.
A protecção do património espeleológico português encontra-se, pois, no início, restando muito por fazer. Actualmente, torna-se urgente o conhecimento das cavernas em que é necessário uma rápida intervenção conservacionista e, sobretudo, actuar. É nesse sentido que a Direcção Regional do Ambiente, nos Açores, sensível à problemática da conservação das cavernas, pretende agir. “Não podemos optar por uma situação de interditar intervenções em todas as grutas, especialmente as que se encontram em terrenos particulares. Vamos analisar a situação caso a caso”, declarou Eduarda Goulart.

Açores subterrâneo
Embora o património vulcano-espeleológico dos Açores seja único em Portugal e mundialmente conhecido, tem ainda muito por revelar e encontra-se subaproveitado no respeitante às acções de educação ambiental e de interpretação da natureza. O inventário das cavidades terceirenses é bastante exaustivo (já se assinalaram cerca de meia centena de cavidades), resultado do trabalho de Os Montanheiros (associação fundada em 1963), mas noutras ilhas ainda há muito por explorar. Como no Pico, onde também já se registou o fecho de várias entradas de grutas.
O estudo das grutas açorianas remonta ao século passado (Fouque, 1873; Wesber, 1821; Hartung, 1860; Canto, 1881; Walker, 1886; Silva, 1893), mas o primeiro inventário espeleológico do arquipélago surgiu somente em 1989. Neste primeiro censo, realizado por Ogawa, foram referidas 33 grutas e 7 algares, mas P. Borges, A. Silva e F. Pereira, em 1991, assinalaram perto de uma centena de cavidades. Número, hoje, francamente ultrapassado.
O maior túnel de lava - Gruta das Torres (5429 m) -situa-se na Ilha do Pico e o maior algar - Algar do Matoso (137.5 m) - situa-se em S. Jorge. Cerca de 75 por cento das cavidades apresentam um desenvolvimento inferior a 300 metros, mas algumas correspondem a troços de um mesmo túnel lávico. O trabalho que está a ser realizado pela Direcção Regional do Ambiente não se espera, portanto, de fácil execução. Prevê-se que sejam apenas classificadas algumas das muitas cavidades. Mas mais vale poucas que nenhuma. Para que não se repitam casos como o da Gruta do Camelo (na Ilha Terceira), parcialmente destruída para aproveitamento da nascente aí existente.

10/10/2008

Palestra Cavex Team

O espeleólogo andaluz Sergio García-Dils de la Veja, membro da Cavex Team, vai apresentar, no próximo dia 25 de Outubro, uma palestra sobre as “Explorações à Krubera Voronya (que com 2191 metros é actualmente a cavidade mais funda do planeta) e outras explorações da Cavex Team”. O evento, que terá início às 17.00, decorrerá no "El Casino" de Sant Esteve Sesrovires (Catalunha).

Caveman, oh!, oh!, oh!


José Pacheco Pereira na rubrica semanal que publica na revista Sábado brinda-nos, na última edição (nº 232, de 9 a 15 de Outubro), com considerandos digamos, à falta de definição mais apropriada, pseudo-espeleológicos ou para-espeleológicos :) Senão vejamos… Entre uma série de questões pertinentes, que coloca ao primeiro-ministro José Sócrates, destaca-se: “Será que Vossa Excelência me permite não engolir a propaganda governamental sem ser chamado de “velho do Restelo”, “pessimista”, “do contra”, “bota-abaixista”, pouco patriota, reaccionário, iliterato tecnológico, cavernícula, etc., etc.?” (sic.)
Passando sobre os diversos epítetos atribuídos aos que pretensamente não estão para “engolir propaganda governamental” detenhamo-nos no “cavernícula”. Antes de mais, será conveniente repor a verdade dos factos: nenhum crítico com espaço nos media habita numa caverna. E isto não é algo de somenos ou uma tentativa de fazer humor fácil com coisas, aliás, bastante sérias. É que na região da grande Lisboa existem, pasme-se, diversas pessoas que vivem em cavernas naturais e não são certamente escrevinhadores de artigos de opinião ou tecnocratas da política. Por outro lado, não foi também certamente uma opção de mudança de vida, mais ecológica ou "freak", o facto de viverem numa gruta. Se fosse possível entrarem nessas lógicas “finórias” seria mais probabilístico que tivessem um monte alentejano como “casa de repouso” e uma bela moradia ou apartamento na capital. Não é?
Retomando as temáticas subterrâneas, será de todo conveniente acabar com as concepções alternativas que sistematicamente associam às grutas, seus habitantes ou simples frequentadores com primitivismo, brutalidade ou tacanhez, entre outros atributos pouco abonatórios. É que estes “trocadilhos” que encerram abscônditos e perniciosos significados, pecam sistematicamente pelo disparate e absurdo que encerram… Acontece que ao contrário de outras asneirolas consideradas politicamente incorrectas, estas “brincadeiras” asininas são perfeitamente aceites… É nesse contexto que expressões como “troglodita” ou “homem das cavernas” surgem frequentemente mal empregues. Foi por essas e por outras que, por exemplo, a palavra “espelunca” tem o significado que hoje em dia lhe é geralmente atribuído. E, pior ainda, não surge um mísero caga-lume que contribua com uma réstia de luz neste mundo de trevas. Já agora, a palavra “cavernícola” refere-se tão somente ao que vive ou habita em grutas e, caso ainda não tenham reparado, escreve-se com “o”. Oh! Oh! Oh!

Vulcano-espeleologia (I)

Gruta do Carvão
Classificar uma gruta vulcânica

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 153, 31 de Outubro de 1997]

Os Amigos dos Açores querem classificar a Gruta do Carvão como Monumento Natural Regional. A conservação do maior túnel lávico de S. Miguel é importante. Bem como a interpretação e musealização do local.

© Amigos dos Açores

A Associação Ecológica Amigos dos Açores acaba de propor a classificação da Gruta do Carvão como Monumento Regional, ao abrigo do Decreto Legislativo Regional nº 21/93/A. Nesse sentido, a associação elaborou um estudo onde caracterizou a cavidade sob diversos aspectos, designadamente históricos e geológicos.
As grutas estão geralmente associadas a áreas cársicas (Maciço Calcário Estremenho ou Barrocal Algarvio), no entanto, não se circunscrevem somente às rochas carbonatadas (calcários ou dolomias). O arquipélago dos Açores constitui, nesse aspecto, um excelente exemplo. Essa região é particularmente rica em túneis lávicos, devido à abundância de escoadas de natureza basáltica (sobretudo basaltos e hawaiitos), onde são comuns as estruturas do tipo pahoehoe.
As ilhas de S. Miguel, Pico e Terceira apresentam as cavidades mais conhecidas, chamando-se a atenção para a possível confusão entre o Algar do Carvão e a Gruta do Carvão. A primeira situa-se na Ilha Terceira e a segunda, proposta para classificação pelos Amigos dos Açores, localiza-se na Ilha de S. Miguel.
A Gruta do Carvão fica na zona ocidental de Ponta Delgada, no Complexo Vulcânico dos Picos - uma área de vulcanismo fissural recente, composta por cerca de 200 cones de escórias e escoadas lávicas -, e é o maior túnel lávico de S. Miguel. Actualmente, é possível percorrer uma extensão de 1150 metros, em dois troços separados. O troço meridional desenvolve-se ao longo de 600 metros, desde a Rua de Lisboa até ao cruzamento da Rua Pintor Domingos Rebelo (antiga Rua do Carvão) com a Avenida Antero de Quental. O troço setentrional desenvolve-se para noroeste da Rua do Paim, em direcção à Rua da Saúde.
São de destacar, no troço sul, a existência de locais onde o túnel apresenta mais de cinco metros de altura (e, por vezes, mais de 10 metros de largura), amplas salas e microformas vulcânicas. No troço norte salienta-se a existência de dois túneis sobrepostos numa extensão considerável (cerca de 200 metros) e numerosas estalactites de lava.
No troço meridional, a cavidade desenvolve-se sob os secadores da Fábrica de Tabaco Micaelense (FTM), Escola Primária do Carvão e parte das moradias do Bairro da Misericórdia. Entre este bairro e a Escola do Carvão existem terrenos não urbanizados, ocupados presentemente por pastagens. Entre a Rua de Lisboa e os terrenos da FTM, a gruta desenvolve-se em terrenos com moradias. O troço setentrional da gruta encontra-se essencialmente sob terrenos de cultivo e estufas.
Nalguns locais da gruta, próximo do extremo sul dos terrenos da FTM, foram construídos muros de pedra, visando assegurar a estabilidade da mesma. A presença destes muros e de uma antiga instalação eléctrica no interior da gruta atestam a sua utilização pelo Homem desde tempos idos.

Evitar construções
João Carlos Nunes, do Departamento de Geologia da Universidade dos Açores e da associação Amigos dos Açores, declarou à FORUM AMBIENTE que a classificação da Gruta do Carvão visa a sua conservação. Nomeadamente, evitar eventuais construções que ponham em risco esse património nacional. Os Montanheiros, que contam com a equipa de espeleólogos mais antiga existente nos Açores, manifestaram igualmente o grande interesse na preservação da Gruta do Carvão. Luís Parreira, dessa associação terceirense, afirmou à FORUM AMBIENTE que é importante conservar o património espeleológico açoriano.
O valor da Gruta do Carvão reside sobretudo na grande variedade de aspectos geológicos, estruturas e fenómenos típicos do vulcanismo que aí se podem observar. É o caso de estruturas como as bolhas-de-gás ou fendas resultantes do arrefecimento da lava. No tecto da cavidade existem numerosas estalactites primárias (resultantes da solidificação de pingos de lava) e secundárias (fruto da deposição de materiais transportados pelas águas de escorrência).
A interpretação dos fenómenos geológicos inerentes à Gruta do Carvão é reconhecida pelos Amigos dos Açores. A musealização do espaço e a sua utilização priviligiada para acções de educação ambiental contam-se entre os objectivos dessa associação ecológica.



Uma gruta com história

A Gruta do Carvão é a cavidade vulcânica mais conhecida da Ilha de S. Miguel. No século XVI foi descrita por Gaspar Fructuoso, na obra “Saudades da Terra”. Em 1821, John White referiu a existência de uma gruta na zona dos Arrifes correspondente ao prolongamento para montante da Gruta do Carvão. George Hartung, em 1860, referiu-se igualmente a esta caverna. A Gruta do Carvão recebeu também a designação de “Gruta da Rua Formosa”, de acordo com Ernesto do Canto (1881). Em 1886, Walter Frederic Walker, para além de evidenciar a existência do prolongamento da Gruta do Carvão para norte da cidade de Ponta Delgada, descreveu algumas estruturas da cavidade. Emygdio da Silva, na obra “S. Miguel em 1893”, escreve “…é o mais notável dos túneis vulcânicos dos Açores…”.

© Forum Ambiente (1997)

09/10/2008

(Des)conservação

Carso do Algarve
Descentralizar e conservar


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 207, 13 de Novembro de 1998]

A regionalização foi peremptoriamente rejeitada pelos portugueses. Espera-se agora que avance a descentralização. Em termos de conservação, a questão que subsiste prende-se com os resultados concretos no terreno. Vamos apostar no “desordenamento” do território ou avançar para um ordenamento efectivo? O Carso do Algarve é exemplo de reflexão.

Gruta da Senhora (Algarve) @ P. Cuiça (2008)

Os portugueses decidiram dar um “não” à regionalização. Face aos resultados, o projecto das regiões dificilmente irá avançar nos próximos anos. Contudo, a eventualidade da criação de regiões-piloto não foi posta de parte, nomeadamente no Alentejo (onde o “sim” saiu vitorioso) e no Algarve (onde o “não” constituiu uma surpresa). A alternativa das regiões-piloto levanta, no entanto, diversos problemas, pois será preciso contornar o expressivo “não” a nível nacional.
O debate que antecedeu o referendo evidenciou as assimetrias regionais e a burocracia existente no país. Espera-se agora que, após o “chumbo” da regionalização, se incremente a descentralização. A questão que subsiste prende-se com os resultados concretos no terreno. Como resolver as assimetrias e a burocracia? Como conciliar desenvolvimento e conservação da natureza? Vamos apostar no desordenamento do território ou avançar para um ordenamento efectivo? O Carso do Algarve constitui um excelente exemplo de reflexão.

Antes, durante e depois
O Algarve atravessou um rápido desenvolvimento urbano e agrícola, a partir da década de 60, guiado e implementado pela indústria turística e incrementado pela entrada na Comunidade Europeia, que teve como consequência uma degradação ambiental e paisagística que, afectando sobretudo o Litoral, também atingiu o Barrocal. Os problemas relacionados com o Litoral algarvio são amplamente conhecidos. Mas a crescente pressão sobre o Barrocal, não sendo um dado novo, está longe de ser questionada. O alerta para a importância das grutas algarvias remonta ao século passado (Estácio da Veiga, 1886), mas o património espeleológico da região tem sido votado ao ostracismo. A degradação do carso subterrâneo tem-se processado perante a inoperância ou desinteresse das entidades responsáveis, tal como acontece com o carso superficial. A urbanização das colinas calcárias (que começou a ter expressão significativa na década de 90) tem aumentado a “olhos vistos”, provocando a adulteração da beleza natural do Barrocal. Existem diversas casas nas linhas de cumeada e nas vertentes, o lixo e entulho marcam presença e aquilo que era campo começa a transformar-se em área suburbana. Vejam-se os cerros da Goldra (288 m) ou Nexe (360 m). As casas cercam S. Miguel (410 m), Bita (119 m) ou Guilhim (313 m) e aproximam-se da vertente nordeste do Cerro da Cabeça. Os exemplos são diversos.
O grande desenvolvimento da rede viária, de que a Via do Infante e acessos serão o exemplo mais expressivo, também contribuíram para a degradação e adulteração do Barrocal. O impacte sobre o Algar dos Amendoais constitui um caso encoberto (porque subterrâneo) da influência das vias de comunicação sobre o meio. A acção das pedreiras sobre a paisagem e afloramentos, apesar de pontual, também é questionável.
Não se questionando as transformações do meio, inerentes à própria evolução das populações, reconhece-se, no entanto, a necessidade de implementar um desenvolvimento sustentado que não descure as componentes social, ambiental e cultural, devendo-se optar pela preservação in situ de monumentos naturais, como defende A. M. Galopim de Carvalho do Museu Nacional de História Natural.
Resta agora aguardar que a descentralização resolva os problemas apontados. As autarquias, no entanto, terão e apresentar uma postura diferente da que têm tido até ao presente. A defesa do meio ambiente é urgente e não se compadece com os erros do passado.


Degradação do Barrocal

Gruta da Senhora (Algarve) @ P. Cuiça (2008)

O Barrocal algarvio apresenta uma rede de drenagem pouco desenvolvida, escassos cursos de água de caudal permanente e a ocorrência de perdas (sumidouros) e ganhos (exsurgências). A importância da drenagem subterrânea em detrimento da drenagem superficial, associada a uma geomofologia peculiar, permite definir o Carso do Algarve como a segunda maior área de rochas carbonatadas do país. Designa-se por “carso” uma área onde a hidrologia subterrânea (hidrogeologia) e os fenómenos de dissolução desempenham um papel preponderante na modelação do relevo.
O Carso do Algarve apresenta diversas grutas, muitas delas sujeitas a degradação, desde há anos, devido a incursões antrópicas, sendo fundamental a sua protecção. A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a determinadas grutas, tem vindo a degradá-las de maneira rápida e irreversível. O endocarso algarvio está ameaçado, mas o carso superficial também o está.
A geóloga Maria Julieta Azevedo Macedo (1985) propôs a classificação (ao abrigo do Decreto-Lei nº 613/76) de “todas as grutas, algares, sumidouros e exsurgências” do Algarve. Propôs igualmente a classificação dos campos de lapiás do Cerro da Cabeça, Monte Peral, Algar Seco, Ponta da Piedade, promontório de Sagres e Alto Barrocal (Salir). A criação de Reservas Naturais Integrais - Gruta Amarela, G. do Monte Clérigo, G. de Ibne Ammar, G. da Igrejinha dos Soidos, G. da Solustreira Grande, G. da Solustreira Pequena, G. da Rocha da Pena e G. dos Arrifes - também foi avançada.
A Directiva Habitats (92/43/CEE) impõe que cada Estado Membro deva designar “Zonas Especiais de Conservação” (ZEC), tendo em vista a sua posterior incorporação na Rede Natura 2000. Desta rede europeia de sítios farão igualmente parte as “Zonas de Protecção Especial” (ZPE) declaradas ao abrigo da Directiva das Aves (79/409/CEE). Na proposta preliminar da lista nacional de sítios constam, no Algarve: Arade-Odelouca, Ribeira de Quarteira, Fonte Filipe-Amendoeira e Cerro da Cabeça.
Na lista de sítios incluídos no projecto biótopos CORINE encontram-se Aljezur-Monte Clérigo, Ponta de Sagres, Cabo de S. Vicente, Serra do Espinhaço de Cão, Serra de Monte Figo, Cerro da Cabeça, Rocha da Pena, Gruta Amarela, Barrocal de Alte, Ponta da Piedade, Rio Arade, Gruta da Igrejinha dos Soidos, Grutas da Salustreira, Gruta da Rocha da Pena, Gruta de Monte Clérigo e Gruta de Ibne Ammar.
Até hoje foram criados os sítios classificados da Rocha da Pena e Fonte Benémola (Decreto-Lei nº 392/91, de 10 de Outubro).


9/10/2008: Não ou sim à regionalização? Centralizar ou descentralizar? Desburocratizar ou burocratizar? Mais ou menos leis? Questões que se levantam quando se pensa sobre ordenamento do território, conservação da natureza e opções a adoptar… E, claro, numa perspectiva de defesa das regiões cársicas.
A minha opinião acerca do assunto em causa tem vindo a alterar-se ao longo dos últimos anos. A produção de mais legislação tem-se revelado manifestamente desadequada, porque umas vezes é contraproducente e outras tantas perfeitamente inócuas. Nesse contexto, torna-se essencial a procura de novas soluções e abordagens…
Quando a ignorância se instala no seio das sociedades e a desordem nos espíritos, as leis tornam-se numerosas. Os homens tudo esperam da legislação e, constituindo cada lei nova um novo erro de contas, são levados a pedir-lhe incessantemente o que só pode vir deles próprios, da sua educação, do estado dos seus costumes.
Não é com certeza um revolucionário quem diz isto, nem sequer um reformador. É um jurisconsulto, Dalloz, autor da compilação das leias francesas conhecida pelo nome de “Repertório de Legislação”. No entanto, estas linhas, ainda que escritas por um homem que era ele mesmo um fabricante e admirador de leis, representam perfeitamente o estado normal das nossas sociedades.
” [Júlio Carrapato (2008): Para uma critica Libertária do Direito]

08/10/2008

Grande Festa

O Espeleo Club Resaltes de Murcia vai realizar, de 17 a 19 de Outubro, o Acampamento Regional de Espeleologia da Região de Múrcia (Campamento Regional de Espeleología de la Región de Murcia), em Calasparra. Esta grande festa da espeleo pretende juntar os espeleólogos de Murcia, de outras autonomias e de outros países, tal como simples curiosos que pretendam conhecer as belas paisagens montanhosas dessa região espanhola onde irá decorrer o evento.
Para mais informações, consulte o site http://www.resaltes.com/.

Furninha

Espeleologia
Subterrâneos da vergonha


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 286, 6 de Junho de 2000]

A Forum Ambiente foi encontrar a Gruta da Furninha num estado lastimável. A cavidade que foi usada como abrigo e necrópole durante a Pré-História é agora utilizada como vazadouro de lixo e como casa de banho.

Gruta da Furninha (Peniche) © Pedro Cuiça (1999)

A Gruta da Furninha, famosa pela fauna e pelo espólio arqueológico que encerrava, encontra-se no mais completo abandono. Essa habitação e, posteriormente, necrópole dos nossos antepassados pré-históricos é usada como “casa de banho” e vazadouro de lixo. Mas, o abandono e a incúria não são um exclusivo dessa importante gruta, pois as cavidades existentes na área não têm melhor sorte.
O património espeleológico tem sido sujeito, ao longo dos anos, a uma degradação mais ou menos contínua e irreversível. A afluência de grande número de pessoas a determinadas grutas é apontada como uma das causas, talvez a mais importante. Na Gruta da Furninha, assim como nas vizinhas, os envolvidos não são espeleólogos, são pescadores! Sim, pescadores e talvez visitantes ocasionais. Certo é que essas cavidades apresentam-se, invariavelmente, conspurcadas por dejectos de diversos tipos. Também é certo que não se encontra nenhum aviso a alertar para a importância da Gruta da Furninha e, muito menos, das suas congéneres sem fama. Mas o estado em que se encontram não tem justificação.

Um simples buraco
A Gruta da Furninha situa-se frente ao mar, numa pequena plataforma de calcários acinzentados. A sua ampla entrada dá acesso a uma sala principal, seguindo-se uma sala mais pequena e um corredor inclinado com um poço de nove metros. A gruta tratava-se, inicialmente, de uma simples fenda nos calcários. Fenda que o mar alargou, dando à sua entrada um aspecto próximo do que possui actualmente. A caverna situa-se ao nível do mar de então.
Segundo o geólogo Georges Zbyszewski, com a descida das águas do mar “a parte inferior da gruta foi escavada em forma de poço”. O depósito de calhaus encontrado no fundo desse poço, e que tem o seu equivalente nas anfractuosidades da arriba, no exterior da cavidade, corresponde a um antigo depósito de praia. Depois dessa regressão, Zbyszewski refere que “a gruta foi invadida pelas areias de dunas e frequentadas pelos homens paleolíticos, os quais deixaram sílex e quartzitos lascados, acompanhados de muitos ossos de animais”.
No século XIX, Nery Delgado encontrou, no mesmo poço, sete níveis ossíferos, contendo restos de ursos, lobos, hienas raiadas, panteras, linces, rinocerontes, cavalos, veados, aves, tartarugas e peixes. Um exame posterior mostrou que a gruta possui níveis do Paleolítico Superior, que era desconhecido em Portugal na época das escavações de Nery Delgado, o que justifica não ter sido separado do Eneolítico. Depois de escavações realizadas em outras grutas, chegou-se à conclusão que “os homens do Eneolítico enterraram os seus mortos na gruta da Furninha, abrindo fossas nos níveis do Paleolítico superior que remexeram parcialmente”.
A gruta já não serve de habitação aos vivos e de último repouso aos mortos. Actualmente, a sua utilização é bem diferente. O vasto condomínio que é a natureza continua a ser encarado e tratado da forma mais leviana. Para alguns o planeta Terra é a sua casa, para outros talvez não passe de um grandioso vazadouro público.

07/10/2008

Karst Information Portal


O Karst Information Portal (KIP) colocou recentemente on-line uma série de publicações sobre espeleologia que, até agora, não se encontravam disponíveis em formato electrónico (pdf). A iniciativa faz parte de um projecto piloto, realizado em conjunto com a National Speleological Society (NSS).
Uma equipa do KIP digitalizou e colocou on-line os números da NSS News publicados durante dois anos (correspondentes a 1999 e 2000). Os restantes números até agora publicados serão colocados on-line nos próximos meses.

Espeleologia Científica


A União Belga de Espeleologia (Union Belge de Spéléologie) vai realizar as Jornadas 2008 de Espeleologia Científica, nos dias 15 e 16 de Novembro, em Ferme du Dry Hamptay - Hans-sur-Lesse (Bélgica).
O dia de sábado está aberto à apresentação de comunicações sobre todos os domínios de estudo do mundo subterrâneo. No entanto, é dada preferência a palestras sobre observações, descobertas e interpretações recentes acerca da Bélgica e regiões limítrofes, tal como às realizações belgas no estrangeiro. A apresentação de palestras e o envio de resumos terão de ser efectuados até dia 7 de Novembro.
Sábado 15: simpósio das 9 às 18 horas em Ferme de Dry Hamptay (Rue des Grottes, 46 - Hans-sur-Lesse). Recepção dos participantes a partir das 8.30 a.m..
Domingo 16: excursão, das 10 às 16 horas, sob o tema Le Karst de la craie de la Montagne Saint-Pierre à Vise, sob a direcção de Luc Willems do Departamento de Geologia da Universidade de Liège.
Este evento é organizado conjuntamente pelo Centre Belge d’Etudes Karstologiques e a Comission Scientifique de l’Union Belge de Spéléologie, com o apoio do Domaine des Grottes de Han. As Jornadas 2008 de Espeleologia Científica realizam-se sob a égide do Ano Internacional da Terra.

Karaitza

A União dos Espeleólogos Bascos (Unión de Espeleólogos Vascos) disponibiliza os números 9 e 13 da revista Karaitza em formato “pdf”.

[Fonte: blog do Espeleo Club de Descenso de Cañones]