09/10/2008

(Des)conservação

Carso do Algarve
Descentralizar e conservar


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 207, 13 de Novembro de 1998]

A regionalização foi peremptoriamente rejeitada pelos portugueses. Espera-se agora que avance a descentralização. Em termos de conservação, a questão que subsiste prende-se com os resultados concretos no terreno. Vamos apostar no “desordenamento” do território ou avançar para um ordenamento efectivo? O Carso do Algarve é exemplo de reflexão.

Gruta da Senhora (Algarve) @ P. Cuiça (2008)

Os portugueses decidiram dar um “não” à regionalização. Face aos resultados, o projecto das regiões dificilmente irá avançar nos próximos anos. Contudo, a eventualidade da criação de regiões-piloto não foi posta de parte, nomeadamente no Alentejo (onde o “sim” saiu vitorioso) e no Algarve (onde o “não” constituiu uma surpresa). A alternativa das regiões-piloto levanta, no entanto, diversos problemas, pois será preciso contornar o expressivo “não” a nível nacional.
O debate que antecedeu o referendo evidenciou as assimetrias regionais e a burocracia existente no país. Espera-se agora que, após o “chumbo” da regionalização, se incremente a descentralização. A questão que subsiste prende-se com os resultados concretos no terreno. Como resolver as assimetrias e a burocracia? Como conciliar desenvolvimento e conservação da natureza? Vamos apostar no desordenamento do território ou avançar para um ordenamento efectivo? O Carso do Algarve constitui um excelente exemplo de reflexão.

Antes, durante e depois
O Algarve atravessou um rápido desenvolvimento urbano e agrícola, a partir da década de 60, guiado e implementado pela indústria turística e incrementado pela entrada na Comunidade Europeia, que teve como consequência uma degradação ambiental e paisagística que, afectando sobretudo o Litoral, também atingiu o Barrocal. Os problemas relacionados com o Litoral algarvio são amplamente conhecidos. Mas a crescente pressão sobre o Barrocal, não sendo um dado novo, está longe de ser questionada. O alerta para a importância das grutas algarvias remonta ao século passado (Estácio da Veiga, 1886), mas o património espeleológico da região tem sido votado ao ostracismo. A degradação do carso subterrâneo tem-se processado perante a inoperância ou desinteresse das entidades responsáveis, tal como acontece com o carso superficial. A urbanização das colinas calcárias (que começou a ter expressão significativa na década de 90) tem aumentado a “olhos vistos”, provocando a adulteração da beleza natural do Barrocal. Existem diversas casas nas linhas de cumeada e nas vertentes, o lixo e entulho marcam presença e aquilo que era campo começa a transformar-se em área suburbana. Vejam-se os cerros da Goldra (288 m) ou Nexe (360 m). As casas cercam S. Miguel (410 m), Bita (119 m) ou Guilhim (313 m) e aproximam-se da vertente nordeste do Cerro da Cabeça. Os exemplos são diversos.
O grande desenvolvimento da rede viária, de que a Via do Infante e acessos serão o exemplo mais expressivo, também contribuíram para a degradação e adulteração do Barrocal. O impacte sobre o Algar dos Amendoais constitui um caso encoberto (porque subterrâneo) da influência das vias de comunicação sobre o meio. A acção das pedreiras sobre a paisagem e afloramentos, apesar de pontual, também é questionável.
Não se questionando as transformações do meio, inerentes à própria evolução das populações, reconhece-se, no entanto, a necessidade de implementar um desenvolvimento sustentado que não descure as componentes social, ambiental e cultural, devendo-se optar pela preservação in situ de monumentos naturais, como defende A. M. Galopim de Carvalho do Museu Nacional de História Natural.
Resta agora aguardar que a descentralização resolva os problemas apontados. As autarquias, no entanto, terão e apresentar uma postura diferente da que têm tido até ao presente. A defesa do meio ambiente é urgente e não se compadece com os erros do passado.


Degradação do Barrocal

Gruta da Senhora (Algarve) @ P. Cuiça (2008)

O Barrocal algarvio apresenta uma rede de drenagem pouco desenvolvida, escassos cursos de água de caudal permanente e a ocorrência de perdas (sumidouros) e ganhos (exsurgências). A importância da drenagem subterrânea em detrimento da drenagem superficial, associada a uma geomofologia peculiar, permite definir o Carso do Algarve como a segunda maior área de rochas carbonatadas do país. Designa-se por “carso” uma área onde a hidrologia subterrânea (hidrogeologia) e os fenómenos de dissolução desempenham um papel preponderante na modelação do relevo.
O Carso do Algarve apresenta diversas grutas, muitas delas sujeitas a degradação, desde há anos, devido a incursões antrópicas, sendo fundamental a sua protecção. A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a determinadas grutas, tem vindo a degradá-las de maneira rápida e irreversível. O endocarso algarvio está ameaçado, mas o carso superficial também o está.
A geóloga Maria Julieta Azevedo Macedo (1985) propôs a classificação (ao abrigo do Decreto-Lei nº 613/76) de “todas as grutas, algares, sumidouros e exsurgências” do Algarve. Propôs igualmente a classificação dos campos de lapiás do Cerro da Cabeça, Monte Peral, Algar Seco, Ponta da Piedade, promontório de Sagres e Alto Barrocal (Salir). A criação de Reservas Naturais Integrais - Gruta Amarela, G. do Monte Clérigo, G. de Ibne Ammar, G. da Igrejinha dos Soidos, G. da Solustreira Grande, G. da Solustreira Pequena, G. da Rocha da Pena e G. dos Arrifes - também foi avançada.
A Directiva Habitats (92/43/CEE) impõe que cada Estado Membro deva designar “Zonas Especiais de Conservação” (ZEC), tendo em vista a sua posterior incorporação na Rede Natura 2000. Desta rede europeia de sítios farão igualmente parte as “Zonas de Protecção Especial” (ZPE) declaradas ao abrigo da Directiva das Aves (79/409/CEE). Na proposta preliminar da lista nacional de sítios constam, no Algarve: Arade-Odelouca, Ribeira de Quarteira, Fonte Filipe-Amendoeira e Cerro da Cabeça.
Na lista de sítios incluídos no projecto biótopos CORINE encontram-se Aljezur-Monte Clérigo, Ponta de Sagres, Cabo de S. Vicente, Serra do Espinhaço de Cão, Serra de Monte Figo, Cerro da Cabeça, Rocha da Pena, Gruta Amarela, Barrocal de Alte, Ponta da Piedade, Rio Arade, Gruta da Igrejinha dos Soidos, Grutas da Salustreira, Gruta da Rocha da Pena, Gruta de Monte Clérigo e Gruta de Ibne Ammar.
Até hoje foram criados os sítios classificados da Rocha da Pena e Fonte Benémola (Decreto-Lei nº 392/91, de 10 de Outubro).


9/10/2008: Não ou sim à regionalização? Centralizar ou descentralizar? Desburocratizar ou burocratizar? Mais ou menos leis? Questões que se levantam quando se pensa sobre ordenamento do território, conservação da natureza e opções a adoptar… E, claro, numa perspectiva de defesa das regiões cársicas.
A minha opinião acerca do assunto em causa tem vindo a alterar-se ao longo dos últimos anos. A produção de mais legislação tem-se revelado manifestamente desadequada, porque umas vezes é contraproducente e outras tantas perfeitamente inócuas. Nesse contexto, torna-se essencial a procura de novas soluções e abordagens…
Quando a ignorância se instala no seio das sociedades e a desordem nos espíritos, as leis tornam-se numerosas. Os homens tudo esperam da legislação e, constituindo cada lei nova um novo erro de contas, são levados a pedir-lhe incessantemente o que só pode vir deles próprios, da sua educação, do estado dos seus costumes.
Não é com certeza um revolucionário quem diz isto, nem sequer um reformador. É um jurisconsulto, Dalloz, autor da compilação das leias francesas conhecida pelo nome de “Repertório de Legislação”. No entanto, estas linhas, ainda que escritas por um homem que era ele mesmo um fabricante e admirador de leis, representam perfeitamente o estado normal das nossas sociedades.
” [Júlio Carrapato (2008): Para uma critica Libertária do Direito]

08/10/2008

Grande Festa

O Espeleo Club Resaltes de Murcia vai realizar, de 17 a 19 de Outubro, o Acampamento Regional de Espeleologia da Região de Múrcia (Campamento Regional de Espeleología de la Región de Murcia), em Calasparra. Esta grande festa da espeleo pretende juntar os espeleólogos de Murcia, de outras autonomias e de outros países, tal como simples curiosos que pretendam conhecer as belas paisagens montanhosas dessa região espanhola onde irá decorrer o evento.
Para mais informações, consulte o site http://www.resaltes.com/.

Furninha

Espeleologia
Subterrâneos da vergonha


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 286, 6 de Junho de 2000]

A Forum Ambiente foi encontrar a Gruta da Furninha num estado lastimável. A cavidade que foi usada como abrigo e necrópole durante a Pré-História é agora utilizada como vazadouro de lixo e como casa de banho.

Gruta da Furninha (Peniche) © Pedro Cuiça (1999)

A Gruta da Furninha, famosa pela fauna e pelo espólio arqueológico que encerrava, encontra-se no mais completo abandono. Essa habitação e, posteriormente, necrópole dos nossos antepassados pré-históricos é usada como “casa de banho” e vazadouro de lixo. Mas, o abandono e a incúria não são um exclusivo dessa importante gruta, pois as cavidades existentes na área não têm melhor sorte.
O património espeleológico tem sido sujeito, ao longo dos anos, a uma degradação mais ou menos contínua e irreversível. A afluência de grande número de pessoas a determinadas grutas é apontada como uma das causas, talvez a mais importante. Na Gruta da Furninha, assim como nas vizinhas, os envolvidos não são espeleólogos, são pescadores! Sim, pescadores e talvez visitantes ocasionais. Certo é que essas cavidades apresentam-se, invariavelmente, conspurcadas por dejectos de diversos tipos. Também é certo que não se encontra nenhum aviso a alertar para a importância da Gruta da Furninha e, muito menos, das suas congéneres sem fama. Mas o estado em que se encontram não tem justificação.

Um simples buraco
A Gruta da Furninha situa-se frente ao mar, numa pequena plataforma de calcários acinzentados. A sua ampla entrada dá acesso a uma sala principal, seguindo-se uma sala mais pequena e um corredor inclinado com um poço de nove metros. A gruta tratava-se, inicialmente, de uma simples fenda nos calcários. Fenda que o mar alargou, dando à sua entrada um aspecto próximo do que possui actualmente. A caverna situa-se ao nível do mar de então.
Segundo o geólogo Georges Zbyszewski, com a descida das águas do mar “a parte inferior da gruta foi escavada em forma de poço”. O depósito de calhaus encontrado no fundo desse poço, e que tem o seu equivalente nas anfractuosidades da arriba, no exterior da cavidade, corresponde a um antigo depósito de praia. Depois dessa regressão, Zbyszewski refere que “a gruta foi invadida pelas areias de dunas e frequentadas pelos homens paleolíticos, os quais deixaram sílex e quartzitos lascados, acompanhados de muitos ossos de animais”.
No século XIX, Nery Delgado encontrou, no mesmo poço, sete níveis ossíferos, contendo restos de ursos, lobos, hienas raiadas, panteras, linces, rinocerontes, cavalos, veados, aves, tartarugas e peixes. Um exame posterior mostrou que a gruta possui níveis do Paleolítico Superior, que era desconhecido em Portugal na época das escavações de Nery Delgado, o que justifica não ter sido separado do Eneolítico. Depois de escavações realizadas em outras grutas, chegou-se à conclusão que “os homens do Eneolítico enterraram os seus mortos na gruta da Furninha, abrindo fossas nos níveis do Paleolítico superior que remexeram parcialmente”.
A gruta já não serve de habitação aos vivos e de último repouso aos mortos. Actualmente, a sua utilização é bem diferente. O vasto condomínio que é a natureza continua a ser encarado e tratado da forma mais leviana. Para alguns o planeta Terra é a sua casa, para outros talvez não passe de um grandioso vazadouro público.

07/10/2008

Karst Information Portal


O Karst Information Portal (KIP) colocou recentemente on-line uma série de publicações sobre espeleologia que, até agora, não se encontravam disponíveis em formato electrónico (pdf). A iniciativa faz parte de um projecto piloto, realizado em conjunto com a National Speleological Society (NSS).
Uma equipa do KIP digitalizou e colocou on-line os números da NSS News publicados durante dois anos (correspondentes a 1999 e 2000). Os restantes números até agora publicados serão colocados on-line nos próximos meses.

Espeleologia Científica


A União Belga de Espeleologia (Union Belge de Spéléologie) vai realizar as Jornadas 2008 de Espeleologia Científica, nos dias 15 e 16 de Novembro, em Ferme du Dry Hamptay - Hans-sur-Lesse (Bélgica).
O dia de sábado está aberto à apresentação de comunicações sobre todos os domínios de estudo do mundo subterrâneo. No entanto, é dada preferência a palestras sobre observações, descobertas e interpretações recentes acerca da Bélgica e regiões limítrofes, tal como às realizações belgas no estrangeiro. A apresentação de palestras e o envio de resumos terão de ser efectuados até dia 7 de Novembro.
Sábado 15: simpósio das 9 às 18 horas em Ferme de Dry Hamptay (Rue des Grottes, 46 - Hans-sur-Lesse). Recepção dos participantes a partir das 8.30 a.m..
Domingo 16: excursão, das 10 às 16 horas, sob o tema Le Karst de la craie de la Montagne Saint-Pierre à Vise, sob a direcção de Luc Willems do Departamento de Geologia da Universidade de Liège.
Este evento é organizado conjuntamente pelo Centre Belge d’Etudes Karstologiques e a Comission Scientifique de l’Union Belge de Spéléologie, com o apoio do Domaine des Grottes de Han. As Jornadas 2008 de Espeleologia Científica realizam-se sob a égide do Ano Internacional da Terra.

Karaitza

A União dos Espeleólogos Bascos (Unión de Espeleólogos Vascos) disponibiliza os números 9 e 13 da revista Karaitza em formato “pdf”.

[Fonte: blog do Espeleo Club de Descenso de Cañones]

Salir do Porto

Espeleologia
Gruta de Salir
Espera solução

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 285, 30 de Maio de 2000]

O património subterrâneo tem sido vítima das incursões a que é sujeito. O exemplo da Gruta de Salir do Porto vem lembrar, mais uma vez, que é necessário agir.

Salir do Porto © Pedro Cuiça (1999)

A Gruta de Salir do Porto, património natural único no concelho das Caldas da Rainha, tem vindo a sofrer, desde há anos, diversas incursões que se traduziram na sua gradual degradação. Para evitar a situação, o Centro de Actividades Desportivas (CAD), a Junta de Freguesia de Salir do Porto e a Câmara Municipal das Caldas da Rainha (CMCR) resolveram encerrar a gruta. O encerramento ocorreu no dia 4 de Março e o arrombamento registou-se logo depois, a 11 de Março. Fernando Oliveira, presidente do CAD, salienta que “à entrada foi deixado um papel plastificado com informações específicas para possíveis interessados em a visitar”. Mas estes não seguiram as especificações e mais uma vez apareceram formações danificadas e destruídas.
A Forum Ambiente visitou a Gruta de Salir do Porto e constatou a pintura e a destruição de estalactites, estalagmites, excêntricas, etc.. Mas também constatou quantidade e variedade de concreções que ainda tornam essa gruta num verdadeiro geo-recurso de interesse cultural, que é urgente preservar, estudar e, eventualmente, divulgar. Oliveira e mais quatro companheiros do CAD guiaram-nos nessa visita ao mundo subterrâneo.

Um património único
Octávio da Veiga Ferreira, no seu trabalho “Cavernas com Interesse Cultural encontradas em Portugal” (1982), destaca as “belas formações litoquímicas” da Gruta de Salir do Porto. Também C. Thomas, no livro “Grottes et Algares du Portugal” (1985), salienta o interesse turístico da Gruta de Salir do Porto.
A gruta, que “contém verdadeiras maravilhas”, já se encontrava ameaçada pelas pilhagens e pela destruição, facto a que não estará alheio o ser de fácil acesso. Segundo o autor, a cavidade era “regularmente fechada pelo município e não menos regularmente aberta por curiosos”.
Diogo Abreu, contactado pela Forum Ambiente, esclareceu que a gruta terá sido descoberta nos anos 60, devido à laboração de pedreira que ainda se encontrava em funcionamento. Para esse geógrafo e espeleólogo, a cavidade poderia constituir um “pequeno pólo de desenvolvimento local ligado às pessoas”.

Conhecer para proteger
O CAD está preocupado com o recente interesse que a gruta tem suscitado. É que o projecto “Vamos Proteger a Gruta de Salir” foi apresentado à CMCR em Setembro de 1996 e ainda não obteve uma resposta concludente. O projecto foi apresentado pela Associação de Técnicos de Espeleologia (ATE) e passou, mais tarde, para o CAD.
Este projecto, apresentado à CMCR em Setembro de 1996, propunha-se “efectuar a topografia total da gruta, limpeza e um trabalho de prospecção de possíveis novas galerias (principalmente no Poço das Areias)”, bem como executar “um levantamento da fauna cavernícola e ainda uma reportagem fotográfica e vídeo”. O projecto propunha ainda o estabelecimento de um protocolo entre a ATE e a CMCR. Entretanto, a Forum Ambiente contactou a vereadora da cultura da CMCR a fim de conhecer as posições da autarquia face ao futuro da Gruta de Salir do Porto, mas nã foi possível obter qualquer declaração até ao fecho da edição.
José António Crispim refere que a Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) tem um “grande interesse em ver preservada e devidamente recuperada a Gruta de Salir do Porto”. O presidente da direcção nacional da SPE salienta que “a gruta é pequena e é frágil”, e vai ter de se decidir o que fazer, quais as alternativas, pois está em jogo um “interessante valor do património geológico e espeleológico regional”.

Salir do Porto © Pedro Cuiça (1999)

06/10/2008

Motivações (I)

O Ninja das Caldas


A propósito das motivações que conduzem alguns "cromos" a dedicarem-se à exploração do mundo subterrâneo será conveniente, face às multifacetadas abordagens e especifícidades dos mesmos, esboçar algumas aproximações ao tema na tentativa de trazer algo de luz a esse mundo caracterizado pelas trevas! Comecemos pela bizarra mas pouco surpreendente notícia, que mereceu destaque no Espeleo.pt, acerca de um espeleólogo acusado de homicídio, por tentativa de impedir o acesso a uma gruta nos Alpes austríacos. Novidades, na verdade, não são a inveja ou a "dor de cotovelo", ambas demasiado banais e vulgarizadas enquanto motivações que levam a absurdos do tipo: esta gruta é minha, é toda minha e só minha!!! Seja nas Caldas, em Valongo, em Quarteira, em Tenerife ou no Dachstein, parece que os ninjas são mais abundantes do que se possa pensar*... Invulgar mesmo é a loucura atingir proporções desmesuradas, transcendentalmente mortais!
Vienna - A cave explorer could face charges of attempted murder after he built a potentially deadly trap to keep a rival from a cave in the Austrian Alps, police said Monday. The 68-year-old suspect placed large rocks onto a rope that would have come crashing down on anyone using it in the cave on Dachstein mountain, police said.
The trap was discovered last month by an amateur caver who attempted to abseil into the mountain two days after he was told by the suspect not to explore the cave.
The suspect was arrested last Thursday. He is also suspected of scratching cars of other cave enthusiasts.
"His pride was wounded," police investigator Harald Winkler told Deutsche Presse-Agentur dpa. "He didn't want anyone to enter his cave."
” (sic.)
Numa abordagem mais filosófica e generalista, Albert Camus também aborda certas tendências dúvidosas, qualificadas de "criminais", entre aqueles que buscam as profundezas. Esse filósofo francês expressa alguma preocupação face às motivações que conduzem “o pessoal” para esses antros escuros designados frequentemente por “grutas” ou cavernas”, mas cujo arcaísmo “espeluncas” não seria despropositado, ainda para mais quando o cenário parece ajustar-se melhor a filmes de terror do que de karaté! «J’avais même voué une haine spéciale aux spéléologues qui avaient le front d’occuper la première page des journaux et dont les performances m’écoeuraient. S’efforcer de parvenir à la cote moins 800, au risque de se trouver la tête coincée dans un goulet rocheux (un siphon comme disent ces inconscients) me paraissait l’exploit de caractères pervertis et traumatisés. Il y avait du crime là-dessous…»


*Apesar de existirem ninjas de várias nacionalidades, de inúmeras localidades e de diversas classes sociais, na verdade, como O Ninja das Caldas não há mais nenhum...


FILME DE CULTO: O Ninja das Caldas é um marco do cinema nacional, trata-se do primeiro filme ninja português… “Ele só queria ser feliz… Mas não o deixaram…” Foi com base nestas duas ideias-chave ou linhas de força que o realizador Hugo Guerra desenvolveu toda a intensa e dramática tragédia que perpassa nessa ímpar obra cinematográfica.
As estrelas internacionais Octávio Lourenço, Ricardo Guerreiro, Sónia Matos e José Serpa são os protagonistas deste filme. Uma história épica de guerreiros e lendas, de romance e destino… A história de um amor perdido pela raiva e vingança: a luta de Evil Dragon e Toni Canelas pelo poder do Búzio Dourado. Com impressionantes e maravilhosas coreografias de combate, O Ninja das Caldas é uma aventura recheada de acção como nunca se viu antes. Deste filme destacam-se frases tão profundas como: “Agora vais sentir a supremacia da dor!” ou “Digam-me os vossos nomes e eu mato-vos por ordem alfabética”. Nem mais!



Livro sobre Gruta do Carvão

Os Amigos dos Açores - Associação Ecológica editaram um novo livro sobre a Gruta do Carvão. A obra, intitulada “Gruta do Carvão – Património Geológico da ilha de S. Miguel”, reúne diversa informação que se encontrava dispersa: a “história desta cavidade, a sua geodiversidade e biodiversidade, bem como aspectos relacionados sobre a sua valorização sócio-económica”. Esta publicação comporta ainda um capítulo que assinala os 20 anos de actividade espeleológica dos Amigos dos Açores.
Gruta do Carvão – Património Geológico da ilha de S. Miguel encontra-se à venda na sede desta associação ecológica açoriana e, também, no centro de apoio a visitantes da Gruta do Carvão-Paim, onde pode ser adquirida pelos visitantes desta cavidade a um preço promocional. Os sócios com as quotas em dia têm acesso gratuito a um exemplar desta publicação.
[Fonte: site dos Amigos dos Açores]

Boletines Cántabros

A Federación Cántabra de Espeleología (FCE) digitalizou diversos números dos antigos Boletines Cántabros de Espeleología (do 1 ao 11, inclusive). Os boletins, agora digitalizados e disponíveis para impressão, irão sendo colocados, em formato "pdf", na rúbrica Publicaciones do site da federação cantábrica
As inúmeras solicitações para que se reeditassem esses antigos números dos Boletines Cántabros de Espeleología levou à adopção da solução agora adoptada. Nestes velhos e interessantes números encontram-se muitos dados sobre a história da exploração de grutas nesta autonomia espanhola, uma das mais famosas e interessantes áreas cársicas da Península Ibérica.

Expo-Espeleo-Foto

Espeleologia
Fotografias do Mundo Subterrâneo

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 195, 21 de Agosto de 1998]

A vila de Sesimbra tem mais uma vez o património espeleológico em exposição. “Maravilhas Subterrâneas da Costa Azul” é uma mostra fotográfica de Francisco Rasteiro, organizada pelo Núcleo de Espeleologia da Costa Azul. A inauguração da exposição, patente no Clube Sesimbrense, foi acompanhada pelo lançamento de um livro sobre as grutas da região.

Gruta do Zambujal © Francisco Rasteiro (1997)

O lançamento do livro e a inauguração da exposição “Maravilhas Subterrâneas da Costa Azul” decorreu na passada segunda-feira (dia 17 de Agosto), pelas 21 horas, no Clube Sesimbrense (Grémio). Trata-se de uma iniciativa do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), com o apoio do Instituto Português da Juventude (IPJ), da Câmara Nunicipal de Sesimbra (CMS), de Carlos Sargedas (fotógrafo) e de José João Lda.. A mostra fotográfica, da autoria de Francisco Rasteiro, revela mais uma vez as riquezas escondidas no subsolo sesimbrense. A beleza de um meio que, estando oculto, é geralmente ignorado e maltratado. Desta feita, não poderá ficar alheio aos múltiplos brilhos dos cristais de calcite ou às variadíssimas nuances do mundo subterrâneo. A exposição estará patente no Clube Sesimbrense até 31 de Agosto, das 15 às 23 horas.

Imagens de luz e escuridão
Francisco Rasteiro nasceu em 1971 e iniciou-se nas artes da espeleologia em 1994, através da Associação dos Espeleólogos de Sintra (AES), da qual é sócio. Foi membro do Núcleo de Espeleologia do Museu Nacional de História Natural e é sócio-fundador do NECA. Esse espeleólogo-fotógrafo frequentou o curso de fotografia a preto e branco no Arco (de 1989 a 1990), ganhou diversos prémios fotográficos e participou em diversas exposições. O concurso de fotografia “Sesimbra e o Mar”, organizado pela Câmara Municipal de Sesimbra em 1989, rendeu-lhe o primeiro, segundo e terceiro prémio para fotografia a cores. Em 1990, ficou em primeiro lugar na modalidade de fotografia a preto/branco, no concurso “A Solidão”, organizado pelo DN Jovem. Participou também na exposição colectiva realizada na galeria Arte & Mar (Sesimbra) em 1995. Organizou ainda diversas exposições singulares, destacando-se, em 1996, as exposições: “Formas cristalinas”, realizada na Rebeca-Relíquias, Bebidas e Conserva Amena Lda.; “Nas entranhas do Cabo Espichel”, apresentada no Black Coffe, e “Espeleologia”, realizada no Bar Caravela. Colaborador de diversos jornais e revistas, entre as quais a Forum Ambiente, o seu trabalho tem versado sobretudo a natureza, em geral, e o meio subterrâneo, em particular.
A luta pela preservação da Gruta do Zambujal e da serra e falésia do Risco são amplamente conhecidas. A defesa das grutas e algares da Arrábida são, de facto, o cavalo de batalha do espeleólogo Francisco Rasteiro. As diversas iniciativas de divulgação da espeleologia e da conservação do meio subterrâneo em que participou assim o testemunham.
Com a presente exposição de fotografia - “Maravilhas Subterrâneas da Costa Azul ”- Francisco Rasteiro pretende “sensibilizar o público em geral para a preservação e valorização dos ambientes cársicos, através de fotografias que ilustram alguns recantos subterrâneos, com formações litológicas de rara beleza”.

02/10/2008

Documentários Vivos

Espeleologia
Olhar o carso,
com olhos de ver

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 216, 29 de Janeiro de 1999]

A apresentação dos “Documentários Vivos” decorreu, nos dias 16 e 17 de Janeiro, no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. São programas temáticos que conjugam actividades de ar livre e de interpretação da natureza. Um convite para conhecer o carso, por dentro e por fora, para melhor o preservar.

PNSAC © Tiago Petinga (1995)

Os “Documentários Vivos” foram apresentados à imprensa no fim-de-semana de 16 e 17 e Janeiro, nas espectaculares paisagens cársicas do Maciço Calcário Estremenho. Olímpio Martins e Maria João Martins guiaram os participantes na iniciativa. Os programas temáticos, que pretendem conciliar o lazer e a aventura com a interpretação do meio, levaram os jornalistas a efectuar a descida integral do Algar do Pena. Para alguns, foram os primeiros passos nas técnicas de progressão usadas na espeleologia (que incluíram travessias em corrimão e rapel), bem como nos segredos do fascinante “mundo subterrâneo”.
O carso, como não podia deixar de ser, surge como principal pólo integrador dos programas em curso. Para conhecer o carso, “Documentários Vivos” revela o modelado superficial, desvenda a escorrência das águas e relembra velhas artes e tradições. As visitas ao sistema fluviocársico dos Amiais/Olhos de Água do Alviela e a troços da Rota dos Candeeiros, Rota das Escarpas e Rota do Planalto também preencheram a agenda do fim-de-semana. Dois dias em que a gastronomia regional típica das serras d’Aire e Candeeiros surgiu como mais uma das surpresas.
“Documentários Vivos” é uma iniciativa do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) e da Região de Turismo de Leiria, organizada pela Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros (ADSAC) e pelo Automóvel Clube de Portugal de Porto de Mós (ACPM).

Visitas, passeios e interpretação
Os “Documentários Vivos” são programas temáticos de interpretação do património natural do PNSAC e, por extensão, do Maciço Calcário Estremenho, a maior área de terrenos carbonatados (calcários e dolomias, entre outros) do país e aquela onde o modelado cársico se expressa na sua maior perfeição. As águas infiltram-se através de sistemas de escoamento subterrâneo e surgem em caudalosas nascentes (Alviela, Almonda, etc.), esculpindo formas típicas como canyons, dolinas, uvalas e polges, campos de lapiás ou grutas, entre outras. Não admira que os dois programas temáticos recentemente iniciados - “Viagens ao Centro da Terra” e “Quarenta e oito horas em tons de ocre, cinzento e verde” - estejam centrados em torno do carso.
O programa “Viagens ao Centro da Terra” envolve a visita a três grutas: uma situada na serra dos Candeeiros, outra junto da serra de Aire e ainda outra no planalto de Ato. António. Em cada uma das cavidades é abordada uma temática específica, havendo porém um denominador comum: o património espeleológico e os recursos hidrícos, a sua interpretação e integração no contexto regional. De início, somente uma das cavidades, o Algar do Pena (em que é realizada a descida integral), será alvo dessa abordagem, mas futuramente a educação ambiental ir-se-á estender às restantes.
O Algar do Pena situa-se no Vale do Mar, depressão aberta no centro sul do planalto de Sto. António (ver jornal Forum Ambiente nº 120, de 14 de Março de 1997). Descoberto em 1985, esse algar possui a maior sala conhecida no país (com um volume estimado de 105 mil metros cúbicos) e, alvo de uma intervenção cuidada, constitui hoje um centro de interpretação pioneiro. O Centro de Interpretação Subterrâneo do “Algar do Pena” é um projecto-piloto, integrado nas Rotas Europeias do Carso, que pretende sensibilizar a população em geral para a preservação do mundo subterrâneo dando-lhe, nas palavras de Olímpio Martins, a possibilidade de “conhecer a história do carso profundo”.
O programa “Viagens ao Centro da Terra” aborda igualmente diversos aspectos do carso superficial, sua relação com o carso profundo e o ciclo da água. As visitas estendem-se ao bordo norte do planalto de Sto. António (Rota das Escarpas) para apreciar “aspectos dos grandes acidentes tectónicos da região” e ao sistema fluviocársico dos Amiais/Olhos de Água do Alviela.
A gastronomia, um passeio de burro pelo Vale da Canada e pelo campo de lapiás do Ladoeiro, bem como a abordagem de diversos aspectos da flora da região, completam o pacote de três dias. O programa destina-se a maiores de 12 anos sem problemas de saúde, nomeadamente porque envolve manobras de corda durante a progressão subterrânea.
“Quarenta e oito horas em tons de ocre, cinzento e verde” percorre a três sub-unidades geomorfológicas em que classicamente se divide o Maciço Calcário Estremenho: o Planalto de S. Mamede/Serra de Aire, o Planalto de Sto. António e a Serra de Candeeiros. O nome resultou dos tons de ocre dados pelas argilas, do cinzento dos afloramentos carbonatados e do verde do coberto vegetal rico em espécies aromáticas. O programa dá a aconhecer alguns dos mais significativos testemunhos da história geológica da região onde o PNSAC se insere, recuando aos tempos jurássicos de há 200 milhões de anos atrás. Inclui passeios na serra dos Candeeiros (Rota dos Candeeiros) e no bordo norte do planalto de Sto. António (Rota das Escarpas), travessia da região central do planalto de Sto. António (Rota do Planalto) e visitas ao Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire, sistema fluviocársico dos Amiais/nascente dos Olhos de Água do Alviela, Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta “Algar do Pena” e Marinhas de Sal de Rio Maior.
Os interessados não necessitam de possuir equipamento ou conhecimentos técnicos para participarem. O enquadramento técnico está a cargo do Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta “Algar do Pena” e do Automóvel Clube de Porto de Mós. Os programas estão pensados para grupos pequenos (de 6 a 12 pessoas), sendo a razão participantes/enquadradores de 6 para 2. O equipamento, incluindo viaturas, é disponibilizado pela organização, assim como a alimentação e o alojamento. Para participar, basta contactar a Central de Coordenação de Visitas ao PNSAC, com o mínimo de 15 dias de antecedência.


Actividades de Ar Livre & Preservação da Natureza

Os “Documentários Vivos” assumem uma postura marcadamente conservacionista, subscrevendo inteiramente as orientações do PNSAC (in Naturalmente, 1992):
● Prefira itinerários documentados;
● Respeite os usos, costumes e tradições da área que visita;
● As plantas, olhe-as e respire-as… mas não as colha;
● Os animais… nada como deixá-los em paz;
● A pedra não é apenas um corpo inerte;
● Aproveite da melhor forma a sinalização;
● Cuidado com o fogo!;
● Pratique desporto nos locais aconselhados e com as necessários precauções;
● Evite ruídos desnecessários;
● Deite o lixo nos locais apropriados;
● Acampe sim… mas nos locais indicados;
● Os campos têm dono.