11/09/2008

Ensino-Aprendizagem

Espeleologia
Ensino nas grutas

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 187, 26 de Junho de 1998]

© Nuno Antunes (1998)

A Associação dos Espeleólogos de Sintra e a Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia promoveram uma acção de divulgação do “mundo subterrâneo”. O evento, que decorreu nos centros de interpretação do Cabeço de Pias e de Algar do Peno, foi dirigido a um grupo de crianças e aos seus pais, “para que não se repitam os erros do passado”.

A Associação dos Espeleólogos de Sintra (AES) e a Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia (STEA) organizaram, num fim-de-semana de Maio passado, uma acção vocacionada para o ensino da espeleologia e conservação do património cársico. Esta actividade, que teve lugar no Centro de Interpretação Subterrâneo do Algar do Peno, no Maciço Calcário Estremenho, envolveu 26 crianças (com idades compreendidas entre os 11 e os 14 anos), dez pais, oito espeleólogos, dois psicólogos e uma animadora de campo e técnica ambiental.
Gabriel Mendes, espeleólogo da AES, referiu que a actividade foi essencialmente de carácter exploratório, tendo em vista “a avaliação da espeleologia como facilitador da aprendizagem e do desenvolvimento do comportamento individual e social da criança”. Nesse sentido, foram realizados jogos comportamentais e foram recolhidas, através do preenchimento de inquéritos, as expectativas anteriores à actividade e as percepções pós-actividade. As componentes interpretativa e de educação ambiental também fizeram parte do programa de actividades. As crianças contactaram, desse modo, com o “mundo subterrâneo” nas suas diversas facetas: a formação das grutas, as colónias de morcegos e os ecossistemas cavernícolas, as paisagens cársicas e a importância do meio como reservatório de águas doces, etc..
Na execução desta iniciativa foi seguida uma metodologia pedagógica, ainda em desenvolvimento, criada para a possibilitar a instalação e a prática de actividades de desporto-aventura, nomeadamente no que concerne à espeleologia.

Um novo ensino da espeleologia
Consciente da falta de legislação que enquadre a espeleologia e da carência de meios do movimento associativo, a AES está a desenvolver uma metodologia pedagógica assente em cinco objectivos: comportamentais, motores, técnicos, ambientais e científicos. O modelo aplicado à espeleologia foi traduzido numa “Tabela de Intensidades e Incidências” dos diferentes objectivos, relativamente à sua aplicação em cada fase da vida: infância (8-10 anos), pré-adolescência (11-12anos), adolescência I (13-14 anos), adolescência II (15-16 anos) e idade adulta (mais de 16 anos).
A coordenação do projecto está a cargo de Gabriel Mendes (espeleólogo da AES), contando igualmente com o apoio de dois psicólogos, João Antunes (da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias) e José Luís Nascimento (do Instituto Superior de Línguas e Administração). Dessa cooperação resultou “uma nova metodologia pedagógica onde é dada importância acrescida às componentes comportamentais”. O projecto está em fase avançada (sobretudo na faixa etária 11-12 anos) e já existem experiências piloto no terreno. A AES e o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) estão a executar uma experiência piloto, com a aplicação desta nova metodologia pedagógica a três níveis: um curso de monitores, um curso de coordenadores de actividades espeleológicas e um curso de iniciação à espeleologia. Os resultados dos estudos, ainda em desenvolvimento, serão apresentados no V Encontro Nacional de Espeleologia, que irá decorrer, em Sintra, no próximo mês de Outubro.
As expectativas criadas durante a actividade desenvolvida nos centros de interpretação do Cabeço de Pias e de Algar do Peno serão satisfeitas pela integração de um programa de formação a médio prazo, com a aplicação de metodologia dimensionada para os diferentes níveis etários. Esperam-se iniciativas semelhantes, tendentes a aperfeiçoar o ensino e a divulgação da espeleologia e do carso. Ao ensinar as crianças estar-se-á a assegurar um melhor futuro para a conservação do património subterrâneo. “Para não repetir os erros do passado.”.

10/09/2008

Espeleo-edições (II)

O SubTERRA – Grupo de Espeleologia, depois de enfrentar diversas dificuldades para editar o trabalho efectuado no Planalto de Sto. António, conseguiu obter os apoios necessários para a prossecução dos seus objectivos. A obra Lapas e Algares da Serra de Santo António – Planalto de Santo António/Maciço Calcário Estremenho (Portugal), da autoria de Fernando Canais e João Fernandes, foi editada em 1999.
O levantamento espeleológico das cavidades naturais da freguesia da Serra de Sto. António foi iniciado pelo SubTERRA (na altura CAIE – Centro de Actividades e Investigação Espeleológica), em Janeiro de 1995 e os trabalhos de campo foram concluídos em Abril de 1998. Ao longo destes três anos e quatro meses, o SubTERRA procedeu à prospecção e localização de cavidades na carta, tendo-se seguido a exploração e topografia das cavidades, tal como o registo fotográfico e anotações diversas sobre as cavidades existentes. Após uma breve introdução, o livro apresenta um enquadramento geográfico da área em estudo, bem como um curto enquadramento geológico. Segue-se o inventário de cavidades agrupadas por sub-áreas: Milheiriças, Crutos, Vale da Azinheira, Bajanca, Chousas e Vale do Pombo. Segundo os intervenientes no projecto: “O número elevado de cavidades encontradas obriga a prever a existência de mais, e por isso este trabalho nunca será completo.” Mas os espeleólogos envolvidos na elaboração do livro acreditam que o número de cavidades existentes e não mencionadas será reduzido.
A freguesia da Serra de Santo António é bastante conhecida no meio espeleológico português, tendo a maioria das cavidades sido já visitadas e exploradas. No entanto, este grupo de espeleologia pretendeu fazer um levantamento exaustivo das cavidades conhecidas, de forma a colmatar a escassez de informações sobre esta área do Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros (PNSAC), apesar de existirem publicações referenciando algumas cavidades e o conjunto do Maciço Calcário Estremenho.
Lapas e Algares da Serra de Santo António foi editado com o apoio do Instituto Português da Juventude (IPJ), Governo Civil do Distrito de Santarém, Instituto de Promoção Ambiental (IPAMB), Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), Câmara Municipal de Torres Novas, Junta de Freguesia da Serra de Santo António e Câmara Municipal de Alcanena.

Espeleo-edições (I)

Espeleologia
Editar um livro

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 194,14 de Agosto de 1998]

Planalto de Sto. António © SubTERRA (1997)

A associação espeleológica SubTERRA realizou um inventário das grutas e algares da freguesia da Serra de Sto. António. Agora pretende ver o trabalho publicado, mas as dificuldades são muitas. O eterno problema da falta de meios de que os espeleólogos se queixam.

O Grupo de Espeleologia SubTERRA, sediado em Torres Novas, desde a sua fundação (em 1993) que vem desenvolvendo um trabalho contínuo de inventariação das cavidades da freguesia de Serra de Sto. António. A Forum Ambiente esteve com o grupo SubTERRA, no lugar de Vale do Pombo (Planalto de Sto. António), para visitar o Algar da Marradinha do Daniel (também denominado “Algar do Mata Cães”) e conhecer essa associação espeleológica. Associação que pretende editar uma compilação dos trabalhos realizados, mas que se depara com diversas dificuldades.

Grutas e Algares de Sto. António
Algar do Alto dos Crutos, Algar do Alto dos Crutos II, Gruta da Arroteia Nova, Algar da Arroteia Nova, Cova do Penedo Padrão, Lapa da Marradinha, Algar das Covas Giesteiras, Algar dos Penedos da Queimada, são algumas das muitas grutas e algares da freguesia de Serra de Sto. António. Actualmente, o grupo SubTERRA conta com cerca de 80 cavidades devidamente inventariadas e topografadas. “a cota mais profunda, menos 85 metros, encontra-se nas galerias maiores da Gruta das Marradinhas, também conhecida por Marradinhas 2”, esclarece Fernando Canais, da SubTERRA. “O Algar do Leitão é a maior vertical directa, com 27 metros, e o Algar da Chapa, o mais profundo, com 69 metros divididos por troços”, salienta João Paulo Fernandes, da mesma associação.
Os trabalhos de campo resultaram num volumoso conjunto de dados e topografias. Material que, após compilação efectuada por Fernando Canais, João Paulo Fernandes e Maria Moleiro, permitiu a feitura de trabalho que a SubTERRA pretende ver agora publicado. A compilação, em que também participaram Carlos Ribeiro e Pedro Mesquita, está, no entanto, com dificuldades para ver a luz do dia. O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) não apoiou a edição da obra e os espeleólogos aguardam melhores notícias de outros possíveis “patrocinadores”.

Livros sobre cavernas?
Em Portugal, a bibliografia “espeleológica” apesar de ser numerosa é bastante específica. Os trabalhos, alguns remontando ao século passado [séc. XIX], dedicam-se sobretudo a aspectos ligados à arqueologia e à biologia. “Antiguidades Monumentaes do Algarve” (1886), de Estácio da Veiga, “Reconhecimento Scientifico dos Jazigos de Marmore e de Alabastro de Santo Adrião e das grutas comprehendidas nos mesmos jazigos” (1887), de Nery Delgado, “A importância das grutas em Pré-História” (1963), de G. Zbyszewski ou “Voyage au Portugal du Dr. K. Lindberg (Resultats Zoologiques)” (1962), onde se encontra o trabalho de Lindberg “Notes sur quelques grottes et aperçu de leurs faune”, são somente alguns exemplos.
Pelo contrário, os trabalhos que focam o carso, propriamente dito, ou as grutas, como objecto de estudo em si, são bastante mais raros. O primeiro texto dedicado às grutas nacionais, “Portugal Subterrâneo – Ensaio de Espeleologia Portuguesa” (1925), deve-se a Ernest Fleury. Esse autor já tinha, aliás, publicado outros trabalhos, de que se destacam: “Sur la morphologie du Massif de Porto-de-Moz” (1916), “Sur l’Hidrologie Souterraine de l’Alviela” (1916) e “Les lapiés des calcaires au nord du tage” (1918).
O “Inventário das cavernas calcárias de Portugal” (1948), de António de Barros Machado e Bernardino de Barros Machado, ainda é uma obra de referência, pois indica 343 cavidades. A Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) publicou, em 1974, o “Inventário das Grutas de Portugal: I – Concelho de Vila Nova de Ourém”, onde se referem 53 cavidades. “Cavernas com interesse cultural encontradas em Portugal” (1982), de Octávio da Veiga Ferreira, apresenta cerca de 90 cavidades. “Grottes et Algares du Portugal” (1985), de C. Thomas, aborda as cavidades do Maciço Calcário Estremenho. Os exemplos não são muito mais.
As revistas e pequenas publicações de clubes começaram a surgir tímida e tardiamente fornecendo igualmente informações acerca de diversas cavidades. “Algarocho” (1976) e “Algar” (1987), da SPE; “A Gruta”, do Clube de Espeleologia de Coimbra (1977); “Espeleo Divulgação” do Núcleo de Espeleologia da Associação dos Estudantes da Universidade de Aveiro (1982); “Morcego” do Núcleo de Espeleologia do Centro de Estudos e Protecção do Património de Tomar (1983); “Almondinha” da Sociedade Torrejana de Espeleologia (1987); “Trogle” da Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente de Torres Vedras (1995), etc..
Os arquipélagos dos Açores e Madeira não ficaram esquecidos. “Notas sobre a “Furna de Henrique Maciel (Pico, Açores)” (1963), de V. H. Forjaz, ou “Contribuição para o estudo espeleológico da Ilha do Pico (Açores)” (1972), de Luís M. Arruda são apenas dois exemplos. Sem esquecer “Caves and Pits from the Azores with some Coments on their Geological Origin, Distribution and Fauna” (1992), de P. A. V. Borges, A. Silva e F. Pereira, apresentado no 6º Simpósio Internacional de Vulcanoespeleologia (Havai, Agosto de 1991) ou “Caves ans Pits from the Azores. II – An Annotated Checklist” (1993), dos mesmos autores.
E. A. Martel, considerado o pai da espeleologia escreveu no seu livro “Les Abîmes” (1894): “Les sous sol de l?Espagne et du Portugal a été moins explore même que celui de l’Italie”. Actualmente existe bem mais informação acerca dos carsos e cavernas de Portugal. Mas, há ainda muito por fazer, nomeadamente no que se refere à edição de trabalhos realizados. Refira-se, a titulo de curiosidade, que A. e B. de Barros Machado no seu inventário (1948) indicam somente a existência de uma cavidade (Algar da Cheira) na freguesia de Serra de Sto. António. A SubTERRA já inventariou 78 grutas e algares, mas não encontra os meios necessários para editar a compilação realizada. A eterna falta de meios de que se queixam os espeleólogos e que resulta frequentemente na perda de informações, quantas vezes, irrecuperáveis.

Crime violento

Penínsulas Lisboa/Setúbal ©

Não, não é só no Algarve (no Allarve, quereria eu dizer!) que se encontram gritantes situações de desordenamento do território. Infortunadamente a ocupação desregrada do território, o caos urbanístico e a degradação da paisagem e do ambiente ocorrem mais ou menos de norte a sul do país, incluindo regiões autónomas (como não poderia deixar de ser!).
O orden(h)amento do território na Península de Lisboa, onde também ocorrem fenómenos cársicos tal como no Algarve (entre outras "coincidências"), toma proporções especialmente gravosas se tivermos em conta que aí se aglomera cerca de um terço da população portuguesa. O fenómeno tem repercussões a nível paisagístico e ambiental, mas não devemos ignorar os gravíssimos problemas sociais que daí advêm e, sobretudo, “o modelo de sociedade em que vivemos” de que resultam muitos dos problemas aqui focados.
Francisco Moita Flores escreveu, na última edição da Notícias Magazine (suplemento do Diário de Notícias nº 50926, de 7 de Setembro) um artigo de opinião sobre “Crime violento”. Nessa peça, Moita Flores expressa de forma bem clara que as implicações do desordenamento do território vão bem mais além do que as simples questões ambientais…
(…) Julgo, porém, que no território das causas existe outra ordem de reflexão, a política, que determinou o modelo de sociedade em que vivemos. Cheia de desequilíbrios demo-urbanísticos (em torno de Lisboa vivem três milhões de almas que participam em 52 por cento dos crimes que existem no país), ausente de políticas de ordenamento do território, satisfeita com remendos ou foguetes no que respeita às políticas sociais, indiferente às alterações dos territórios do prazer, do risco, dos negócios clandestinos. Sem uma política nacional concertada de combate, a longo prazo, às assimetrias, à exclusão, ao desemprego, à solidão e sem uma visão estratégica da sociedade de anciãos que estamos a construir. A conflitualidade, as manifestações da agressividade, a evidência continuada da violência criminal, são matérias exclusivamente do foro político, e só muito depois das incompetências ou competência policiais.

A agonia dos peixes...

Alviela ©

A Comissão de Ambiente e Defesa da Ribeira dos Milagres denunciou, no passado sábado (dia 6 de Setembro), a ocorrência de uma descarga “impressionante” de efluentes suinícolas naquele curso de água, afluente do rio Lis. O porta-voz da comissão, Rui Crespo, considerou que se tratou de “uma descarga considerável” e classificou a situação como “grave”. Para além de referir que a situação comporta uma gravidade acrescida por ocorrer na época balnear, Rui Crespo referiu ainda que “de certeza absoluta, a influência desta descarga tem de se notar na Praia da Vieira”. O dirigente daquele organismo apercebeu-se da descarga na sexta-feira à noite (dia 5 de Setembro), tendo alertado a GNR do sucedido. "Liguei e disseram-me para telefonar a partir das 9:15 porque não estava lá ninguém do serviço ambiental", afirmou Rui Crespo, considerando "não ser esta a resposta que as autoridades devem dar perante mais um atentado ambiental". Quem efectuou as descargas ter-se-á aproveitado “da chuva, da noite, do fim-de-semana”, combinação “useira e vezeira para a ocorrência de descargas”.
Por seu lado, o presidente da Junta de Freguesia de Vaqueiros denunciou mais “uma mortandade de peixes no rio Alviela”. Firmino Oliveira disse à agência Lusa que, ao princípio da tarde de segunda-feira (8 de Setembro), centenas de peixes “enormes” começaram a aparecer dando sinais de falta de oxigénio. Segundo disse, tudo indica que houve mais uma descarga, que atribuiu à estação de tratamento de águas residuais de Alcanena, uma vez que “não há pecuárias a montante da freguesia e o forte cheiro que se sente é a crómio”.
Firmino Oliveira disse que os moradores da zona do mouzeiro começaram a sentir “um forte cheiro” de manhã, tendo começado a aparecer, ao princípio da tarde, peixes em agonia. “É um inferno assistir a este agonizar dos peixes”, afirmou.

Alviela © Dias dos Reis (2007)

05/09/2008

Porque é inútil...


O famoso espeleólogo francês Norbert Casteret refere, na obra Dez anos debaixo da Terra (Editora Martins Tavares, 1945) [Dix ans sous terre (Librairie Académique Perrin, 1933)], acerca do final de uma sua exploração subterrânea, o seguinte:

(…) escrevi com a minha faca, sobre a argila mole do chão, as palavras que Rostand pôz na boca de Cyrano:

…Et c’est bien plus beau lorsque c’est inutile.
”*

Não será por acaso que o também famoso alpinista francês Lionel Terray, anos mais tarde, publicou a obra Os Conquistadores do Inútil (Verbo, 1974) [Les Conquérants de l'Inutile (Gallimard, 1963)].


*O escritor francês Edmond Rostand criou a comédia dramática Cyrano de Bergerac em 1897.

Até ao fundo... (VIII)

Grotta Pellerina (Itália) © (2007)

No tocante a um comentário de um instrutor num curso de manobras de corda sobre não ser permitido fumar quando se trabalha com cordas (o que se estenderá a cordeletas e fitas) por estas serem altamente susceptíveis ao fogo, ocorreu-me questionar se este tipo de raciocínio não se enquadrará mais num posicionamento simplesmente antitabagista do que numa real problemática de acidentes com cordas. Claro que esta linha de raciocínio provém da área dos desportos de montanha, mais precisamente do montanhismo e disciplinas afins, mas o que dizer quando estamos no âmbito da espeleologia? Qual a susceptibilidade real de cordas semi-estáticas do tipo A ao fogo? Pode a chama de um gasómetro causar um acidente devido à “destruição” de uma corda? Já ocorreu algum acidente? E mesmo que nunca se tenha registado nenhum acidente do género: tal devia ser tido em consideração em algares ou poços mais ou menos estreitos?
Grotta Galermi (Itália) © (2007)

Até ao fundo... (VII)

A propósito dos posts Até ao fundo, de I a VI, sobre quedas em algares e, sobretudo, o Até ao Fundo III, de 14 de Julho, sobre Como desgraçar a vida em 7.2 s ou haveria tempo para largar a corda?, não podemos deixar de referir, nessa matéria, um pequeno trecho do livro Para uma Crítica Libertária do Direito (Edições Sotavento, 2008), do nosso conterrâneo Júlio Carrapato. Apesar de a obra não tratar, de todo, de assuntos que tenham a ver com espeleologia, a abordagem que é feita sobre as leis da física é tão pertinente quanto deliciosa. De facto, não devemos ignorar as leis da física, tal como também ficou demonstrado, nos posts referidos, que não convém desconhecer as subtilezas da neurobiologia, nomeadamente no que concerne à inteligência emocional, ao condicionamento clássico ou à memória dos actos motores. Aqui fica:

(…) não se pode viver na ignorância das leis da física (da lei da gravidade, por exemplo, quando se caminha à beira de um precipício, ou da lei do movimento uniformemente acelerado, quando já se vem em queda livre!) (…)


© Cartoonistgroup

04/09/2008

Livro sobre Montejunto

A Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) acaba de editar o livro Património Geológico da Serra de Montejunto, da autoria de José António Crispim. O autor, geólogo e espeleólogo, professor do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), dispensa apresentações no meio espeleológico português.
Esta obra foi editada com o apoio da Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros (ADSAICA) e do Centro de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CeGUL).
Património Geológico da Serra de Montejunto pode ser adquirido directamente na sede da SPE ou encomendado através do endereço spe@spe.pt.

Paperless Cave Surveying


Um novo e interessante projecto de topografia espeleológica denominado “Paperless Cave Surveying” foi apresentado, no IV Congresso Europeu de Espeleologia Vercors 2008, pelo espeleólogo suíço Beat Heeb, da Swiss Speleological Society.
Este sistema de topografia integral, consta de dois aparelhos: um combinado de distanciómetro/bússola/clinómetro e um programa para PDA que permite gerir os dados medidos e desenhar directamente no ecrã. Os dois aparelhos estão ligados, sem fios, por bluetooth. Em poucos segundos os dados obtidos pelo “medidor” são visualizados no ecrã da PDA. Os resultados podem ser transferidos para um PC, de modo a serem usados por outros programas de topografia ou editores gráficos. O Espeleobloc reproduz, na íntegra, o paper apresentado no IV Congresso Europeu de Espeleologia.


Fonte : Espeleobloc

[A propósito deste post, o nosso amigo Javier Aradas Marinas enviou-nos, por e-mail, uma ligação sobre o Pocket Topo. O nosso muito obrigado e um abraço. ]

Concurso Internacional

O Grupo Espeleológico Ribereño está a organizar o XXXI Concurso Internacional de Fotografia Espeleológica.
Para mais informações, consulte: http://www.tic.udc.es/~nino/blog/2008/ger-fotografia-2008.pdf.

Solitário (II)

Parque Natural da Arrábida
Espeleólogos indignados

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 177, 17 de Abril de 1998]

Mata do Solitário © Joana Santos

Um guarda da natureza do Parque Natural da Arrábida multou o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul, quando realizava uma actividade de prospecção e fotografia, situação que foi qualificada pela autoridade em causa como uma actividade de “lazer” numa zona interdita ao público. Os espeleólogos estão indignados e já contestaram os autos. A actividade levantou antigas polémicas que parecem não ter fim, numa região onde espeleologia e conservação deviam andar de mãos dadas.

Durante trabalhos de prospecção e fotografia, três elementos do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) foram multados por um guarda da natureza do Parque Natural da Arrábida (PNA). Foi no dia 11 de Fevereiro passado, mais precisamente às 17 horas. A infracção consistiu na “circulação e actividade de lazer dentro da Mata do Solitário”, reserva integral onde o acesso ao público é proibido. Não se fazendo acompanhar da respectiva autorização, os elementos do NECA estavam em infracção perante o art. 5º (alínea A) do Decreto-Lei nº 622/76, de 28 de Julho, conjugado com o artº 8º da Portaria nº 26-F/80, de 9 de Janeiro. À partida, a aplicação da multa não levantaria dúvidas, mas parece não ter acontecido assim. Os espeleólogos estão indignados, pois afirmam que estavam a fotografar plantas para o Museu Oceanográfico do PNA, quando foram multados pelo próprio Parque. O NECA contactou de imediato Ricardo Paiva, director do PNA, de modo a esclarecer o sucedido. Segundo Francisco Rasteiro, do NECA, Ricardo Paiva afirmou que a actuação do guarda teria sido exagerada, mas que devia ter sido pedida autorização, por escrito, para a realização dos trabalhos na Mata do Solitário, autorização que teria sido concedida “sem problemas”, segundo o director do PNA. No dia seguinte, foi pedida autorização, mas como resposta, “o NECA apenas recebeu três autos de notícia”, refere Francisco Rasteiro.

Estudo, trabalho, recreio ou lazer?
Em carta datada de 12 de Fevereiro, foi requerida autorização “para a entrada de alguns membros activos do NECA na Mata do Solitário, a fim de fazerem um reconhecimento e uma inventariação da Lapa do Solitário”, afirma a fonte do NECA. Foi pedida, igualmente, a autorização para a realização de actividades de prospecção de cavidades e registo da vegetação circundante da Serra do Risco e do monte Formosinho. Na mesma carta informava-se ainda que o número de elementos por equipa de trabalho não ultrapassaria os quatro, avançando os nomes das seis pessoas envolvidas.
O auto de notícia (nº 6), endereçado a Francisco Rasteiro, em carta registada de 23 de Março, foi recebido com surpresa e indignação, bem como os outros dois autos, enviados aos restantes espeleólogos que se encontravam na Mata do Solitário. Uma surpresa que as excelentes relações entre o NECA e o PNA não faziam esperar. O NECA sempre deu todo o apoio ao PNA: ajudou o PNA em relação à protecção da Gruta do Zambujal, no que concerne à intenção de a fechar, participou em reuniões, fez visitas com o director “à entrada da gruta”, disponibilizou-se para efectuar a topografia da cavidade e realizou uma campanha de limpeza da Arrábida em 1997, em colaboração com o PNA. “Temos participado activamente na defesa do património natural do PNA”, salientou Francisco Rasteiro à FORUM AMBIENTE.
O NECA considera “muito salutar a vigilância eficaz da área d PNA, nomeadamente nas suas áreas de reserva integral”, mas a consternação face à atitude do Parque é marcante. Aliás, foi endereçada ao director do PNA uma carta, datada de 31 de Março, contestando as multas aplicadas e pedindo que estas fossem reconsideradas. A contestação prende-se com o valor da multa e também com a “forma ambígua com que se desenrolou o processo”, esclarece a fonte do NECA, pois entre o valor de 1500 a 30 mil escudos, foi aplicada uma multa de 5 mil escudos a cada um dos espeleólogos, em vez de lhes ser aplicada a multa de valor mínimo. “Dá-nos a sensação de já sermos reincidentes, mas não sabemos bem em quê”, desabafou Francisco Rasteiro, acrescentando que devia ter havido “mais pedagogia na atitude do PNA (aviso registado e repreensão)”. Para os espeleólogos é ainda estranho que, estando quatro pessoas do NECA na Mata do Solitário, só três tenham sido autuadas. A indignação aumenta ainda mais porque os elementos do NECA estavam a efectuar fotografias sobre a vegetação da Arrábida, “encomendadas pelo Museu Oceanográfico do PNA” e o reconhecimento de uma cavidade, actividades que o PNA considerou tratar-se de “lazer”. Indignação também pelos inúmeros problemas que se encontram por resolver e pelos diversos atropelos à lei, quase sempre ignorados: pedreiras a menos de 500 metros de distância de sítios de grande interesse cultural, camiões invariavelmente sem cobertura, derrames de óleos para a rede subterrânea, lixo na Mata do Solitário,…

Pontos quentes
A Gruta do Zambujal passou, no ano transacto, para a alçada do PNA (ver jornal FORUM AMBIENTE nº 159, de 12 de Dezembro de 1997). Contudo, o Sítio Classificado da Gruta do Zambujal continua desprotegido. Segundo Francisco Rasteiro, foi dito pelo director do PNA que até ao final de Fevereiro deste ano o caso da Gruta do Zambujal estaria resolvido e que as pedreiras não avançariam para oeste. Mas não foi isso que aconteceu. As pedreiras estão em laboração e, até hoje, pouco ou nada foi feito para salvaguardar a Gruta do Zambujal.
O plano de ordenamento turístico da Arrábida estaria em consulta pública no início de 1998 (ver jornal FORUM AMBIENTE nº 158, de 5 de Dezembro de 1997), integrado na reclassificação do Parque. A primeira e a segunda fases do estudo de ordenamento já se encontram concluídas, mas os trabalhos pararam, aguardando os resultados do programa nacional de turismo de natureza. Na reclassificação do PNA, o Cabo Espichel iria fazer parte do Parque, mas a Gruta do Zambujal e o vale da ribeira do Cavalo, bem como as zonas sensíveis do ponto de vista da construção clandestina, estavam, à partida, excluídas.
O NECA manifestou-se contra a destruição da base oeste da Serra do Risco pelas pedreiras (ver jornal FORUM AMBIENTE nº 137, de 11 de Julho de 1997), enquanto que “a única coisa que o PNA fez foi proibir as pessoas de irem à Serra do Risco”, esclarece Francisco Rasteiro. A área assinalada como reserva geológica em antigos panfletos do Parque está interditada para que os visitantes não incomodem a fauna e a flora, ou talvez, para que não vejam o que a indústria extractiva anda a fazer. O NECA soube, através de um funcionário da pedreira, que irão “cavar” toda essa área em cerca de 60 metros de profundidade. Se as pessoas “estragam e incomodam”, o que fazem as pedreiras?
O plano de recuperação paisagística das pedreiras devia ter sido entregue até ao final de Novembro de 1997. Nesse mês limite, o director do PNA afirmou que o prazo se alargava até Dezembro. Questionado pelo NECA em Fevereiro de 1998, o director referiu que a recuperação estava a cargo da Secretaria de Estado dos Recursos Naturais. “Hoje ninguém sabe o que se passa. A única coisa que se vê são os buracos cada vez maiores. E a recuperação onde está?”, pergunta Francisco Rasteiro.
A FORUM AMBIENTE tentou saber a posição do director do PNA, Ricardo Paiva, mas este esteve incontactável até ao fecho da edição. Até hoje, ainda não houve resposta ao pedido de autorização de 12 de Fevereiro, bem como à contestação de 31 de Março. Com certeza, a polémica não irá ficar por aqui, pois são demasiados, os hot-spots que impedem a cooperação entre o NECA e o PNA.