05/09/2008

Até ao fundo... (VII)

A propósito dos posts Até ao fundo, de I a VI, sobre quedas em algares e, sobretudo, o Até ao Fundo III, de 14 de Julho, sobre Como desgraçar a vida em 7.2 s ou haveria tempo para largar a corda?, não podemos deixar de referir, nessa matéria, um pequeno trecho do livro Para uma Crítica Libertária do Direito (Edições Sotavento, 2008), do nosso conterrâneo Júlio Carrapato. Apesar de a obra não tratar, de todo, de assuntos que tenham a ver com espeleologia, a abordagem que é feita sobre as leis da física é tão pertinente quanto deliciosa. De facto, não devemos ignorar as leis da física, tal como também ficou demonstrado, nos posts referidos, que não convém desconhecer as subtilezas da neurobiologia, nomeadamente no que concerne à inteligência emocional, ao condicionamento clássico ou à memória dos actos motores. Aqui fica:

(…) não se pode viver na ignorância das leis da física (da lei da gravidade, por exemplo, quando se caminha à beira de um precipício, ou da lei do movimento uniformemente acelerado, quando já se vem em queda livre!) (…)


© Cartoonistgroup

04/09/2008

Livro sobre Montejunto

A Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) acaba de editar o livro Património Geológico da Serra de Montejunto, da autoria de José António Crispim. O autor, geólogo e espeleólogo, professor do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), dispensa apresentações no meio espeleológico português.
Esta obra foi editada com o apoio da Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros (ADSAICA) e do Centro de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CeGUL).
Património Geológico da Serra de Montejunto pode ser adquirido directamente na sede da SPE ou encomendado através do endereço spe@spe.pt.

Paperless Cave Surveying


Um novo e interessante projecto de topografia espeleológica denominado “Paperless Cave Surveying” foi apresentado, no IV Congresso Europeu de Espeleologia Vercors 2008, pelo espeleólogo suíço Beat Heeb, da Swiss Speleological Society.
Este sistema de topografia integral, consta de dois aparelhos: um combinado de distanciómetro/bússola/clinómetro e um programa para PDA que permite gerir os dados medidos e desenhar directamente no ecrã. Os dois aparelhos estão ligados, sem fios, por bluetooth. Em poucos segundos os dados obtidos pelo “medidor” são visualizados no ecrã da PDA. Os resultados podem ser transferidos para um PC, de modo a serem usados por outros programas de topografia ou editores gráficos. O Espeleobloc reproduz, na íntegra, o paper apresentado no IV Congresso Europeu de Espeleologia.


Fonte : Espeleobloc

[A propósito deste post, o nosso amigo Javier Aradas Marinas enviou-nos, por e-mail, uma ligação sobre o Pocket Topo. O nosso muito obrigado e um abraço. ]

Concurso Internacional

O Grupo Espeleológico Ribereño está a organizar o XXXI Concurso Internacional de Fotografia Espeleológica.
Para mais informações, consulte: http://www.tic.udc.es/~nino/blog/2008/ger-fotografia-2008.pdf.

Solitário (II)

Parque Natural da Arrábida
Espeleólogos indignados

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 177, 17 de Abril de 1998]

Mata do Solitário © Joana Santos

Um guarda da natureza do Parque Natural da Arrábida multou o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul, quando realizava uma actividade de prospecção e fotografia, situação que foi qualificada pela autoridade em causa como uma actividade de “lazer” numa zona interdita ao público. Os espeleólogos estão indignados e já contestaram os autos. A actividade levantou antigas polémicas que parecem não ter fim, numa região onde espeleologia e conservação deviam andar de mãos dadas.

Durante trabalhos de prospecção e fotografia, três elementos do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) foram multados por um guarda da natureza do Parque Natural da Arrábida (PNA). Foi no dia 11 de Fevereiro passado, mais precisamente às 17 horas. A infracção consistiu na “circulação e actividade de lazer dentro da Mata do Solitário”, reserva integral onde o acesso ao público é proibido. Não se fazendo acompanhar da respectiva autorização, os elementos do NECA estavam em infracção perante o art. 5º (alínea A) do Decreto-Lei nº 622/76, de 28 de Julho, conjugado com o artº 8º da Portaria nº 26-F/80, de 9 de Janeiro. À partida, a aplicação da multa não levantaria dúvidas, mas parece não ter acontecido assim. Os espeleólogos estão indignados, pois afirmam que estavam a fotografar plantas para o Museu Oceanográfico do PNA, quando foram multados pelo próprio Parque. O NECA contactou de imediato Ricardo Paiva, director do PNA, de modo a esclarecer o sucedido. Segundo Francisco Rasteiro, do NECA, Ricardo Paiva afirmou que a actuação do guarda teria sido exagerada, mas que devia ter sido pedida autorização, por escrito, para a realização dos trabalhos na Mata do Solitário, autorização que teria sido concedida “sem problemas”, segundo o director do PNA. No dia seguinte, foi pedida autorização, mas como resposta, “o NECA apenas recebeu três autos de notícia”, refere Francisco Rasteiro.

Estudo, trabalho, recreio ou lazer?
Em carta datada de 12 de Fevereiro, foi requerida autorização “para a entrada de alguns membros activos do NECA na Mata do Solitário, a fim de fazerem um reconhecimento e uma inventariação da Lapa do Solitário”, afirma a fonte do NECA. Foi pedida, igualmente, a autorização para a realização de actividades de prospecção de cavidades e registo da vegetação circundante da Serra do Risco e do monte Formosinho. Na mesma carta informava-se ainda que o número de elementos por equipa de trabalho não ultrapassaria os quatro, avançando os nomes das seis pessoas envolvidas.
O auto de notícia (nº 6), endereçado a Francisco Rasteiro, em carta registada de 23 de Março, foi recebido com surpresa e indignação, bem como os outros dois autos, enviados aos restantes espeleólogos que se encontravam na Mata do Solitário. Uma surpresa que as excelentes relações entre o NECA e o PNA não faziam esperar. O NECA sempre deu todo o apoio ao PNA: ajudou o PNA em relação à protecção da Gruta do Zambujal, no que concerne à intenção de a fechar, participou em reuniões, fez visitas com o director “à entrada da gruta”, disponibilizou-se para efectuar a topografia da cavidade e realizou uma campanha de limpeza da Arrábida em 1997, em colaboração com o PNA. “Temos participado activamente na defesa do património natural do PNA”, salientou Francisco Rasteiro à FORUM AMBIENTE.
O NECA considera “muito salutar a vigilância eficaz da área d PNA, nomeadamente nas suas áreas de reserva integral”, mas a consternação face à atitude do Parque é marcante. Aliás, foi endereçada ao director do PNA uma carta, datada de 31 de Março, contestando as multas aplicadas e pedindo que estas fossem reconsideradas. A contestação prende-se com o valor da multa e também com a “forma ambígua com que se desenrolou o processo”, esclarece a fonte do NECA, pois entre o valor de 1500 a 30 mil escudos, foi aplicada uma multa de 5 mil escudos a cada um dos espeleólogos, em vez de lhes ser aplicada a multa de valor mínimo. “Dá-nos a sensação de já sermos reincidentes, mas não sabemos bem em quê”, desabafou Francisco Rasteiro, acrescentando que devia ter havido “mais pedagogia na atitude do PNA (aviso registado e repreensão)”. Para os espeleólogos é ainda estranho que, estando quatro pessoas do NECA na Mata do Solitário, só três tenham sido autuadas. A indignação aumenta ainda mais porque os elementos do NECA estavam a efectuar fotografias sobre a vegetação da Arrábida, “encomendadas pelo Museu Oceanográfico do PNA” e o reconhecimento de uma cavidade, actividades que o PNA considerou tratar-se de “lazer”. Indignação também pelos inúmeros problemas que se encontram por resolver e pelos diversos atropelos à lei, quase sempre ignorados: pedreiras a menos de 500 metros de distância de sítios de grande interesse cultural, camiões invariavelmente sem cobertura, derrames de óleos para a rede subterrânea, lixo na Mata do Solitário,…

Pontos quentes
A Gruta do Zambujal passou, no ano transacto, para a alçada do PNA (ver jornal FORUM AMBIENTE nº 159, de 12 de Dezembro de 1997). Contudo, o Sítio Classificado da Gruta do Zambujal continua desprotegido. Segundo Francisco Rasteiro, foi dito pelo director do PNA que até ao final de Fevereiro deste ano o caso da Gruta do Zambujal estaria resolvido e que as pedreiras não avançariam para oeste. Mas não foi isso que aconteceu. As pedreiras estão em laboração e, até hoje, pouco ou nada foi feito para salvaguardar a Gruta do Zambujal.
O plano de ordenamento turístico da Arrábida estaria em consulta pública no início de 1998 (ver jornal FORUM AMBIENTE nº 158, de 5 de Dezembro de 1997), integrado na reclassificação do Parque. A primeira e a segunda fases do estudo de ordenamento já se encontram concluídas, mas os trabalhos pararam, aguardando os resultados do programa nacional de turismo de natureza. Na reclassificação do PNA, o Cabo Espichel iria fazer parte do Parque, mas a Gruta do Zambujal e o vale da ribeira do Cavalo, bem como as zonas sensíveis do ponto de vista da construção clandestina, estavam, à partida, excluídas.
O NECA manifestou-se contra a destruição da base oeste da Serra do Risco pelas pedreiras (ver jornal FORUM AMBIENTE nº 137, de 11 de Julho de 1997), enquanto que “a única coisa que o PNA fez foi proibir as pessoas de irem à Serra do Risco”, esclarece Francisco Rasteiro. A área assinalada como reserva geológica em antigos panfletos do Parque está interditada para que os visitantes não incomodem a fauna e a flora, ou talvez, para que não vejam o que a indústria extractiva anda a fazer. O NECA soube, através de um funcionário da pedreira, que irão “cavar” toda essa área em cerca de 60 metros de profundidade. Se as pessoas “estragam e incomodam”, o que fazem as pedreiras?
O plano de recuperação paisagística das pedreiras devia ter sido entregue até ao final de Novembro de 1997. Nesse mês limite, o director do PNA afirmou que o prazo se alargava até Dezembro. Questionado pelo NECA em Fevereiro de 1998, o director referiu que a recuperação estava a cargo da Secretaria de Estado dos Recursos Naturais. “Hoje ninguém sabe o que se passa. A única coisa que se vê são os buracos cada vez maiores. E a recuperação onde está?”, pergunta Francisco Rasteiro.
A FORUM AMBIENTE tentou saber a posição do director do PNA, Ricardo Paiva, mas este esteve incontactável até ao fecho da edição. Até hoje, ainda não houve resposta ao pedido de autorização de 12 de Fevereiro, bem como à contestação de 31 de Março. Com certeza, a polémica não irá ficar por aqui, pois são demasiados, os hot-spots que impedem a cooperação entre o NECA e o PNA.

03/09/2008

Morte de morcegos

A propósito da posta "Ai o raio das ventoinhas" que colocámos no Spelaion, no dia 27 de Agosto, sobre a elevada taxa de mortalidade de morcegos devido ao abaixamento da pressão atmosférica resultante do funcionamento de aerogeradores, aqui fica um pequeno filme sobre o estudo em causa.

Solitário (I)

Mata do Solitário © Joana Santos

No jornal gratuito Metro - Edição Lisboa/Sul (Ano 5, nº 825), de hoje, deparamos com a seguinte notícia, na rubrica “Fim-de-semana aventura”:

Espeleologia
Sesimbra

ACTIVIDADE No sábado, experimente a espeleologia na Lapa do Médico, gruta ideal para o desenvolvimento de técnicas de progressão. Com passagens estreitas entre salas, a geologia é diversa nesta gruta.
Mais informações em:
www.vertentenatural.com.” (sic.)

E eu que pensava que a Lapa do Médico se localizava na Mata do Solitário e que esta era Reserva Integral! Portanto, só poderia ser visitada “por razões de investigação e divulgação científica”, “para monitorização ambiental e para a realização de acções de salvaguarda da área e dos interesses de conservação que levaram à sua classificação” ou por motivos de “vigilância e fiscalização”. A ignorância é terrível, não é?
Longe não vão os tempos em que o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) foi multado por ir a essa gruta! Não há dúvida que realmente “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Já agora, aproveito também para apresentar umas imagens, que se encontram no profícuo You Tube, sobre a Gruta do Médico.

Limpeza e Educação Ambiental

Espeleologia
Costa limpa em Torres Vedras


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 198, 11 de Setembro de 1998]

O Espeleo Clube de Torres Vedras e a Associação de Defesa do Património de Torres Vedras realizaram este ano mais um “Costa Viva 98”. Pelo quarto ano consecutivo, alunos e professores de diversas escolas do concelho reuniram-se para limpar a costa.

Costa de Sintra © Pedro Cuiça (2006)

Pelo quarto ano consecutivo decorreu, no concelho de Torres Vedras, mais uma actividade de limpeza do litoral “Costa Viva 98”. Esta iniciativa foi organizada pelo Espeleo Clube de Torres Vedras (ECTV) e pela Associação de Defesa do Património de Torres Vedras (ADPTV). A acção de limpeza, realizada no litoral do concelho de Torres Vedras (entre Porto Novo e Santa Cruz), contou com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV) - Sector de Higiene e Limpeza Pública e Sector do Ambiente, do Instituto Português da Juventude (IPJ) - Delegação Regional de Lisboa e do Instituto de Promoção Ambiental (IPAMB).

“Costa Viva é Costa Limpa”
“Costa Viva é Costa Limpa” foi a mensagem que inspirou, pela primeira vez, em 1995, a limpeza das arribas do concelho de Torres Vedras. O trabalho foi efectuado com base nos resultados obtidos na participação em acções de costwatch, levadas a cabo em 1993 e 1994. Estas acções incidiram sobretudo em determinadas áreas onde existiam, e se mantêm, quantidades significativas de lixo: Alto da Vela, Azenha de Santa Cruz, Praia do Amanhã, Água do Seixo, etc..
Os resultados dos trabalhos efectuados em 1995, 96 e 97, realizados por cerca de 600 participantes (envolvendo duas associações, a autarquia e escolas), traduziram-se num “record da vergonha”: mais de 14 toneladas de lixo recolhido. Depois da limpeza foram colocadas placas nos pontos de maior sensibilidade e de mais fácil acesso, contendo mensagens destinadas a todos os utilizadores que frequentem as áreas, com especial incidência para os cidadãos e empresas menos escrupulosas.
Os organizadores do “Costa Viva 98” pretenderam, na sequência das anteriores acções, sensibilizar a população para os problemas ambientais relacionados com a defesa e a conservação das áreas litorais, possibilitar a participação dos jovens em acções de educação ambiental e de defesa do património, aliviar a costa de parte dos resíduos aí existentes e pressionar as entidades públicas no sentido de encontrarem soluções mais eficazes para dar resposta a este e outros problemas de degradação do litoral.
A actividade, como já é tradição, foi proposta a todas as escolas do concelho de Torres Vedras e contou, pela primeira vez, com a participação de alunos de uma escola do concelho de Bombarral. A organização determinou, a fim de mitigar possíveis impactes, um número limite de participantes (incluindo obrigatoriamente um professor para cada 15 alunos).
Para além de um folheto informativo sobre a degradação das áreas litorais e material específico para as tarefas de limpeza (luvas, pás, sacos), foi ainda distribuído material promocional da campanha de limpeza. Os participantes foram ainda brindados com um almoço convívio.
Os campos e as praias portuguesas não são um caixote de lixo, mas infelizmente alguns agem como se o fossem. Actividades de limpeza e educação ambiental serão sempre bem vindas.

02/09/2008

A maior...

Não, não se trata da maior tirolesa do Mestre Eusébio. Nem sequer de uma mostra do género "a minha é maior do que a tua"! Esta será mesmo a maior tirolesa do mundo em corda e foi montada pelo “Spéléo Secours” francês durante o "Vercors 2008". O nosso muito obrigado e um abraço ao amigo Laurent Poublan por nos ter brindado, por e-mail, com semelhante surpresa.

Espeleoconservação (II)

Espeleologia
Proteger o mundo subterrâneo

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 252, 12 de Outubro]

© Algarve

A criação de instrumentos legais específicos para o mundo subterrâneo tornou-se premente. Jean-Pierre Bartholeys revelou o estatuto de cavidade subterrânea de interesse científico.

A conservação do património espeleológico constitui uma crescente preocupação face aos diversos atentados a que está sujeito. Preocupação que se faz sentir não só em Portugal, como na Europa e um pouco por todo o mundo onde existem regiões cársicas. O tema, pela sua actualidade e importância, não passou ao lado do III Congresso Europeu de Espeleologia, realizado em Lisboa de 1 a 3 de Outubro. De entre as comunicações, que abordaram aspectos ligados à protecção dos ambientes cársicos, destaca-se “Um estatuto de cavidade subterrânea de interesse científico para proteger os meios naturais subterrâneos de Wallonie”. A comunicação a cargo de Jean-Pierre Bartholeyns, presidente da Comissão de Protecção do Carso e das Grutas da União Internacional de Espeleologia, revelou a necessidade da criação de instrumentos legais específicos para o mundo subterrâneo. É que “o meio subterrâneo é frágil e deve ser protegido de diversas agressões que colocam em perigo a sua conservação e de todas as riquezas biológicas, mineralógicas, geológicas e arqueológicas que lhe estão associadas”, lembrou Bartholeyns.

Biótopos de interesse
A importância das espécies e dos biótopos cavernícolas começa a ser reconhecida a nível europeu. Por exemplo, os morcegos estão contemplados no Anexo 2 da Directiva Habitats como espécie de interesse comunitário a proteger prioritariamente e o ano de 1998, consagrado às zonas húmidas, incluiu as zonas húmidas subterrâneas entre os meios a proteger. Mas o mundo subterrâneo não escapa a múltiplas agressões: é ameaçado por poluição, por intervenções turísticas, por perturbações e depredações devidas a sobrefrequentão das grutas ou por destruição pura e simples.
Um novo atentado à integridade do meio subterrâneo está ligado ao fenómeno do desporto-aventura, em que numerosas cavidades são alugadas ou compradas por operadores turísticos. A exploração “desportiva” e comercial dessas grutas, que se tem vindo a incrementar desde 1995, é causadora de depredações geralmente irreversíveis. O estado das cavidades e as múltiplas agressões a que estão sujeitas apelam a uma protecção urgente.
A legislação que transpõe as directivas europeias em matéria de ambiente podem ser aplicadas ao meio subterrâneo, mas é “insuficiente e exige geralmente procedimentos longos e difíceis”. Razão pela qual, por iniciativa da Comissão Wallone de Estudos e de Protecção de Sítios Subterrâneos (Commission Wallonne d’Etudes et de Protection des Sites Souterrains - CWEPSS) e de diversos organismos científicos, a região estabeleceu o estatuto de Cavidade Subterrânea de Interesse Científico (Cavité Souterraine d’Intérêt Scientifique - CSIS). Medida que permitiu, pela primeira vez, a efectiva protecção e conservação segundo uma base legal específica e adaptada às cavidades subterrâneas, no quadro da Directiva Habitats (CEE - Natura 2000).
Uma cavidade pode ser reconhecida pelo interesse científico logo que apresente valores biológicos a defender, presença de formações geológicas, petrográficas ou mineralógicas raras ou testemunhos arqueológicos.
Uma cavidade reconhecida pelo interesse científico não poderá em caso algum ser objecto de destruição mesmo que parcial, de deteorização por exploração directa de matérias primas, por exploração turística ou desportiva, por poluição ou por outra forma de intervenção voluntária que conduza a uma redução do seu interesse científico.

Espeleoconservação (I)

Valorizar o património espeleológico

[ACTUAL ● Jornal Forum Ambinte nº 252, 12 de Outubro de 1999]


© Porto Covo

Mais de vinte países reunidos em Lisboa, no Congresso Europeu de Espeleologia, decidiram criar um grupo de trabalho para elaborar uma carta europeia para valorização deste património. Portugal disponibilizou-se para a fase de arranque da ideia.


Congresso Europeu Espeleologia
Grutas para o futuro

Lisboa acolheu o III Congresso Europeu de Espeleologia, onde se comemorou o 50º aniversário dos pioneiros desta actividade em Portugal e se desenvolveram diversas iniciativas em prol do mundo subterrâneo.

A necessidade dos espeleólogos efectuarem iniciativas para a protecção e a conservação das grutas (veja rubrica FORA DE PORTAS), velarem pela salvaguarda das águas subterrâneas e das paisagens próprias das regiões cársicas foram ideias fortes expressas na moção apresentada no III Congresso Europeu de Espeleologia. A iniciativa decorreu, de 1 a 3 de Outubro, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
A moção, que merece destaque entre as iniciativas que decorreram durante o congresso, foi apresentada por Jean-Pierre Bartholeys, Presidente da Comissão de Protecção do Carso e das Grutas da União Internacional de Espeleologia, no encerramento do simpósio sobre “Promoção das grutas turísticas e suas regiões”. Os objectivos da moção devem-se inscrever no quadro de uma gestão rigorosa, inteligente e científica do ambiente e dos recursos naturais. A protecção não se limita à aplicação de leias ou regulamentos existentes, envolve a concepção de instrumentos originais e inovadores que tenham em conta a especificidade de cada região e onde as decisões de gestão sejam tomadas pelo(s) proprietário(s) do(s) terreno(s), cientistas, espeleólogos e entidades competentes. Essa moção propôs ainda um “Ano Europeu das Grutas Turísticas”, para 2000, ideia que encontra a sua justificação natural no facto dessas cavidades representarem a vitrina ideal para a compreensão da necessidade de proteger o património subterrâneo comunitário, milenário e sensível. Segundo Bartholeyns: “As nossas motivações uma vez compreendias farão com que a beleza do mundo subterrâneo seja respeitada ao longo de gerações”.

Carta espeleológica europeia
A moção do simpósio sobre “Protecção e conservação das grutas e das regiões cársicas”, apresentada por Olímpio Martins, também será de salientar pelas suas implicações ambientais. Face às inúmeras pressões a que estão sujeitas as grutas e regiões cársicas, que fundamentalmente advêm do mau uso do território, e dada a responsabilidade que a comunidade espeleológica detém sobre esta matéria, os participantes no congresso sugeriram a implementação de diversas medidas. A Federação Europeia de Espeleologia deverá providenciar e promover acções concretas que conduzam à valorização e conservação do património espeleológico europeu, bem como desenvolver estratégias que permitam assumir-se como um importante grupo de pressão.
Também foi apontada a criação, até ao final do corrente ano, de um grupo de trabalho, formado por elementos de cada país membro. Grupo de trabalho encarregue deelaborar, até 2001, uma proposta de uma carta europeia para a valorização e conservação do património espeleológico e potenciar a Directiva Habitats, nomeadamente através dos artigos referidos no Anexo 1 (habitats rochosos e grutas não turísticas). Portugal disponibilizou-se para a concretização dos procedimentos necessários à fase de arranque da moção.
A organização do congresso esteve a cargo da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) e da Federação Espeleológica da Comunidade Europeia (Speleological Federation of the European Community - SFEC). O úmero de participantes ultrapassou as duas centenas e estiveram representados mais de 20 países, para além do organizador (Portugal).


Meio século de espeleologia

Os cinco simpósios do III Congresso Europeu de Espeleologia foram subordinados aos temas “Importância da espeleologia no progresso das ciências afins”, “Protecção e conservação das grutas e das regiões cársicas”, “Promoção das grutas turísticas e suas regiões”, “Influência da espeleologia no despertar das vocações da juventude” e “50º Aniversário da SPE”.
O simpósio sobre o 50º Aniversário da SPE realizou-se no dia 2 de Outubro, tendo contado com a participação do actual presidente dessa sociedade espeleológica, José António Crispim, e de dois sócios fundadores, Américo Condinho, o primeiro construtor de material de espeleologia em Portugal, e Alves Pereira. A SPE é a associação pioneira, desde 1948, da espeleologia organizada em Portugal, agrupa diversos especialistas da matéria e procura divulgar a modalidade nomeadamente com o intuito de despertar novas vocações.

Provas dadas
A idoneidade da SPE, reconhecida a nível nacional e internacional, é testemunhada pelas inúmeras solicitações, da parte de organismos públicos e de entidades privadas, para esta efectuar estudos especializados ou fornecer pareceres nas suas áreas de actuação. Idoneidade mais uma vez confirmada pelo empenho na organização do III Congresso Europeu de Espeleologia que trouxe a Portugal espeleólogos de variados pontos do globo.
O III Congresso Europeu de Espeleologia, cujas sessões centrais se realizaram no edifício C3 da FCUL, contou com a apresentação de comunicações, posters e exposições, projecção de filmes e de diapositivos, venda de livros e de material de espeleologia, entre outras iniciativas. As actividades pré e pós congresso incluíram excursões e saídas de campo nomeadamente nas regiões do Alentejo, Algarve e Açores.

© Algarve

[A publicação desta peça jornalística, no dia de hoje, prende-se apenas com o facto de, após quase um década passada sobre a realização do III Congresso Europeu de Espeleologia, realizado em Lisboa, ter terminado no passado domingo (30 de Agosto) o IV Congresso Europeu de Espeleologia, organizado pela Federação Francesa de Espeleologia (FFS), na região do Vercors.
Durante o III Congresso Europeu de Espeleologia a SPE comemorou meio século de existência e, este ano precisamente, comemora 60 anos de actividade. Uma bonita idade para comemorar e nos congratularmos independentemente das divergências intestinas existentes, mais ou menos manifestas ou encobertas, no meio espeleológico português.]

01/09/2008

Espeleótopos

Património espeleológico
Longe da vista, longe da protecção

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 184, 5 de Junho de 1998]

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1995)

As grutas, as rochas e as montanhas têm direitos? A legislação é omissa e o tema torna-se cada vez mais actual, enquanto que os testemunhos da história da Terra são destruídos impunemente. A Gruta do Zambujal constitui um exemplo bem elucidativo. Infelizmente não é um caso isolado, pois os exemplos são muitos.

Os espaços naturais que não estão abrangidos por legislação específica, o caso dos geomonumentos ou geo-recursos culturais (em que se inserem as grutas), necessitam de urgente enquadramento legal. Reivindicação que, não sendo nova, continua a aguardar melhores dias. Entretanto, já foram classificadas diversas ocorrências, ao abrigo da legislação existente, como Monumentos Naturais ou Sítios, mas a protecção revela-se frequentemente ineficaz. Um problema tão importante quanto a falta de legislação específica prende-se precisamente com a conservação, valorização e dinamização das ocorrências. O controlo, nomeadamente pela administração local, do uso e gestão correctas das cavidades, baseado idealmente em legislação específica, será uma medida a implementar. No entanto, na sua ausência, torna-se premente o conhecimento das cavernas em que é necessária uma rápida intervenção conservacionista.
O desenvolvimento, divulgação e aplicação de normas legais sobre a conservação do endocarso constituirá, certamente, o passo a dar no sentido de obviar a delapidação do mundo subterrâneo. Devido à manifesta ineficácia demonstrada, nessa matéria, pela Federação Portuguesa de Espeleologia (FPE), entidade que deveria liderar o processo, resta aos cidadãos, em geral, e aos investigadores, em particular, a defesa dos “espeleótopos”. Este processo enquadra-se perfeitamente na ideia de Exomuseu da Natureza, proposta pelo Museu Nacional de História Natural (MNHN) da Universidade de Lisboa.

Não basta classificar
Descoberta em 1978, a Gruta do Zambujal (Sesimbra) suscitou um interesse pouco usual. Foram colocados guardas junto às entradas, para evitar a vandalização do espaço, e requeridos os pareceres dos geólogos Georges Zbyszewski e Veiga Ferreira, bem como da Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica (APIE). Os pareceres foram unânimes - tratava-se da maior gruta a sul do Tejo, uma autêntica “pérola” da espeleologia portuguesa, uma cavidade realmente impar no tocante à espectacularidade, profusão e raridade das concreções aí existentes. A Gruta do Zambujal, num processo inédito e invulgarmente rápido, foi a primeira cavidade a beneficiar do estatuto de Sítio Classificado de interesse espeleológico (Decreto-lei nº 140/79, de 21 de Maio).
O grande interesse que esta cavidade despertou, quer na comunidade científica, quer na opinião pública, augurava uma nova era para as grutas e carsos do país. No entanto, não passou de um literal fiasco. Passados alguns anos, as grades que bloqueavam as entradas foram forçadas e as incursões antrópicas começaram a deixar as suas marcas. Por outro lado, a actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância (o que contraria o disposto no Decreto-lei nº 89/90), revelou igualmente a urgente necessidade de se efectivar a conservação desse geomonumento.
A Gruta do Zambujal situa-se fora da jurisdição do Parque Natural da Arrábida (PNA). Mas, apesar de não ter sido delegada competência a esta área protegida para a gerir, o PNA tem acompanhado o processo desde Maio de 1995. A estratégia do PNA consiste no encerramento urgente da gruta, permitindo contudo o acesso à colónia de morcegos, pois a cavidade constitui abrigo de morcegos-de-peluche (Miniopterus schereibersii) e alguns morcegos-ratos-grandes (Myotis myotis). O processo de encerramento, previsto para Junho de 1998, está dependente do levantamento topográfico da gruta, da elaboração de um estudo de estabilização geotécnica e da execução do “projecto de saneamento da entrada”. Os atrasos no processo permitem assim prever seguramente que o encerramento não se irá concretizar na data indicada.
Após o encerramento da gruta, será equacionada a sua utilização turística, dependente do estudo de estabilização geotécnica e do estudo de viabilidade económica para a sua exploração, bem como a sua utilização no âmbito científico e cultural. O estudo de viabilidade económica deverá considerar a recuperação do espaço da pedreira (prevendo-se o estabelecimento de percurso pedonal, de um auditório ao ar livre, de um espaço de apoio aos visitantes e de um restaurante), assim como a possibilidade de construção de um aldeamento turístico. Saliente-se que as visitas à gruta não se devem processar durante os meses de Outubro a Março e no restante período do ano, as visitas devem compatibilizar-se com os disparos efectuado nas pedreiras que se encontram na zona envolvente. Adivinha-se, pois, incompatibilidades dedifícil gestão!
A Gruta do Zambujal já não é a “pérola” de há 20 anos atrás. Com grande parte das concreções destruídas e parcialmente entulhada por blocos, a sua utilização turística encontra-se seriamente comprometida. Duas décadas depois da classificação, a Gruta do zambujal continua à mercê da burocracia e ineficiência das entidades responsáveis, entre as quais se inclui o Instituto d Conservação da Natureza (ICN), que alega invariavelmente carência crónica de meios. O património espeleológico é que não se compadece com os atrasos verificados. No fim de tudo isto, talvez o concelho de Sesimbra perca um pólo de desenvolvimento local e o país uma das mais belas grutas conhecidas em território pátrio.


Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1995)