22/07/2008

Fora de Portas

Cueva Mur (Cantábria) © Pedro Cuiça (2007)

O FORA DE PORTAS surgiu na edição nº 106, de 6 de Dezembro de 1996, do jornal Forum Ambiente. Esta rubrica semanal foi publicada ininterruptamente até à edição nº 290, de 4 de Julho de 2000, ou seja, durante 184 edições.
A rubrica FORA DE PORTAS pretendeu ser um espaço de reflexão acerca da prática de actividades de ar livre e conservação da natureza. Nesse âmbito, ao longo de mais de três anos e meio, foram abordadas diversas actividades de ar livre e inúmeras temáticas acerca da problemática da conservação/protecção.
O FORA DE PORTAS foi concebido para estimular a interrogação, o diálogo, a procura de soluções sobre o difícil e até incompreendido equilíbrio (ou falta dele) entre a prática de actividades de ar livre e a conservação da natureza. Nesse contexto, considerámos que teríamos atingido os objectivos, que mais não fosse, se despertássemos o debate sobre a problemática: actividades de ar livre versus ambiente? E, de facto, assim terá sido…
No âmbito da espeleologia, que é a actividade que nos interessa analisar no Spelaion, foram escritas mais de meia centena de peças jornalísticas na rubrica FORA DE PORTAS e, apesar das reacções terem sido poucas, tivemos alguns feedbacks notáveis, quer pela positiva quer pela negativa. Salientamos, pelo bizarro, a situação caricata de uns exploradores de grutas algarvios, que se auto-intitulavam “espeleólogos”, nos terem dito frontalmente que estas peças jornalísticas não serviam para nada. Para além de devermos elogiar a sua frontalidade, há que reconhecer igualmente a coerência de quem andava a desenterrar património arqueológico à “balda” e, inclusivamente, matava morcegos, entre outras "tropelias"! Mas como isto do “buraquismo” é um fenómeno geralmente cíclico, já se terão cansado. Tal como vieram assim se foram… O problema é que uns vão e outros vêm! Lá está, é um fenómeno cíclico. Escusado será dizer que quem quiser mascarar-se de espeleólogo basta ir a uma loja da especialidade e voilà. Ou nem isso, basta encomendar na net… O problema inerente a estas motivações, mais ou menos passageiras, são os impactes negativos resultantes de cada ciclo de explorações (nos diversos significados que a palavra encerra, incluindo os piores). E esses, os impactes, não vão e voltam, pura e simplesmente quedam.!!! Mais, não podemos deixar de expressar a nossa admiração pela forma impávida e serena como muitos assistem à destruição do património espeleológico como se algo de natural e/ou de inevitável fosse! Conformismo? Indiferença? Quem sabe?
Mas o motivo deste post é apenas justificar o porquê de termos publicado, até agora, 12 números seguidos da rubrica FORA DE PORTAS no Spelaion e de a partir de agora deixarmos de o fazer. Isso deve-se ao facto de acharmos que faria algum sentido apresentar a sequência de 12 números (três meses) seguidos sobre espeleologia num jornal de expressão nacional. Algo que será de assinalar, por ser único, no panorama jornalístico português, claramente voltado para outras temáticas mais “apelativas” e consideradas (sabe-se lá por quem) de maior interesse público. Daqui em diante iremos publicar os FORA DE PORTAS consoante a sequência que entendermos mais conveniente, de acordo com assuntos que estejam na ordem do dia ou temas que tenham sido publicados na revista Forum Ambiente ou, inclusivamente, em livro.
Por último, gostaríamos de expressar mais uma vez que as nossas preocupações se têm centrado na defesa do carso em geral e do endocarso em particular, longe de polémicas, de politicas ou de outras facetas da actividade. Isso não quer dizer, no entanto, que dure sempre… Acontece que, tal como uns se cansam de explorar grutas, nós também começamos a ficar cansados de assistir a certas “manigâncias” e “brincadeiras” que nos passariam ao lado não fosse o facto de se reflectirem precisamente na conservação do património natural.
Ursa (Sintra) © Pedro Cuiça (2000)

Cabeça Natura

Cerro da Cabeça
Um património algarvio

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 135, 27 de Junho de 1997]

Cerro da Cabeça (Algarve) © Pedro Cuiça (2008)

O Cerro da Cabeça está incluído na proposta de sítios nacionais para a Rede Natura 2000. No terreno, no entanto, a degradação continua.

O Cerro da Cabeça situa-se a cerca de dois quilómetros e meio a nordeste de Moncarapacho (concelho de Olhão, freguesia de Moncarapacho), constituindo a extremidade oriental da Serra de Montefigo.
Nesse cerro, que ascende a 249 metros de altitude, encontra-se o mais espectacular megalapiás do Algarve, onde dominam grandes dorsos de superfícies arredondadas, relevos cónicos e pedunculados, torres, arcos e blocos, distribuindo-se densamente por toda a elevação. As torres e dorsos encontram-se separados por fendas (falhas e diáclases) entulhadas de calhaus angulosos. Surgem igualmente pias de grandes dimensões e corredores ou bogaz.
As pias escavadas no lapiás prolongam-se frequentemente em profundidade (como o Algar Medusa). No Cerro da Cabeça localizam-se as formas endocársicas mais profundas de que se tem conhecimento no carso algarvio: Algar Maxila (mais de 95 m de profundidade), Algar Medusa (74 m), Algar dos 60 m (mais de 70 m).
Consta que o Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA), extinto há alguns anos e recentemente reactivado pelo arqueólogo David Calado, terá efectuado a inventariação de mais de uma centena de cavidades nesse cerro. Número mítico ou real?
Num texto do séc. XVI já se salienta o grande número de cavidades existentes no Cerro da Cabeça: “a Cabeça de Moncarapacho, que notavelmente se pode ver. Corre este serro de leste a oeste, é de muito rochedo, mui medonho e espantoso, e, a partes, tem rochas talhadas e muito íngremes, d’altura de três e quatro lanças; entre estas rochas tem muitas lapas e covas, a maneira de casas, nas quais moraram antigamente os Mouros ou outras gentes, que antes deles habitavam a terra".
Em 1758, o Padre Manuel Mendes Correia informou a existência de “uma cova chamada abismo”, “outra cova, a que chamam Ladroeira” e ainda uma outra “de fronte desta”. Outro tanto referiram Silva Lopes (1841) e Barbosa de Pinho Leal (1857). Estácio da Veiga (1886) faz referência ao Abysmo, Ladroeira Grande e Ladroeira Pequena. Os irmãos Barros Machado (1948) referem o grande interesse zoológico das grutas Abismo Novo e Algueirão do Garrafão (este último com guano de morcegos). Além disso, referem a existência do Abismo Velho, Ladroeira Grande, L. Pequena e Algueirão da Pechinha (este com localização incerta). Em 1882, Octávio da Veiga Ferreira volta a referir o grande interesse zoológico de Abismo Novo e Algueirão do Garrafão. Este autor aponta também as grutas Abismo e Ladroeiras como tendo fornecido elementos do Calcolítico. Costa Almeida (1979) e J. A. Crispim (1982) referem a existência de cerca de 30 grutas. Actualmente conhecem-se mais de 50 cavidades, entre elas a Gruta da Pedreira, a Gruta Arqueológica, a Gruta da Senhora e a Gruta da Luva.
O elevado estado de degradação que se verifica em muitas grutas do Cerro da Cabeça (geralmente as concreções estão partidas e encontra-se lixo no interior), o estado ruinoso em que o miradouro e a casa abrigo se encontram, o lixo existente em certos locais, a situação intolerável que se verifica na Gruta da Senhora, assim como a acção da pedreira situada a sudoeste dessa elevação perspectivam a perda de uma das mais pitorescas zonas do Carso do Algarve.
O Cerro da Cabeça apresenta, entre outros pólos de interesse: uma geomorfologia cársica expressa de modo excepcional constituindo um megalapiás de características únicas em todo o Algarve; um grande número de grutas e a ocorrência das formas endocársicas mais profundas da região algarvia; a presença de cavernas com grande interesse zoológico (fauna cavernícola) e colónias de morcegos; a ocorrência de cavidades com vestígios arqueológicos; um núcleo relativamente bem preservado de chaparral mediterrânico; uma fauna abundante (nomeadamente avifauna e pequenos mamíferos), com ocorrência de espécies relativamente raras (como a raposa). É urgente que se implementem as necessárias medidas de conservação/preservação, legislando no sentido de torná-lo numa área protegida. Até lá, a prática da “espeleologia”, a caça e, menos significativamente, a prática de bouldering continuam a processar-se sem enquadramento legal e sem vigilância.

Cerro da Cabeça (Algarve) © Pedro Cuiça (digitalização do jornal Forum Ambiente 1997)

21/07/2008

Salnitre dá música

A terceira edição do Festival Gong realiza-se, nos dias 19, 20, 26 e 27 de Julho, na Cueva del Salnitre ou Coves del Salnitre, em Collbató (Catalunha). Esta gruta turística, situada na vertente sul da Sierra de Montserrat, acolhe desde 2006 um festival de sonoridades diferentes, num ambiente pouco usual. A iniciativa aproveita a acústica e a ambiência natural do meio subterrâneo ao serviço da musicalidade. No dia 26 de Julho realiza-se a Dansa de l’Ànima e no dia 27 actua um couro de monges tibetanos.

[Fonte: Espeleobloc]


Actas do Simpósio Ibero-Americano

[Fonte: Sérgio Medeiros/Forum.pt]

Topoguia de Córdova

O presidente da Diputación de Córdoba, Francisco Pulido, apresentou, na passada quarta-feira (dia 18 de Julho), o livro Topoguía de Córdoba - Cuevas y Simas de la Sierra Subbética. Esta obra dá a conhecer 14 das cavidades mais importantes da zona subbética andalusa, zona que já foi declarada como geoparque. Durante a apresentação da obra, Pulido salientou que “se trata de una iniciativa pionera, editada por la Diputación cordobesa, cuya idea surgió durante el II Congreso Andaluz de Espeleología celebrado en Priego de Córdoba”.
Por seu lado, o presidente da Federación Andaluza de Espeleología (FAE), José Antonio Berrocal, destacou que “las 800 cuevas y simas existentes en la Subbética nos hacen ver la importancia de un patrimonio subterráneo que hay que poner en valor progresivamente”, considerando, além disso, que “esta Topoguía se presenta como una herramienta fundamental para las personas que visitan por primera vez estas cuevas”.
O livro agora editado deve-se ao trabalho do Grupo Espeleológico y Alpino de Cabra, Grupo Alpino-Espeleológico de Lucena, GAEA de Baena, G-40 de Priego de Córdoba e Grupo de Actividades en la Naturaleza de Puente Genil. A federação andalusa já iniciou as negociações com os grupos de Almería e Cádiz com vista ao início dos trabalhos para a realização dos topoguias das respectivas províncias.

[Fonte: blogue Andalucia Explora]

Gruta do Zambujal

Espeleologia
Vandalismo no Zambujal


[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 134, 20 de Junho de 1997]

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (digitalização do jornal Forum Ambiente 1997)

Descoberta acidentalmente em 1978, devido a rebentamentos numa pedreira, a Gruta do Zambujal foi na altura protegida com o estatuto de Sítio Classificado. Depois, foi lentamente votada ao esquecimento. Actualmente continua a aguardar a regulamentação exigida por lei. Entretanto, a gruta é vítima de vandalismo.

Descoberta em 1978, a Gruta do Zambujal suscitou um interesse pouco usual. Foram colocados guardas junto às entradas, para evitar a vandalização do espaço e requeridos os pareceres dos geólogos Georges Zbyszewski e Veiga Ferreira, assim como da Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica (APIE). Com base nos pareceres efectuados, a Gruta do Zambujal tornou-se na primeira cavidade portuguesa a beneficiar do estatuto de Sítio Classificado de interesse espeleológico (Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). As duas entradas, então conhecidas, foram encerradas com gradeamentos.
O interesse que essa cavidade despertou, quer na comunidade científica quer no público em geral, augurava uma nova era para as grutas e carsos do País. No entanto, isso não sucedeu. Passados alguns anos, as grades que bloqueavam as entradas foram forçadas e as incursões antrópicas começaram a deixar as suas marcas. Por outro lado, a actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância da cavidade (o que contraria o disposto no Decreto-Lei nº 89/90), revelou igualmente a necessidade de se efectivar a conservação desse “geomonumento”.
Para alguns, a destruição que se verificou no interior da cavidade resultou fundamentalmente de puro vandalismo. Opinião defendida entre outros pelo geólogo [e espeleólogo] Jaime Martins Ferreira. No entanto, houve quem contestasse esse ponto de vista. O geógrafo Carlos Sirgado, apoiado pela generalidade dos espeleólogos, apontou a actividade extractiva como a principal causa da destruição. Certo é que a frente de desmonte situada nas imediações da cavidade foi, ao que tudo indica, abandonada.
Actualmente, o problema centra-se no inpacte resultante de incursões antrópicas. No passado mês de Maio, Francisco Rasteiro, do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), deparou com a destruição de um gour e marcas resultantes do uso de gasómetros.
Paulo Marques, da Associação dos Espeleólogos de Sintra (AES) e membro também do NECA, confirmou a destruição e as marcas. O uso de gasómetros indica a presença de espeleólogos. Por outro lado, a relação de contemporaneidade entre essas marcas e a destruição do dito gour levantam a suspeita de que ambas as acções tenham sido perpetradas pelos mesmos indivíduos. Face ao sucedido, Carlos Sirgado, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, manifestou à FORUM AMBIENTE a sua preocupação pelo estado de abandono em que se encontra a cavidade. Vulnerável a acções de vandalismo, infelizmente comuns nas grutas portuguesas, a Gruta do Zambujal poderá perder toda a sua beleza e valor patrimonial.
Uma equipa do Instituto de Conservação da Natureza (ICN) encontra-se a elaborar o regulamento pelo qual se irá reger esta área protegida. André Couto, do Parque Natural da Arrábida (entidade que irá fiscalizar o Sítio Classificado), assegura que se está a trabalhar a fim de garantir a conservação da Gruta do Zambujal. A prioridade consiste no encerramento da cavidade de modo a impedir o acesso e as continuas destruições. Até que o encerramento se concretize, as incursões antrópicas continuam, impunemente, a degradar esse “ex-libris” da espeleologia nacional.

Poço dos Mouros

Espeleologia
A degradação do Poço dos Mouros

[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 131, 30 de Maio de 1997]

Rocha da Pena (Algarve) © Alberto Corvo (digitalização do jornal Forum Ambiente 1997)

O Sítio Classificado da Rocha da Pena encerra uma das grutas mais espectaculares do distrito de Faro. O Poço dos Mouros, no entanto, tem sido vítima de sucessivas incursões antrópicas que provocaram a degradação da mesma e do ecossistema associado.

A Rocha da Pena (480 m), situada no limite setentrional do Barrocal algarvio, a norte da estrada Alte-Salir (concelho de Loulé), é o único relevo verdadeiramente vigoroso existente no Algarve. Carso alcandorado, talhado em calcários dolomíticos do Lias (Jurássico inferior), orientado segundo nascente-poente, ultrapassa os 50 metros de altura na vertente sul. No topo, planalto ligeiramente ondulado, encontram-se diversas formas lapiares, cerca de uma dezena de dolinas e algumas cavernas.
Uma dolina de abatimento, no planalto, dá acesso ao Poço dos Mouros (Caverna do Poço dos Mouros, Caverna dos Mouros, Buraco dos Mouros, Algar dos Mouros, Lapa da Pena, Gruta da Rocha da Pena). Cavidade rica em lendas e com vestígios arqueológicos, é uma das mais extensas do carso algarvio. Na sua sala terminal encontra-se uma importante colónia de morcegos e também foi assinalada a presença de fauna cavernícola. No entanto, aquela que foi considerada a gruta mais profunda do Algarve encontra-se desde há décadas sujeita aos mais diversos atentados.
Já em 1985, Rocha Cruz, do Núcleo de Espeleologia do Circulo Cultural do Algarve (NECCA), manifestou a sua preocupação pela situação de degradação e abandono em que se encontrava a Lapa da Pena. No ano seguinte, o Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga de Protecção da Natureza (CEAE - LPN) toma conhecimento, através do Ofício nº 923/86 do Serviço Nacional de Parques e Conservação da Natureza (SNPCN), “da acção nefasta exercida por grupos de jovens praticantes de Espeleologia e Montanhismo na Rocha da Pena”. O autor de FORA DE PORTAS alertou posteriormente (1988, 1993, 1995) para a degradação a que o Poço dos Mouros estava a ser sujeito, nomeadamente no que concerne à perturbação de morcegos.
Apesar de actualmente a Rocha da Pena ser um Sítio Classificado, as acções antrópicas contra o património natural aí existente continuam, por não se verificar na prática um planeamento integrado para a eficiente conservação e correcta dinamização da área.
Na sala terminal da Caverna dos Mouros encontra-se uma colónia de criação de Miniopteros schereibersii com mais de 2000 indivíduos e um considerável número de Myotis blythii e Rhinolophus mehelyi. A acção antrópica em cavernas-abrigo de morcegos é um dos factores mais significativos de impacte sobre o número de indivíduos de uma colónia. Na época de criação (Março a Maio) a perturbação de colónias pode provocar uma alta mortalidade entre os juvenis, que caem do tecto das grutas no meio da confusão, ou levar ao abandono da cavidade como local de criação. O aumento do número de praticantes de espeleologia e a, ainda mais grave, crescente acção dos visitantes ocasionais impõe que sejam tomadas medidas de conservação/protecção das colónias de quirópteros da Caverna dos Mouros. Verifica-se, pois, a necessidade de regulamentar o acesso à gruta, nomeadamente durante a época de criação. Essa medida poder-se-á estender eventualmente ao período de hibernação (Novembro a Março) ou mesmo, caso se justifique, ao encerramento permanente.

Poço dos Mouros (Algarve) © João Varela/CEEAA

19/07/2008

Limpeza de cavidades

Espeleologia
Porque bebem a água que poluem


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 130, 23 de Maio de 1997]


© Paulo Arsénio/CEPPRT (digitalização do jornal Forum Ambiente 1997)

As populações continuam a encarar as grutas como vasadouros de lixo, degradando o património espeleológico e poluindo os aquíferos de que dependem. O Centro de Estudos e Protecção do Património da Região de Tomar está a desenvolver um projecto de limpeza de cavidades, onde o lixo, infelizmente, não falta.

O Centro de Estudos e Protecção do Património da Região de Tomar (CEPPRT), fundado em 1976, dedica-se, como o nome indica, ao estudo, protecção e divulgação do património natural e cultural da região de Tomar. A espeleologia desempenha um lugar de destaque nas actividades da associação, quer na sua componente científica, quer na sua vertente lúdica e desportiva, sendo periodicamente editado pelo núcleo de espeleologia da CEPPRT um boletim de divulgação, o “Morcego”. A associação tem desenvolvido trabalhos de localização e exploração de cavernas, tendo encontrado em algumas delas vestígios de ocupação humana.
A arqueologia e a protecção do ambiente têm, igualmente, lugar de destaque nas acções desenvolvidas pelo CEPPRT. De entre as actividades conservacionistas, salientam-se as organizadas em parceria com o Clube Aventura da Escola Secundária de Santa Maria do Olival, apoiadas pelo Instituto de Promoção Ambiental (IPAMB). Estas consistem na inventariação de locais poluídos da bacia hidrográfica do Rio Nabão e respectivos agentes poluidores, remoção de lixos em diversos locais (cursos de água, grutas,…) e recolha simbólica de cartuchos de caça. As actividades desenvolvidas pretendem fomentar nos alunos hábitos de preservação do meio ambiente: abordagem das problemáticas do meio onde a escola se insere; estimulo do espírito de iniciativa e de organização; consciência do papel importantíssimo, enquanto cidadãos, como agentes fundamentais de uma comunidade ecológica.
De entre as diversas iniciativas desenvolvidas pelo CEPPRT, salienta-se a limpeza de cavidades. O projecto de limpeza de grutas e algares, recorrendo a equipamento específico e técnicas de espeleologia, iniciou-se no dia 15 de Janeiro do corrente ano e irá decorrer até ao final do mês. No âmbito desse projecto, realizou-se, no passado dia 25 de Abril, a limpeza de dois algares e de uma galeria das Minas de Ouro de Poço Redondo. Para além da faceta ecológica, esta actividade proporcionou o encontro directo dos alunos com o objecto da espeleologia: as grutas e as cavidades artificiais, como as minas.
O Clube Aventura da Escola Secundária de Santa Maria do Olival e o CEPPRT formaram três “grupos de limpeza”. A um deles coube a tarefa de limpar o Algar do Montijo, situado na área da Gruta da Avescata (freguesia de Areias), já referida no Fora de Portas (jornal Forum Ambiente nº 125). O Algar do Montijo foi inicialmente designado por “Algar dos Remédios”, devido aos inúmeros restos de medicamentos que nele foram encontrados.
Findos os trabalhos de limpeza, esta primeira equipa deslocou-se até à Avecasta (vedada devido a trabalhos arqueológicos em curso) para apreciar a paisagem envolvente. Antes do regresso a Tomar, visitaram ainda um algar em Vales (freguesia de Além-da-Ribeira) juntamente com o segundo grupo. A este coube a tarefa de limpar o Algar de Casal de Baixo (freguesia de Além-da-Ribeira). Deste algar foram retirados dois contentores cheios de lixo, ficando ainda muito mais por carregar. O terceiro grupo limpou um dos poços das Minas de Ouro do Poço Redondo (freguesias da Junceira e de Olalhas). Nesse poço encontraram lixo de toda a espécie: garrafas de vidro e de plástico, panelas, bacias, objectos metálicos, animais mortos. O resultado traduziu-se em dois contentores de lixo que foram trazidos para Tomar a fim de serem depositados na lixeira municipal.
O mau hábito de transformar as cavidades em lixeiras torna-se particularmente gravoso se se tiver em conta a probabilidade de os aquíferos serem contaminados. Nos terrenos carbonatados, a grande permeabilidade contribui para o baixo poder de depuração das águas de escorrência. As populações livram-se, aparentemente, do problema do lixo mas, em contrapartida, estão a poluir as águas que utilizam.
A poluição de aquíferos devido ao lançamento de gado doente e lixo para grutas teve consequências particularmente gravosas durante a Idade Média. Para além do impacte sobre a qualidade das águas, as “lixeiras cavernícolas” atentam contra o património espeleológico sendo necessário irradicar situações desta natureza. O CEPPRT e o Clube Aventura da Escola Secundária de Santa Maria do Olival despoletaram a sensibilização para o problema e agiram no sentido da sua resolução.

18/07/2008

Espeleo, lei e ambiente

Espeleologia
Lei, actividades de ar livre e ambiente

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 129, 16 de Maio de 1997]


© Francisco Rasteiro (digitalização do jornal Forum Ambiente 1997)

As rochas, as grutas ou as montanhas têm direitos? A legislação é omissa e o tema torna-se cada vez mais actual. Em Portugal, a vanguarda do debate, entre os praticantes de actividades de ar livre, centra-se na comunidade espeleológica.

No editorial de Março deste ano da Desnivel, uma revista espanhola de montanha, afirmava-se a defesa da criação de uma “Lei de Protecção da Paisagem”, por parte de Eduardo Martínez de Pisón, montanheiro, catedrático de Geografia Física e Prémio Nacional de Meio Ambiente 1991 em Espanha. Esta lei destinar-se-ia a defender os espaços naturais que não dispõem de protecção ambiental (como as áreas protegidas) ou cultural (como os monumentos). José Luis Mendieta prossegue o seu editorial questionando o porquê de não existir uma “lei da montanha”, tal como há uma “lei de costas”, e as suas possíveis implicações com a prática de actividades de ar livre. O out-door e a legislação (inerente) foram diversas vezes debatidas, tanto em Espanha como em Portugal, e concentram actualmente as atenções.
No IV Encontro Nacional de Espeleologia, que decorreu no Palácio de Valenças (27 de Outubro de 1995), em Sintra, levantou-se a questão do impacte ambiental da prática de actividades de ar livre analisando-se a escalada e a “espeleologia” na Rocha da Pena (Algarve). Defendeu-se que o aumento do número de praticantes de espeleologia e a crescente acção dos visitantes ocasionais impunha a tomada de medidas de conservação e protecção: a regulamentação do acesso às grutas. No respeitante à escalada afirmou-se, igualmente, a necessidade de ordenamento, a fim de diminuir os impactes negativos resultantes da sua prática (nas bases, paredes e topos de vias), nomeadamente no aspecto da preservação da paisagem.
As “VI Jornadas sobre Ambiente Cársico - 10 anos de PNSAC e Património Espeleológico”, que decorreram em Porto de Mós, nos dias 12 e 13 de Dezembro do ano passado, centraram-se precisamente no conhecimento e protecção do património espeleológico. Concluiu-se que, face à evidente pressão existente no sentido da utilização de cavidades para fins sobretudo turísticos, será conveniente regulamentar o seu uso e impedir a instalação de conflitos entre os diferenciados interesses em presença. Deste modo, propôs-se a realização de esforços no sentido de sensibilizar a população residente, bem como as entidades locais e regionais, para a importância do património cársico cuja valorização pode influir decisivamente na melhoria das condições económicas e sociais a nível local.
A protecção do carso subterrâneo não pode ser dissociada dos problemas gerais do Maciço Calcário Estremenho, pelo que o ordenamento deste deverá também contemplar a regulamentação de utilização de cavidades através de mecanismos legislativos específicos. Olímpio Martins, espeleólogo do PNSAC, referiu as novas concepções metodológicas que podem passar, a título de exemplo, pela “hierarquização do uso do território espeleológico e definição dos utilizadores”.
Actualmente, torna-se urgente o conhecimento das cavernas em que é necessária uma rápida intervenção conservacionista e, sobretudo, actuar. O controlo, nomeadamente pela administração local, do uso e gestão correctas das cavidades, baseado em legislação específica, será uma medida a implementar. A Federação Portuguesa de Espeleologia (FPE) deverá potenciar o acto de federar-se e as medidas de sensibilização para a conservação do carso. O desenvolvimento, divulgação e aplicação de normas legais sobre a conservação do endocarso constituirá, certamente, o passo a dar no sentido de obviar a delapidação do mundo subterrâneo.
Os impactes antropogénicos não se limitam, porém, à área do PNSAC. As grutas do Carso do Algarve, onde a profanação de jazidas arqueológicas se continua a verificar, requerem igualmente a feitura de legislação que proteja as cavidades, jazidas e ecossistemas associados. O ano de 1997 promete a continuação do debate: a realização do V Encontro Nacional de Espeleologia, em Sintra, reserva novas tomadas de posição acerca da legislação e plein air.

© Francisco Rasteiro (digitalização do jornal Forum Ambiente 1997)

17/07/2008

Síndroma do arnês

M. Avellanas Chavala, do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital San Jorge de Huesca e D. Dulanto Zabala, do Serviço de Anestesiologia e Reanimação do Hospital de Basurto, em Bilbao, e membro da SEMAC (Sociedad Española de Medicina y Auxilio en Cavidades), são os autores de um interessante trabalho sobre o sindroma do arnês.
O trabalho, sob o título "Síndrome del Arnés. Trauma de la suspensión", é bastante completo e recomendável para todos aqueles que se dedicam à prática de espeleologia. Pode consultá-lo no endereço http://www.tic.udc.es/~nino/blog/tecnica/sindrome-arnes.pdf ou na lista de links do Spelaion, sobre "Segurança", onde também se encontram outros trabalhos sobre o tema.

[Fonte: blogue do EC/DC]

Gruta da Oliveira

Mais ossos de neandertais em Portugal

© Time Life Pictures

A equipa do arqueólogo João Zilhão descobriu, no passado sábado (13 de Julho), dois fragmentos de Homem de Neandertal (Homo sapiens neanderthalensis) na gruta da Oliveira, localizada no complexo subterrâneo na nascente do rio Almonda (Torres Novas). Trata-se de um pedaço de um úmero direito e de um fragmento do crânio, explica Zilhão, da Universidade de Bristol (Reino Unido). Fragmentos ósseos com 50 a 60 mil anos.

Os neandertais terão surgido há cerca de 300 mil anos; tendo vivido apenas na Europa e no Médio Oriente. Aos poucos, foram recuando até ao seu último reduto, a Península Ibérica, onde se extinguiram há cerca de 28 mil anos. Os motivos do seu desaparecimento são alvo de um longo debate e controvérsia entre a comunidade científica. Há quem diga que o homem moderno os dizimou. Mas também há quem defenda, como Zilhão, que os neandertais e os homens modernos (Homo sapiens sapiens) se terão cruzado entre si. Nessa linha de pensamento, os neanderthalensis terão desaparecido enquanto espécie, mas terão continuado a existir entre/através de nós por meio da reprodução.

Segundo Teresa Firmino, do jornal Público: “Em Portugal, os restos de neandertais são poucos. Limitavam-se a dois dentes isolados, um encontrado na gruta Nova da Columbeira (Bombarral) e outro na gruta da Figueira Brava (Sesimbra) e, ainda, a quatro fragmentos ósseos descobertos na gruta da Oliveira.”João Zilhão está envolvido no estudo desta última gruta há duas décadas. Por volta de 1998 encontrou um fragmento do cúbito e da falange de um Neandertal, com cerca de 43 a 45 mil anos. Em 2003 apareceu um úmero direito, com 50 a 60 mil anos. Em 2006 foi uma tíbia, também com 50 a 60 mil anos. Estes achados foram publicados, no ano passado, num artigo científico na revista American Journal of Physical Anthropology.

[Fonte: Teresa Firmino/jornal Público]

Colaride I

Espeleologia
Tarde e a más horas


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 128, 2 de Maio de 1997]

© Tiago Petinga (Forum Ambiente, 1997)

Uma conduta de águas residuais foi ligada, no início da década de 50, à Gruta-sumidouro de Colaride I, juntamente com canalizações ilegais de esgotos fabris e, porventura, domésticos. Desde então, a evolução do estado de degradação desse complexo subterrâneo tem-se incrementado, a par dos constantes alertas lançados pela comunidade espeleológica. Aguarda-se a tão desejada recuperação.

A Gruta de Colaride I, situada no Alto de Colaride (freguesia de Agualva-Cacém) a cerca de dois quilómetros a oeste do vértice geodésico do Monte Abraão, é um sumidouro activo com cerca de 500 metros de desenvolvimento e 30 metros de profundidade.
As primeiras referências sobre a degradação e contaminação da caverna datam de 1976. Nesse ano, a Associação dos Espeleólogos de Sintra (AES) despoletou uma série de acções com vista à defesa do local, nomeadamente o alerta às entidades competentes, sem, no entanto, obter qualquer sucesso. Desde 1976 até 1993, sucederam-se diversas tentativas no sentido de levar essas entidades a adoptar medidas de protecção e recuperação da gruta. Dessas diligências ficou a percepção da inércia e mesmo da negligência com que se encarou o problema. De facto, as entidades abordadas limitaram-se a salvaguardar a sua posição atribuindo as responsabilidades do sucedido umas às outras.
A Câmara Municipal de Sintra (CMS), a partir de 1993, manifesta a vontade de solucionar o problema da Gruta de Colaride I de forma eficaz e definitiva. Nesse sentido, foi elaborado um projecto conjunto de intervenção entre a AES e a CMS que foi presente em candidatura ao Programa Life. Não tendo sido considerado prioritário pela Comissão Europeia, o projecto foi reformulado com vista à sua candidatura ao Prémio Nacional de Ambiente.
Outras posições têm sido tomadas, nomeadamente a proposta de classificação do local, apresentada ao Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAAR), por iniciativa da Associação Juvenil Olho Vivo. Análises de água encomendadas pela Olho Vivo ao Instituto Superior Técnico (IST) vieram confirmar a poluição existente na cavidade.
Entretanto, encontramo-nos em meados de 1997 e a Gruta de Colaride I continua à mercê da incúria enquanto o tecido urbano de Massamá se aproxima, ano após ano, do Alto de Colaride e as descargas de águas residuais prosseguem impunemente. A CMS disponibilizou uma verba, prevista no orçamento da autarquia, para levar por diante o projecto de recuperação e preservação da Gruta de Colaride I, no entanto, na prática nada foi realizado.
A gruta mais importante da península de Lisboa, onde se assinalou a presença de espólio arqueológico, a existência de uma colónia de morcegos e cujas argilas medicinais foram apreciadas, espera por uma solução. A desejada recuperação talvez chegue um dia a Colaride, mas “tarde e a más horas”.