09/07/2008

Algar do Peno


Espeleologia
Em nome do carso profundo


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 120, 14 de Março de 1997]

Algar do Peno (PNSAC) © Tiago Petinga (Forum Ambiente, 1997)

O Centro de Interpretação Subterrâneo do Algar do Peno vai ser inaugurado no próximo dia 22. Um exemplo pioneiro de educação ambiental cuja temática se centra no endocarso.

O Algar do Peno situa-se a cerca de dois quilómetros da povoação de Pé da Pedreira, no Vale do Mar (depressão aberta no centro sul do Planalto de Sto. António), em pleno coração do Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros (PNSAC).
Quando o Peno foi descoberto, em 1985, não se podia prever o grande interesse que iria suscitar e, menos ainda, a importância dos trabalhos que aí se iriam desenrolar. Em poucos anos, esta cavidade tornou-se um autêntico marco no panorama espeleológico português: não só revelou a maior sala até agora conhecida em Portugal (aproximadamente 1400 metros quadrados de área e 100 mil metros cúbicos de volume) como constitui um laboratório subterrâneo onde se desenvolvem diversos estudos.
Uma vasta equipa de técnicos empreendeu a exploração espeleológica, levantamentos topográficos e estudos de caracterização da cavidade (geologia, biologia, paleontologia,…) recorrendo a diversas metodologias de investigação: monitorização climática e geotécnica, análises de datação, estudos de frequência das estalactites, etc.. As informações fornecidas por esses estudos, após tríadas e hierarquizadas, para além de constituírem um valor científico de interesse inquestionável, constituem uma fonte de conhecimentos ao dispor dos visitantes.
O Centro de Interpretação Subterrâneo do Algar do Peno, um projecto-piloto integrado nas Rotas Europeias do Carso, poderá ser visitado já a partir do dia 22. Verá que se trata de uma iniciativa revolucionária sem qualquer paralelo no País.
Antes da descida, os visitantes recebem capacetes equipados com um sistema de telecomentário, via rádio-receptor de cinco canais, que permite optar pelo nível técnico do discurso de acordo com a idade, conhecimentos ou formação. Tapetes retiram das solas do calçado o pó arrastado e, já no interior da gruta, é obrigatória a passagem por um tapete anti-séptico. Uma antecâmara impede o contacto entre o exterior e a cavidade, estando equipada com um sistema de sensores que permitem repor eventuais desequilíbrios causados pelas visitas. A descida à gruta processa-se através de um elevador que transporta os visitantes até cerca de 35 metros de profundidade. No interior da cavidade, lâmpadas de vapor de sódio emitem a luz estritamente necessária: fontes de iluminação frias que evitam o desenvolvimento de espécies vegetais. A maioria dos visitantes irá apenas até à plataforma de observação, colocada num ponto priviligiado da cavidade.
Segundo Olímpio Martins, espeleólogo do PNSAC, o Centro de Interpretação Subterrâneo destina-se a sensibilizar as pessoas para a preservação das riquezas do “mundo subterrâneo” dando-lhes a “conhecer a história do carso profundo”. As visitas serão ainda complementadas por passeios pedestres a estações arqueológicas de superfície que se encontram nas proximidades da gruta. Um exemplo a seguir.

08/07/2008

A grande cavadela

Ibne Ammar (Algarve) © João Varela/CEEAA (2008)

?!?!?! Nunca imaginei quando postei o Suado Milagre que ao defender uma espeleologia pró-activa a coisa pudesse ir tão longe… Se é certo que o investimento nas desobstruções é inevitável, quer na descoberta de novas grutas, quer no eventual prolongamento das já conhecidas, há ou devia haver limites balizados pelo razoável. Mas, lá está, não é por andar meses a cavar no mesmo sítio que, por milagre, aparece um algar promissor onde não o há ou uma pretensa continuação. O futuro, se se quer e pretende auspicioso e inovador, só terá um caminho a seguir: “partir pedra”, trabalhar, trabalhar, trabalhar e, já agora, acreditar. Mas vamos com calma… Neste caso pretende-se a partir do nível médio das águas do mar atingir o centro da Terra ou, simplesmente, praticar actividade física através do acto de cavar, digamos, desalmadamente? Se se tratar da primeira opção seria útil dispor de maquinaria mais “abrasiva” e dificilmente se iria muito mais além de uma dezena de quilómetros de profundidade o que, para efeitos práticos, é manifestamente insuficiente face aos seis mil e tal quilómetros do raio da Terra! Na segunda hipótese seria interessante praticar essa actividade noutro local, talvez mais ensolarado, onde os impactes da mesma fossem positivos. E até se poderia juntar o útil ao agradável, nessa actividade da “cavadela” ganhando algum dinheiro no ramo da agricultura ou, simplesmente, a abrir e a tapar buracos (algo muito frequente no nosso país). Pensando melhor talvez estejam em busca de algum tesouro ou abrindo uma regueira, resta saber para quê... A Ibne Ammar já foi vítima de muitas barbaridades e já seria altura de ter algum descanso, mas tal não se perspectiva. Ainda para mais quando se colocam placas indicadoras da sua localização e que atraem certamente inúmeros curiosos!

Ibne Ammar (Algarve) © João Varela/CEEAA (2008)

Antes analfabetos

A Gruta dos Arrifes é das mais interessantes do carso algarvio. Infortunadamente, tal como tantas outras, encontra-se bastante degradada. A destruição de concreções é por demais notória, mas o que nos motivou esta posta são as inúmeras inscrições que se encontram nas suas paredes. É caso para dizer: antes fossem analfabetos. Pode ser, no entanto, que esses testemunhos presenciais, do tipo "mija de (de)marcação do território", possam servir para qualquer coisa. Daria certamente um interessante estudo de caso no dominio da sociologia ou outro... Aqui fica uma pequena mostra. Que tal?

Arrifes (Algarve) © Pedro Cuiça (2008)
Arrifes (Algarve) © Pedro Cuiça (2008)
Arrifes (Algarve) © Pedro Cuiça (2008)

Arrifes (Algarve) © Pedro Cuiça (2008)

À mercê da destruição

Espeleologia
Grutas algarvias à mercê da destruição

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 119,7 de Março de 1997]

© Marcelo Vigneron (Forum Ambiente, 1997)

A espeleologia é uma ciência-desporto que se dedica ao estudo e exploração de cavernas naturais. A componente meramente desportiva tem deixado as suas marcas. A componente científica é praticamente inexistente. As acções antrópicas ficam para quem quiser ver.

A Orla Mesocenozóica Algarvia apresenta um rede de drenagem superficial pouco desenvolvida, uma quase ausência de cursos de água de caudal permanente e a ocorrência de perdas (sumidouros) e ganhos (exsurgências). A importância da drenagem criptorreica em detrimento da drenagem superficial, associada a uma geomorfologia peculiar, que surge essencialmente no Barrocal (lapiás, dolinas, uvalas, polges, canhões, algares, etc.), permite definir o Carso Algarvio ou Carso do Algarve: a segunda maior extensão de terrenos carbonatados do País.
Os geógrafos do final do século XIX deram o nome de “karst” (carso) às áreas onde a hidrologia subterrânea (hidrogeologia) e os fenómenos de dissolução desempenharam um papel preponderante na modelação do relevo.
O Carso Algarvio apresenta em determinadas áreas inúmeras grutas que se encontram sujeitas a uma degradação, desde há anos, devido a incursões antrópicas, sendo fundamental a sua protecção. O surgimento da espeleologia em Portugal (podemos considerar o seu início coincidente com a fundação da Sociedade Portuguesa de Espeleologia, em 1948) pouco contribuiu para o conhecimento e o estudo das cavernas algarvias.
Os grupos de “espeleologia” algarvios pouco fizeram: sempre se verificou a ausência de um plano regional de trabalho e a falta de cooperação entre grupos, fracos em recursos económicos e quadros. A ausência de cursos de espeleologia, de nível académico, aliada a uma inexistência de legislação que foque as grutas do nosso País, implica que o baixo nível científico da generalidade dos “espeleólogos” provoque a degradação de grutas. Uma mesma gruta é várias vezes visitada e “estudada” por diversos grupos que efectuam, em geral, a inventariação da cavidade, a qual difere geralmente de grupo para grupo. Não raras vezes devido à inconstância existencial desses grupos, os inventários perdem-se ou ficam inacessíveis no olvido das gavetas das suas sedes.
Se alguns “espeleólogos” degradam as grutas sem intenção de o fazerem, a acção dos “curiosos” é muito grave e, por vezes, propositada: a obstrução de cavidades por meio de blocos, o arrancar de concreções, a perturbação e mesmo a morte de morcegos, os graffiti nas paredes, o lixo deitado ou deixado nas grutas são alguns dos factores que degradam as formas endocársicas algarvias e os ecossistemas associados.
A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a determinadas grutas, a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em alguns mapas e guias turísticos e serem de fácil acesso, tem vindo a degradá-las de maneira rápida e irreversível. A situação actual do endocarso algarvio, leva-nos a afirmar que um conjunto de cavidades estão em risco de se tornarem “galerias estéreis”. É caso para dizer: longe da vista, longe do coração.

07/07/2008

Suado milagre

Carso algarvio © Pedro Cuiça (2008)

Espeleo-materialismo ou espeleo-religiosidade? - eis a questão. Numa época em que grassa um certo ateísmo, será conveniente ter alguma crença? Claro que sim. Mesmo que o assunto não se preste a crendices ou nem se trate de um assunto de fé! Há grutas, e pronto. Para ser mais explicito, mais preciso, há mais grutas do que as que se conhecem (ponto).
Que mais não seja, e ponhamos as coisas nestes termos, será de todo conveniente estar motivado, ter alguma motivação… acreditar em algo. É certo que hoje em dia há certas pessoas que fazem gala em arvorar o seu materialismo, talvez as mesmas que buscam conforto em literaturas de cordel baseadas em consensos caninos ou obvias charlatanices, num pseudo-posicionamento pós-moderno eivado de preconceitos e atitudes pavlovianas. Enfim… isto para chegar à questão das campanhas de prospecção, descoberta de novas grutas e provas do género “a minha é maior que a tua”.
As grutas estão lá, basta só dar com elas! Tão simples como isso, não fosse o facto disso dar trabalho, ter custos e nem sempre ser fácil. Depois, será necessário acrescentar que, nesse pressuposto, não basta apenas ter uma atitude de meia bola e força. E muito menos de estática ou inerte passividade. Isto porque uma abordagem do tipo pega de caras pode dar azo a uma estonteante marrada em pedra dura. E arranques em força explosiva são fífias de ínfima duração. Por outro lado, esperar que as grutas nos caiam do céu, sem nada fazer, é crença demasiado desajustada para merecer comentários. Apesar de tudo já ser possível (será?), dificilmente se descobrirá uma gruta enquanto se faz zapping frente ao televisor.
É necessário apostar numa espeleo pró-activa… A prospecção é fundamental e não esqueçamos que ainda existem áreas bastante promissoras e pouco, ou nada, prospectadas. Pelo menos, como deve ser... Com olhos de ver. Por outro lado, o investimento nas desobstruções é inevitável, quer na descoberta de novas grutas, quer no eventual prolongamento das já conhecidas. Mas não é por andar meses a cavar no mesmo sítio que, por milagre, aparece um algar promissor onde não o há. O óbvio já é conhecido, restando agora o mais difícil, o oculto, aquilo que se encontra escondido. Portanto, moral da história: o futuro, se se quer e pretende auspicioso e inovador, só terá um caminho a seguir: “partir pedra” com método, disciplina e rigor. Trabalhar, trabalhar, trabalhar e, já agora, acreditar. Mesmo para aqueles que não tenham fé. Mas, mesmo esses, que tenham, numa atitude mística, alguma fezada. Antes isto do que nada! Para os outros, aqueles que ainda têm a capacidade de acreditar ficam as palavras animadoras que São Mateus tão bem soube verter no Novo Testamento: “Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois quem pede recebe; e quem procura encontra; e ao que bate abrir-se-á.” Mais: “(…) nada há de encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a ser conhecido.” Deus é grande e misericordioso para com os pobres, os fracos e os oprimidos - há quem diga.
"La tentation panthéiste est trop forte, le monde souterrain trop formidable pour que je me sente ailleurs qu’au cœur même de la divinité. J’aime à dire qu’Il est un vieux spéléologue et que nous nous connaissons depuis longtemps pour qu’il y ait quelque chose de caché entre nous. Cependant, lorsque la peur et la responsabilité pèsent trop lourd, on redevient un enfant capable de prier. Capable de louer Notre Père qui est aussi sous terre…" (Queffélec, 1994).
Por último, será bom lembrar que a inveja é um dos pecados mortais. Benza-nos Deus!

04/07/2008

Costa Azul I

Nas entranhas do Cabo Espichel

[Texto: Micael Pereira, Fotografia: Francisco Rasteiro · revista Forum Ambiente nº 24, Março 1996]

A ponta do Cabo Espichel é oca. É a descoberta espectacular protagonizada por Francisco Rasteiro, o homem que travou a luta em defesa da Gruta do Zambujal, em Sesimbra, e que agora se arrisca a entrar para a história da espeleologia em Portugal. A reportagem exclusiva da Forum Ambiente.

Grande Falha (Arrábida) © Francisco Rasteiro

É quinta-feira, 11 horas da manhã, conto eu no relógio. Provavelmente só saberei de novo as horas muito tempo mais tarde, quando estiver de regresso. O vento é só quase uma brisa, apesar de estar na ponta do Cabo Espichel e apesar de ser Outono. Já não vinha cá há tanto tempo que não me lembrava de como este sítio é alto. O que são cem metros de altura em teoria ou ditos de boca? Tive um professor que me disse uma vez que isso das noções das distâncias e das medidas, os portugueses estão muito mal servidos, que não há nada como os ingleses, que ao mesmo tempo que aprendem os “dois mais dois igual a quatro” também são educados para a noção das medidas. Em polegadas, claro.
Mas eu não sou inglês. Talvez por isso tenha aceitado tão facilmente o convite de Francisco Rasteiro para uma viagem inédita ao coração do Cabo Espichel, apesar dele ter me avisado sobre os 30 metros de rappel.

Cabo Espichel (Arrábida) © Francisco Rasteiro

Água mole em pedra dura…
O nó na barriga começou logo quando avistei o mar, lá em baixo. O programa para o dia consistia na visita de uma das duas grutas descobertas no Cabo Espichel por Francisco Rasteiro e mais três elementos do recém-criado Núcleo de Espeleologia da Costa Azul. Desperdiçámos os quilómetros de estrada de Sesimbra até ao Cabo em conversas sobre tipos de calcários e indícios de falhas e de algares.
O calcário J-3 (classificação usada nas cartas de geologia), do período Jurássico superior, indica na Arrábida calcários cristalinos, favorecendo a hipótese de encontrar formações de grutas. Depois, com a ajuda preciosa do conhecimento cartográfico das linhas de água e de como elas convergem ou divergem para o mar, é possível perscrutar os locais onde as possibilidades são mais fortes. É que os algares, por exemplo, são formados com a força da água. Que bate levemente durante milhões de anos, mas tanto bate até que fura, originando túneis de rocha bem consolidados.
Francisco Rasteiro passou todo o ano em reconhecimentos exaustivos da Costa Azul. Tanto esmiuçou que fez mais de uma dúzia de descobertas, a maior parte ainda em fase de exploração.
Desde 1988 que Rasteiro faz fotografia. Em 94, surgiu o interesse pela espeleologia, por brincadeira quase. Primeiro, foi a visita que fez à gruta dos morcegos, na Arrábida, em Junho desse ano. Depois, numa noite de Agosto, visitou a gruta da Nossa Senhora do Cabo, no Zambujal. Foi experiência que chegasse para o impressionar, nascendo a partir daí a sua paixão pela actividade.
Ponta do Cabo Espichel. Vestidos a rigor com fato-macaco e cinto a aconchegar-nos a bacia, descemos os primeiros 40 metros inteiramente de mãos livres. Só os pés se mantêm ocupados com as pequenas pedras, que de vez em quando rolam. Ao todo, somos quatro. Rasteiro e Cândido vão à minha frente, como que a apalpar o caminho. Hugo Jorge, com a alcunha de Fininho, vai atrás.

Uma descida inesquecível
O mar está agora mesmo lá em baixo, todo a pique. Contornamos a falésia, a 50 metros de altura do nível do mar. “Isto é fácil, a regra básica é ter sempre três pontos de apoio seguro”, diz-me Francisco Rasteiro, a querer, frustradamente, tranquilizar-me. Alguns metros depois, e chegamos à primeira paragem, uma plataforma rochosa. Na verdade, estamos na Lapa das Pombas, que é o nome que os pescadores da zona dão a este buraco no meio da falésia, com cerca de quatro metros de diâmetro.
Do lado de dentro, deparamo-nos com uma galeria de 50 metros de diâmetro e uma cúpula a outros tantos metros de altura, com o mar a oferecer, na sombra formada pelo tecto de rocha, “bifas” às paredes interiores de calcário. Estamos já na Garganta do Cabo.
Com uma espécie de broca manual, Cândido fixa na rocha dura as buchas (spits) que em princípio vão suportar a corda de rappel e, sobretudo, os nossos pesos. Aproveito para me sentar, na tentativa de parar o tremelique das pernas, enquanto observo aquele ritual do martelo a aflorar apenas a superfície da rocha. A bucha não vai além dos cinco milímetros de perfuração, mas garantem-me que está segura.
O início da descida é uma experiência traumatizante. Lancei-me no vazio, de costas. Mais do que os olhos, os pés, apoiados na parede coberta de terra húmida, guiam-me o caminho. São trinta metros de rappel, com uma mudança de corda pelo meio. O último lance foi o mais difícil. Uma reentrância no lado direito da parede, que tento evitar a todo o custo, leva-me a, inadvertidamente, rodar sobre mim mesmo. As costas batem, sem grande impacto, na parede, e é assim de frente para o precipício, que alcanço o segundo patamar da viagem.
Ainda a vinte metros de altura do mar, que se revolve vigorosamente, o suor já escorre pelas nossas caras. Ficou decidido que almoçaríamos algumas sandes nesta plataforma, na verdade apenas um amontoado de pedras grandes.
Dentro da garganta, a parede do lado esquerdo, para quem olha da entrada da Lapa das Pombas, oferece-nos ainda a luz diurna e esconde duas galerias, apertadas próprias para praticar contorções e lentos rastejares na rocha, tudo à imagem e semelhança que se tem da espeleologia.
Depois de uma sandes de atum e um cigarro a fingir de digestivo, subo, logo a seguir a Francisco Rasteiro, por uma corda onde, de meio em meio metro, há uma argola também de corda que, percebo agora, serve-me como única forma para não me estatelar entre uma “bifa” e as rochas lá em baixo.

Um tesouro subterrâneo
A entrada da primeira galeria, uma falha horizontal a pelo menos trinta metros de altura, é estreita. Entramos deitados. Cândido experimenta a lanterna de halogénio, que mostra dar problemas na ligação à bateria. Esta possui um corpo independente e é levada a tiracolo. Agora, já na segunda sala, a escuridão seria total não fosse a luz do halogénio. Avisam-me que, mais à frente, é preciso subir por um algar, para ter acesso à sala principal. Já se vêem estalactites e excêntricas pelo tecto. No chão, as estalagmites são poucas.
É estafado (mas ao mesmo tempo tranquilo e já habituado ao cheiro a bafio que senti logo no inicio da galeria) que chego com os meus colegas de viagem à maior das salas, ao fim de 20 metros de comprimento, certamente mais se se considerarem os metros gastos nas pequenas subidas rastejadas. Segundo me dizem, este compartimento constitui uma nave lateral, pressupondo uma nave central para lá da fronteira de calcário cristalino. A sala sofre uma inclinação acentuada de mais de 45 graus. Mesmo no topo, na junção da parede com o tecto, as estalactites chegam quase aos 50 centímetros de comprimento. Todo o cuidado é pouco para evitar quebrar uma destas preciosidades.
Mas a surpresa encontrada vai para uma formação que nem na gruta do Zambujal - que os especialistas dizem contar raridades e é considerada das mais importantes da Europa - existe. A formação, que ainda não tem nome, é composta por milhares de pontículos cristalizados e possui uma geometria abaulada. É o grande orgulho do grupo de espeleólogos.

Adeus ao centro da Terra
O caminho de volta é bastante mais fácil, por já o conhecer. Francisco Rasteiro baptizou esta cavidade de Galeria do Vácuo. Uma vez lá dentro, a sensação nos ouvidos é igual àquela que se tem numa viagem de avião.
Foi preciso retomar a tortuosa corda das argolas, desta vez em sentido descendente, para visitar a segunda galeria. Menos impressionante, esta galeria ainda aguarda o processo de fossilização. Sem formações, a argila é a característica mais abundante. Há um algar, sempre a subir, a que ainda não descobriram o fim. A teoria é simples: se há um algar, formado por uma linha de água, há também, segundo dizem os livros, alguma coisa do outro lado, uma passagem anterior que permitiu à água escorrer. Só que o túnel é apertado. Nestas situações, ser magro equivale a tornar-se o batedor-mor. A explicação é evidente: quanto mais magro, melhor, e o Fininho sabe disso.
Dezasseis horas da tarde, ponta do Cabo Espichel. Já refeitos da descida, fato-macaco despido, a conversa acerca-se agora de outras descobertas. Mais de uma dúzia de grutas inéditas ao longo da Costa Azul estão a ser exploradas pela primeira vez por Francisco Rasyeiro e seus colegas, que entretanto formaram o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul. Agora, esperam-se alguns apoios por parte das entidades competentes na área.
E, para poder suportar as actividades do Núcleo, Francisco Rasteiro pensa criar passeios de barco pela costa, à mistura com algumas visitas nas grutas mais atractivas. Por aqui, no Cabo Espichel, ficou por visitar a Grande Falha, outra gruta descoberta pelo grupo de espeleólogos. Promessa feita para a próxima viagem. A entrada exterior fica a 110 metros de rappel de distância e eu já gastei a coragem toda que tinha para um dia.

Arrábida © Francisco Rasteiro


O que aconteceu à Gruta do Zambujal?

[Texto: Micael Pereira, Fotografia: Francisco Rasteiro · revista Forum Ambiente Março 1996]

De Agosto a Novembro de 94, não houve semana que passasse sem que a gruta do Zambujal recebesse a visita de Francisco Rasteiro. Foi ele também que trouxe aquele Sítio Classificado novamente à ribalta da comunicação social, se bem que pelos piores motivos. Na altura, a revista Forum Ambiente publicou, em primeira mão, fotografias da gruta da Nossa Senhora do Cabo tiradas pelo recém-espeleólogo, acompanhadas da denúncia de que uma pedreira a lavrar a poucos metros estava a decretar a morte daquela cavidade.
O impacto das explosões de dinamite, constantes numa frente de lavra, punham em sério risco as bonitas e raras formações fossilizadas dispersas pelo interior. A comunidade geóloga deitou mãos à cabeça, a Quercus arregaçou as mangas, o Instituto de Conservação da Natureza, responsável pelo Sítio Classificado, não soube o que fazer, acusado por todos os lados de inoperância e, no meio de tudo isto, veio a lume uma história curiosa. Soube-se que a gruta é propriedade da Sociedade Grutas Nossa Senhora do Cabo SA que, por sua vez, tem como accionistas a Câmara Municipal de Sesimbra e uma empresa de nome Jovigruta, accionista maioritária e propriedade de José Galo, o dono da pedreira em causa.
Quem responde pela Jovigruta é o genro de José Galo. A intenção da Sociedade Grutas Nossa Senhora do Cabo é de explorar a gruta do Zambujal na perspectiva turística, um pouco como acontece nas grutas de Santo António e de Mira d’Aire. Foi feito um projecto em que a gruta se moldaria a um espaço de visita, com corredores e holofotes. Mas, quando um pedido de financiamento europeu na ordem das centenas de milhar de contos foi recusado, o processo ficou suspenso. Bem, não completamente suspenso. Na pedreira de José Galo, a exploração continuou normalmente, a poucos metros da gruta, apesar da consciência plena da importância do património natural ali mesmo ao lado e apesar do estatuto de Sítio Classificado.



Núcleo de Espeleologia da Costa Azul

[Texto: Micael Pereira, Fotografia: Francisco Rasteiro · revista Forum Ambiente Março 1996]

Arrábida © Francisco Rasteiro
O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) foi oficialmente criado em 24 de Outubro de 1995. Tem a presidir a Assembleia-Geral o professor Carlos Sirgado, da Faculdade de Letras de Lisboa, e a presidir o Conselho Científico Paulo Marques, da Associação de Espeleólogos de Sintra. A criação do NECA partiu da iniciativa de Francisco Rasteiro e tem por filosofia a “protecção do ambiente, especialmente do ambiente cársico, e o desenvolvimento da espeleologia, à qual se junta uma inevitável componente de desporto”. Segundo Francisco Rasteiro, “o importante é descobrir novas grutas. Depois tudo pode acontecer, só resta cavar na lama”. Do trabalho realizado pelo NECA em pouco mais de um ano resultaram doze descobertas localizadas na região da Arrábida.

Garganta do Cabo
Descoberta em 29 de Agosto de 1995.
Localização: ponta do Cabo Espichel.
Visitada pela Forum Ambiente. A sua descrução vem no texto principal.

Grande Falha
Descoberta em 30 de Setembro de 1995.
Localização: ponta do Cabo Espichel.
Formações: não tem.
A Falha Norte é uma gruta tectonizada e dobrada. Foi preciso primeiro fazer quatro incursões à Garganta do Cabo, para só depois explorar a Grande Falha. Entrada extremamente difícil, com 110 metros de rappel em parede vertical, sobre a rebentação do mar. Esta gruta contém um reservatório de água doce, sem corrente, apesar da grande proximidade do mar. O percurso pelo reservatório é feito num pequeno barco de borracha.
A Grande Falha é, na verdade, constituída por três diferentes falhas: a Falha Norte, com 250 metros de comprimento e 4 metros de profundidade, onde passa o rio subterrâneo, a Falha das Esferas, com 120 metros de comprimento e 6 metros de profundidade, e a Falha Sul, com 150 metros de comprimento.
A entrada da Grande Falha é feita pela Falha do Norte. Os últimos 100 metros desta falha são em blocos de calcário e lama. A altura aqui chega a atingir os 60 metros. No tecto pode-se observar uma colónia de cerca de mil morcegos que os exploradores do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul julgam ser das espécies Morcego-de-peluche (Miniopterus schreibersii) e Morcego-pequeno-de-ferradura (Rhinolophus hipposideos). Também colocam a hipótese de haver morcegos da família dos rinolofídeos (Rhinolophidae).
A Falha das Esferas também possui um curso de água. Como o tecto tem uma abóbada a dois ou três metros de altura, donde parte, para cima, uma fenda longitudinal muito estreita. São algumas esferas de calcário do Jurássico superior existentes nesta falha que lhe dão o nome.
A Falha Sul tem já a sua água salobra ou salgada. A sua entrada fica a pouco mais de um metro do nível do mar, anulando-se essa diferença no seu interior.

Lapa das Conchas
Localização: Portinho da Arrábida
Tipo: conduta forçada (já foi um curso de água).
Formações: estalactites, micro-excêntricas, gours (prismas e dentes), medusas, bandeiras, colunas, cascatas.
Situação actual: desobstrução de areias calcificadas. 35 metros de comprimento, 3 metros de altura no máximo.

Lapa das Areias
Localização: Portinho da Arrábida.
Tipo: conduta forçada.
Formações: estalactites, excêntricas.
Situação actual: não se vê continuação. Desobstrução difícil. Possui três camadas diferentes de areia.

Lapa Verde
Localização:
Portinho da Arrábida.
Tipo: falha.
Formações: não tem.
Situação actual: nada mais para desobstruir. Entrada a um metro do nível do mar, 40 metros de comprimento, 4 metros de largura e 3 metros de altura.

Lapa da Estrada
Localização: Serra da Arrábida.
Tipo: falha tectonizada.
Formações: bandeiras e couve-flor.
Situação actual: em exploração. Entrada apertada, 50 metros de comprimento, 2 metros de largura e 20 metros de altura. Gruta com estrutura labiríntica.

Algar das Aranhas
Localização: Serra da Arrábida.
Tipo: algar.
Formações: bandeiras e couve-flor.
Situação actual: desobstrução a decorrer. 50 metros de comprimento e 2 metros de largura.

Gruta do Xico
Localização: Monte Formosinho, Arrábida.
Formações: formações de araguitos (tipo gesso).
Situação actual: a desobstruir, 20 metros de comprimento, algar com 15 metros de profundidade.

Algar de S. João do Deserto
Localização: Serra da Arrábida.
Tipo: algar.
Formações: bandeiras (de 12 metros).
Situação actual: a desobstruir. Algar com 18 metros de profundidade e um metro de largura. Possui dois poços, um com 12c metros e outro com 6 metros de profundidade.

Gruta de Vale Figueira Brava
Localização:
Portinho da Arrábida.
Tipo: falha tectonizada.
Formações: não tem.
Situação actual: a explorar. Entrada com 1.5 metros de largura, 40 metros de comprimento e 70 metros de profundidade.

Algar da Cobra
Localização: Serra do Risco.
Tipo: algar.
Formações: não tem.
Situação actual: a desobstruir. 3 metros de profundidade e um metro de largura.

Lapa do Mosquito
Localização: Ribeiro do Cavalo.
Tipo: diacláse com conduta forçada.
Situação actual: desobstrução a decorrer. 30 metros de comprimento, 7 metros de largura e 3 metros de altura.

Espeleologia e prospecção
Na senda de novas grutas

[Texto: Pedro Cuiça, Fotografia: Francisco Rasteiro · revista Forum Ambiente Março 1996]

A espeleologia, como ciência-desporto que estuda as cavernas, encerra uma componente rara nos dias de hoje: a descoberta. Com efeito, ainda é possível ter a imensa alegria de descobrir novas cavidades, salas inexploradas ou galerias cujo silêncio permaneceu imperturbável.
As grutas são cavidades naturais de dimensões e morfologia variáveis que se formam, geralmente, por acção das águas de escorrência (exceptuando as cavernas vulcânicas), em diversas rochas.
Desde os túneis de lava às grutas de gelo em glaciares de montanha, até às rochas graníticas, existe uma ampla variedade de tipos de cavidades. No entanto, as rochas carbonatadas (calcários, dolomias, etc.) são, por excelência, o meio onde as cavernas expressam o seu maior desenvolvimento, complexidade e abundância.
As características físico-químicas das rochas condicionam os processos erosivos (alteração e transporte) responsáveis pela génese da grande maioria das grutas. A solubilidade do carbonato de cálcio - sob a forma de bicarbonato de cálcio - em presença de águas com dióxido de carbono e/ou ácidos (normalmente orgânicos) em solução é uma propriedade das rochas carbonatadas que explica o relevo peculiar associado a essas litologias: a geomorfologia cársica.
Aqui reside a diferença fundamental entre um calcário relativamente puro (rico em carbonato de cálcio) e um granito ou mesmo um arenito de cimento carbonatado. Em condições favoráveis, a arenização de rochas graníticas, por alteração dos feldspatos (minerais constituintes dessas rochas) poderá originar depressões pseudocársicas (“dolinas” e “uvalas”) e formas lapiares menores (caneluras, escudelas de dissolução, etc.).
No entanto, as rochas cuja meteorização (ou alteração) produz um resíduo sólido considerável apresentam as fracturas colmatadas com tendência para a impermeabilização do terreno e consequente predomínio da escorrência superficial. Pelo contrário, nas rochas carbonatadas, em que os resíduos de descalcificação representam uma pequena quantidade do volume total da rocha dissolvida, ocorre um alargamento das fracturas (diáclases, falhas e/ou juntas de estratificação) com consequente aumento da permeabilidade e drenagem subterrânea (ou criptorreica).
Constatamos que a litologia desempenha um papel primordial quando se procede a uma prospecção de uma determinada região. Assim, os espeleólogos recorrem frequentemente a cartas geológicas (geralmente na escala 1/50 000), a fim de conhecerem as litologias, atitude dos estratos, localização de falhas ou outras informações acerca da região em causa.
O recurso a fotografias aéreas e à estereoscopia, nomeadamente para localizar falhas ou depressões fechadas (dolinas, uvalas, polges) também é de grande utilidade na descoberta de cavernas. A consulta de cartas corográficas ou topográficas (nas escalas 1/25000 ou 1/50000) para a análise das formas do relevo ou toponímia são igualmente de grande interesse. A bibliografia e as populações também poderão fornecer indicações preciosas sobre a localização de grutas.
No maciço da Arrábida, por exemplo, uma campanha de prospecção iniciar-se-ia nos calcários cristalinos do Lusetaneano e/ou nas dolomias cristalinas com intercalações de calcário do Bajociano. Dever-se-ia, também, ter em atenção a rica toponímia da região: Calhau da Cova, Cova da Mijona, Cova da Raposa, Praia da Cova, etc.. Por outro lado, à morfologia cársica sobrepõe-se a morfologia costeira, responsável pela formação de diversas cavernas: Lapa do Bugio, Lapa do Piolho ou da Furada, Lapa do Fumo, etc..
Saliente-se que toda a prospecção pressupõe uma atitude de respeito pelo mundo subterrâneo, pois colocar a primeira pegada numa caverna é um acto de responsabilidade.
Arrábida © Francisco Rasteiro

03/07/2008

Aniversário do CEEAA

J. Humberto Viegas na Ibn-Ammar (Algarve) @ CEEAA (1978)

Cerro da Cabeça © CEEAA (anos 70)

O Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA), sedeado em Faro, comemora, no próximo fim-de-semana, 30 anos de existência. O evento vai reunir os sócios do Centro, para além de membros de outras associações de espeleologia algarvias, em torno da comemoração de três décadas de espeleologia organizada na região. O evento irá contar com a presença de membros do ex-Núcleo de Espeleologia do Circulo Cultural do Algarve (NECCA) e do Centro de Estudos Subterrâneos de Lagos (CES).
No sábado (5 de Julho) realiza-se, durante a manhã, a Assembleia-Geral do CEEAA, a que se seguirá uma tarde de convívio. No domingo (6 de Julho) está prevista a descida de várias grutas, por diferentes equipas, no Algarve Central. E, depois do almoço, segue-se uma apresentação de palestras sobre a história do CEEAA e a espeleologia no Algarve, para além de outros temas.

Cerro da Cabeça @ CEEAA (2005)

Gruta da Bita (Algarve) @ CEEAA (2006)

Zambujal I

Gruta do Zambujal
Porque está a ser destruída?


[revista Forum Ambiente nº 11, Fevereiro 1995 ● Texto: António Martins, Fotografia: Francisco Rasteiro]

Descoberta em 1979, a Gruta do Zambujal foi, na altura, protegida com o estatuto de Sítio Classificado e lentamente votada ao esquecimento. Até que a exploração de uma pedreira começou a pôr em risco um património raro. As inúmeras entidades envolvidas mostram-se preocupadas mas, à falta de medidas, formações calcárias únicas vão desabando e abatendo todos os dias. Agora.

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1995)


Dezasseis anos após a sua descoberta acidental, a Gruta do Zambujal está em risco de desaparecer. Embora declarada oficialmente Sítio Classificado e detentora de um património geológico de raro interesse científico e estético, a laboração de uma pedreira vizinha ameaça a integridade das formações do seu interior. Neste momento, poucas semanas depois de terem sido tiradas estas fotografias, muitas destas delicadas esculturas naturais já não existem. Será ainda possível salvar a Gruta do Zambujal? Responder a esta pergunta é questionar a indústria de extracção de rocha calcária no complexo da Serra da Arrábida, desde Setúbal ao Cabo Espichel. Nesta zona, os problemas relacionados com a compatibilização desta actividade industrial com a gestão do património natural têm-se vindo a acentuar, particularmente na área do Parque Natural da Arrábida, onde laboram pedreiras cujas concessões de exploração são anteriores à criação da área protegida. Embora não se situando no interior do território do Parque Natural da Arrábida, a Gruta do Zambujal, como Sítio Classificado que é, deu azo, há cerca de dois anos, a uma intervenção do Ministério do Ambiente e Recursos Naturais, quando foi proibida a utilização de detonadores micro-retardados na pedreira vizinha, concessionada ao industrial sesimbrense José Marques Galo. Em causa estavam os danos que as explosões provocadas por este tipo de detonadores causavam no interior da Gruta do Zambujal. Agora, quando a frente de extracção se aproxima do limite entre a área concessionada e o território do Sítio Classificado, a própria laboração com camiões e retro-escavadopras provoca vibrações incomportáveis para a resistência das formações calcárias da Gruta do Zambujal, desaparecendo, cada dia que passa, um valiosíssimo e desconhecido património.
Largas secções do tecto das salas mais superficiais têm abatido nas últimas semanas, alterando a ainda inexplorada topografia interna da gruta e levando, na sua derrocada, estalactites e estalagmites. As frágeis extremidades destas formações encontram-se, na sua maioria, fracturadas e truncadas e, nos locais de maior devastação, é possível ver estalagmites tombadas com mais de dois metros de altura e com um diâmetro de muitos decímetros - fruto de um lento trabalho, gota-a-gota, de várias dezenas de milénios.
Nem sempre foi assim, porém. Ironicamente, a Gruta do Zambujal foi descoberta durante uma exploração mineira, em 1978. Alertadas as autoridades, a concessão foi extinta e a empresa concessionária, a Tecnobrita, foi compensada com um terreno equivalente na Serra da Achada.
Medida similar poderia agora salvar de novo a Gruta do Zambujal, com uma acção conjunta do Instituto Geológico e Mineiro (organismo estatal dependente do Ministério da Indústria e Energia, que atribui as concessões mineiras) e o Instituto de Conservação da Natureza (dependente do Ministério do Ambiente e Recursos Naturais que coordena a gestão das Áreas Protegidas). São processos morosos, mas a potência das máquinas e a fragilidade da gruta exigem uma acção imediata!
Da parte da população local, há uma consciência generalizada da existência e do valor da Gruta do Zambujal, fomentada talvez pelo seu (apenas imaginado) potencial para o turismo. Após a descoberta, chegou a planear-se um aproveitamento deste género, mas cedo esse projecto foi abandonado, alegadamente por não existirem condições para o efeito pretendido - o que não deixa de ser estranho, uma vez que se trata da maior gruta a sul do Tejo - e de cujo magnífico interior, estas fotografias, se não se agir a tempo, serão um dos últimos testemunhos.

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1995)

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1995)

Como se forma uma gruta?

[revista Forum Ambiente nº 11, Fevereiro 1995 ● Texto: Pedro Cuiça, Fotografia: Francisco Rasteiro]

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1995)

A formação de uma caverna inicia-se com escorrência das águas em regime confinado, isto é, sob pressão. Essa escorrência turbulenta cria formas de erosão mecânica e faz com que as rochas se encontrem polidas. Devido ao continuo alargamento das condutas ou à descida do nível de base, passa-se a regime de escorrência livre, a “céu aberto”, tal como nos cursos de água superficiais, ao longo de um talvegue. As condutas evoluem para secções com formas que evidenciam o encaixe dessas linhas de água nos seus leitos e geralmente registam-se fenómenos de abatimento de partes do tecto das galerias ou salas devido à diminuição de pressão a que ficaram sujeitas.
A génese e evolução de uma caverna poderá ser traduzida, de uma forma simplista, através de um modelo, considerando que esta passa por uma fase juvenil, uma fase de maturidade e uma fase de senilidade (ou fossilização). Na realidade, o que se verifica normalmente é a coexistência dessas fases em carsos* que apresentam um cero grau de evolução. Assim, temos uma zona fóssil, perto da superfície, uma zona semiactiva, a profundidade intermédia, com escorrência em regime livre podendo verificar-se temporadas em regime confinado, e uma zona activa, geralmente a profundidade considerável, onde as condutas se encontram totalmente preenchidas por água.
As concreções existentes em muitas grutas conferem, por vezes, uma rara beleza ao “mundo subterrâneo”; cavernas maravilhosamente ornadas são por isso exploradas para fins turísticos ou contempladas por medidas proteccionistas devido a possuírem um grande interesse geoespeleológico (caso da Gruta do Zambujal).
A água procedente de fissuras, ao atingir a atmosfera das cavidades, liberta parte do dióxido de carbono que transporta, devido à diminuição de pressão, provocando a deposição de carbonato de cálcio. Assim, por um literal fenómeno de gota-a-gota, geram-se as estalactites. A junção de diversas estalactites ou a escorrência ao longo de uma fissura poderão originar bandeiras ou outras formas mais complexas. A queda de gotas no chão de cavidades poderá, por sua vez, originar estalagmites.
As estalactites tubulares apresentam geralmente uma estrutura oca e crescem de cima para baixo, ao contrário das estalagmites que apresentam uma estrutura maciça e crescem em sentido oposto. Da sua junção resultam as colunas ou colunatas.
A escorrência de água, em regime laminar ao longo das paredes, origina a deposição de mantos calcíticos, por vezes com presença de microgours, estruturas esféricas aos cachos, ou pontiagudas, ou de outras formas. A lenta evaporação de águas em gours, ou mesmo lagos, pode fazer com que essas “bacias”funcionem como “cristalizadores”. As paredes e fundo dessas depressões, que secaram totalmente, podem encontrar-se completamente atapetadas por cristais de calcite e/ou de aragonite.
Quando as águas estão sujeitas a uma certa agitação podem-se formar a “pérolas das cavernas”, resultantes do depósito de minúsculas capas de carbonato de cálcio sobre um núcleo preexistente de origem mineral ou orgânica (grão de quartzo, fragmento de osso, etc.). Estas podem ocorrer com variadas formas, mas, como o nome indica, são muitas vezes esféricas, de superfície lisa e brilho porcelanoso. Entre as formas mais espectaculares contam-se as excêntricas, tão preciosamente abundantes na Gruta do Zambujal, cuja génese é controversa, e são relativamente raras.


*Os geógrafos do final do século passado deram o nome de karst a regiões onde a hidrologia subterrânea (hidrogeologia) e os fenómenos de dissolução desempenhavam um papel importante. Esse termo entrou no vocabulário científico a partir da obra Die Karstphänomen de Jovan Cvijic (1893), contudo, e apesar de ser cómoda a existência de um único termo de utilização internacional é de uso generalizado a designação de “carso” como equivalente português.

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro (1995)

01/07/2008

Caverna da Solestreira

Solestreira (Algarve) © Pedro Cuiça (2007)

[A propósito de um comentário sobre as Solestreiras recomendei a leitura do que é dito nas Antiguidades Monumentaes do Algarve (1886), da autoria de Sebastião Phillipes Martins Estácio da Veiga, sobre essas cavernas. O facto prende-se com a tentativa de discernir quais as mudanças que terão ocorrido nessas que são talvez as cavidades mais visitadas no Algarve. Aqui fica então a parte do referido texto que interessa para o assunto em causa (pg. 79-82).]

CAVERNA DA SOLESTREIRA
(…) Estive mui perto da sua entrada n’uma occasião em que não era possivel pernoitar n’alguma das suas referidas freguezias (…) Obtive comtudo umas informações, que me deixaram presumir a possibilidade de se poderem alli encontrar seguros vestigios de antiga habitação.
Descobriu-se haver no interior da caverna um espesso deposito de guano de grande utilidade para as terras cultivadas, proveniente da residencia immemorial que alli hão tido os morcegos; e tendo sido extrahida grande quantidade d’aquella fertilisante substancia, disseram alguns informadores que por vezes se achavam pedaços de louça de barro muito grosseira, que bem mostrava ter alli sido levada por pessoas antigas, que se tivessem refugiado n’aquelle logar em tempos de guerra ou por outros motivos, e que além d’isto havia noticia de já anteriormente se terem achado na caverna da Solestreira, algumas cousas de valor.
(…) Addiciono agora a este artigo, que escrevi em 1883, uma noticia, de todo o ponto importante, que vem inteiramente confirmar as minhas precedentes presumpções com um facto asaz positivo, que prova ter, com effeito, sido utilisada a caverna da Solestreira em tempos prehistoricos.
Encontrei-me em Faro no anno de 1884 com uns distinctos naturalistas inglezes e allemães, sendo um d’elles o dr. Gadow, professor da universidade de Cambridge, a quem communiquei varias noticias respectivas á paleoethologia do Algarve, e, notando que se interessava pelo conhecimento das cavernas, affirmei-lhe a convicção que tinha, havia muito tempo, de que ellas deviam revelar os mais antigos criterios das primeiras raças que viveram na região algarviense, e a proposito citei o facto de terem apparecido na caverna da Solestreira alguns fragmentos de louça antiga sob as espessas camadas de guano alli deixadas pelos morcegos.
Ao que parece, o sr.Gadow ligou alguma importancia a esta informação, e annunciou-me logo que no anno seguinte voltaria ao Algarve para visitar as cavernas, e não faltou, porque em 1885, estando eu ausente, constou-me ter sido procurado por aquelle naturalista, que, não me encontrando, foi fazer um reconhecimento na Solestreira, onde achou um esqueleto humano, contas da chamada calaïte e outros objectos, cujo descobrimento communicou ao eximio naturalista sr. Alfredo Bensaude, a quem sou devedor d’estes obsequiosos esclarecimentos. (…)
Está portanto provado, que a caverna da Solestreira foi utilisada para deposito mortuario, mui provavelmente no periodo neolithico, ou na epocha da transição d’esse periodo para a idade do bronze, em que também apparecem no Algarve as celebres contas de calaïte nos depositos mortuarios, como em seu logar mostrarei.
Estácio da Veiga

Recorde de profundidade

Uma equipa da Société Spéléo Archéologique de Caussade (SSAC) atingiu, no passado mês de Março, a profundidade de -220 metros numa nova cavidade situada a sul do vértice geodésico Alecrineiros , no Planalto de Santo António (PNSAC).
Este grupo francês tem efectuado, nos últimos anos, diversas campanhas no Maciço Calcário Estremenho. A equipa, liderada por Rémy Soulier, foi brindada, este ano, com a descoberta do algar mais profundo de Portugal. A prova provada de que quem procura sempre alcança e que a descoberta continua a ser uma componente inseparável da espeleologia.

[Fonte: blogue do NALGA]


30/06/2008

Espeleo fazia; não, espeleofagia

"Pourquoi, alors, cette passion pour la spéléologie? Nous nous posons souvent à nous-mêmes cette question, obtenant des réponses inattendues, les plus simples d’ordre géographique, les plus complexes d’ordre embryologique.
Bien sûr parmi les spéléologues on compte ceux qui auraient accompagné Christophe Colomb et qui, n’ayant plus d’Amérique à découvrir, foncent dans cet univers gisant, la, aux flancs de nos montagnes et sous nos plateaux, un univers pratiquement inviolé. Ceux que tente aussi l’aventure définie comme non quotidienne. Ceux qui veulent aller au-delà de leur carte d’identité. Puis viennent ceux pour qui vaincre est la satisfaction d’un instinct de puissance, et qui ne trouvent plus à vaincre dans leur vie sociale. Plus loin déjà, maudissant la caverne et cependant fidèles, il y a les copains, au sens étymologique du mot, qui donnent son sens à l’équipe, qui s’accomplissent dans son fonctionnement harmonieux ; ceux pour qui vaincre une difficulté, en se disant que tout le dispositif de sécurité est en place, fonctionne, rassure, est plus important que la découverte. Je n’oublie pas les spécialistes, les géologues heureux de voir les choses du dedans, les entomologistes qui se gèlent pendant des heures à l’affût de leurs petites bêtes, les hydrogéologues qu’une bonne crue contente, comme un providentiel étiage… J’ai gardé pour le fin mon ami le señor don Felice Ruiz de Arcaute Van de Stucken, dont il sera plus loin longuement question. « Je vais en caverne, dit-il, parce que j’y retrouve une sensation étrange, comparable à celle que j’éprouvais dans le sein de ma mère. Je me souviens de cet endroit où j’étais parfaitement heureux, où il faisait bon, chaud, rose...
»" É desta forma que Corentin Queffélec, em Jusqu’au Fond du Gouffre - Record du monde à la Pierre Saint-Martin (Spéléo Éditions, 1994) resume algumas das motivações dos espeleólogos e afins!... E afins?

Já sabíamos, por experiência própria e há bastante tempo, que as motivações de quem visita, explora e/ou estuda cavidades naturais são múltiplas e, por vezes, até dispares. Até aqui nada de novo. Iremos voltar futuramente a este assunto (motivos e motivações, tal como à obra de Queffélec), mas o objecto desta posta centra-se mais no porquê de chamar a essa actividade “espeleologia” e, sobretudo, sobre outras designações que têm surgido para designar essa ou outras actividades digamos semelhantes! Complexo, não é? Sei que este assunto não é simples e não se esgotará certamente aqui :) Como vivemos numa época de hiper-especialização e inovação não seria de estranhar “novas ondas”, novas palavras ou novas designações, tal como “spéléistes” ou “spéléophages”! Acontece que a obra de Queffélec foi publicada pela primeira vez em 1968 e foi reeditada em 1994, portanto a moda já vem de longe! E, se é certo que já nos habituámos a palavras como “espeleismo” e “espeleístas”, que alguns teimam em impor no panorama português apesar de que não terem colhido grande aceitação noutras paragens, ou até estarmos preparados para designações ao nível de um “grutário do espeleoscópio”, deveria haver limites para o possível… Mas não há e a prová-lo temos palavras como“espeleófago” e, obviamente, “espeleofagia”, que remeter-nos-iam para uma "espeleopédia". Nem mais!
"Les grandes explorations parfois dramatiques, gouffre de la Pierre Saint-Martin (M. Cousyns, N. Casteret, H. Tazieff, M. Loubens), trou du Glaz (P. Chevalier), gouffre Berger, Henne-Morte (F. Trombe), Piaggia Bella (Y. Créac’h et N. Chochon, G. Rouire), font apparaître la notion de record de profondeur et développent le côté médiatique de la spéléologie. Elle devient un sport, un alpinisme à l’envers, aussi certains tent-ils sans succès d’imposer le terme spéléisme pour définir cette branche de la spéléologie. (Gilli, 1995)" Portanto, nesta linha, poderíamos apelidar os coleccionadores de grutas de “espeleófagos” e a prática pura e simples de coleccionar cavernas de “espeleofagia”: literalmente o acto de papar grutas. Que tal? Desta forma sempre se poderiam distinguir os espeleo-cientistas (espeleólogos) dos espeleo-desportistas (espeleístas) ou os espeleo-coleccionadores (espeleófagos) dos espeleo-turistas (a inventar)!!! Motivador, não é?

24/06/2008

Enigma

Ibne Ammar (Algarve) © CEEAA (2006)

Enigma

No fundo de tudo quanto pensamos
Há a caverna do que nós vemos
Sonhos lhe bóiam na sombra aberta.
Uma árvore vela-a com rede-ramos
Terá de ramos luzindo pomos
Pomos-estrelas na noite deserta.

Por trás das costas do visto mundo
Por trás de nós se sonhamos ver,
Fogem de um onde ladeando estar,
Ramos sem sede cruzando o fundo
Do pensamento e caverna – ser
Com sonhos boiando no cavernar.

Quando – boiando do fundo da alma.
Com pomos luzindo na árvore-parte,
Com o segredo por trás de aquém…
Brilha um instante na luz sem calma
Como um relâmpago de’standarte,
E em tudo isto não há ninguém.

Fernando Pessoa, Poesia (1918-1930)


Solestreira (Algarve) © Pedro Cuiça (2007)