20/06/2008

A aventura da sustentabilidade

[Primeira parte da comunicação apresentada no IV Seminario Internacional sobre Senderismo y Territorio en Europa que decorreu, de 5 a 7 de Junho de 2008, em Málaga ● O trabalho em causa, não tendo sido concebido com base na realidade espeleológica, enquadra a prática de actividades de ar livre em Portugal, entre as quais se inclui a espeleologia.]

I. Enquadramento

As actividades de ar livre em Portugal, como a marcha e a escalada, surgiram no final do século XIX, com iniciativas como a Expedição Científica à Serra da Estrela (1881), em que se dá o primeiro registo de uma subida ao Cântaro Magro. O turismo era já apontado em 1898, por Anselmo de Andrade, como uma actividade a desenvolver, como catalisador da economia nacional, mas só no início do século XX é que se instituíram as primeiras estruturas oficiais de turismo (1911) e, simultaneamente, se organizaram as actividades e equipamentos complementares. Só a partir da década de 60 é que o turismo começou a apresentar uma expressão significativa no conjunto das actividades nacionais, facto atribuído à conjuntura económica (Grandes Guerras Mundiais e Guerra Civil de Espanha), bem como à condução da vida portuguesa por uma política pouco dada a mudanças.
As actividades de ar livre revelaram um significativo incremento, sobretudo a partir da década de 80, fruto do crescente interesse pelos, desde então, designados “desportos de aventura”. De facto, ao contrário do marasmo a que nos tinham habituado durante décadas, o grande interesse que passaram a suscitar é um dado novo. O contacto com a natureza tornou-se primordial favorecendo o surgimento, a par de práticas mais antigas, de novas abordagens do meio. A multiplicidade de actividades de ar livre é estonteante e não pára de aumentar: campismo, pedestrianismo, montanhismo, bicicleta de montanha (moutain bike) ou bicicleta todo-o-terreno (BTT), orientação desportiva, espeleologia, escalada clássica, escalada desportiva, bouldering, corrida de aventura, esqui, passeios equestres, mushing, paintball, canoagem, rafting, hidrospeed, vela, windsurf, surf, kitesurf, bodyboard, mergulho, canionismo (canyoning), coastering, parapente, asa-delta, balonismo, pára-quedismo, etc..
O número de praticantes é indeterminado, mas indubitavelmente elevado. A popularidade de actividades de ar livre nunca foi maior. Entre 2001 e 2007 foram fundadas 415 empresas de animação turística (dedicadas a desportos de natureza), com alvarás atribuídos pela Direcção-Geral de Turismo. Um indicador claro da popularidade destas actividades.
A sociedade evoluiu para modelos que implementam o usufruto de tempos livres, o exercício físico e a saúde, a (re)ligação à natureza e a busca de aventura. Os meios de transporte permitem deslocações cada vez mais rápidas e o gozo desses tempos de lazer é assumido como um direito adquirido. A necessidade de evasão, a busca de ocupações radicalmente diversas das que se experimentam na rotina do dia-a-dia, a fuga ao sedentarismo e à “selva urbana”, são algumas das motivações responsáveis pela crescente importância que as áreas naturais e as actividades de ar livre apresentam como alternativa de mudança para ritmos retemperadores do corpo e da alma.
As actividades de ar livre eram consideradas, há três décadas, uma ocupação dos tempos livres sem grande expressão; uma forma de recreio e de lazer em contacto com a natureza, pouco generalizada apesar de incentivada, nomeadamente pelos resultados benéficos para a saúde física e mental dos praticantes. O aparecimento de inúmeras abordagens do meio, o aumento exponencial do número de praticantes e o surgimento da profissionalização, entre outros indicadores, conduziu à inevitável integração dessas actividades na problemática da conservação da natureza, nomeadamente no que concerne ao acesso.
Os pioneiros de finais do século XIX dificilmente poderiam prever que as actividades de ar livre iriam sofrer um incremento exponencial, praticar-se em múltiplos moldes e transformar-se numa praxis acessível a todas as camadas sociais e etárias. Ainda não tinha sido montada uma indústria e um mercado específicos, dedicados a essas formas de recreio que passaram a atrair multidões. Esta revolução do ar livre estimulou o surgimento de muitas modalidades, bem como o desenvolvimento e a maturação de outras tantas, possibilitando nomeadamente a profissionalização na área. O outro lado da moeda, muitas vezes ignorado ou relegado para segundo plano, prende-se com os impactes ambientais resultantes dessas práticas.

Ar livre mas condicionado
Os locais de difícil acesso, tradicionalmente pouco frequentados pelo Homem, deixaram de o ser. Com efeito, a protecção devida à inacessibilidade do terreno já não funciona face ao incremento dos desportos de aventura, especialmente quando a construção de novas vias de comunicação, só por si, facilita o acesso e acessibilidades. Os locais isolados e agrestes, os últimos redutos da natureza, os locais onde ainda se encontram valores patrimoniais - geológicos, faunísticos e florísticos - mais ou menos bem preservados, deixam de o ser e passam a constituir os spots alvo de diversas actividades: montanhas, escarpados, canyons, grutas, etc..
A pretensa massificação das actividades de ar livre é vista, por muitos praticantes (e não só), como exagerada. Quem percorre vários quilómetros a pé nos planaltos da Serra da Estrela sem ver vivalma poderá ter essa percepção, mas quem já presenciou grupos numerosos de excursionistas barulhentos talvez não pense da mesma forma. A grande afluência de praticantes já se verificou em várias iniciativas e a polémica não se fez esperar. Recorde-se, como exemplo, a XII Marcha de Montanha, protagonizada pelos clubes de ar livre escolares, realizada, no dia 6 de Junho de 1992, num trilho do Lindoso, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). A marcha envolveu 40 escolas preparatórias e secundárias, 400 professores, mais de 2 000 alunos e cerca de 50 autocarros. No entanto, é fundamental não confundir a excepção com a regra e, por outro lado, será de elementar bom senso qualificar e quantificar os impactes em jogo para, só aí, tirar as devidas elações. Quais os impactes envolvidos numa única marcha com cerca de 2 500 pessoas (com características próprias), de duração limitada, num trajecto com determinadas características, que passa por uma envolvente particular, sob determinadas condições climatéricas e época do ano? As variáveis são múltiplas mas será certamente difícil imputar consequências trágicas ao acto de muitos praticantes, devidamente “enquadrados”, andarem a pé durante uma manhã ao longo de caminhos ou estradas que, inclusivamente, estejam abertos a trânsito motorizado!
As actividades de ar livre estão inevitavelmente relacionadas com as questões de conservação do meio no qual se praticam, mas não se podem dissociar também das questões referentes à segurança das pessoas e bens, tal como de outras questões igualmente importantes. (…)
As actividades de ar livre testam os limites físicos e psicológicos dos indivíduos, desenvolvem e devolvem de algum modo o sentido da existência, mas também comportam riscos. Para além dos incidentes e acidentes ocorridos no terreno, geram tribalismos, o aparecimento de grupos que se identificam não só pelo vocabulário, onde o estrangeirismo muitas vezes domina, como pelas roupas/marcas que usam. O rápido desenvolvimento dos desportos de aventura veio introduzir uma panóplia de novos hábitos, comportamentos e atitudes, sobretudo na população mais jovem. Devido à multiplicidade de componentes e à complexidade das interligações em jogo é fundamental promover estudos multidisciplinares, tal como implementar mecanismos de monitorização das actividades e de quantificação dos fenómenos para que se possa atingir o rigor exigido nos estudos sobre estas matérias. Para não incorrer em generalizações prematuras ou conclusões infundadas, há que ter em consideração a grande diversidade de actividades existentes (em permanente crescimento), as suas especificidades e o díspar número de adesão às mesmas. A avaliação das capacidades de carga e a monitorização de cada actividade e/ou conjunto de actividades nos locais de implementação são de primordial importância para uma gestão sustentada e consensual do vasto condomínio que é a natureza.
O fenómeno da “massificação”, associado às novas abordagens turísticas, não passou despercebido às entidades oficiais e a associações de diversa índole, tendo-se constatado a necessidade de desenvolver medidas consentâneas. A legislação ou a produção de normativas surgiu como uma forma de estabelecer regras num sector onde não as havia, muitas vezes enveredando pela implementação de condicionantes e, não raro, pelas proibições. Passados alguns anos sobre a implementação de medidas, a questão base continua a ser: como conciliar de forma adequada a prática de actividades de ar livre com a conservação da natureza?
A massificação dos terrenos de aventura será, sem dúvida, causadora de diversos impactes ambientais: pisoteio, incremento da erosão, destruição de vegetação, perturbação da fauna, detritos, risco de incêndio, etc. Mais, os impactes ambientais das actividades de ar livre deixaram de ser virtuais para se concretizarem no terreno. Actualmente considera-se que cada pessoa desempenha um papel, mais ou menos importante, nas alterações que se processam no meio: apesar das contribuições individuais serem pequenas ou mesmo insignificantes a sua soma poderá atingir proporções bastante significativas. Daí a importância da determinação de capacidades de carga, entre outros indicadores, com base em estudos de impacte ambiental idóneos. Só dessa forma se poderão criar planos de gestão e regulamentos adequados, que tenham em consideração a conservação da natureza e não descurem a liberdade de praticar desporto ao ar livre.
"Não deixar mais que pegadas e não tirar mais que fotografias" tornou-se uma fórmula ultrapassada, porque insuficiente, face aos problemas associados à prática de actividades de ar livre, sendo exigidas medidas concretas, fundamentadas e eficientes que resolvam o paradoxo de como proteger e simultaneamente divulgar. Torna-se evidente que a prática de actividades de ar livre terá de passar pelo diálogo entre os diversos intervenientes a fim de se atingir uma gestão coerente e equilibrada do património natural, bem como a salvaguarda do direito inalienável de usufruir os vastos espaços de ar livre, das formas mais livre e, simultaneamente, mais “ecológica” possíveis.

Áreas Protegidas
As áreas geralmente mais procuradas para a prática de actividades de ar livre coincidem com as pertencentes à Rede Nacional de Áreas Protegidas. Destacando-se, pela afluência, as zonas litorais e as inseridas ou próximas das áreas metropolitanas, de que os parques naturais da Ria Formosa (Algarve) ou de Sintra-Cascais (Península de Lisboa) constituem, respectivamente, bons exemplos. Na generalidade das áreas protegidas verifica-se que o fluxo sazonal é massivo, ocorrendo essencialmente no Verão (caso do Parque Natural da Ria Formosa), no Inverno (Parque Natural da Serra da Estrela) ou aos fins-de-semana e feriados (Parque Natural da Sintra-Cascais ).
As áreas protegidas são os destinos mais procurados por professores e/ou monitores para a realização de visitas de estudo ou acções de educação/interpretação ambiental, já que geram mais expectativas no que concerne à qualidade do ambiente. Essas áreas apresentam um vasto potencial educativo mas o objectivo da educação ambiental, a preservação das espécies e dos sistemas naturais ou semi-naturais que lhes servem de suporte, poderá degenerar no efeito oposto. Levar pessoas a esses locais de grande valor ecológico ou paisagístico poderá contribuir para aumentar os factores de perturbação dos ecossistemas e/ou desfigurar a paisagem. Se algumas áreas protegidas podem receber uma carga de visitantes elevada, em certos locais ou trajectos determinados, outras são muito frágeis no que respeita à presença humana.
O turismo activo pode contribuir para a dinamização das Áreas Protegidas, mas também pode ser, e é muitas vezes, causador de impactes ambientais. Se cada turista colher uma flor, após algum tempo, a vegetação ficará certamente empobrecida. Uma flor colhida fará o prazer fugaz de um indivíduo, mas uma flor viva, no seio da natureza, poderá constituir a delícia de inúmeros admiradores. Por outro lado, os locais são frequentemente invadidos por veículos motorizados e turistas ruidosos. Quebrando-se o silêncio, a fauna pode ser gravemente perturbada. Facilmente se constata que, por vezes, não basta levar o saquinho do lixo até um contentor ou vestir roupas de "cores ecológicas".
O turismo constitui um processo complexo, com relações causa-efeito nem sempre fáceis de determinar e que vão para além da conservação da natureza. Este pode conduzir, igualmente, a transformações significativas no tecido económico e social das regiões onde se processa. Com consequências positivas (por ex. na criação de emprego) e/ou negativas (como a adulteração dos usos e costumes locais), dependendo o seu resultado final essencialmente do modelo de desenvolvimento regional adoptado.
A questão base consiste na forma de conciliar a divulgação e a promoção de iniciativas de ar livre com a conservação da natureza. Deverá ser estabelecido um numerus clausus ou proibir o acesso a locais de grande beleza e/ou valor patrimonial? A tendência actual consiste no estabelecimento de diferentes níveis de protecção (leia-se condicionantes ou interdições) para cada área, de acordo com a sua classificação na Rede Nacional de Áreas Protegidas, e a cada sub-área, consoante os valores a preservar.
Uma das vocações das Áreas Protegidas consiste em permitir ao utente a possibilidade de usufruto da natureza. Contudo, os impactes ambientais resultantes da presença antrópica obrigam a uma conveniente gestão destas áreas. Estranho equilíbrio muitas vezes ambíguo e que urge resolver. O turismo de ar livre é, por um lado, incentivado e, por outro, refreado, limitado ou, mesmo, proibido, por vezes sem bases científicas ou que fundamentem as decisões tomadas.
Conscientes da importância das actividades de ar livre, os governantes tomaram medidas tendentes ao enquadramento das mesmas. Os secretários de Estado do Ambiente e do Turismo assinaram, no dia 12 de Março de 1998, o protocolo relativo ao Programa Nacional de Turismo de Natureza: uma parceria estratégica entre os ministérios do Ambiente e da Economia a fim de gerir a actividade turística em Áreas Protegidas.
O programa foi estabelecido por uma comissão paritária composta por representantes do Instituto de Conservação da Natureza (ICN), da Direcção-Geral de Turismo (DGT) e do Fundo de Turismo (FT). O plano surgiu da necessidade de desmistificar percepções erróneas, demonstrando que nas áreas protegidas é possível conciliar a conservação da natureza com uma actividade turística sustentada. Essa seria, aliás, uma forma de atenuar as assimetrias regionais, criando emprego e promovendo o desenvolvimento local. Na prática, o programa consubstanciou-se na implementação de alguns condicionalismos e outras tantas proibições. E se o mesmo não tem merecido mais contestação por parte de federações, clubes, empresas e praticantes é porque, na prática, grande parte das medidas não são aplicadas, nomeadamente devido à deficiente vigilância das Áreas Protegidas.
Por outro lado, não podemos esquecer que a prática de actividades de ar livre não se circunscreve às Áreas Protegidas, tornando-se igualmente necessário salvaguardar as restantes áreas. Nesse sentido os ambientalistas têm desempenhado um papel importante, tal como os próprios praticantes de actividades de ar livre. No entanto, a sua actuação nem sempre tem sido pacífica: é fácil compreender que os fundamentalismos e extremismos de ambas as partes não são de todo saudáveis…
Os espaços naturais, em geral, e as Áreas Protegidas, em particular, surgem como destinos turísticos privilegiados, sendo o designado "turismo de natureza" s.l. cada vez mais indissociável do tempo livre e das actividades de recreio e lazer. O crescente interesse pelo "natural" levanta, no entanto, problemas de conservação difíceis de gerir e de conciliar com os interesses dos praticantes e das próprias populações. A tendência actual, na linha do Plano Nacional de Turismo da Natureza (PNTN), pretende que o turismo venha contribuir, por um lado, para o desenvolvimento económico das regiões e, por outro, para a conservação da natureza. No entanto, ainda há um largo caminho a percorrer para atingir esse desiderato, nomeadamente no que concerne a recorrentes ambiguidades e contradições que ameaçam inquinar o processo e criar anticorpos entre aqueles que sonham com a liberdade dos vastos espaços de ar livre.
(...)

I'm going in...

© Cartoon Stock

Querida, é hoje que vou ultrapassar o sifão...



Aqui há gruta...

PNSAC © Pedro Cuiça (2006)

Este nome de rua é promissor... É caso para dizer: a toponímia é favorável. Agora resta ver onde se encontrará o "buraco", não é?

19/06/2008

Significados vitais

PNSAC @ Rúben Jordão (2004)

En busca de las sensaciones vividas en otros tiempos son muchos los recuerdos que se agolpan. Por ejemplo cuando se observan los cambios producidos en el mundo rural y la galopante humanización de la montaña, el desarrollo de los hábitos sociales y el estado de bienestar con el aumento del ocio y el tiempo libre con el consiguiente deseo de “consumir” lo verde por el gran público, la naturaleza.
Por otro lado la evolución del propio montañismo hasta la diversificación en los antaño inesperados deportes de riesgo y de aventura, la evolución de la tecnificación que obligan invadir las cumbres por torretas de comunicación, parques eólicos que han dejado pequeños a los buzones, cruces y vértices geodésicos de las cumbres de antes.
Son cosas que podríamos perdernos si no nos dignamos a contemplar estos ochenta años, como si pasáramos por el túnel del tiempo en breves segundos. Una mirada a estos tiempos pasados para la búsqueda de acontecimientos me ha llevado a revivir a través de mis diarios de montaña unas sensaciones ya olvidadas. Son al principio sensaciones plasmadas como niño que era y luego ya con otros ímpetus, los tiempos de la descubierta y la búsqueda de nuevos escenarios.
(…)
Más allá de la nostalgia por la pérdida de otros tiempos con distintos escenarios, de la curiosidad por el pasado, podremos encontrar en la historia de nuestro montañismo significados cercanos y vitales: la autosuficiencia, la medida del esfuerzo, la fortaleza, un saber no escrito sobre formas puramente autodidactas, la solidariedad y los buenos ratos pasados al abrigo de una roca, en la soledad del subsuelo, el barullo de un refugio de montaña y, en definitiva, la independencia de forma compartida en los últimos espacios libres que hoy aún nos quedan…
Juan Mari Feliu (El montañismo navarro visto desde la prensa, una larga historia de ochenta años; http//www.rutasnavarra.com)

Mortero de Astrana (Cantábria) © Pedro Cuiça (2007)

[Significados vitais por parte de um Homem de que tenho a honra de ser amigo há vários anos. Juan Mari Feliu colabora regularmente, desde 1963, em diversos periódicos e escreveu 19 livros sobre temas de montanha, fundou clubes, foi presidente da Federación Navarra de Montañismo (FNM), foi Director de Senderismo da Federación Española de Deportes de Montaña y Escalada (FEDME) e, actualmente, é Vice-presidente da Federação Europeia de Pedestrianismo (ERA - European Ramblers Association). Em 1966 fez parte da equipa de ponta que logrou o recorde de profundidade na Sima de San Martín e em 1967 integrou a Expedição Vasco-Navarra aos Andes do Peru que conquistou três cumes virgens,... Com mais de 50 anos de actividade, Feliu terá certamente algo a dizer sobre a evolução dos desportos de montanha nas últimas décadas. Significados vitais, sem dúvida.]

Caving, espeleismo e quejandos

© DR

CAVING
Emocionante atividade de Incursão em Cavernas, utilizando-se de técnicas como Rapel, Ascensão, entre outros. A atividade consiste em descer abismos, explorar fendas estreitas, e outras cavidades naturais, rastejando por condutos apertados, desbravando rios subterrâneos, procurando descobrir novas galerias, salões, belezas e mistérios das cavernas. Muito praticada em outros países como França, Itália e Austrália, no Brasil nasceu como um braço da espeleologia.
(…)
ESPELEO-TURISMO
O Espeleo-Turismo é atividade de aventura que consegue unir as emoção do Caving com a preocupação de estudo e preservação da espeleologia.”

(Caving; http://ecoventure.com.br/usuario/GerenciaNavegacao.php?caderno_id=096&nivel=0)

© DR

[Nem mais... Da espeleologia ter-se-á originado, portanto, o caving e o espeleo-turismo. Os nossos amigos brasileiros não descobriram ainda o termo "espeleismo" para substituir o estrangeirismo “caving” ou o mais brejeiro "buraquismo". Mas é tudo uma questão de tempo. Desta forma poderemos explorar grutas alegremente, sem preocupações científicas ou ambientais, não é? Ou diferenciar-nos, nós os espeleólogos, daqueles que não passam de simples curiosos: os buraqueiros. Desculpem, espeleístas. E o espeleo-turismo tem preocupações de estudo e de preservação como a espeleologia? Pois assim seja...]

16/06/2008

As iludências aparudem

Uma imagem vale mais do que mil palavras.” Assim é que é, não é? Bom, mas tendo em conta que a relatividade revela que nem sempre as coisas são o que parecem, e vice-versa, convém ter alguma cautela no uso e seguidismo desta e de outras verdades feitas… O Princípio da Incerteza de Heisenberg, entre outras formulações, veio demonstrar, q.b., as diferenças entre ser e parecer, entre objectividade e subjectividade, entre…
Os ditados populares constituem geralmente tesourinhos - por vezes deprimentes, outras vezes inócuos e outras vezes ainda inspiradores - de sabedoria secular, ampla e gratuitamente propalados, geração após geração, através da tradição oral. Os ditados para além do simples e corriqueiro uso encerram amiúde significados e abrangências que proporcionam e incitam à reflexão. Nesse contexto e numa óptica espeleológica ou espeleísta (seja lá isso o que for!), ocorre-nos o velho e conhecido: “Pela boca morre o peixe”. Frase muitas vezes empregue com o sentido de que falar de mais pode ser prejudicial. Algo que surge em oposição ou em complementaridade de um outro tesourinho tão ou mais conhecido: “Ladram os cães e a caravana passa”. Qualquer coisa na linha de um raciocínio do tipo: antes falarem mal de nós do que pura e simplesmente nada dizerem ou antes dizerem mal do que nos ignorarem. Bien, é caso para perguntar: em que é que ficamos? Em caso de dúvidas basta aplicar as expressões, também muito conhecidas e bem portuguesas: “Meia bola e força” ou “Tudo ao molhe e fé em Deus”.
Estas reflexões surgem numa análise, é certo, superficial do panorama espeleológico português em que uns insistem em falar muito, mesmo muito, e outros persistem num silêncio quase sepulcral. Uns estão numa estratégia de “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e outros numa de “É melhor esperarem sentados para não cansarem as pernas”? Enfim, “Cada um sabe de si e Deus sabe de todos”! Pois é, nem mais! De resto, fica-nos a impressão de que, por vezes, uns estão numa postura mista de marketing directo e talk-show, que roça por vezes o cómico, e outros vivem uma vocação monástica ou de sociedade secreta do género “O Verdadeiro Almanaque Borda d’Água”. Não podemos esquecer ainda os que, numa óptica bipolar, alternam entre essas duas posturas extremas e, por vezes, extremadas. E, a bem da verdade, não esqueçamos ainda aqueles outros que, por opção, estão noutra e “foram pregar para outra freguesia” ou, pura e simplesmente, estão nas “tintas” para os tribalismos que (des)caracterizam o sector.
Dizem alguns que estilos, e gostos, não se discutem e talvez tenham razão, mas não podemos deixar de reflectir sobre as motivações mais profundas, as concepções alternativas ou os estilos diversos daqueles que são atraídos pelo mundo subterrâneo. Ossos do ofício ou simples estudo de caso!? Essa fenomenologia vem de longe e recorda-nos o famoso Athanasius Kircher e o seu Mundus Subterraneus (1665), entre outros autores, obras ou outros modos de expressão, sejam estes sob a forma de palavras, de imagens ou outras.... É certo que Kircher não precisou do bestiário cavernícola que avançou nessa conhecida obra para ser profusamente conhecido, mas certo é que ajudou… Nem que seja no fechado e claustrofóbico meio espeleológico que, apesar de comportar algumas atracções pelo esoterismo, costuma cingir-se a praxis mais terra-a-terra, geralmente previsíveis e mais ou menos politicamente correctas.
Moral da estória: cada um faça uso da razão e da emoção próprias da forma que melhor lhe aprouver, à sua moda ou estilo, seja através de imagens ou de palavras, e sobretudo não se esqueça que as aparências iludem ou as "iludências aparudem"! Nem sempre o que parece é...



12/06/2008

Imagens e palavras

© Imperial College Caving Club Photo Archive

Neste caso, uma imagem vale mais
do que
cem ou sem palavras?

Ar fresco


© Imperial College Caving Club Photo Archive

[Como tenho andado muito ocupado e, sobretudo, arredado dos ecrãs de computador (e ainda bem!) não tenho tido tempo para colocar as tradicionais velhas novidades que têm vindo e virão preencher este espaço da blogosfera dedicado ao mundo subterrâneo. Portanto, para que não pensem que desisti do Spelaion, aqui fica algo de diferente …]

Uma lufada de ar fresco no mundo da espeleo, mais além da "chapa 7" das técnicas padronizadas e pretensamente politicamente correctas.
*****
P.S.: Por vezes, é bom inovar ou simplesmente sair do espartilho técnico em que nos colocamos, não é?

24/04/2008

Rocha da Pena

Impactes Ambientais de Actividades de Ar Livre
Rocha da Pena - Um património natural que importa preservar

[Comunicação do 4º Encontro Nacional de Espeleologia AES (Sintra) - Protecção das Paisagens Cársicas (1995)]

O BIÓTIPO
A Rocha da Pena, localizada no limite setentrional do barrocal algarvio, a N da estrada Alte-Salir (concelho de Loulé), constitui um local de grande interesse do ponto de vista geológico, paisagístico, arqueológico, faunístico e florístico, entre outros.
O Serro da Pena, único relevo verdadeiramente vigoroso existente no Algarve (Mariano Feio, 1951), é uma pseudo-mesa resultante da acção erosiva sobre a estrutura monoclinal dos calcários dolomíticos liássicos da formação da Picavessa (Jurássico inf.). Carso alcandorado, orientado segundo E-W, ultrapassa os 50 m de altura na vertente S. No topo, aparatoso planalto ligeiramente ondulado, encontram-se formações lapiares, cerca de uma dezena de dolinas (Crispim, 1982; Costa Almeida, 1985) e diversas cavernas. Uma dolina de abatimento, no topo do planalto, dá acesso ao Poço dos Mouros (Caverna do Poço dos Mouros, Caverna dos Mouros, Buraco dos Mouros, Algar dos Mouros, Lapa da Pena ou Gruta da Rocha da Pena), rica em lendas e de grande interesse arqueológico (Silva Lopes, 1841; Charles Bonnet, 1850; Estácio da Veiga, 1886; Paul Choffat, 1887; Barros Machado & Barros Machado, 1948;…). Esta, é uma das mais conhecidas e maiores cavidades do carso algarvio encontrando-se na sua (grande) sala terminal uma das maiores colónias de quirópteros a nível europeu, segundo J. Palmeirim. Por outro lado, A. Barros Machado & B. de Barros Machado (1948) afirmam o interesse zoológico da cavidade em questão. O Buraco da Caldeirinha (Algarão ou Algueirão da Rocha da Pena) e Algarinho da Rocha Amarela (ou Gurita do Fumo) também possuem as suas lendas e tradições. As duas cavernas da vertente meridional (Cavernas da Rocha da Pena) apresentam grande interesse arqueológico (Costa Almeida, 1979) pois poderão ter funcionado como abrigo do Homo durante o Paleolítico sup./Epipaleolítico (Strauss, 1987). Na vertente N, com diversos troços escarpados, também surgem algumas cavidades.
Fig. 1: Vertentes S e E da Rocha da Pena (adapt. M. Feio, 1951).
A vegetação varia desde formações pioneiras sobre rocha nua e litossolos a diversos estágios de maquis e garrigue; flora característica do Barrocal, constituída por antigas associações florísticas mediterrânicas, é, na sua composição variada, um elemento de grande beleza paisagística. Surgindo a Azinheira (a Quercus hilex ballota geralmente designada por Q. rotundifolia), o Zambujeiro (Olea europea), o Medronheiro (Arbutus unedo), a Aroeira ou Lentisco (Pistacia lentiscus), o Carvalho Cerquinho ou Português (o Q. lusitanica actualmente designado por Q. faginea), o Alecrim (Rosmarinus officinalis), o Rosmaninho (Lavandula stoechas), a Esteva (Cistus sp.),… A inventariação da vegetação da Rocha da Pena, efectuada por Pereira Dias e Leal de Oliveira (1984), referencia nove espécies endémicas (Paeonia broteroi, Thymus mastichina, T. tormentosus, Genista hirsuta, Teucrium hanseleri, Phlomis lycnhitis e Cachrys trifida), sendo duas delas exclusivamente portuguesas (Allium pruinatum e Bellavakia hackelli).
Os verões quentes e secos imprimem o carácter estépico da vegetação herbácea e explicam a dominância de árvores e arbustos de folha perene. Esses longos estios determinam também inúmeras adaptações xerófitas: folhas reduzidas, cobertas de pêlos ou de verniz, coriáceas, aceradas ou tomentosas e resinas odoríferas responsáveis pelo aroma inconfundível dos carsos mediterrânicos.
A acção antrópica, desde tempos remotos, enriqueceu a vegetação e transformou a paisagem; facto bem testemunhado pelos dois amuralhamentos do Neolítico ou da Idade do Ferro (?), localizados no planalto. Estácio da Veiga (1886) destacou que “em toda a freguesia de Salir são frequentes os instrumentos de pedra polida” e Charles Bonnet (1850) referiu os estranhos “amontoadas de pedras” no interior do Buraco dos Mouros.
Fig. 2: A topografia da Rocha da Pena (Carta Militar de Portugal na escalada de 1/25 000, folha nº 547 - Querença (Loulé).
O pastoreio originou, em grande parte, o mosaico de maquis e garrigue de idade e estrutura variáveis; por outro lado, a agricultura introduziu e/ou adaptou diversas espécies: Oliveira, Amendoeira, Alfarrobeira,… Com a paragem das intervenções tradicionais o maquis, tornando-se impenetrável e estruturalmente uniforme (como acontece na zona N do planalto), representa uma massa importante sujeita a alimentar fogos catastróficos.
Apesar de degradada a fauna da Rocha da Pena apresenta ainda uma diversidade que importa salvaguardar. De entre os mamíferos destacam-se o Geneto (Genetta genetta), o Saca-rabos (Herpestres ichneumon), a Raposa (Vulpes vulpes), o Toirão (Mustela putoris), a Lebre (Lepus capensis), o Coelho (Oryctulagos cuniculus) e diversas espécies de quirópteros. A avifauna é igualmente de grande valor ocorrendo, entre outras espécies noitibós (Caprimulgus sp.), poupas (Upupa epops) e grande diversidade de passeriformes, destacando-se a ocorrência de rapinas (Faconiformes); existem referências à presença da rara Águia de Bonelli (Hieraetus fasciatus), Bufo Real (Bubo bubo), Coruja-do-mato (Strix aluco), Francelho (Falco tinunculus), Milhafre (Milvus regalis), Gavião (Accipiter nisus) e Grifo (Gyps fulcus). A Águia de Bonelli e o Bufo Real ainda ocorrem na Rocha da Pena (?), ambas as espécies constam do Anexo I da Directiva Comunitária 79/409/CEE para a protecção das aves. Será também de destacar a ocorrência de grande variedade de insectos, nomeadamente lepidópteros e coleópteros.
Relevo altaneiro, a Rocha da Pena (480 m) constitui por natureza um miradouro de onde se poderão desfrutar largas vistas panorâmicas; sendo de destacar: a N, o vale da Quinta do Freixo e, mais ao longe, o relevo em montículos de toupeira da serra xistosa que se estende até à linha do horizonte; a W, o entalhe de erosão da ribeira de Alte e a Rocha dos Sóidos (467 m); e a S, a repousante paisagem que, do barrocal ao litoral, desemboca no azul-oceano.
Fig. 3: Vista panorâmica a partir da cota 481 m, a SE do Barranco do Velho (Serra do Caldeirão), para oeste: em primeiro plano e à direita o relevo em montículos de toupeira dos xistos paleozóicos da Serra Algarvia (Negros, 474 m; Juncal, 523 m); à esquerda o relevo da Orla Mesocenozóica Meridional ou Algarvia, mais precisamente do Barrocal ou Carso Algarvio (Rocha da Pena, 480 m; Sóidos, 467 m; Cabeço da Areia, 377;...). Salir situa-se na depressão periférica, que separa o Barrocal da Serra, correspondente aos terrenos do Triásico (adapt. de M. Feio, 1951).

CONSERVAÇÃO E PROTECÇÃO
As falésias e relevos escarpados, até há alguns anos atrás, eram pouco frequentados pelo Homem constituindo dos últimos refúgios onde diversas espécies podiam permanecer sem serem perturbadas. O crescente desenvolvimento economicista e tecnicista inverteu, no entanto, esse cenário.
Não se questionando as transformações do meio, inerentes à própria evolução das populações, reconhece-se, no entanto, a necessidade de implementar um desenvolvimento sustentado que não descure as componentes social, ambiental e cultural, devendo-se optar pela preservação in situ de monumentos naturais, como será o caso da Rocha da Pena, integrados no viver das gentes e sujeitos a uma gestão conveniente do espaço, como defende A. M. Galopim de Carvalho do Museu Nacional de História Natural (MNHN). Nesse sentido, e desde há alguns anos a esta parte, foram propostas diversas modalidades de conservação/protecção da “Serra da Pena” (segundo a expressão de Estácio da Veiga, 1886).
Já em 1977, A. Gomes Guerreiro alertava para a necessidade de “protecção e reserva de zonas escolhidas do barrocal e serra, seleccionadas pelas evidentes características de beleza paisagística, de riqueza natural e de grande potencial genético” (sic.). Deodália Dias e Maria João Ramos, a partir de trabalhos de campo realizados em 1979, propuseram a criação da Reserva Integral da Gruta da Pena: considerando que as populações de quirópteros são particularmente sensíveis à presença humana, especialmente R. mehelyi e M. blythi. A Secretaria de Estado do Ambiente ao elaborar o Ordenamento Biofísico do Algarve (1982) propôs a criação de uma Reserva Zoológica na Rocha da Pena. Posteriormente, o eng. Leal de Oliveira defendeu no 3º Congresso do Algarve (1984) a criação de uma Reserva Natural na Rocha da Pena. M. J. Azevedo Soares (1985), no âmbito da geologia, propõe a classificação (ao abrigo do Dec.-Lei nº 613/76) do Alto Barrocal (Salir) e que o Poço dos Mouros seja considerado como Reserva Natural Integral. O Sítio Classificado da Rocha da Pena é finalmente criado, em 1991, juntamente com o da Fonte da Benémola (Dec.-Lei nº 392/91, de 10 de Outubro), reconhecendo-se a importância da conservação desse património natural, um dos biótopos do programa comunitário CORINE e área incluída no PROTAL como Zona de Protecção da Natureza.
Fig. 4: Carta geral de ocupação da Rocha da Pena: 1) maquis e garrigue; 2) alfarrobeiral e mato; 3) dolinas; 4) Poço dos Mouros; 5) Buraco da Caldeirinha; 6) muralha do período neolítico ou da Idade do Ferro (?).

AS ACTIVIDADES DE AR LIVRE
A protecção natural devida à inacessibilidade do terreno já não funciona face ao grande incremento das actividades de ar livre juntamente com o progresso das vias de comunicação e consequente fácil acesso. A massificação dos “terrenos aventura”, a penetração de grande número de pessoas em áreas tradicionalmente pouco frequentadas, origina diversos problemas: pisoteio, incremento da erosão, ruído, destruição de vegetação, perturbação da fauna, detritos, risco de incêndio, restos de fogueiras, marcas de tendas, etc.. Visitantes de ocasião, amantes dos percursos pedestres, “espeleólogos”, escaladores, campistas, escuteiros e outros terão a sua quota parte na degradação da Rocha da Pena.
Já em 1985, Luís Rocha Cruz, do Núcleo de Espeleologia do Circulo Cultural do Algarve (NECCA), manifestou a sua preocupação pela situação de degradação e abandono em que se encontrava a Lapa da Pena. No ano seguinte, o Centro de Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) toma conhecimento, através do Ofício nº 923/86 do Serviço Nacional de Parques e Conservação da Natureza (SNPCN), “da acção nefasta exercida por grupos de jovens praticantes de Espeleologia e Montanhismo na Rocha da Pena” (in jornal A Voz de Loulé, Ano XXXIII, nº 1103, 21/Ago. 86). Posteriormente, P. Cuiça chama a atenção para a degradação a que o Poço dos Mouros tem vindo a ser sujeito devido a acções antrópicas (1988b, c; 1993), nomeadamente a perturbação das colónias de morcegos, bem como para diversas pressões em torno da Rocha da Pena (1993).
Por seu turno, a Almargem - Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental veio a terreiro para alertar acerca da portaria de Agosto de 1988 que autorizou o funcionamento em parte das vertentes W e N da Rocha da Pena de uma Zona de Caça Turística (Quinta do Freixo), bem como da forma sigilosa como foi aberta uma estrada desde a Peninha até ao topo dessa elevação (1990).
Apesar de actualmente a Rocha da Pena ser um Sítio Classificado continuam a ocorrer acções antrópicas contra o património natural aí existente, por não se verificar, na prática, qualquer vigilância, divulgação, planeamento integrado ou construção de estruturas para a conservação da área. Onde estão os placards alertando para a acção nefasta de se descer ao Algar dos Mouros ou de se escalar em determinados sectores? Onde está o estudo de impacte ambiental (EIA) que avalie as acções das diversas actividades aí desenvolvidas (nomeadamente as actividades de ar livre) e permita tomar as correctas medidas de gestão das mesmas? Muitas perguntas ficam por responder!
Hoje em dia “não deixar mais pegadas e não tirar mais que fotografias” torna-se uma fórmula perfeitamente esvaziada de significado face aos problemas reais de massificação das actividades out-door e exigem-se medidas concretas, fundamentadas e eficientes que resolvam o paradoxo de como proteger e simultaneamente divulgar. Os processos de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) e os Estudos de Impacte Ambiental (EIA) terão, necessariamente, um papel de destacada relevância na correcta abordagem da problemática de gestão. Esses estudos, multidisciplinares e isentos, que relacionem nomeadamente as actividades de ar livre com a conservação do meio ambiente serão de importância fundamental; mas mais importante que os estudos será a aplicação que deles se faça! Quantificar o número de visitantes, tipo de actividades praticadas, locais de intervenção e impactes em jogo será, pois, de primordial importância para uma correcta gestão conservativa da Rocha da Pena. Pelas suas características ímpares, essa elevação apresenta um grande potencial para a prática de diversas actividades de ar livre: campismo (bivaque), percursos pedestres (passeios), escalada, “espeleologia”, rapel, corrida de orientação, percursos a cavalo, bicicleta de montanha, todo-o-terreno (4x4), asa-delta, parapente, caça,…; no entanto, algumas delas não serão compatíveis com a preservação do meio ambiente.
Fig. 5: Esboço de matriz de impacte ambiental de actividades de ar livre na Rocha da Pena: 0) impacte nulo; 1) i. baixo; 2) i. moderado; 3) i. elevado; 4) i. muito elevado. As matrizes causa/efeito são métodos qualitativos que realizam uma análise de correspondência entre uma acção ou actividade sobre o meio ambiente. São especialmente utilizadas em avaliações de impacte ambiental preliminares, pois permitem uma primeira aproximação à actividades e impactes em jogo.

O POÇO DOS MOUROS
Na sala terminal da Caverna dos Mouros encontra-se uma das maiores colónias de morcegos da Europa, segundo J. Palmeirim: colónia de criação de Miniopteros schereibersii com mais de 2000 indivíduos e um largo número de Myotis blythii e Rhinolophus mehelyi. A acção antrópica, em cavernas-abrigo de morcegos, é um dos factores mais significativos de impacte sobre o número de indivíduos de uma colónia (Dias & Ramos, inéd.; Dias, 1987; Palmeirim, 1982, 1987, 1990, inéd.; Palmeirim & Viana-Rodrigues, inéd.). A espécie M. schereibersii parece estar dividida em populações bem definidas cujos indivíduos se reúnem sempre na mesma caverna durante a época de criação, caso da cavidade em questão. A perturbação das colónias do Poço dos Mouros, no período de tempo referido, revela-se, pois, de gravosas consequência. A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a essa cavidade (a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em diversos mapas e guias turísticos), o aumento dos praticantes de “espeleologia” e a, ainda mais grave, crescente acção de visitantes ocasionais impõe que sejam tomadas medidas de conservação/protecção das colónias de quirópteros aí existentes. Com esse fim, verifica-se a necessidade de regulamentar o acesso à gruta, nomeadamente durante a época de criação (Março a Maio), procedendo-se à colocação de gradeamento que não prejudique a entrada e saída de morcegos e não altere o (micro)clima subterrâneo. Essa medida poder-se-á estender eventualmente ao período de hibernação (Novembro a Março) ou mesmo, caso seja classificada como Reserva Integral, ao encerramento permanente.
O “Plano de Utilização Turística das Grutas” elaborado pela Almargem e apresentado à Câmara Municipal de Loulé com o fim, entre outros, de promover “visitas condicionadas” (?) ao Poço dos Mouros não se integra na perspectiva atrás delineada. Por outro lado, o elevado estado de colmatação em que essa cavidade se encontra, (endo)carso senil sujeito a abatimentos (nomeadamente na sala terminal de grandes dimensões), apresenta condições de segurança que não aconselharão a promoção de visitas!
Fig. 6: Planta topográfica do Poço dos Mouros (topo NECCA).

A ESCALADA
(…)

CONCLUSÃO
Em nome do desenvolvimento ou (cada vez mais) do ambiente, certos agentes têm sabido organizar-se na gestão de espaços físicos e/ou na exploração dos seus recursos num exclusivo interesse imediato, acelerando processos de degradação ambiental, destruindo testemunhos patrimoniais do maior valor e produzindo danos e perdas irreparáveis (como o que aconteceu com a tentativa de abertura para fins turísticos da Gruta da Senhora, no Cerro da Cabeça).
O protagonismo que a Almargem tem demonstrado nos últimos tempos tentando que a gestão do Sítio Classificado seja entregue ao Centro Ambiental da Pena esquece, no entanto, que a sociedade (em plena vivência democrática) assume-se no direito de estabelecer as regras entre os seus pares no usufruto desse vasto condomínio, que será a Rocha da Pena, e ocorre-me a Câmara Municipal de Loulé, a Região de Turismo do Algarve, a Direcção Regional de Ordenamento do Território, o Instituto de Conservação da Natureza, a Universidade do Algarve, juntas de freguesia da área, as diversas associações ambientais, as populações residentes nas imediações dessa elevação, os espeleólogos, os escaladores,… como alguns dos directamente envolvidos na matéria. É evidente que as diversas entidades terão de passar por uma ponderação, na perspectiva do que se entende por desenvolvimento sustentado, em que o diálogo entre os diversos intervenientes contribua para uma gestão coerente e equilibrada desse Sítio Classificado. Aliás, o novo enquadramento legal das Áreas Protegidas (Dec.-Lei nº 19/93) ao prever a reclassificação das várias áreas de acordo com as suas potencialidades e interesses em jogo será um instrumento de grande valor para proceder ao (re)ordenamento da Rocha da Pena tendo em consideração os diversos organismos e pessoas individuais relacionados com a problemática em causa. A sociedade, ou seja, todos os indivíduos incluindo as gerações vindouras têm, nõ só, o direito de isufruirem desse vasto condomínio que é a natureza, bem como de promoverem a preservação ou a cessação de factores de degradação do ambiente (artos. 9º, 65º, 81º e 91º da Constituição Portuguesa).
Por último, a legislação estabelece de forma clara a instalação e orgânica dos Sítios Classificados da Rocha da Pena e Fonte da Benémola (Dec.-Lei nº 4/78, de 11 de Janeiro, e Dec.-Lei nº 392/91, de 10 de Outubro), as instituições e pessoas necessariamente envolvidas são o Director, a Comissão Directiva e o Conselho Geral.
A Rocha da Pena, um dos locais mais pitorescos do “barrocal agreste e pedregoso” (Gomes Guerreiro, 1977), é um património natural que importa conservar!

22/04/2008

O dia da Terra

© John McConnell

Comemora-se hoje mais um Dia Mundial da Terra, como se todos os dias não devessem constituir um hino de louvor a este planeta que nos viu nascer e suporta as nossas vidas! Não deixa de ser curioso que habitando nós a tempo inteiro, 365 dias por ano, neste planeta chamado “Terra” apenas um deles seja consagrado à "saúde" desta aldeia global que constitui o nosso habitat, o nosso lar. Trata-se de mais um dia de circunstância mas que, pelo menos, sirva para lançar mais uma chamada de atenção face aos problemas que ameaçam o nosso planeta, a sua biodiversidade e o próprio futuro da humanidade. Que mais não fosse, que este dia constituísse uma oportunidade para pensarmos no nosso bem-estar, na nossa qualidade de vida, realização e/ou felicidade. E, já agora, pensarmos também nas gerações vindouras que irão herdar aquilo que fizermos... Pois, porque disso se trata! E, claro, isso está muito para além dos carsos e das grutas ou de outras parcelas do real. Não confundamos as partes pelo todo…
O Dia da Terra serve para que, pelo menos hoje, se façam ouvir, mais uma vez, a somar a tantas outras vezes, os alertas sobre a situação do ambiente no mundo: o aquecimento global, a subida do nível médio das águas do mar, o buraco do ozono, o degelo das calotes polares, as alterações climáticas, as emissões de dióxido de carbono, a extinção de espécies, etc. Fica-nos a dúvida se, à semelhança do que acontece com outras notícias, a repetição sistemática das mesmas temáticas tornará os receptores imunes às mesmas, distantes e indiferentes. Ou, tão mal ou pior, meros órgãos de reacção prontos a emitirem discursos de circunstância vazios de qualquer substância, veracidade ou vivência. Como se o ar que respiramos fosse algo de distante que só afectasse os outros, à semelhança de tudo o resto que, mais ou menos, se passa neste vasto condomínio que é a natureza. Que ao menos este dia constituísse uma re-ligação à natureza, à antiga Mãe-Terra, às nossas verdadeiras origens ou que proporcionasse uma simples reflexão sobre o mistério tremendo e fascinante que foi responsável pela criação e evolução deste planeta vivo de que somos parte integrante. Este planeta azul a que também poderemos chamar carinhosamente "Gaia"...

18/04/2008

XIX Jornadas SEDECK



As XIX Jornadas de SEDECK Cantabria 2008 realizam-se, de 30 de Maio (sexta-feira) a 1 de Junho (domingo), no Museo de la Naturaleza de Cantábria, em Carrejo (Cabézon de la Sal). As jornadas, sob o tema La Conservación de las Cavidades y el Karst, reúnem diversos especialistas em torno da conservação do carso.
O evento é organizado pela Asociácion Cántabra para la Defensa del Património Subterráneo e conta com o apoio da Consejería de Cultura, Turismo y Deportes del Gobierno de Cantabria.


PROGRAMA

Sexta-feira 30 de Maio

● 20.00 Recepção no Museu e visita à exposição: Cantábria - Diversidade Subterránea

Sábado 31 de Maio

10.00 Primeira Sessão
Introducción al Karst de Cantabria, Virgilio Fernández Acebo (Centro de Estudios Montañeses)
Conservación de los quirópteros cavernícolas en Cantabria, Isidoro Fombellida (Mustela.S.C: Consultores en recursos naturales y educación ambiental)
La Defensa del Patrimonio Subterráneo en Cantabria: la trayectoria de la ACDPS, Ignacio Castanedo (Presidente, ACDPS)
11.45 Descanso
12.15 Segunda Sessão
La Conservación del Karst en el País Vasco y Europa, Álvaro Arrizabalaga (Universidad del País Vasco)
El arte rupestre paleolítico de la Cornisa Cantábrica en la lista de Patrimonio Mundial de UNESCO, Roberto Ontañón (Jefe de la Sección de Arqueología, Consejería de Cultura, Turismo y Deporte)
16.00 Visita à gruta de El Soplao

Domingo 1 de junho

10.00 Visita ao Museo de Altamira e à exposição permanente Los Tiempos de Altamira
11.30 Conferência
La Conservación de la Cueva de Altamira, Carmen de las Heras (Museo Nacional y Centro de Investigación de Altamira)
12.30 Visita à Neocueva
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11/04/2008

Velhas novidades

Caríssimos, faz hoje um mês que não colocávamos posts neste blogue. Tal deve-se ao facto de não termos tido tempo, por motivos profissionais e outros afazeres, para colocar novos, ou melhor, os nossos velhos artigos sobre espeleologia neste espaço espeleo-virtual. De facto, a nossa vida não se centra de todo em “alimentar” este blogue ou estar face a ecrãs de computador ou outros, apraz-nos bem mais os vastos espaços de ar livre ou até confinados espaços subterrâneos. E, nesse contexto, temos andado mais ocupados em "campo" do que em gabinete… Por outro lado, não temos pressa: artigos que foram publicados há 20, 15 ou 10 anos atrás são tão actuais hoje como daqui a 15 dias :)
Aproveitamos para expressar o nosso agradecimento a todos aqueles que têm visitado o Spelaion e, sobretudo, aos que enviaram diversas mensagens de apoio, propostas de colaboração ou simples pedidos de informações. Um especial abraço aos amigos com que já não falava há anos e que, agora, este meio de comunicação permitiu reencontrar... Já só por isso este blogue valeu a pena. Enfim, ainda não morremos, nem sequer estamos desmaiados, apenas temos estado noutra, mas prometemos para breve “velhas novidades”. Ainda temos muitos artigos para publicar e certamente, mais tarde ou mais cedo, verdadeiras novidades. Portanto, até breve e, mais uma vez, um muito obrigado a todos.