24/04/2008

Rocha da Pena

Impactes Ambientais de Actividades de Ar Livre
Rocha da Pena - Um património natural que importa preservar

[Comunicação do 4º Encontro Nacional de Espeleologia AES (Sintra) - Protecção das Paisagens Cársicas (1995)]

O BIÓTIPO
A Rocha da Pena, localizada no limite setentrional do barrocal algarvio, a N da estrada Alte-Salir (concelho de Loulé), constitui um local de grande interesse do ponto de vista geológico, paisagístico, arqueológico, faunístico e florístico, entre outros.
O Serro da Pena, único relevo verdadeiramente vigoroso existente no Algarve (Mariano Feio, 1951), é uma pseudo-mesa resultante da acção erosiva sobre a estrutura monoclinal dos calcários dolomíticos liássicos da formação da Picavessa (Jurássico inf.). Carso alcandorado, orientado segundo E-W, ultrapassa os 50 m de altura na vertente S. No topo, aparatoso planalto ligeiramente ondulado, encontram-se formações lapiares, cerca de uma dezena de dolinas (Crispim, 1982; Costa Almeida, 1985) e diversas cavernas. Uma dolina de abatimento, no topo do planalto, dá acesso ao Poço dos Mouros (Caverna do Poço dos Mouros, Caverna dos Mouros, Buraco dos Mouros, Algar dos Mouros, Lapa da Pena ou Gruta da Rocha da Pena), rica em lendas e de grande interesse arqueológico (Silva Lopes, 1841; Charles Bonnet, 1850; Estácio da Veiga, 1886; Paul Choffat, 1887; Barros Machado & Barros Machado, 1948;…). Esta, é uma das mais conhecidas e maiores cavidades do carso algarvio encontrando-se na sua (grande) sala terminal uma das maiores colónias de quirópteros a nível europeu, segundo J. Palmeirim. Por outro lado, A. Barros Machado & B. de Barros Machado (1948) afirmam o interesse zoológico da cavidade em questão. O Buraco da Caldeirinha (Algarão ou Algueirão da Rocha da Pena) e Algarinho da Rocha Amarela (ou Gurita do Fumo) também possuem as suas lendas e tradições. As duas cavernas da vertente meridional (Cavernas da Rocha da Pena) apresentam grande interesse arqueológico (Costa Almeida, 1979) pois poderão ter funcionado como abrigo do Homo durante o Paleolítico sup./Epipaleolítico (Strauss, 1987). Na vertente N, com diversos troços escarpados, também surgem algumas cavidades.
Fig. 1: Vertentes S e E da Rocha da Pena (adapt. M. Feio, 1951).
A vegetação varia desde formações pioneiras sobre rocha nua e litossolos a diversos estágios de maquis e garrigue; flora característica do Barrocal, constituída por antigas associações florísticas mediterrânicas, é, na sua composição variada, um elemento de grande beleza paisagística. Surgindo a Azinheira (a Quercus hilex ballota geralmente designada por Q. rotundifolia), o Zambujeiro (Olea europea), o Medronheiro (Arbutus unedo), a Aroeira ou Lentisco (Pistacia lentiscus), o Carvalho Cerquinho ou Português (o Q. lusitanica actualmente designado por Q. faginea), o Alecrim (Rosmarinus officinalis), o Rosmaninho (Lavandula stoechas), a Esteva (Cistus sp.),… A inventariação da vegetação da Rocha da Pena, efectuada por Pereira Dias e Leal de Oliveira (1984), referencia nove espécies endémicas (Paeonia broteroi, Thymus mastichina, T. tormentosus, Genista hirsuta, Teucrium hanseleri, Phlomis lycnhitis e Cachrys trifida), sendo duas delas exclusivamente portuguesas (Allium pruinatum e Bellavakia hackelli).
Os verões quentes e secos imprimem o carácter estépico da vegetação herbácea e explicam a dominância de árvores e arbustos de folha perene. Esses longos estios determinam também inúmeras adaptações xerófitas: folhas reduzidas, cobertas de pêlos ou de verniz, coriáceas, aceradas ou tomentosas e resinas odoríferas responsáveis pelo aroma inconfundível dos carsos mediterrânicos.
A acção antrópica, desde tempos remotos, enriqueceu a vegetação e transformou a paisagem; facto bem testemunhado pelos dois amuralhamentos do Neolítico ou da Idade do Ferro (?), localizados no planalto. Estácio da Veiga (1886) destacou que “em toda a freguesia de Salir são frequentes os instrumentos de pedra polida” e Charles Bonnet (1850) referiu os estranhos “amontoadas de pedras” no interior do Buraco dos Mouros.
Fig. 2: A topografia da Rocha da Pena (Carta Militar de Portugal na escalada de 1/25 000, folha nº 547 - Querença (Loulé).
O pastoreio originou, em grande parte, o mosaico de maquis e garrigue de idade e estrutura variáveis; por outro lado, a agricultura introduziu e/ou adaptou diversas espécies: Oliveira, Amendoeira, Alfarrobeira,… Com a paragem das intervenções tradicionais o maquis, tornando-se impenetrável e estruturalmente uniforme (como acontece na zona N do planalto), representa uma massa importante sujeita a alimentar fogos catastróficos.
Apesar de degradada a fauna da Rocha da Pena apresenta ainda uma diversidade que importa salvaguardar. De entre os mamíferos destacam-se o Geneto (Genetta genetta), o Saca-rabos (Herpestres ichneumon), a Raposa (Vulpes vulpes), o Toirão (Mustela putoris), a Lebre (Lepus capensis), o Coelho (Oryctulagos cuniculus) e diversas espécies de quirópteros. A avifauna é igualmente de grande valor ocorrendo, entre outras espécies noitibós (Caprimulgus sp.), poupas (Upupa epops) e grande diversidade de passeriformes, destacando-se a ocorrência de rapinas (Faconiformes); existem referências à presença da rara Águia de Bonelli (Hieraetus fasciatus), Bufo Real (Bubo bubo), Coruja-do-mato (Strix aluco), Francelho (Falco tinunculus), Milhafre (Milvus regalis), Gavião (Accipiter nisus) e Grifo (Gyps fulcus). A Águia de Bonelli e o Bufo Real ainda ocorrem na Rocha da Pena (?), ambas as espécies constam do Anexo I da Directiva Comunitária 79/409/CEE para a protecção das aves. Será também de destacar a ocorrência de grande variedade de insectos, nomeadamente lepidópteros e coleópteros.
Relevo altaneiro, a Rocha da Pena (480 m) constitui por natureza um miradouro de onde se poderão desfrutar largas vistas panorâmicas; sendo de destacar: a N, o vale da Quinta do Freixo e, mais ao longe, o relevo em montículos de toupeira da serra xistosa que se estende até à linha do horizonte; a W, o entalhe de erosão da ribeira de Alte e a Rocha dos Sóidos (467 m); e a S, a repousante paisagem que, do barrocal ao litoral, desemboca no azul-oceano.
Fig. 3: Vista panorâmica a partir da cota 481 m, a SE do Barranco do Velho (Serra do Caldeirão), para oeste: em primeiro plano e à direita o relevo em montículos de toupeira dos xistos paleozóicos da Serra Algarvia (Negros, 474 m; Juncal, 523 m); à esquerda o relevo da Orla Mesocenozóica Meridional ou Algarvia, mais precisamente do Barrocal ou Carso Algarvio (Rocha da Pena, 480 m; Sóidos, 467 m; Cabeço da Areia, 377;...). Salir situa-se na depressão periférica, que separa o Barrocal da Serra, correspondente aos terrenos do Triásico (adapt. de M. Feio, 1951).

CONSERVAÇÃO E PROTECÇÃO
As falésias e relevos escarpados, até há alguns anos atrás, eram pouco frequentados pelo Homem constituindo dos últimos refúgios onde diversas espécies podiam permanecer sem serem perturbadas. O crescente desenvolvimento economicista e tecnicista inverteu, no entanto, esse cenário.
Não se questionando as transformações do meio, inerentes à própria evolução das populações, reconhece-se, no entanto, a necessidade de implementar um desenvolvimento sustentado que não descure as componentes social, ambiental e cultural, devendo-se optar pela preservação in situ de monumentos naturais, como será o caso da Rocha da Pena, integrados no viver das gentes e sujeitos a uma gestão conveniente do espaço, como defende A. M. Galopim de Carvalho do Museu Nacional de História Natural (MNHN). Nesse sentido, e desde há alguns anos a esta parte, foram propostas diversas modalidades de conservação/protecção da “Serra da Pena” (segundo a expressão de Estácio da Veiga, 1886).
Já em 1977, A. Gomes Guerreiro alertava para a necessidade de “protecção e reserva de zonas escolhidas do barrocal e serra, seleccionadas pelas evidentes características de beleza paisagística, de riqueza natural e de grande potencial genético” (sic.). Deodália Dias e Maria João Ramos, a partir de trabalhos de campo realizados em 1979, propuseram a criação da Reserva Integral da Gruta da Pena: considerando que as populações de quirópteros são particularmente sensíveis à presença humana, especialmente R. mehelyi e M. blythi. A Secretaria de Estado do Ambiente ao elaborar o Ordenamento Biofísico do Algarve (1982) propôs a criação de uma Reserva Zoológica na Rocha da Pena. Posteriormente, o eng. Leal de Oliveira defendeu no 3º Congresso do Algarve (1984) a criação de uma Reserva Natural na Rocha da Pena. M. J. Azevedo Soares (1985), no âmbito da geologia, propõe a classificação (ao abrigo do Dec.-Lei nº 613/76) do Alto Barrocal (Salir) e que o Poço dos Mouros seja considerado como Reserva Natural Integral. O Sítio Classificado da Rocha da Pena é finalmente criado, em 1991, juntamente com o da Fonte da Benémola (Dec.-Lei nº 392/91, de 10 de Outubro), reconhecendo-se a importância da conservação desse património natural, um dos biótopos do programa comunitário CORINE e área incluída no PROTAL como Zona de Protecção da Natureza.
Fig. 4: Carta geral de ocupação da Rocha da Pena: 1) maquis e garrigue; 2) alfarrobeiral e mato; 3) dolinas; 4) Poço dos Mouros; 5) Buraco da Caldeirinha; 6) muralha do período neolítico ou da Idade do Ferro (?).

AS ACTIVIDADES DE AR LIVRE
A protecção natural devida à inacessibilidade do terreno já não funciona face ao grande incremento das actividades de ar livre juntamente com o progresso das vias de comunicação e consequente fácil acesso. A massificação dos “terrenos aventura”, a penetração de grande número de pessoas em áreas tradicionalmente pouco frequentadas, origina diversos problemas: pisoteio, incremento da erosão, ruído, destruição de vegetação, perturbação da fauna, detritos, risco de incêndio, restos de fogueiras, marcas de tendas, etc.. Visitantes de ocasião, amantes dos percursos pedestres, “espeleólogos”, escaladores, campistas, escuteiros e outros terão a sua quota parte na degradação da Rocha da Pena.
Já em 1985, Luís Rocha Cruz, do Núcleo de Espeleologia do Circulo Cultural do Algarve (NECCA), manifestou a sua preocupação pela situação de degradação e abandono em que se encontrava a Lapa da Pena. No ano seguinte, o Centro de Actividades Especiais da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) toma conhecimento, através do Ofício nº 923/86 do Serviço Nacional de Parques e Conservação da Natureza (SNPCN), “da acção nefasta exercida por grupos de jovens praticantes de Espeleologia e Montanhismo na Rocha da Pena” (in jornal A Voz de Loulé, Ano XXXIII, nº 1103, 21/Ago. 86). Posteriormente, P. Cuiça chama a atenção para a degradação a que o Poço dos Mouros tem vindo a ser sujeito devido a acções antrópicas (1988b, c; 1993), nomeadamente a perturbação das colónias de morcegos, bem como para diversas pressões em torno da Rocha da Pena (1993).
Por seu turno, a Almargem - Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental veio a terreiro para alertar acerca da portaria de Agosto de 1988 que autorizou o funcionamento em parte das vertentes W e N da Rocha da Pena de uma Zona de Caça Turística (Quinta do Freixo), bem como da forma sigilosa como foi aberta uma estrada desde a Peninha até ao topo dessa elevação (1990).
Apesar de actualmente a Rocha da Pena ser um Sítio Classificado continuam a ocorrer acções antrópicas contra o património natural aí existente, por não se verificar, na prática, qualquer vigilância, divulgação, planeamento integrado ou construção de estruturas para a conservação da área. Onde estão os placards alertando para a acção nefasta de se descer ao Algar dos Mouros ou de se escalar em determinados sectores? Onde está o estudo de impacte ambiental (EIA) que avalie as acções das diversas actividades aí desenvolvidas (nomeadamente as actividades de ar livre) e permita tomar as correctas medidas de gestão das mesmas? Muitas perguntas ficam por responder!
Hoje em dia “não deixar mais pegadas e não tirar mais que fotografias” torna-se uma fórmula perfeitamente esvaziada de significado face aos problemas reais de massificação das actividades out-door e exigem-se medidas concretas, fundamentadas e eficientes que resolvam o paradoxo de como proteger e simultaneamente divulgar. Os processos de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) e os Estudos de Impacte Ambiental (EIA) terão, necessariamente, um papel de destacada relevância na correcta abordagem da problemática de gestão. Esses estudos, multidisciplinares e isentos, que relacionem nomeadamente as actividades de ar livre com a conservação do meio ambiente serão de importância fundamental; mas mais importante que os estudos será a aplicação que deles se faça! Quantificar o número de visitantes, tipo de actividades praticadas, locais de intervenção e impactes em jogo será, pois, de primordial importância para uma correcta gestão conservativa da Rocha da Pena. Pelas suas características ímpares, essa elevação apresenta um grande potencial para a prática de diversas actividades de ar livre: campismo (bivaque), percursos pedestres (passeios), escalada, “espeleologia”, rapel, corrida de orientação, percursos a cavalo, bicicleta de montanha, todo-o-terreno (4x4), asa-delta, parapente, caça,…; no entanto, algumas delas não serão compatíveis com a preservação do meio ambiente.
Fig. 5: Esboço de matriz de impacte ambiental de actividades de ar livre na Rocha da Pena: 0) impacte nulo; 1) i. baixo; 2) i. moderado; 3) i. elevado; 4) i. muito elevado. As matrizes causa/efeito são métodos qualitativos que realizam uma análise de correspondência entre uma acção ou actividade sobre o meio ambiente. São especialmente utilizadas em avaliações de impacte ambiental preliminares, pois permitem uma primeira aproximação à actividades e impactes em jogo.

O POÇO DOS MOUROS
Na sala terminal da Caverna dos Mouros encontra-se uma das maiores colónias de morcegos da Europa, segundo J. Palmeirim: colónia de criação de Miniopteros schereibersii com mais de 2000 indivíduos e um largo número de Myotis blythii e Rhinolophus mehelyi. A acção antrópica, em cavernas-abrigo de morcegos, é um dos factores mais significativos de impacte sobre o número de indivíduos de uma colónia (Dias & Ramos, inéd.; Dias, 1987; Palmeirim, 1982, 1987, 1990, inéd.; Palmeirim & Viana-Rodrigues, inéd.). A espécie M. schereibersii parece estar dividida em populações bem definidas cujos indivíduos se reúnem sempre na mesma caverna durante a época de criação, caso da cavidade em questão. A perturbação das colónias do Poço dos Mouros, no período de tempo referido, revela-se, pois, de gravosas consequência. A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a essa cavidade (a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em diversos mapas e guias turísticos), o aumento dos praticantes de “espeleologia” e a, ainda mais grave, crescente acção de visitantes ocasionais impõe que sejam tomadas medidas de conservação/protecção das colónias de quirópteros aí existentes. Com esse fim, verifica-se a necessidade de regulamentar o acesso à gruta, nomeadamente durante a época de criação (Março a Maio), procedendo-se à colocação de gradeamento que não prejudique a entrada e saída de morcegos e não altere o (micro)clima subterrâneo. Essa medida poder-se-á estender eventualmente ao período de hibernação (Novembro a Março) ou mesmo, caso seja classificada como Reserva Integral, ao encerramento permanente.
O “Plano de Utilização Turística das Grutas” elaborado pela Almargem e apresentado à Câmara Municipal de Loulé com o fim, entre outros, de promover “visitas condicionadas” (?) ao Poço dos Mouros não se integra na perspectiva atrás delineada. Por outro lado, o elevado estado de colmatação em que essa cavidade se encontra, (endo)carso senil sujeito a abatimentos (nomeadamente na sala terminal de grandes dimensões), apresenta condições de segurança que não aconselharão a promoção de visitas!
Fig. 6: Planta topográfica do Poço dos Mouros (topo NECCA).

A ESCALADA
(…)

CONCLUSÃO
Em nome do desenvolvimento ou (cada vez mais) do ambiente, certos agentes têm sabido organizar-se na gestão de espaços físicos e/ou na exploração dos seus recursos num exclusivo interesse imediato, acelerando processos de degradação ambiental, destruindo testemunhos patrimoniais do maior valor e produzindo danos e perdas irreparáveis (como o que aconteceu com a tentativa de abertura para fins turísticos da Gruta da Senhora, no Cerro da Cabeça).
O protagonismo que a Almargem tem demonstrado nos últimos tempos tentando que a gestão do Sítio Classificado seja entregue ao Centro Ambiental da Pena esquece, no entanto, que a sociedade (em plena vivência democrática) assume-se no direito de estabelecer as regras entre os seus pares no usufruto desse vasto condomínio, que será a Rocha da Pena, e ocorre-me a Câmara Municipal de Loulé, a Região de Turismo do Algarve, a Direcção Regional de Ordenamento do Território, o Instituto de Conservação da Natureza, a Universidade do Algarve, juntas de freguesia da área, as diversas associações ambientais, as populações residentes nas imediações dessa elevação, os espeleólogos, os escaladores,… como alguns dos directamente envolvidos na matéria. É evidente que as diversas entidades terão de passar por uma ponderação, na perspectiva do que se entende por desenvolvimento sustentado, em que o diálogo entre os diversos intervenientes contribua para uma gestão coerente e equilibrada desse Sítio Classificado. Aliás, o novo enquadramento legal das Áreas Protegidas (Dec.-Lei nº 19/93) ao prever a reclassificação das várias áreas de acordo com as suas potencialidades e interesses em jogo será um instrumento de grande valor para proceder ao (re)ordenamento da Rocha da Pena tendo em consideração os diversos organismos e pessoas individuais relacionados com a problemática em causa. A sociedade, ou seja, todos os indivíduos incluindo as gerações vindouras têm, nõ só, o direito de isufruirem desse vasto condomínio que é a natureza, bem como de promoverem a preservação ou a cessação de factores de degradação do ambiente (artos. 9º, 65º, 81º e 91º da Constituição Portuguesa).
Por último, a legislação estabelece de forma clara a instalação e orgânica dos Sítios Classificados da Rocha da Pena e Fonte da Benémola (Dec.-Lei nº 4/78, de 11 de Janeiro, e Dec.-Lei nº 392/91, de 10 de Outubro), as instituições e pessoas necessariamente envolvidas são o Director, a Comissão Directiva e o Conselho Geral.
A Rocha da Pena, um dos locais mais pitorescos do “barrocal agreste e pedregoso” (Gomes Guerreiro, 1977), é um património natural que importa conservar!

22/04/2008

O dia da Terra

© John McConnell

Comemora-se hoje mais um Dia Mundial da Terra, como se todos os dias não devessem constituir um hino de louvor a este planeta que nos viu nascer e suporta as nossas vidas! Não deixa de ser curioso que habitando nós a tempo inteiro, 365 dias por ano, neste planeta chamado “Terra” apenas um deles seja consagrado à "saúde" desta aldeia global que constitui o nosso habitat, o nosso lar. Trata-se de mais um dia de circunstância mas que, pelo menos, sirva para lançar mais uma chamada de atenção face aos problemas que ameaçam o nosso planeta, a sua biodiversidade e o próprio futuro da humanidade. Que mais não fosse, que este dia constituísse uma oportunidade para pensarmos no nosso bem-estar, na nossa qualidade de vida, realização e/ou felicidade. E, já agora, pensarmos também nas gerações vindouras que irão herdar aquilo que fizermos... Pois, porque disso se trata! E, claro, isso está muito para além dos carsos e das grutas ou de outras parcelas do real. Não confundamos as partes pelo todo…
O Dia da Terra serve para que, pelo menos hoje, se façam ouvir, mais uma vez, a somar a tantas outras vezes, os alertas sobre a situação do ambiente no mundo: o aquecimento global, a subida do nível médio das águas do mar, o buraco do ozono, o degelo das calotes polares, as alterações climáticas, as emissões de dióxido de carbono, a extinção de espécies, etc. Fica-nos a dúvida se, à semelhança do que acontece com outras notícias, a repetição sistemática das mesmas temáticas tornará os receptores imunes às mesmas, distantes e indiferentes. Ou, tão mal ou pior, meros órgãos de reacção prontos a emitirem discursos de circunstância vazios de qualquer substância, veracidade ou vivência. Como se o ar que respiramos fosse algo de distante que só afectasse os outros, à semelhança de tudo o resto que, mais ou menos, se passa neste vasto condomínio que é a natureza. Que ao menos este dia constituísse uma re-ligação à natureza, à antiga Mãe-Terra, às nossas verdadeiras origens ou que proporcionasse uma simples reflexão sobre o mistério tremendo e fascinante que foi responsável pela criação e evolução deste planeta vivo de que somos parte integrante. Este planeta azul a que também poderemos chamar carinhosamente "Gaia"...

18/04/2008

XIX Jornadas SEDECK



As XIX Jornadas de SEDECK Cantabria 2008 realizam-se, de 30 de Maio (sexta-feira) a 1 de Junho (domingo), no Museo de la Naturaleza de Cantábria, em Carrejo (Cabézon de la Sal). As jornadas, sob o tema La Conservación de las Cavidades y el Karst, reúnem diversos especialistas em torno da conservação do carso.
O evento é organizado pela Asociácion Cántabra para la Defensa del Património Subterráneo e conta com o apoio da Consejería de Cultura, Turismo y Deportes del Gobierno de Cantabria.


PROGRAMA

Sexta-feira 30 de Maio

● 20.00 Recepção no Museu e visita à exposição: Cantábria - Diversidade Subterránea

Sábado 31 de Maio

10.00 Primeira Sessão
Introducción al Karst de Cantabria, Virgilio Fernández Acebo (Centro de Estudios Montañeses)
Conservación de los quirópteros cavernícolas en Cantabria, Isidoro Fombellida (Mustela.S.C: Consultores en recursos naturales y educación ambiental)
La Defensa del Patrimonio Subterráneo en Cantabria: la trayectoria de la ACDPS, Ignacio Castanedo (Presidente, ACDPS)
11.45 Descanso
12.15 Segunda Sessão
La Conservación del Karst en el País Vasco y Europa, Álvaro Arrizabalaga (Universidad del País Vasco)
El arte rupestre paleolítico de la Cornisa Cantábrica en la lista de Patrimonio Mundial de UNESCO, Roberto Ontañón (Jefe de la Sección de Arqueología, Consejería de Cultura, Turismo y Deporte)
16.00 Visita à gruta de El Soplao

Domingo 1 de junho

10.00 Visita ao Museo de Altamira e à exposição permanente Los Tiempos de Altamira
11.30 Conferência
La Conservación de la Cueva de Altamira, Carmen de las Heras (Museo Nacional y Centro de Investigación de Altamira)
12.30 Visita à Neocueva
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11/04/2008

Velhas novidades

Caríssimos, faz hoje um mês que não colocávamos posts neste blogue. Tal deve-se ao facto de não termos tido tempo, por motivos profissionais e outros afazeres, para colocar novos, ou melhor, os nossos velhos artigos sobre espeleologia neste espaço espeleo-virtual. De facto, a nossa vida não se centra de todo em “alimentar” este blogue ou estar face a ecrãs de computador ou outros, apraz-nos bem mais os vastos espaços de ar livre ou até confinados espaços subterrâneos. E, nesse contexto, temos andado mais ocupados em "campo" do que em gabinete… Por outro lado, não temos pressa: artigos que foram publicados há 20, 15 ou 10 anos atrás são tão actuais hoje como daqui a 15 dias :)
Aproveitamos para expressar o nosso agradecimento a todos aqueles que têm visitado o Spelaion e, sobretudo, aos que enviaram diversas mensagens de apoio, propostas de colaboração ou simples pedidos de informações. Um especial abraço aos amigos com que já não falava há anos e que, agora, este meio de comunicação permitiu reencontrar... Já só por isso este blogue valeu a pena. Enfim, ainda não morremos, nem sequer estamos desmaiados, apenas temos estado noutra, mas prometemos para breve “velhas novidades”. Ainda temos muitos artigos para publicar e certamente, mais tarde ou mais cedo, verdadeiras novidades. Portanto, até breve e, mais uma vez, um muito obrigado a todos.

11/03/2008

Cerro da Cabeça

[Forum Ambiente jornal ● nº 16, Mar. 95]

Cerro da Cabeça
Um espectacular megalapiás


Ladroeira Grande @ P. Cuiça (2008)

Ladroeira Grande (Algarve) © Pedro Cuiça (1994)

O Cerro da Cabeça, a 250 metros de altitude e a poucos quilómetros de Moncarapacho, no Algarve, tem o mais espectacular megalapiás da região. Um verdadeiro geomonumento.

Se já passou pelo sotavento algarvio concerteza que não ficou alheio ao panorama dos montes da Serra de Montefigo que se estendem, de nascente para poente, sobranceiros ao litoral. Essa serra começa, a este, por uma pequena elevação que passaria despercebida face ao comparativamente grande Cerro de S. Miguel (410 m) não fosse a sua superfície estar coberta de rochedos.
É um panorama diferente aquele que lhe propomos ao sugerir que visite o Cerro da Cabeça (249 m), situado a cerca de 2.5 quilómetros a nor-nordeste de Moncarapacho, um dos locais mais pitorescos da região algarvia. Com efeito, o terreno essencialmente rochoso e muito acidentado associado a uma flora variada típica do barrocal constituem um elemento de grande beleza paisagística. Neste cerro, um verdadeiro geo-monumento, encontra-se o mais espectacular megalapiás do Algarve, onde dominam os grandes dorsos de superfícies arredondadas, relevos cónicos e pedunculados, torres e blocos, distribuem-se densamente por toda a elevação.
O trabalho erosivo das águas de escorrência sobre as rochas carbonatadas não se limitou, no entanto, a modelar esse peculiar relevo ruíniforme, pois a profusão de cavernas aí existentes revelam a importância do seu oculto mundo subterrâneo. De facto, o Cerro da Cabeça é a zona onde existe maior número de grutas no Algarve, algumas delas de grande interesse zoológico e arqueológico, para além de aí se situarem as cavidades mais profundas da região (Algar Maxila e Algar Medusa com 95 e 78 m de profundidade, respectivamente). Estas características geomorfológicas fazem com que o Cerro da Cabeça seja ideal para a prática de “espeleologia” e de bouldering (escalada de blocos), no entanto, também se poderá, como é óbvio, apreciar este cerro de um modo menos “radical” através de um simples passeio.
Subindo pela escadaria que dá acesso aos restos do que já foi um miradouro, situado na vertente sul dessa elevação, poder-se-á abranger uma ampla panorâmica do litoral algarvio, desde Vila Real de Santo António até para além de Faro. A estrutura de betão e metal que se irá encontrar no caminho de terra que liga à dita escadaria é o resultado da desastrosa tentativa de abertura ao turismo da Gruta da Senhora, da qual resultou a destruição dessa cavidade. Mas não desanime. Apesar de nesse cerro já se verificar a actuação nefasta do homem, esta ainda não é muito marcante (pelo menos à superfície), exceptuando a pedreira situada na base sul-sudeste e alguns locais pontuais em que se verifica a existência de lixo. Se você é daqueles que gosta mesmo de andar a pé, vá até ao marco geodésico, no alto dessa elevação, e deslumbre-se com um pôr-do-sol a enquadrar a silhueta do Cerro de S. Miguel a oeste, as ilhas barreira da Ria Formosa a sul, a planície litoral que se estende até terras de Espanha a este e as colinas carbonatadas a norte. De regresso à base do cerro, contemple a transmutação do ambiente que se processa com o anoitecer. Se tiver sorte de estar Lua cheia, sinta a sacralidade do local que nos remete aos tempos remotos em que os nossos antepassados do paleolítico dormiam à luz das estrelas.
Actualmente, o Cerro da Cabeça, propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho, encontra-se ao abandono, sujeito aos mais diversos actos de vandalismo ambiental, o que se reflecte em especial nas grutas aí existentes e a nível da fauna e da flora. O grande valor ambiental que essa elevação encerra aconselharia a sua conservação urgente classificando-a como área protegida. Até lá, aproveite para a visitar, antes que seja tarde, mas não se esqueça: “não tires mais que fotografias, não deixes mais que pegadas”.

06/03/2008

Sítio Classificado?!

Cerro da Cabeça @ P. Cuiça (2008)

O Cerro da Cabeça tornou-se Sítio Classificado em 2000, sem que daí se tornassem visíveis quaisquer medidas de conservação da área em questão, bem pelo contrário! Por outro lado, em 2006, foi também “classificada” como Zona de Caça Associativa!! Actualmente a Gruta da Senhora encontra-se tal como a deixaram (na verdade, pior), a grutas continuam à mercê de incursões antrópicas e anda-se de jeep até ao miradouro e outros locais cimeiros!!! E para isso até se alargam caminhos e movem-se blocos!!!! Portanto, vamos de bem a melhor…
Cerro da Cabeça @ P. Cuiça (2008)

Cabeça protegida

O Cerro da Cabeça como Área Protegida

[Jornal O Algarve · Ano 87º, nº 4369, 9 a 15/Fev. 1995]

Cerro da Cabeça @P. Cuiça (2008)

Pensamos que é urgente tomar as medidas de protecção da Gruta da Senhora e defendemos a classificação do Cerro da Cabeça como Área de Paisagem Protegida ou Sítio Classificado.
O Cerro da Cabeça (249 m) situa-se a cerca de 2.5 km a NNE de Moncarapacho (Distrito de Faro, Concelho de Olhão, Freguesia de Moncarapacho). Nesse cerro encontra-se o mais espectacular megalapiás do Algarve, onde dominam os grandes dorsos de superfícies arredondadas, relevos cónicos e pedunculados, torres, blocos, etc., distribuindo-se densamente por toda a elevação (J. A. Crispim, 1982). As torres e dorsos estão separados por fendas entulhadas de calhaus, que por vezes constituem pias, ou por corredores. As pias escavadas no lapiás prolongam-se frequentemente em profundidade por algares geralmente de boca estreita e obstruídos por detritos clasticos (ex. Algar do Próximo), mas por vezes dão acesso a profundas cavidades (ex. Algar Maxila). No Cerro da Cabeça localizam-se as formas endocársicas mais profundas, de que se tem conhecimento, na região algarvia: Algar Maxila (> 95 m), Algar Medusa (78 m), 056 GEAM (> 50 m), etc..
Consta que o CEEAA, extinto há alguns anos, terá efectuado a inventariação de mais de uma centena de cavidades nesse cerro. Número mítico ou real? Não se pode averiguar pois os estudos desse Centro encontram-se encerrados no “olvídio das gavetas” da sua sede sita em instalações da Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho. No entanto, já no século XVI dizia-se que a “Cabeça de Moncarapacho” tinha “tantas covas e furnas contrapassadas que se podem esconder nele mil homens sem serem vistos, nem achados” (in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº 39).
Em 1758, o Padre Manuel Mendes Corrêa informou a existência de “uma cova chamada abismo”, “outra cova, a que chamam Ladroeira” e ainda uma outra “de fronte desta” (in F. X. d’Athaide Oliveira, 1906). Estácio da Veiga (1886) faz referência ao "Abysmo", Ladroeira Grande e Ladroeira Pequena. A. de Barros Machado e B. de Barros Machado (1948) referem o grande interesse zoológico das grutas Abismo Novo e Algueirão do Garrafão (este último com guano de morcego); além disso, referem a existência do Abismo Velho, Ladroeira Grande, L. Pequena e Algueirão da Pechinha (este com localização incerta). Em 1982, O. da Veiga Ferreira volta a referir o grande interesse zoológico do Abismo Novo e Algueirão do Garrafão; este autor, aponta, também, as grutas Abismo e Ladroeiras como tendo fornecido elementos do Neo-eneolítico ou Calcolítico (in G. Manupella et al., 1987). Costa Almeida (1979) e J. A. Crispim (1982) referem a existência de numerosas e importantes cavidades, conhecendo-se cerca de 30; no entanto, actualmente esse número ascende a mais de 50 (P. Cuiça, inéd.).
O elevado estado de degradação que se verifica em muitas grutas do Cerro da Cabeça (geralmente as concreções estão partidas e encontra-se lixo no seu interior); o estado ruinoso em que o miradouro e casa abrigo se encontram; o lixo existente em certos locais, a situação intolerável que se verifica com a Gruta da Senhora; assim como a acção da pedreira situada a SE dessa elevação perspectivam a perda de uma das mais pitorescas zonas do carso algarvio.
Porque o Cerro da Cabeça apresenta, entre outros pólos de interesse:
1) Uma geomorfologia cársica expressa de modo excepcional constituindo um megalapiás de características únicas em todo o Algarve;
2) Um grande número de grutas e a ocorrência das formas endocársicas mais profundas da região algarvia;
3) A presença de cavernas com grande interesse zoológico (fauna cavernícola) e colónias de morcegos;
4) A ocorrência de cavidades com vestígios arqueológicos;
5) Um núcleo relativamente bem preservado de chaparral mediterrânico (garrigue);
6) Uma fauna abundante (nomeadamente avifauna e pequenos mamíferos, com ocorrência de espécies relativamente raras;
é urgente que se implementem as necessárias medidas de conservação/prevenção, legislando no sentido de torná-lo uma Área de Paisagem Protegida ou Sítio Classificado.
Cerro da Cabeça @P. Cuiça (2008)

Senhora: in memoriam

Gruta da Senhora: história de uma destruição

[Jornal O Algarve · Ano 87º, nº 4369, 9 a 15/Fev. 1995]

Gruta da Senhora @P. Cuiça (2008)


Ao visitar o Cerro da Cabeça, no passado mês de Setembro [1994], local que conheci em 1982, onde me iniciei na “espeleologia” e a que regresso sempre que tal me é permitido, tive a infelicidade de constatar a destruição irremediável de uma das mais belas grutas aí existentes. Para que se compreenda a gravidade do ocorrido e o processo que levou a tal situação será conveniente efectuar uma breve abordagem do historial da gruta em questão.
A Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho há mais de uma década que se propõe abrir uma gruta ao turismo no Cerro da Cabeça. Segundo o Provedor da Santa Casa da Misericórdia, (…), o “desejo da Misericórdia dispor de uma gruta em condições de ser visitada pelos turistas e que servisse como fonte de receitas para auxiliar a manutenção do seu lar de idosos e outras obras de carácter social” (sic), bem como o facto de os “estrangeiros” procurarem “as grutas do Cerro da Cabeça sem lhe poder dar uma oportunidade de as visitar, o que é pena e em nada nos prestigia” (sic) foram as motivações que levaram à tentativa de abertura de uma gruta ao turismo (in Grutas do Cerro da Cabeça, 1985). Apesar de opiniões contrárias a esse empreendimento (nomeadamente por parte de membros da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), devido, entre outros factores, às pequenas dimensões que as cavernas aí apresentam, a Misericórdia não se demoveu do seu objectivo.
O Grupo de Espeleologia e Arqueologia de Moncarapacho (GEAM), que posteriormente se passou a designar Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA), na dependência directa da Misericórdia, iria escolher para esse fim uma cavidade, descoberta nos anos 50, localizada na base da vertente sul do Cerro da Cabeça (…). Essa escolha deveu-se ao facto de elementos do CEEAA, após trabalhos de desobstrução, em 1977, terem descoberto nessa cavidade novas galerias de “invulgar beleza” (ibidem) o que fez com que esta se tornasse a gruta de maiores dimensões existente no Cerro da Cabeça e suas imediações. A caverna em causa, devido ao grande interesse que despertou foi baptizada de “Gruta da Senhora em homenagem à benemérita doadora do Cerro da Cabeça à Misericórdia de Moncarapacho, D. Maria Rosa Dias de Mendonça” (ibidem).
Na sequência da descoberta de 1977, “a Misericórdia como medida de prudência mandou encerrar a gruta” (ibidem) por meio de um gradeamento e pediu apoio à Comissão Regional do Turismo do Algarve para a abertura da mesma ao turismo. Perante a ausência de resposta satisfatória por parte da Comissão do Turismo, a Misericórdia resolveu publicar o projecto apresentado àquela instituição para que este não ficasse no “olvídio das gavetas das secretarias de Estado, para mais tratando-se de um trabalho sério” (ibidem). É assim que, em 1985, saiu a público o opúsculo Grutas do Cerro da Cabeça - A Gruta da Senhora, para possível aproveitamento turístico. Na introdução, J. Fernandes Mascarenhas afirmava que “a vontade de quem está à frente da Santa Casa da Misericórdia continue firme e na disposição de abrir a referida gruta na primeira oportunidade, nem que seja recorrendo a uma empresa particular” (sic). Não foi necessário recorrer a empresas privadas.
Com a entrada de Portugal na, então, Comunidade Económica Europeia (CEE) chegou o momento há tanto tempo esperado; o projecto de abertura da Gruta da Senhora ao turismo seguiu os meandros burocráticos e as verbas necessárias foram desbloqueadas via Bruxelas.
O projecto em causa, um trabalho do [então] presidente do CEEAA (…) consistia sinteticamente em:
1) Retirar a camada de “solo”, ou parte dela, existente no interior da gruta de forma a aumentar substancialmente as dimensões da mesma;
2) Espalhar no exterior, sobre toda a área da cavidade, uma camada de argila coberta por outra de cascalho, que “regadas periodicamente” ajudariam “a alimentação hídrica das concreções”;
3) Estabelecimento do percurso turístico com consequentes trabalhos de iluminação, “reactivação de antigas cascatas” e “criação de lagos e repuxos”;
4) Criação de instalações de apoio no exterior (ibidem).
Ao fim ao cabo, tratou-se do projecto apresentado à Comissão Regional do Turismo do Algarve a que se acrescentou a novidade de, a par da abertura da gruta ao turismo, decorrerem cursos de formação profissional. Eureka, ou melhor, Europa… Os trabalhos iniciaram-se com a instalação de uma estrutura metálica (elevador) provida de uma caixa para retirar os depósitos sedimentares do interior da gruta (essencialmente argilas) e espalhá-las no exterior; além disso construíram-se, à superfície, infra-estruturas de apoio. Os trabalhos em curso, no entanto, não passaram desta fase inicial, parando em seguida devido a problemas de diversa ordem.
Pouco depois do encerramento dos trabalhos e face à deficiente qualidade técnica e científica do projecto em causa (…) alertámos para “as consequências da possível abertura da Gruta da Senhora ao turismo” (P. Cuiça, 1988). Com o passar dos anos e perante o imobilismo dos trabalhos voltámos a chamar a atenção para “a situação intolerável que se verifica com a Gruta da Senhora (cujos trabalhos para a sua abertura ao turismo com verbas da CE estão parados e tiveram consequências negativas quer para a cavidade quer para o exterior)” (P. Cuiça, 1993).
Somente no Verão passado tive oportunidade de constatar in loco a extrema gravidade das acções provocadas no interior da Gruta da Senhora; isto porque o gradeamento que fechava a entrada dessa cavidade se encontrava parcialmente destruído (tal como já tinha ocorrido aquando do fecho da gruta após as descobertas de 1977) permitindo a passagem. Só que agora, ao contrário do que se verificava anteriormente, o uso de corda é desnecessário visto a estrutura metálica aí existente funcionar como escada; daí que, perspectiva-se novo período de incursões antrópicas a essa caverna com consequências invariavelmente nefastas.
O interior da Gruta da Senhora está irreconhecível: uma linha bem marcada separa as zonas de paredes subaérea (de cores claras) das que se encontravam enterradas (de cores escuras), sulcos produzidos por objectos metálicos rasgam as paredes em diversos locais, as concreções estão na sua quase totalidade destruídas. Não sendo admissível que pessoas sem preparação específica efectuem sondagens ou remobilizações do “solo” das grutas, com mudança de posição ou recolha de objectos, por estas provocarem a alteração estratigráfica dos materiais aí existentes (P. Cuiça, 1988, 1993) com que direito é que se retirou o preenchimento sedimentar da Gruta da Senhora a balde? A presença em diversas grutas algarvias de jazidas pré-históricas, nomeadamente no Cerro da Cabeça (ex. Abismos, Ladroeiras), aconselharia um procedimento distinto daquele que foi empregue para retirar o preenchimento sedimentar da Gruta da Senhora.
Perante o estado em que se encontra essa caverna, como remediar o irremediável? Cobrir as paredes com um produto que disfarce as óbvias diferenças de cor devidas às dissemelhantes acções de meteorização sofridas pelas zonas enterradas e subaéreas ou voltar a colocar idêntico volume de argilas de maneira a cobrir as zonas que se encontravam enterradas? Colar as estalactites e estalagmites que se encontram partidas?
Uma coisa sabemos, nada voltará a ser como dantes: a Gruta da Senhora, fruto de uma longa evolução, foi gravemente degradada devido a acções antrópicas de duração comparativamente exígua. As instituições que se organizaram na gestão do espaço físico que é a Gruta da Senhora e na exploração dos respectivos recursos, para o turismo, no seu exclusivo interesse imediato (ainda que para fins filantrópicos), procederam à degradação do património natural, destruindo testemunhos ambientais de grande valor e produzindo danos e perdas irreparáveis.
Mesmo que se considere a Gruta da Senhora como sendo “propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho” (in Grutas do Cerro da Cabeça, 1985) isso não iliba o procedimento desta; pois a sociedade (ou seja, todos os indivíduos incluindo as gerações vindouras) têm o direito de usufruir desse vasto condomínio que é a natureza, garante de uma vivência democrática, bem como de promover a prevenção ou cessação dos factores de degradação do ambiente (artº 9º, 65º, 66º, 81 e 91º da Constituição da República Portuguesa). As grutas serão, pois, do domínio público e não passíveis de privatização; a reforçar este ponto de vista e a demonstrar a importância das mesmas, lembremos que se propôs a classificação de todas as grutas, algares, sumidouros e exsurgências do Algarve, ao abrigo do Decreto-Lei nº 613/76 (M. J. Macedo, 1985).

Gruta da Senhora @P. Cuiça (2008)


[ATENÇÃO: A peça em causa pretendeu alertar apenas e tão somente para a destruição que se verificou na Gruta da Senhora, na sequência de tentativa de abertura ao turismo da mesma. Não pretendemos, de todo, atacar pessoalmente quem quer que seja. Aliás, tal como foi dito no primeiro post deste blogue, apenas nos move a divulgação de artigos publicados há alguns anos porque poderão servir como base de reflexão para aquilo que se passa hoje em dia. Se com isso for possível evitar erros do passado, nem que por uma só vez, este blogue já serviu para algo de positivo… Nesse contexto, resolvemos omitir o nome dos visados, mais precisamente do então Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho e do então Presidente do Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA), ainda para mais quando ambos já faleceram...
Por outro lado, será igualmente importante salientar que o actual Presidente do CEEAA, João Varela, a Direcção do CEEAA e, por maioria de razão, os actuais sócios (entre os quais me incluo), nada têm a ver com as opções tomadas, há anos atrás, aquando da tentativa de abertura da gruta ao turismo.]

05/03/2008

Outro exemplo

Salemas @P. Cuiça (2008)

A Gruta das Salemas abre-se numa bancada de calcários apinhoados, do Cenomaniano superior, que formam uma cornija no flanco esquerdo de uma ribeira da Península de Lisboa. Descoberta na década de 50 do século XX, trata-se de uma galeria sinuosa, com cerca de 30 metros de comprimento e um metro de largura média, que termina numa exígua sala. O chão rochoso apresenta, junto da entrada da cavidade, diversas depressões que se encontravam preenchidas por terra rossa (juntamente com pedras calcárias e basálticas), indústrias pré-históricas (do Paleolítico superior) e ossos de fauna quaternária: ursos (Ursus arctos e Ursus spelaeus), felinos (Felis pardus e Felis pardina), Hiena (Hyaena crocuta spelaea), Lobo (Canis lupus), Cavalo (Equus caballus), etc. A pobreza de utensílios encontrados e as dimensões da cavidade levam a crer que a Gruta das Salemas nunca deve ter funcionado como habitação permanente: inicialmente (no Paleolítico) constituiria um abrigo temporário e mais tarde (no Neolítico) uma necrópole.
Junto da Gruta das Salemas, num algar posto a descoberto pela laboração da pedreira que aí foi instalada, surgiu uma bolsada contendo industria mustierense, restos humanos possivelmente do paleolítico médio e fauna idêntica à da Gruta das Salemas, acrescida de ossos de outros animais. Os ossos de neandertalenses (possivelmente do Paleolítico médio), descobertos no povoado de Salemas, também são de destacar pela sua raridade. Saliente-se, também, que se conhecem monumentos neo-eneolíticos nas imediações de Lousa e Alto da Toupeira.
Já se sabe que a Gruta das Salemas constitui mais um exemplo do abandono em que se encontra grande parte das cavidades do país. Também já se conhece a tradicional e incompreensível apetência de deitar entulho nas suas imediações, apesar dos avisos da edilidade! E também não constitui novidade que a pressão urbanística se tem vindo a acentuar nas últimas décadas. Actualmente a gruta está “entalada” entre a recente auto-estrada e uma estrada mais antiga, paredes-meias com uma pedreira… O que nos espantou foi termos deparado agora com uma profusão de aerogeradores a “embelezar” aquela que já foi uma pitoresca paisagem.
Salemas @P. Cuiça (2008)

29/02/2008

Um (mau) exemplo...

Algar@P. Cuiça (2008)

Creio que ninguém contestará o inegável impacte positivo que a construção da Via do Infante (A22/IP1) implicou no incremento do desenvolvimento económico do Algarve, no entanto a outra face da moeda também existe e, esta, traduz-se na destruição, também inegável, de património espeleológico… Esta realidade, pouco ou nada conhecida, é bastante concreta e passou, nomeadamente, pela destruição ou “corte” de cavidades. Este é apenas um exemplo, entre outros, em que o interior de um algar ficou exposto numa escarpa artificial, situada no Algarve Central, resultante das obras de implementação da referida via.

O Carso Algarvio

O Carso Algarvio: Alguns aspectos de impacte ambiental

[Revista Ciência ● Série VI, nº 4, Maio 1993, pp. 35-40]

Desde o século passado que é salientada a importância de se efectuar um estudo do Algarve subterrâneo, sem que contudo tivesse sido alguma vez concretizado. A visão economicista que predomina nos dias de hoje, tendo como consequência a crescente deteriorização ambiental da região, faz com que esse estudo seja imperioso. Até quando nos podemos permitir a degradação rápida e irreversível de uma das regiões mais pitorescas do país?

Introdução
O Algarve apresenta diferenças marcantes que permitem a definição de três sub-regiões: a Serra, o Barrocal e o Litoral. A Serra algarvia, de relevos arredondados e vales profundos, é constituída essencialmente por xistos e grauvaques do Carbónico marinho, com excepção da zona ocidental correspondente à serra de Monchique - maciço alpino sub-vulcânico composto essencialmente por sienitos nefelícos. O Barrocal é constituído essencialmente por rochas carbonatadas mesozóicas, dispostas em elevações segundo alinhamentos este-oeste. O Litoral ou Beira-Mar, estreita faixa de aplanações a diversas cotas, é formado essencialmente por rochas detríticas cenozóicas.
A Orla Mesocenozóica Algarvia, a que corresponde o Baixo Algarve (Barrocal e Litoral) apresenta uma rede de drenagem superficial pouco desenvolvida, uma quase ausência de cursos de água de caudal permanente e a ocorrênci de perdas (sumidouros) e ganhos (exsurgência) (Esteves da Costa et al., 1985). A importância da drenagem criptorreica em detrimento da drenagem superficial, associada a uma geomorfologia peculiar, que surge essencialmente no Barrocal (campos de lapiás, dolinas, uvalas, polges, canhões, algares, etc.), permitir-nos-á falar em Carso Algarvio.
Localização do Algarve e mapa da região com a distribuição das subregiões algarvias, de Norte para Sul: Serra, Barrocal (às riscas) e Litoral.

Os geógrafos do final do século passado deram o nome de “karst” às regiões onde a hidrologia subterrânea (hidrogeologia) e os fenómenos de dissolução desempenharam um papel preponderante (Jean Nicod, 1972). Esse termo entrou no vocabulário científico a partir da obra Die Karstphänomen de Jovan Čvijić (1893), contudo, e apesar de ser cómoda a existência de um único termo de utilização internacional, é de uso generalizado a designação “carso” como equivalente português.

Relevo zoomórfico no megalapiás da vertente SE do Cerro da Cabeça (Cerro da Cabeça @ P. Cuiça, 1992).


O carso superficial ou epígeo
A partir da década de 60, o Algarve atravessou um rápido desenvolvimento urbano e agrícola, guiado e implementado pela indústria turística que ai surgiu, reactivado pela recente adesão de Portugal à Comunidade Europeia. Esse desenvolvimento teve como consequência uma degradação ambiental e paisagística, afectando sobretudo, e de início, o Litoral também atingiu o Barrocal.
Uma das mais belas zonas do carso algarvio que se encontra ameaçada pela intervenção humana é a Rocha da Pena (480 m). Trata-se do único relevo verdadeiramente vigoroso existente no Algarve, carso alcandorado, alongado no sentido este-oeste e em cujo cimo se encontram cerca de uma dezena de dolinas bem delineadas (Crispim, 1982), cavernas (Poço dos Mouros e Buraco da Caldeirinha), vestígios arqueológicos, vegetação endémica e uma avifauna de grande interesse (sendo de destacar a presença de noitibós e de águias).
Vistas panorâmicas da Rocha da Pena (480 m), o relevo mais vigoroso da Orla Mesocenozíca Algarvia (adaptado de M. Feio, 1951).

A estrada que leva directamente ao topo dessa elevação, assim como a abertura de um bar na vertente sul, contribuem para a afluência de inúmeras pessoas e veículos causando diversas acções nefastas na área referida. Além disso, a existência de diversos projectos de aproveitamento da Rocha da Pena para fins recreativos e económicos, como a construção de infraestruturas para a prática de asa delta ou a criação de uma escola de escalada desportiva, revelam a pressões actuais no sentido de degradar talvez a zona mais pitoresca da região algarvia.
Outra situação, que por ser pontual não deixa contudo de ser importante, é a localização de pedreiras em locais de grande interesse geoespeleológico (a titulo de exemplo citam-se as pedreiras da Quinta do Escarpão e do Cerro da Cabeça).

O carso subterrâneo ou hipógeo
O carso algarvio apresenta em certas áreas inúmeras grutas. Essas formações encontram-se sujeitas a uma degradação, desde há anos, devido a incursões antrópicas, sendo fundamental a sua protecção.
O primeiro homem que chamou a atenção para importância do estudo das grutas algarvias - apesar de se circunscrever apenas à arqueologia - foi Estácio da Veiga que, tendo sido encarregue em 1877, pelo governo de então, do estudo geral das antiguidades do Algarve, propôs que fossem, antes de mais, estudadas as cavernas. O governo, temendo a demora e os custos que iriam comportar os trabalhos, idênticos aos que tinham sido efectuados por Schemerling e Dupont nas grutas da Bélgica, rejeitou a proposta. Uma enorme lacuna no conhecimento do Algarve subterrâneo ficou por desvendar!Desde a proposta de Estácio da Veiga até aos nossos dias, o estudo das grutas algarvias tem sido feito de uma forma inconstante e de certo modo improdutiva, à excepção de certos trabalhos pontuais realizados pela Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) e por alguns cientistas de diversos ramos do saber - essencialmente geólogos, geofísicos, geógrafos, biólogos e arqueólogos. De entre os trabalhos realizados será de destacar, por ser o único a abordar a globalidade do Carso algarvio, o de J. A. Crispim, Morfologia Cársica do Algarve, publicado em 1982.
O surgimento da espeleologia em Portugal (podemos considerar o seu início em 1948) pouco contribuiu para o conhecimento e estudo das cavidades algarvias por parte dos grupos que se criaram nessa região, devido essencialmente à ausência de um plano regional de trabalho e à falta de cooperação dos grupos, fracos em recursos económicos e quadros. A falta de cursos de espeleologia de nível académico, aliada a uma inexistência de legislação que foque as grutas do nosso país, implica que o baixo nível científico da generalidade dos espeleólogos provoque uma degradação das grutas. Uma mesma gruta é várias vezes visitada e “estudada” por diversos grupos de espeleologia que efectuam, em geral, a inventariação da cavidade, a qual difere em geral de grupo para grupo. Não raras vezes, devido à inconstância existencial desses grupos, esses inventários perdem-se ou estão inacessíveis à consulta, porque encerrados no olvideo das gavetas das suas sedes.
A espeleologia (termo criado por E. Riviére, em 1890, do grego antigo σπήλαιον ELL = gruta POR e λόγοσ ELL = tratado POR) sendo a ciência que se “consagra ao estudo das cavernas, da sua génese e da sua evolução, do meio físico que ela representa, do seu povoamento biológico actual ou passado, assim como dos meios ou das técnicas que são próprias ao seu estudo” (Gèze, 1965), foi desacreditada em certos meios científicos por esse nome estar associado à simples exploração e visita de cavernas. À componente desportiva da espeleologia que, sem dúvida, desempenha um papel importante e será um atractivo para aqueles que gostam de aventura, junta-se a componente científica, complexa e vasta, porque multidisciplinar, que exige uma bagagem extensa, nomeadamente no que concerne às ciências geológicas, da parte de quem se lhe dedica. Martel, que é considerado o fundador da espeleologia (1888) e foi um activo explorador de cavernas em toda a Europa, estabelece, desde logo, a vocação científica desse ramo do saber ao defini-lo como sendo “a História natural das cavernas”.
Se o baixo nível científico da generalidade dos “espeleólogos” em Portugal é incontestável, também é certo que os amantes da espeleologia podem realizar um trabalho proveitoso em prole dessa ciência. Os trabalhos de inventariação das formas endocársicas da região algarvia que são de extrema importância a diversos níveis, nomeadamente no respeitante a actuações de preservação ambiental, é uma área em que esses amantes do mundo subterrâneo poderiam desempenhar um papel importante.
A inventariação consiste essencialmente no nome, localização, topografia da cavidade e descrições sumárias de ordem geológica, hidrológica, climatológica, biológica, arqueológica ou outra. Trabalho de grande utilidade para o conhecimento do endocarso da região, só desempenhará a sua função se, por um lado, for realizado em cooperação entre grupos que sigam um mesmo método de trabalho, tentando distribuir os seus efectivos pelas diversas áreas do Barrocal de forma a abarcarem a totalidade do carso e, se por outro, os trabalhos forem publicados ou passíveis de consulta. No entanto, os trabalhos de inventariação efectuados por parte desses grupos terão, de certa forma, de se limitar a aspectos de toponímia, localização e topografia de cavidades.
Não se deverão efectuar recolhas de seres vivos, sob o pretexto de realização de um estudo bioespeleológico, pois a fauna cavernícola é pouco abundante, tendo um menor número de crias do que as formas epígeas análogas. O equilíbrio ecológico desses ecossistemas é extremamente vulnerável a qualquer perturbação exterior, sendo a captura de animais cavernícolas reservada a estudiosos especializados no assunto, caso contrário destruir-se-ão, em breve, esses seres ainda pouco conhecidos. Entre os animais que têm sido perturbados pelas incursões antrópicas a grutas contam-se os morcegos, grupo faunístico que tem diminuído de número, entre outros factores, devido a serem perturbados durante as épocas de criação (Março a Maio) e hibernação (Novembro a Março).
Do mesmo modo, não são admissíveis os “estudos arqueológicos”, com mudança de posição ou recolha de objectos, sondagens ou remobilizações do solo da cavidade, por provocar a alteração da estratigrafia dos materiais, levando à perda do contexto histórico aí existente.
Durante os trabalhos de prospecção, ao ser “descoberta” uma nova gruta, dever-se-á ter a prudência suficiente na sua exploração, evitando pisar eventuais vestígios existentes no solo da cavidade.
Não esqueçamos também que as cavernas algarvias poderão oferecer agradáveis surpresas no tocante a pinturas e gravuras rupestres, quando forem examinadas minuciosamente as paredes das suas galerias e salas, em especial as mais interiores ou de difícil acesso (M. Farinha dos Santos, 1985). A presença em algumas grutas do Algarve de material neo-eneolítico ou calcolítico (Gruta dos Matos, Gruta da Nora, o Abismo, Ladroeiras, etc.), de material de ocupação árabe (Ibne Ammar, Caverna dos Mouros, etc.) e a relativa abundância da estações neolíticas, requer que se façam os estudos arqueológicos necessários ao bom conhecimento da ocupação das cavernas da província em tempos remotos. No entanto, esses estudos terão de ser efectuados por pessoas devidamente habilitadas. Depósitos calcíticos ("medusas") da sala de entrada da Ladroeira Pequena (Cerro da Cabeça) (Ladroeira Pequena @ P. Cuiça, 1981).
Não se devem levar como “recordação” ou para colecção concreções (estalactites e estalagmites, etc.), mesmo que estejam caídas no solo, ou sequer alterar a disposição de blocos do interior da cavidade, a menos que tal seja necessário para continuar a progressão.Depois de feita a inventariação, a gruta deve ser visitada apenas quando se realizar algum trabalho de índole espeleológica, caso contrário não se deverão efectuar incursões de forma a evitar degradações desnecessárias.
Se alguns espeleólogos degradam as grutas sem intenção de o fazerem, a acção dos “curiosos” é muito mais grave e por vezes propositada: a obstrução de cavidades por meio de blocos; o arrancar de concreções; a perturbação e mesmo a morte de morcegos; os graffiti nas paredes; o lixo deitado ou deixado nas grutas - são alguns dos factores que mais degradam as formas endocársicas algarvias e os ecossistemas associados.
A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a determinadas grutas - a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em alguns mapas e guias turísticos - tem vindo a degradá-las de maneira rápida e irreversível. Sendo algumas delas locais de hibernação e/ou criação de morcegos (Gruta de Ibne Ammar, Igrejinha dos Soidos, Salustreiras, Arrifes, etc.) chegam a ser visitadas por centenas de pessoas durante ano (como é o caso das Salustreias), advindo daí graves prejuízos para a população de quirópteros.
Concreções no tecto da sala terminal da Caverna do Poço dos Mouros (Rocha da Pena) (Poço dos Mouros @P. Cuiça, 1987).

A situação de ameaça de extinção em que se encontram muitas espécies de morcegos, a nível europeu, torna imperativa a defesa de colónias contra as perturbações das suas grutas-abrigo mais importantes e representativas. O desaparecimento de uma colónia não é só grave para o património faunístico, como tem consequências, difíceis de avaliar, nos ecossistemas da região e das próprias grutas, onde se poderá verificar o colapso da comunidade de invertebrados cavernícolas. O guano de morcego que se acumula no interior das cavernas é o suporte, de uma fauna particular; podendo-se mesmo considerar uma verdadeira biocenose do guano (guanóbios e guanófilos).
A fim de proteger as populações de morcegos e as biocenoses do guano a elas associadas verifica-se a necessidade de regulamentar o acesso de pessoas às grutas de maior importância como abrigos de morcegos, estratégia que tem tido sucesso noutros países (Tuttle, 1986), ou mesmo proceder à colocação de gradeamentos que não prejudiquem a entrada e saída de morcegos e não alterem o clima da caverna, como sujere J. Palmeirim.
A situação actual do endocarso algarvio, leva-nos a afirmar que um conjunto de cavidades estão em risco de se tornarem “galerias estéreis”; entre elas, listamos as que se encontram mais ameaçadas: Caverna dos Mouros (Lapa da Pena, Poço dos Mouros, Algar dos Mouros), Gruta de Ibne Ammar (Gruta de Estombar), Igrejinha dos Soidos (Igejinha dos Mouros), Salustreira Grande (Solestreira Grande), Salustreira Pequena (Solestreira Pequena) e grutas do Cerro da Cabeça (Gruta da Senhora, Ladroeiras, Abismos, etc.).
Um dos casos de características mais graves é o que se verifica no Cerro da Cabeça (249 m). Nesse cerro localiza-se um megalapiás onde dominam os grandes dorsos de superfícies arredondadas, relevos cónicos e pedunculados, torres, blocos isolados, etc., distribuindo-se densamente em toda a elevação (Crispim, 1982).
Formas de relevo do megalapiás do Cerro da Cabeça: 1. bloco residual, 2. dorso, 3. fenda, 4. torre, 5. pia, 6. agulha, 7. algar, 8. arco, 9. corredor e 10. relevo pedunculado (adaptado de J. A. Crispim, 1982).

As torres e blocos estão separados por fendas estreitas, entulhadas de calhaus, que por vezes formam pias de fundo rochoso cheio de blocos ou, então, corredores (bogaz). Frequentemente, as pias escavadas no lapiás prolongam-se em profundidade por algares, geralmente de boca estreita e obstruídos por blocos (Algar do Próximo, etc.), mas por vezes de dimensões suficientemente grandes formando profundas cavidades (Algar Medusa, etc.). No Cerro da Cabeça localizam-se as formas endocársicas mais profundas de que se tem conhecimento na região algarvia (Algar Maxila, Algar Medusa, 056 GEAM, etc.). Algar Medusa, um dos mais profundos existentes no Algarve (Cerro da Cabeça) (@ topo NECCA - Núcleo de Espeleologia do Circulo Cultural do Algarve, 1984).

Consta que o Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA), extinto há alguns anos, terá efectuado a inventariação de mais de uma centena de cavidades nesse cerro, o que só por si evidencia a importância do mesmo. O elevado estado de degradação em que se encontram as grutas do Cerro da Cabeça, a situação intolerável que se verifica na Gruta da Senhora (cujos trabalhos para a sua abertura ao turismo, com verbas da CE, estão parados e tiveram consequências negativas quer para a cavidade quer para o exterior), assim como a acção da pedreira situada no flanco SE dessa elevação, perspectivam a perda de uma das mais belas zonas cársicas do Algarve.
António Varela e Pedro Cuiça no Algar dos 60 m (Cerro da Cabeça) (Algar dos 60 Metros @ F. Perna, 1985).

Em jeito de conclusão
Face à realidade actual em que as palavras de ordem são “o progrésse, a requésa e o desenvolviménte” resta-nos apenas dar um esboço do que achamos ser o reverso da medalha, ou seja, a degradação ambiental e do tradicional. Para os que pensam ser esta uma visão pessimista acerca do presente-futuro da região algarvia (o que poderíamos generalizar talvez sem graves erros à aldeia global, viulgo Terra), uma visão contra-evolutiva, e portanto decadente, seja permitido afirmar-se que, pelos vistos, existem diversos conceitos de evolução. Talvez ao fim e ao cabo estejamos a abordar questões de gosto e, pelo que se diz, há gostos para tudo. Talvez haja que prefira a densidade e a consistência do monóxido de carbono à leveza do ar da montanha, uma paisagem de tubificações metálicas ou uma selva de betão à beleza naturae… sabe-se lá!

27/02/2008

15º Congresso Internacional

O 15º Congresso Internacional de Espeleologia realiza-se, de 19 a 26 de Julho de 2009, em Kerville (Texas, EUA). A organização do congresso esta a cargo da National Speleological Society (NSS), conjuntamente com a União Internacional de Espeleologia (UIS).
Durante o congresso realizar-se-ão três tipos de reuniões essenciais para o funcionamento da UIS: a assembleia-geral, o bureau e os departamentos, comissões e grupos de trabalho. Os departamentos da UIS centram-se nas seguintes temáticas: documentação, educação, protecção e gestão, exploração e investigação. As comissões incluem, por exemplo, bibliografia, mergulho espeleológico, espeleo-socorro, grutas glaciares e carso em regiões polares, paleocarsos e espeleocronologia. Os grupos de trabalho existentes são, entre outros, sobre o dicionário espeleológico e a protecção e conservação de concreções. A convenção anual da NSS irá decorrer em paralelo, tal como outras iniciativas.