A estrada que leva directamente ao topo dessa elevação, assim como a abertura de um bar na vertente sul, contribuem para a afluência de inúmeras pessoas e veículos causando diversas acções nefastas na área referida. Além disso, a existência de diversos projectos de aproveitamento da Rocha da Pena para fins recreativos e económicos, como a construção de infraestruturas para a prática de asa delta ou a criação de uma escola de escalada desportiva, revelam a pressões actuais no sentido de degradar talvez a zona mais pitoresca da região algarvia.
Outra situação, que por ser pontual não deixa contudo de ser importante, é a localização de pedreiras em locais de grande interesse geoespeleológico (a titulo de exemplo citam-se as pedreiras da Quinta do Escarpão e do Cerro da Cabeça).
O carso subterrâneo ou hipógeoO carso algarvio apresenta em certas áreas inúmeras grutas. Essas formações encontram-se sujeitas a uma degradação, desde há anos, devido a incursões antrópicas, sendo fundamental a sua protecção.
O primeiro homem que chamou a atenção para importância do estudo das grutas algarvias - apesar de se circunscrever apenas à arqueologia - foi Estácio da Veiga que, tendo sido encarregue em 1877, pelo governo de então, do estudo geral das antiguidades do Algarve, propôs que fossem, antes de mais, estudadas as cavernas. O governo, temendo a demora e os custos que iriam comportar os trabalhos, idênticos aos que tinham sido efectuados por Schemerling e Dupont nas grutas da Bélgica, rejeitou a proposta. Uma enorme lacuna no conhecimento do Algarve subterrâneo ficou por desvendar!Desde a proposta de Estácio da Veiga até aos nossos dias, o estudo das grutas algarvias tem sido feito de uma forma inconstante e de certo modo improdutiva, à excepção de certos trabalhos pontuais realizados pela Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) e por alguns cientistas de diversos ramos do saber - essencialmente geólogos, geofísicos, geógrafos, biólogos e arqueólogos. De entre os trabalhos realizados será de destacar, por ser o único a abordar a globalidade do Carso algarvio, o de J. A. Crispim,
Morfologia Cársica do Algarve, publicado em 1982.
O surgimento da espeleologia em Portugal (podemos considerar o seu início em 1948) pouco contribuiu para o conhecimento e estudo das cavidades algarvias por parte dos grupos que se criaram nessa região, devido essencialmente à ausência de um plano regional de trabalho e à falta de cooperação dos grupos, fracos em recursos económicos e quadros. A falta de cursos de espeleologia de nível académico, aliada a uma inexistência de legislação que foque as grutas do nosso país, implica que o baixo nível científico da generalidade dos espeleólogos provoque uma degradação das grutas. Uma mesma gruta é várias vezes visitada e “estudada” por diversos grupos de espeleologia que efectuam, em geral, a inventariação da cavidade, a qual difere em geral de grupo para grupo. Não raras vezes, devido à inconstância existencial desses grupos, esses inventários perdem-se ou estão inacessíveis à consulta, porque encerrados no olvideo das gavetas das suas sedes.
A espeleologia (termo criado por E. Riviére, em 1890, do grego antigo
σπήλαιον ELL = gruta POR e
λόγοσ ELL = tratado POR) sendo a ciência que se “
consagra ao estudo das cavernas, da sua génese e da sua evolução, do meio físico que ela representa, do seu povoamento biológico actual ou passado, assim como dos meios ou das técnicas que são próprias ao seu estudo” (Gèze, 1965), foi desacreditada em certos meios científicos por esse nome estar associado à simples exploração e visita de cavernas. À componente desportiva da espeleologia que, sem dúvida, desempenha um papel importante e será um atractivo para aqueles que gostam de aventura, junta-se a componente científica, complexa e vasta, porque multidisciplinar, que exige uma bagagem extensa, nomeadamente no que concerne às ciências geológicas, da parte de quem se lhe dedica. Martel, que é considerado o fundador da espeleologia (1888) e foi um activo explorador de cavernas em toda a Europa, estabelece, desde logo, a vocação científica desse ramo do saber ao defini-lo como sendo “a História natural das cavernas”.
Se o baixo nível científico da generalidade dos “espeleólogos” em Portugal é incontestável, também é certo que os amantes da espeleologia podem realizar um trabalho proveitoso em prole dessa ciência. Os trabalhos de inventariação das formas endocársicas da região algarvia que são de extrema importância a diversos níveis, nomeadamente no respeitante a actuações de preservação ambiental, é uma área em que esses amantes do mundo subterrâneo poderiam desempenhar um papel importante.
A inventariação consiste essencialmente no nome, localização, topografia da cavidade e descrições sumárias de ordem geológica, hidrológica, climatológica, biológica, arqueológica ou outra. Trabalho de grande utilidade para o conhecimento do endocarso da região, só desempenhará a sua função se, por um lado, for realizado em cooperação entre grupos que sigam um mesmo método de trabalho, tentando distribuir os seus efectivos pelas diversas áreas do Barrocal de forma a abarcarem a totalidade do carso e, se por outro, os trabalhos forem publicados ou passíveis de consulta. No entanto, os trabalhos de inventariação efectuados por parte desses grupos terão, de certa forma, de se limitar a aspectos de toponímia, localização e topografia de cavidades.
Não se deverão efectuar recolhas de seres vivos, sob o pretexto de realização de um estudo bioespeleológico, pois a fauna cavernícola é pouco abundante, tendo um menor número de crias do que as formas epígeas análogas. O equilíbrio ecológico desses ecossistemas é extremamente vulnerável a qualquer perturbação exterior, sendo a captura de animais cavernícolas reservada a estudiosos especializados no assunto, caso contrário destruir-se-ão, em breve, esses seres ainda pouco conhecidos. Entre os animais que têm sido perturbados pelas incursões antrópicas a grutas contam-se os morcegos, grupo faunístico que tem diminuído de número, entre outros factores, devido a serem perturbados durante as épocas de criação (Março a Maio) e hibernação (Novembro a Março).
Do mesmo modo, não são admissíveis os “estudos arqueológicos”, com mudança de posição ou recolha de objectos, sondagens ou remobilizações do solo da cavidade, por provocar a alteração da estratigrafia dos materiais, levando à perda do contexto histórico aí existente.
Durante os trabalhos de prospecção, ao ser “descoberta” uma nova gruta, dever-se-á ter a prudência suficiente na sua exploração, evitando pisar eventuais vestígios existentes no solo da cavidade.
Não esqueçamos também que as cavernas algarvias poderão oferecer agradáveis surpresas no tocante a pinturas e gravuras rupestres, quando forem examinadas minuciosamente as paredes das suas galerias e salas, em especial as mais interiores ou de difícil acesso (M. Farinha dos Santos, 1985). A presença em algumas grutas do Algarve de material neo-eneolítico ou calcolítico (Gruta dos Matos, Gruta da Nora, o Abismo, Ladroeiras, etc.), de material de ocupação árabe (Ibne Ammar, Caverna dos Mouros, etc.) e a relativa abundância da estações neolíticas, requer que se façam os estudos arqueológicos necessários ao bom conhecimento da ocupação das cavernas da província em tempos remotos. No entanto, esses estudos terão de ser efectuados por pessoas devidamente habilitadas.
Depósitos calcíticos ("medusas") da sala de entrada da Ladroeira Pequena (Cerro da Cabeça) (Ladroeira Pequena @ P. Cuiça, 1981).
Não se devem levar como “recordação” ou para colecção concreções (estalactites e estalagmites, etc.), mesmo que estejam caídas no solo, ou sequer alterar a disposição de blocos do interior da cavidade, a menos que tal seja necessário para continuar a progressão.Depois de feita a inventariação, a gruta deve ser visitada apenas quando se realizar algum trabalho de índole espeleológica, caso contrário não se deverão efectuar incursões de forma a evitar degradações desnecessárias.
Se alguns espeleólogos degradam as grutas sem intenção de o fazerem, a acção dos “curiosos” é muito mais grave e por vezes propositada: a obstrução de cavidades por meio de blocos; o arrancar de concreções; a perturbação e mesmo a morte de morcegos; os graffiti nas paredes; o lixo deitado ou deixado nas grutas - são alguns dos factores que mais degradam as formas endocársicas algarvias e os ecossistemas associados.
A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a determinadas grutas - a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em alguns mapas e guias turísticos - tem vindo a degradá-las de maneira rápida e irreversível. Sendo algumas delas locais de hibernação e/ou criação de morcegos (Gruta de Ibne Ammar, Igrejinha dos Soidos, Salustreiras, Arrifes, etc.) chegam a ser visitadas por centenas de pessoas durante ano (como é o caso das Salustreias), advindo daí graves prejuízos para a população de quirópteros.