27/02/2008

IV Congresso Europeu

A Federação Francesa de Espeleologia (Fédération Française de Spéléologie — FFS) e a Federação Espeleológica da União Europeia (FEUE) estão a organizar o IV Congresso Europeu de Espeleologia: Vercors 2008. O evento realiza-se, de 23 a 30 de Agosto de 2008, no coração de um dos carsos mais conhecidos e míticos da Europa, no seio do Parque Natural da Região do Vercors.
Vercors 2008 pretende ser, antes de mais, um ponto de encontro dos espeleólogos europeus, onde possam trocar ideias e experiências. Esta iniciativa inclui igualmente a I Encontro Europeu dos Fotógrafos e Realizadores de Espeleo, o VII Colóquio Europeu de Exploração Espeleológica, III EuroSpeleo Forum, etc..

II Congreso Andaluz

O II Congreso Andaluz de Espeleología realiza-se, de 1 a 4 de Maio de 2008, em Priego de Córdoba. Para além das comunicações que serão apresentadas ir-se-ão realizar diversas iniciativas paralelas. A Casa da Cultura irá acolher diversas exposições: o Museo Andaluz de Espeleología, materiais antigos, fotografias de Paco Hoyos e Rafael Manzano, stands de divulgação e comerciais, etc.. No Parque Niceto Alcalá irá decorrer uma exibição de técnicas de progressão na vertical. Todas as noites, a partir das 22 horas, serão exibidos filmes de espeleologia. Além disso, está igualmente previsto a visita a diversas cavidades emblemáticas da comarca: Cueva de los Murciélagos de Zueros, Sima de Cabra, Sima del Tesoro, Cueva del Yeso, Sima de Fuente Alhama e Cueva-Sima de Chalones. Mas estas são só algumas das iniciativas previstas para este importante evento da espeleologia andaluza.

I Jornadas Científicas


25/02/2008

Morcegos cavernícolas

Das 26 espécies de morcegos conhecidas em Portugal - 24 no continente e duas específicas das ilhas [Morcego-dos-Açores (Nyctalus azoreum) e Morcego-da-Madeira (Pipistrellus maderensis)] -, que constituem cerca de 40% da fauna de mamíferos terrestres, cerca de metade são cavernícolas. Tal como no resto da Europa, a situação destes animais é particularmente grave. Das 11 espécies de mamíferos terrestres classificadas “em perigo” no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (1990) nove são morcegos cavernícolas. Na verdade, com excepção de Miniopterus schereibersii, espécie considerada vulnerável, todas as espécies cavernícolas foram classificadas como estando em perigo e a sua sobrevivência será improvável se os factores limitantes continuarem a actuar (Palmeirim & Rodrigues, 1992).
Há evidência de perdas importantes para os quirópteros cavernícolas e razões para acreditar que o declínio das populações se vai acentuar no futuro breve. Entre as razões do declínio das populações de morcegos, para além da destruição dos biótopos de alimentação, da utilização de pesticidas e da perturbação dos abrigos, acrescenta-se a destruição de abrigos e, em alguns países, os estudos científicos.
A perturbação dos abrigos continua a ser apontada como a causa mais importante do declínio dos morcegos cavernícolas no nosso país. “Até muito recentemente as grutas portuguesas eram pouco perturbadas por visitantes. O baixo nível de escolaridade da população em geral permitia o estabelecimento de superstições que impediam a entrada nas grutas. Por outro lado, eram poucas as pessoas que dispunham do equipamento e conhecimentos necessários para as explorar. Mas esta situação alterou-se profundamente nos últimos anos, com o aumento do nível geral de escolaridade e com a proliferação de agrupamentos juvenis, que com frequência incluem a exploração de grutas nas suas actividades. (Palmeirim & Rodrigues, 1992)”
Nas últimas duas décadas a realidade socio-cultural do país sofreu profundas alterações e essa transformação não esteve alheada do meio espeleológico. A crescente sensibilização dos espeleólogos e o envolvimento de algumas associações nos estudos em curso é inegável, sendo a perturbação dos quirópteros desviada para outros públicos. “Algumas associações de espeleologia cultivam o respeito pelos morcegos cavernícolas e os seus membros evitam perturbar estes animais. No entanto, existem muitas outras organizações juvenis ou grupos de independentes que visitam com grande frequência algumas grutas, sendo o seu comportamento por vezes muito prejudicial.
A perturbação por visitantes é particularmente grave nas grutas com fácil acesso que abrigam grandes colónias de morcegos. É esta a situação das colónias do Algarve, que são por esta razão as mais ameaçadas do país
(Palmeirim & Rodrigues, 1992).”
Os abrigos subterrâneos (naturais e artificiais), disponíveis para as espécies cavernícolas, são relativamente poucos e a sua destruição por parte do Homem tem consequências drásticas. A destruição de cavidades sem ser frequente não deixa de ocorrer e as consequências nefastas a diversos níveis são difíceis de negar.
Por último, em muitos países europeus as populações de morcegos cavernícolas foram gravemente afectadas por actividades de investigação mal conduzidas. A perturbação frequente de colónias e a manipulação descuidada de morcegos provocaram o abandono de algumas grutas, ou mesmo a morte de muitos indivíduos. Mas a mais destrutiva das actividades ligadas à investigação foi a anilhagem desadequada de grandes números de morcegos (Palmeirim & Rodrigues, 1992).
A fim de proteger as populações de quirópteros cavernícolas há necessidade de regulamentar o acesso de pessoas às grutas de maior importância como abrigo de morcegos. Mas para alterar a situação de ameaça dos morcegos é necessário não só proteger a espécie directamente, mas também preservar os seus abrigos e áreas de caça.
As espécies com hábitos cavernícolas são as mais ameaçadas, sendo a perturbação dos seus abrigos por visitantes considerada a principal causa desta situação (Rodrigues & Palmeirim, 1996). Para minimizar esta perturbação têm sido utilizadas diversas barreiras de protecção dos abrigos; os gradeamentos têm demonstrado ser a barreira mais eficaz no bloqueio da passagem de visitantes, mas a sua utilização nem sempre se tem mostrado positiva para as populações de morcegos. Essa situação foi atribuída a dois factores: a relutância de algumas espécies em atravessar essas barreiras e o aumento da predação na entrada, devido principalmente a alterações do comportamento de voo induzidas pela presença das grades. Por outro lado, o tempo tem mostrado, repetidamente, que essa solução não consegue resolver o problema do acesso de pessoas às grutas porque, invariavelmente, essas estruturas são vandalizadas. As possíveis alterações climáticas provocadas pela instalação dessas estruturas também devem ser tidas em consideração.
Para além das medidas de protecção in situ de abrigos de morcegos, são igualmente de grande interesse os estudos, desenvolvidos por Luísa Rodrigues e Jorge Palmeirim, de quantificação do nível de perturbação de morcegos por parte de visitantes. Saliente-se que aquilo que tínhamos assinalado de forma empírica, em 1988, para a cavidade designada “Loulé III” (Rodrigues & Palmeirim, 1996) como sendo dos abrigos de morcegos mais perturbados do país, "com centenas de visitantes por ano", se veio a confirmar através de um registador digital, colocado entre 18 de Agosto de 1995 e 6 de Abril de 1996. Foram detectadas 100 visitas durante o período estudado, 62 das quais ocorridas em fins-de-semana ou feriados (Rodrigues & Palmeirim, 1996). Com taxas de frequência desta dimensão, a que se associam frequentes actos de vandalismo (que passaram pela destruição da vedação colocada à entrada da gruta ou graffitis no interior da mesma), é difícil promover uma conservação eficaz...

Bibliografia
PALMEIRIM, Jorge M. & RODRIGUES, Luísa (1992): Plano Nacional de Conservação dos Morcegos Cavernícolas;
Estudos de Biologia e Conservação da Natureza, nº 8, Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, Lisboa, pp. 166.
RAINHO, Ana et al. (1998): Morcegos das Áreas Protegidas Portuguesas (I);
Estudos de Biologia e Conservação da Natureza, nº 26, Instituto de Conservação da Natureza, Lisboa, pp. 166.
RODRIGUES, Luísa & PALMEIRIM, Jorge M. (1996): Avaliação do impacto do encerramento de cavidades para protecção de colónias de morcegos cavernícolas;

Morcegos e Gralhas

[Revista Ciência ● Série VI, nº 2, Março 1992, pp. 36-42]

As gralhas-de-bico-vermelho e os morcegos cavernícolas: impacto antropogénico devido a incursões às grutas do nosso país

Outros animais que, a par das gralhas-de-bico-vermelho, têm sofrido as incursões antrópicas nas grutas do nosso país são os morcegos. Das 24 espécies de morcegos conhecidas em Portugal cerca de metade utilizam grutas naturais como abrigo, destacando-se entre elas duas famílias que, pela sua frequência, requerem uma particular atenção: a Vespertilionidae e a Rhinolophidae. A primeira comporta em Portugal cinco géneros e 18 espécies. Dessas espécies a Myotis myotis e a Myotis blythii são aquelas que em maior número ocorrem nas nossas grutas, formando aí grandes colónias (por vezes com milhares de indivíduos), quer na época de reprodução, quer na época fria quando estão em período de hibernação. No que respeita à família Rhinolophidae são quatro as espécies que estão descritas em Portugal. Tal como as espécies da família anteriormente referida, formam colónias em grutas; no entanto, em menor número do que essas, normalmente agrupando-se em pequenos “bandos”, encontrando-se muitas vezes apenas um a dois indivíduos o que acontece frequentemente com os machos (Palmeirim, 1985). Por esse motivo são espécies mais vulneráveis, estando mesmo uma delas - Rhinolophus ferrumequinum - citada no “Red Book”, publicação da União Europeia par a Conservação da Natureza onde se mencionam as espécies de morcegos ameaçadas de extinção.
Apesar de não se possuírem dados que permitam quantificar os reais decréscimos do número de quirópteros em Portugal, durante as últimas décadas as populações de morcegos cavernícolas têm vindo a diminui. As causas principais responsáveis pela diminuição das populações de morcegos no nosso país parecem ser, essencialmente, três. A primeira é a utilização excessiva de pesticidas na agricultura, que afecta os morcegos porque, para além de provocar uma diminuição dos insectos de que estes se alimentam, provoca uma acumulação de organocloretos no seu corpo que mesmo que não sejam letais, são certamente prejudiciais ao normal desenvolvimento do seu organismo. A segunda causa é a destruição do habitat, que vem na sequência de uma procura cada vez maior de terrenos de cultivo ou florestação, urbanização, empreendimentos turísticos, ou outros, sem que para tal se faça um ordenamento do território ou estudos de impacte ambiental sérios, ou seja, que coloquem os interesses ambientais à frente dos económicos. Sob o baluarte do desenvolvimento e do progresso todos os dias se rouba mais um pouco à natureza com vista à implantação de sistemas artificiais, optando-se quase sempre e infelizmente por soluções fáceis ou manifestos de ignorância. A destruição de abrigos como grutas, minas, casas abandonadas ou em ruínas e troncos de árvores envelhecidas, assim como a destruição dos locais de criação dos meios de subsistência dos morcegos, faz com que estes tenham, cada vez mais, uma maior dificuldade de sobrevivência. Por último, a terceira causa é a perturbação das colónias de quirópteros cavernícolas por parte de visitantes de ocasião e “espeleólogos”, sendo esse provavelmente o factor mais importante de declínio das populações de morcegos. Sabendo-se que as populações de quirópteros são particularmente frágeis devido à sua baixa taxa de reprodução, tendo em geral cada fêmea uma cria por ano e raras vezes duas crias, é licito pensar que as populações que tenham sido numericamente afectadas recuperem muito lentamente os seus efectivos.Na época de criação, a perturbação das colónias pode provocar uma alta mortalidade entre os juvenis, que caem do tecto no meio da confusão, ou mesmo levar ao abandono da gruta como local de criação.
Durante os meses quentes do ano os morcegos insectívoros acumulam energia no seu corpo de modo a sobreviverem à falta de alimento do Inverno, entrando em período de hibernação como vista a minimizarem os gastos energéticos. Se as reservas alimentares acumuladas não forem suficientes para toda a época fria, os morcegos incapazes de se alimentarem terão grandes probabilidades de morrer. Daí que, se a hibernação for frequentemente interrompida por pessoas, os morcegos ao serem levados a gastos energéticos não só desnecessários como prejudiciais, arriscam-se a não sobreviverem até à Primavera, época em que poderão novamente caçar no céu nocturno.
A perturbação das populações de morcegos toma proporções particularmente gravosas na província algarvia, devido ao fácil acesso que, em geral, as grutas dessa província apresentam.
A situação de ameaça de extinção em que se encontram muitas espécies de morcegos europeias torna imperativa a defesa das suas colónias contra as perturbações das suas grutas-abrigo mais importantes e significativas. O desaparecimento de uma colónia não é só grave para o património faunístico, como tem consequências difíceis de avaliar nos ecossistemas da região e das próprias grutas (onde se poderá verificar o colapso da comunidade de invertebrados cavernícolas). O guano de morcego que se acumula no interior das cavernas tem um grande interesse bacteriológico e além disso é o suporte de uma fauna particular, podendo-se considerar uma verdadeira biocenose do guano (guanóbios e guanófilos).
A fim de proteger as populações de morcegos e biocenoses do guano a ele associadas e visto que se verifica um aumento do número de “grupos de espeleologia”, sobretudo devido ao impulso dado pela criação da Federação Portuguesa de Espeleologia (FPE) e mudança de estatutos da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), juntamente com o incremento de acções de divulgação dessa “modalidade”, há necessidade de regulamentar o acesso de pessoas às grutas de maior importância como abrigos de morcegos (assim como os algares em que se verifica nidificação da Gralha-de-bico-vermelho) estratégia que tem tido sucesso noutros países (segundo Tuttle, 1986).
Os estudos-base para a preparação de um plano de protecção dos morcegos cavernícolas de Portugal, em curso desde Janeiro de 1987, coordenados pelo professor Jorge M. Palmeirim, assim como os trabalhos que dedicam especial atenção à problemática da conservação da Gralha-de-bico-vermelho, iniciados em 1986, coordenados pelo biólogo João Carlos Farinha, permitirão que seja efectuada uma listagem das grutas que necessitam de protecção e determinar os períodos em que a mesma é necessária.
Uma das formas de evitar as visitas às grutas em épocas críticas de criação e/ou hibernação de morcegos (Março a Maio e Novembro a Março, respectivamente), seria o fecho das entradas das grutas de mais fácil acesso, mediante a utilização de grades que não afectassem a passagem desses animais e não alterassem o clima da gruta (segundo Tuttle, 1977). No caso da Gralha-de-bico-vermelho, cujo período de nidificação nos algares (da segunda quinzena de Março a finais de Maio), seria útil a vigilância das cavidade utilizadas por essas aves por parte das entidades competentes do PNSAC, conjuntamente com o incremento de campanhas de sensibilização das populações do Parque e dos “espeleólogos” frequentadores da zona referida no que diz respeito à protecção dessas aves. No entanto, e antes que se tomem as devidas medidas proteccionistas, fica a recomendação a quem frequente as grutas do nosso país para o cuidado que devem ter, nos meses de Novembro a Maio de não descerem algares frequentado pela Gralha-de-bico-vermelho.


Bibliografia
● CUIÇA, Pedro (1988): Morcegos - Perigo de Extinção;
Futuro, 23 (Ano II, 1988.12)

Gralha-de-bico-vermelho

[Revista Ciência ● Série VI, nº 2, Março 1992, pp. 36-42]

Gralha-de-bico-vermelho: Uma Ave em Declínio

Actualmente, a Gralha-de-bico-vermelho encontra-se ameaçada no território português. Apesar das leis de protecção em vigor, continua a acentuar-se o seu declínio devido a causas várias e complexas. No passado já foram abundantes, no presente encontram-se dispersas e em pequenos bandos. Que futuro?

Decorre actualmente na Divisão de Investigação e Estudos Ecológicos do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, um trabalho que dedica especial atenção à ecologia e problemática da conservação da Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax Linnaeus 1758) em Portugal. Os trabalhos em curso, iniciados em 1986, a cargo do biólogo João Carlos Farinha, são de fundamental importância dado essa espécie ser relativamente rara no nosso país e estar em rápido declínio ao nível da Europa Ocidental, encontrando-se protegida pelas Directivas comunitárias 79/409/CEE e 85/411/CEE.

A Gralha-de-bico-vermelho
A Gralha-de-bico-vermelho pertence à ordem Passeriformes e à família Corvidae (sendo a relação entre o género Pyrrhocorax com os outros géneros da família Corvidae pouco clara). Os corvídeos são um grupo de aves de grande sucesso, numeroso e diversificado, tendo algumas espécies aproveitado as oportunidades criadas pelo homem (aumento das áreas de cultivo e urbanas, diminuição antropogénica de aves de rapina e outros predadores) para aumentarem as suas populações, podendo, por vezes, constituir verdadeiras pragas.
Na Europa, a família Corvidae está representada por doze espécies encontrando-se oito em Portugal, incluindo a Gralha-calva que pode ser observada no Inverno em algumas regiões do norte do país. Os corvídeos existentes em Portugal são o Gaio (Garrulus glandarius), Corvo (Corvus corax), Pega-azul (Cyanopica cyanus), Pega-rabilonga (Pica pica), Gralha-preta (Corvus corone), Gralha-de-nuca-cinzenta (Corvus monedula), Gralha-calva (Corvus frugilecus) e Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax). Dentro das espécies de corvídeos que naturalmente podemos encontrar em Portugal, a Gralha-de-bico-vermelho distingue-se pelo seu bico vermelho, longo e curvo, característico das aves adultas (os juvenis apresentam o bico amarelo e mais curto), a plumagem é negra com reflexos azul-esverdeados e as patas vermelhas.

Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) adulta, em cativeiro (Trás-os-Montes) (Moncorvo @ J. C. Farinha, 1986).

Actualmente, segundo Varie (1959), a Gralha-de-bico-vermelho está representada por sete subespécies, com áreas geográficas definidas, podendo haver a sua coexistência em certas zonas, sendo a subespécie existente em Portugal a Pyrrhocorax pyrrhocorax erythrorhamphus Veillot. As variações que as subespécies apresentam envolvem diferenças pequenas no que diz respeito ao tamanho, proporções e brilho da plumagem. No nosso país, a Gralha-de-bico-vermelho mede cerca de 38 cm de comprimento no estado adulto. Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) jovenil, nas mãos de um dos investigadores da Divisão de Investigação e Estudos Ecológicos do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (PNSAC @ J. C. Farinha, s/d).

Os seus locais de alimentação são, regra geral, áreas de estrato herbáceo rasteiro, quer sejam sistemas agrícolas extensivos ou prados seminaturais ocupados pelo gado. Alimentam-se no solo utilizando o bico, longo e curvo, para escavar, virar pedras e remexer no interior dos excrementos de gado, sendo a sua dieta relativamente especializada: escaravelhos, gafanhotos, formigas, aranhas, etc., ingerindo por vezes sementes e grãos. Embora se alimente em bando, as gralhas-de-bico-vermelho são geralmente reprodutores solitários, que acasalam para toda a vida.
Durante a época de nidificação apenas os indivíduos não reprodutores utilizam os dormitórios comunitários. Os pares costumam nidificar por vezes a grande distância uns dos outros, utilizando para o efeito fendas, buracos e cavernas situadas em escarpas ou algares nas zonas cársicas; no entanto, quando não existem formações naturais, como as referidas, podem ocupar minas abandonadas, casas em ruínas, etc.
A construção do ninho demora cerca de duas semanas, sendo o seu início na segunda quinzena de Março. A Gralha-de-bico-vermelho põe entre três a cinco ovos, sendo o mais comum quatro, durando a incubação um pouco menos de três semanas. A partir de Abril, o macho inicia visitas, espaçadas de 20 a 60 minutos, ao ninho, para alimentar a fêmea ocupada com a incubação. No início de Maio ambos os elementos do casal podem ir para as áreas de alimentação regressando frequentemente ao ninho para prover as crias recém nascidas. As pequenas gralhas-de-bico-vermelho só começam a fazer as primeiras experiência de voo a partir do mês de Maio, acompanhando mais tarde os progenitores até às áreas de alimentação.

Distribuição geográfica
A Gralha-de-bico-vermelho está condicionada à existência de habitats adequados à sua alimentação e que permitam a sua nidificação. Na Europa, a sua distribuição está restringida a áreas costeiras e montanhosas; é observada em algumas ilhas escocesas, Irlanda, País de Gales, nas costas da Bretanha, no Maciço Central francês, Pirinéus, Alpes, nas penínsulas mediterrâneas (Ibéria, Itália e Grécia), ilhas de Creta, Sardenha e Sicília.
Nas Canárias ocorre somente na Gran Canária; aparecendo ainda no Norte de África, nas montanhas do Atlas (Marrocos e Argélia) e numa colónia isolada na Etiópia.
Na Ásia Central, a espécie para ser mais abundante e comum, encontrando-se em regiões em que as condições são semelhantes às existentes na Europa no último período glaciário, o Würm. A sua presença é contínua desde a Turquia, Cáucaso e Irão, através dos montes da Cordilheira de Elbruz até ao Afeganistão, passando pelo Turquestão até atingir os 53º N nas montanhas do Altai. Encontram-se também na Cordilheira dos Himalaias, montanhas da China e Manchúria, atingindo o Mar Amarelo.
No que diz respeito à sua distribuição em altitude a espécie em causa pode atingir, em certas regiões como nos Himalaias, cotas muito elevadas, nidificando entre os 2400 e os 3500 m, tendo sido descrita a sua presença no Monte Everest a, pelo menos, 6096 m.
Entre o Verão e o Inverno, em áreas elevadas de montanha, esta espécie ocorre em diversas altitudes podendo descer para níveis inferiores durante o Inverno; no entanto, é considerada uma espécie sedentária não se conhecendo verdadeiros movimentos migratórios, pelo menos na sua área de distribuição europeia. Nessa área de distribuição a Gralha-de-bico-vermelho encontra-se actualmente fragmentada, o que nem sempre se verificou como se demonstra pela área de ocorrência dos restos fósseis (segundo Guillou, 1981). No último período glaciário esta espécie ocupava a Europa Central e grande parte do Norte de África; no entanto, com a posterior desertificação do Sahara e o aparecimento de florestas na Europa, as populações de Gralha-de-bico-vermelho foram forçadas a refugiarem-se nas montanhas ou a permanecer em falésias marinhas.

A Gralha-de-bico-vermelho em Portugal
Entre 1986 e 1988, João Carlos Farinha estimou a população de gralhas-de-bico-vermelho, no nosso país, em cerca de 700 a 800 indivíduos; distribuídos por oito núcleos principais: Peneda-Gerês, Douro-Internacional, Serra da Estrela, Planalto de Idanha-a-Nova, Costa Sudoeste e Serras d’Aire e Candeeiros. Presentemente não se encontram verdadeiras colónias em Portugal, sendo a sua distribuição frgmentada e restrita, embora já tenha sido abundante, nomeadamente, em todo o Maciço Calcário Estremenho.
No nosso artigo iremos apenas referir as populações existentes na Costa Atlântica e no Maciço Calcário Estremenho devido à relativa importância das colónias aí existentes e da característica assaz importante de utilizarem algares para nidificação (pelo menos no maciço referido).
Na costa oeste portuguesa, a norte do Tejo, não se conhecem actualmente populações de Gralha-de-bico-vermelho, havendo apenas dois espécimes provenientes de Colares no Museu Bocage (da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e observações passadas. Em 1924, Tait observou duas gralhas-de-bico-vermelho nas falésias da linha de costa entre Cascais e o Cabo da Roca e, em 1945, Coverley refere que um amigo avistou pares nidificando nas falésias marinhas da Praia da Adraga. Não se sabe se esses pares estariam relacionados com a gruta existente na dita praia.
Na costa sudoeste ou Vicentina, segundo Palma (1984), a espécie aparece localizada e pouco abundante, sendo observados ocasionalmente alguns casais ou pequenos grupos isolados ao longo da costa oeste até ao Cabo Sardão. Todos os ninhos dos casais cuja nidificação J. Carlos Farinha (1988) confirmou encontram-se em fendas, buracos ou cavernas situadas nos alcantilados costeiros.
A população actual de gralhas-de-bico-vermelho, na costa sudoeste, é de cerca de 40 indivíduos, no entanto registos passados apontam para muito maior presença dessa espécie na zona referida. Variados autores referem a existência de grande número de corvos no Cabo Sacro, cabo esse que passou a designar-se de S. Vicente na altura em os restos mortais desse santo, aí depositados, foram trasladados para a Sé de Lisboa. Não esqueçamos que a lenda em torno de S. Vicente nos diz que dois corvos o acompanharam, desde o referido cabo até à cidade de Lisboa, na caravela que transportou os seus restos mortais, daí resultam os corvos existentes na caravela do brasão dessa cidade.
Em 1872, Rey refere a abundância de gralhas-de-bico-vermelho num vale a oeste de Vila do Bispo, sugerindo a nidificação de cerca de 30 a 40 casais. Coverley (1945) diz-nos que essa espécie é relativamente comum no Cabo de S. Vicente e na vizinhança de Sagres, mas que não se conhece a sua presença muito para leste deste último local, sendo completamente ausente no Cabo Carvoeiro (Algarve). Esta última afirmação é contrária à de Tait (1924) que supunha que a nidificação da Gralha-de-bico-vermelho ocorresse também na faixa costeira sul. Não existem referências de observações da espécie no Barrocal algarvio, nomeadamente na parte oeste dessa sub-região, apesar da existência de numerosas cavernas e algares que podem sugerir a possível nidificação dessas aves (ex. Buraco do Corvo).
Apesar da costa sudoeste estar sob estatuto de Paisagem Protegida desde 1987, as populações de Gralha-de-bico-vermelho têm tendência para diminuir devido à grande afluência de turistas e pescadores, que em geral levam os carros até junto dos pesqueiros no topo das falésias marinhas. O diploma que criou a Paisagem Protegida do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina originou a criação de serviços oficiais com a finalidade de zelarem pela conservação da natureza e gerirem os recursos naturais da respectiva área. No entanto, consta que aqueles serviços governamentais não possuem instalações em Sagres, em Vila do Bispo ou em qualquer outra localidade dos concelhos abrangidos pela Costa Vicentina, ficando-nos a dúvida de até que ponto essa protecção/conservação será efectiva.
No Maciço Calcário Estremenho encontram-se colónias de gralhas-de-bico-vermelho ou referências às mesmas na Serra de Sicó e Alvaiázere, Serra de Montejunto e Serras d’Aire e Candeeiros.
Nas serras de Sicó e Alvaiázere confirmou-se a sua presença há alguns anos atrás, quando essas aves utilizavam os algares para nidificarem, sendo actualmente inexistentes nessa zona.
Na Serra de Montejunto ocorre ocasionalmente, tendo-se verificado a sua nidificação em algares até há pouco tempo; Tait (1924) refere também a sua nidificação nas ruínas do Convento da Serra.
As serras d’Aire e Candeeiros são um dos núcleos principais de nidificação da Gralha-de-bico-vermelho em Portugal, apesar de também aí esta espécie ter vindo a sofrer um acentuado declínio nos últimos anos. A sua nidificação ocorre predominantemente em algares, onde essas aves desfrutam de um microclima favorável à sua reprodução e encontram protecção contra todo o tipo de “predadores”, excepto o homem. Os algares funcionam como incubadoras naturais onde a temperatura e a humidade relativa se poderão considerar constantes, em torno de valores óptimos. A testemunhar a importância da Gralha-de-bico-vermelho nas serras d’Aire e Candeeiros e a sua relação com o s algares temos uma série de cavidades naturais desse tipo com nomes indubitavelmente ligados a essas aves: Algar das Gralhas 1, Algar da Gralhas 3, Algar das Gralhas, etc.

Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax), adulta, sobre um lapiás da Serra dos Candeeiros, junto ao algar designado pelos investigadores por 0024 (PNSAC @ J. C. Farinha, 1988).

As características troglófilas da Gralha-de-bico-vermelho, ou seja, a sua tendência natural de utilização de grutas e algares para nidificação/reprodução, fazem dela uma das poucas espécies de aves com esse comportamento. Os trabalhos efectuados pelo biólogo J. Carlos Farinha com o apoio da Divisão e Quadros do Parque Nacional das Serras d’Aire e Candeeiros na zona em causa, permitiram detectar cerca de 20 ninhos, não devendo a população total ultrapassar em muito a centena de indivíduos; sendo de registar a descoberta no Algar da Malhada de Dentro de 15 indivíduos sub-fósseis, conservados por depósitos calcíticos, a cerca de 65 m de profundidade.

Sub-fóssil de Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax), conservado em depósitos calcíticos, no Algar da Malhada de Dentro (Serra de Aire), a cerca de 65 metros de profundidade (Malhada de Dentro @ J. C. Farinha, 1988).

Da análise das colónias desta ave nas serras d’Aire e Candeeiros fica-nos a apreensão, face ao impacte ambiental que a construção da recente auto-estrada que atravessa esse Parque Natural, terá sobre as suas frágeis populações.

Diminuição das populações
Ao lermos as referências acerca da Gralha-de-bico-vermelho, no nosso país, constatamos a diminuição rápida da espécie, de uns anos a esta parte, e a sua actual raridade e dispersão.
As causas que têm contribuído para a diminuição das populações desta ave são várias e complexas, no entanto enumeramos cinco que pela sua importância são incontestavelmente determinantes desse decréscimo:
1) A progressiva mecanização do espaço rural com o consequente aumento da área agrícola, utilizando-se para esse efeito terrenos que até então foram exclusivamente para a pastagem do gado. Na ausência da pastorícia tradicional, a cobertura vegetal desenvolve-se rapidamente impendindo ou dificultando as gralhas-de-bico-vermelho de prospectrem devidamente o solo, no qual se alimentam de insectos.
2) O turismo, com a sua actividade de “transumância” de pessoas, é responsável pela perturbação dos locais de reprodução e alimentação da espécie em causa, o que assume partícula gravidade, sobretudo na Costa Sudoeste. No período de reprodução, as gralhas adultas procuram o alimento relativamente perto do ninho; se a presença de pessoas e veículos for frequente, pode forçá-las a procurar alimento em áreas mais afastadas e mesmo desfavoráveis. O número de vezes que a fêmea incuba ou as crias são alimentadas pode ser, então, substancialmente reduzido, conduzindo ao abandono do ninho por parte do casal.
3) O abate de gralhas-de-bico-vermelho por parte dos agricultores. Durante a maior parte do ano essas aves reúnem-se em bandos juntamente com outrs espécies, por exemplo a Gralha-de-nuca-cinzenta (Corvus monedula) que causa, por vezes, prejuízos à agricultura. Os agricultores raramente distinguem as duas espécies, acabando assim por abater um número considerável de gralhas-de-bico-vermelho. Além disso, associadas com a morte e a desgraça, devido à cor escura da maioria dos corvídeos, essas aves têm sido muito perseguidas pelo homem.

Bando misto de corvídeos, Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) e Gralha-de-nuca-cinzenta (Corvus monedula), em área de alimentação (@ J. C. Farinha).

4) A captura de gralhas-de-bico-vermelho para fins ornamentais, devido essencialmente ao seu elevado desenvolvimento psíquico e rara beleza.
5) A prática de certas actividades de ar livre, como a espeleologia e o montanhismo, em áreas ocupadas pelas gralhas-de-bico-vermelho (locais de nidificação ou dormitórios), podem levar ao abandono das posturas pelos casais e forçarem a sua deslocação para zonas menos favoráveis.

Protecção/Conservação
Se queremos manter em Portugal os actuais níveis populacionais da Gralha-de-bico-vermelho e as suas áreas de distribuição, existe uma necessidade premente de se encontrarem soluções para conciliar os requisitos de habitat com as causas focadas anteriormente, responsáveis pela sua diminuição. Em especial no respeitante às fortes motivações económicas geralmente associadas às modernas actividades agrícolas do espaço comunitário.
A existência de áreas de pastoreio pouco intensivo é o elemento primordial para a conservação da Gralha-de-bico-vermelho; as pequenas manchas de cultivo, de restolho, rotações prolongadas para pastagem, pousios e “áreas inúteis” (como terrenos pedregosos, áreas não cultivadas e existência de formigueiros nas pastagens) são os locais de alimentação dessas aves.
Todas as características do sistema de pastoreio pouco intensivo se perdem com a intensificação e modernização da agricultura.
O governo e as organizações da área ambiental devem reconhecer a Gralha-de-bico-vermelho como indicadora de “ambiente de alta qualidade”, sendo necessário definir, especialmente nas áreas costeiras e montanhosas onde a espécie habita, prioridades e integrar os requisitos dessas aves na sua actividade de ordenamento do território nacional. Dando grande atenção ao ordenamento da actividade de pastorícia; localização das estradas de acesso ao público, de acordo com os locais de nidificação, dormitórios e áreas de alimentação; e acesso a grutas e algares ocupados pela Gralha-de-bico-vermelho.
Os trabalhos em curso na Divisão de Investigação e Estudo Ecológicos do Serviço de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, coordenados por J. Carlos Farinha, em que se está a fazer um estudo detalhado da espécie, censo da população e estimativa dos efectivos reprodutores, análise da causas de declínio e aconselhamento especializado a planos de ordenamento em curso, permitirão elaborar um plano de conservação e protecção da Gralha-de-bico-vermelho. Plano esse de extrema necessidade porque urge agir face à diminuição da populações dessa ave, no nosso território, sob pena da espécie se extinguir.

24/02/2008

Morcegos Cavernícolas

[Revista Futuro - Ciência, Novas Tecnologias, Inovação · Ano II, nº 23, Dez. 88]


Morcegos: Perigo de Extinção
Fotografia: P. Casaleiro

Está a realizar-se, desde Janeiro de 1987, estudos base para a preparação de um plano de protecção dos morcegos cavernícolas de Portugal. Estudos esses coordenados pelo professor Jorge M. Palmeirim do Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em estreita colaboração com Luísa Rodrigues do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza.
Os estudos em causa, não sendo os primeiros do género realizados no nosso país, são no entanto de manifesta importância, na medida em que visam um maior conhecimento da biologia populacional dos morcegos cavernícolas com vista à sua protecção.

Muita gente poderá perguntar qual o interesse do estudo dos morcegos, esses animais tão repelentes e inúteis. Esse posicionamento face aos quirópteros*, não nos admira pois não obstante os morcegos serem de grande utilidade para o Homem têm sido, desde há muito, objecto das mais cruéis e das mais inexplicáveis perseguições.
Moisés colocava-os na categoria de animais impuros, cuja carne o povo de Deus não devia tocar. A antiguidade pagã foi procurar neles o tipo repugnante das Harpias**. Na Idade Média acreditou-se que os morcegos personificavam o espírito do mal e desde logo foram considerados companheiros inseparáveis de bruxas, sendo mesmo denominados, naqueles tempos, de “pássaros de bruxas”. Quem não associa os morcegos aos filmes de terror do Conde Drácula que se transforma nessas “estranhas criaturas” e suga o sangue às donzelas? Ou às asas de morcego tradicionalmente presentes nas representações do diabo?
Se a visão que os antigos possuíam acerca dos morcegos se pode compreender face às características do tipo de conhecimento da época é contudo inconcebível que, nos nossos dias, ainda maltratem esses animais por simples desconhecimento, ou ainda que imperem ideias do tipo “os morcegos são ratos voadores”, concepção que se reflecte em várias línguas. Por exemplo, no México são por vezes apelidados de “ratones voladores”, na Alemanha são os operacionais “fledermaus” (ratos voadores) e em França “chauve-sauris” (ratos carecas).

*Ordem de mamíferos a que pertencem os morcegos.
**As harpias são génios alados da geração pré-olímpica, filhas de Taumante e Electra, em número de duas (Aelo, “Borrasca”, e Océpete, “Voa Depressa”). Seres monstruosos e ferozes, eles personificavam as tempestades e a morte, capazes de atormentar os humanos com as suas longas garras e rostos medonhos.


Os Chiroptera
Os quiróptetos, vulgarmente denominados “morcegos”, são os únicos mamíferos voadores, encontrando-se em todas as regiões do globo com excepção das zonas frias e certas ilhas. Ao falarmos acerca dessas peculiares criaturas não nos podemos esquecer que representam cerca de um quarto dos mamíferos terrestres, havendo inúmeras características e hábitos entre as cerca de mil espécies conhecidas.
As suas asas são formadas por uma membrana alar (patágio) cujos suportes consistem nos braços e cinco longos dedos. Possuem uma protecção em forma de quilha no esterno, à qual estão ligados os músculos com os quais bate as asas. Tal como as aves apresentam várias modificações destinadas a diminuir o peso do corpo: os ossos da cauda adelgaçaram-se até se tornarem finos como palha e apesar de possuírem dentes, a sua cabeça é curta e muitas vezes têm o nariz achatado (por ex. Rhinolophus), para evitar que o focinho pese no ar.
Actualmente, todos os morcegos são nocturnos e provavelmente sempre o foram, pois as aves dominavam os ares durante o dia. Para voar à noite os morcegos tiveram de desenvolver um sistema de navegação através de ultra-sons, um método ultra-sofisticado de localização por meio de eco, semelhante em princípio ao radar. No entanto, o radar utiliza ondas electromagnéticas de rádio enquanto o sonar usa ondas sonoras com uma frequência bastante acima do limite auditivo do ouvido humano. Um morcego quando em voo, guiado pelo sonar, utiliza sons da ordem das 50 a 200 mil vibrações por segundo, emitidas em estalitos breves de 20 a 30 vezes por segundo. O ouvido é tão apurado e sensível que ele pode, a partir do eco que cada sinal produz, determinar a posição não apenas dos obstáculos, como também da sua presa, que pode estar a voar a alta velocidade.
A maioria dos morcegos recebe o eco de um sinal antes de emitir o seguinte. Quanto mais próximo o morcego estiver de um objecto, menos tempo demora o eco, de modo que ele pode aumentar o número de sinais emitidos ao sentir que se aproxima da presa e persegui-la com crescente exactidão ao acercar-se para o ataque.
O sucesso na caça, porém pode significar uma cegueira momentânea, pois se a boca estiver ocupada a mastigar um insecto, o morcego não pode usar o sonar de modo normal. Algumas espécies, no entanto, contornaram essa dificuldade emitindo sinais pelo nariz, pelo que passaram a apresentar uma variedade de grotescas excrescências nasais que servem para concentrar a amplitude do som emitido agindo como megafones. Os ecos sendo detectados pelas orelhas obrigaram a que estas também adquirissem uma estrutura elaborada e complexa; possuem na base do bordo externo um lóbulo mais ou menos acentuado que se designa por “antitrago” e mostram com frequência, saindo do seu interior, um apêndice cutâneo de forma e tamanho variáveis a que se dá o nome de “trago”, sendo capazes de em certas circunstâncias se torcerem para melhor capturarem os sinais reflectidos. A aparência de muitos morcegos é, por essas razões, mais grotesca que qualquer imagem do demónio tirada de um manuscrito medieval; no entanto, essas características morfológicas não têm qualquer significado mítico ou religioso, sendo só e apenas “apetrechos” do seu precioso e evoluído equipamento de voo.
Ao contrário da maioria dos mamíferos, os morcegos não possuem uma temperatura corporal constante. Quando em voo podem apresentar temperaturas da ordem dos 42ºC, contudo após o poiso a temperatura do corpo desce rapidamente até aos 10ºC no período de digestão, para em seguida se manter intermédia entre os dois valores.
Como no Inverno o número de insectos decresce consideravelmente os morcegos insectívoros hibernam de Outubro a Abril, tendo de armazenar alimentos durante o Verão e Outono para chegar ao início do período de letargia com cerca de três vezes mais peso que o habitual. Durante a hibernação a temperatura corporal e ritmo cardíaco dos quirópteros decrescem até valores extremamente baixos. No entanto, o seu “profundo sono” pode ser interrompido, vendo-se ocasionalmente indivíduos voando, nos dias de bom tempo de Inverno, em busca de insectos ou então mudando-se para grutas-abrigo de temperatura mais agradável. Os voos de Inverno são, contudo, uma aventura perigosa visto que os morcegos gastarem energias essenciais à permanência em hibernação, com consequente diminuição de peso, arriscam-se a morrer por falta de energia.
Apesar da maioria dos morcegos se alimentar de insectos, os quirópteros possuem um vasto regime alimentar podendo, segundo as espécies, serem: insectívoros, nectaríferos e poliníferos, frugívoros, carnívoros, piscívoros ou hematófagos. Alguns descobriram que o néctar e o pólen são muito nutritivoros (por ex. Eidolom helvum) e aperfeiçoaram a sua técnica de voo de modo a poderem pairar no ar, como os beija-flores, recolhendo o néctar que extraem com a língua fina e comprida. Algumas plantas utilizam mesmo os morcegos como agentes de polinização, do mesmo modo que um grande número se serve dos insectos para o mesmo fim. Alguns cactos, por exemplo, só abrem à noite as suas grandes flores, resistentes e descoradas, pois no escuro as cores não têm significado. O perfume que exalam é, porém, intenso e as pétalas projectam-se bem acima da armadura de espinhos do caule, permitindo que os morcegos se aproximem sem ferirem as membranas alares (patágios).
Os morcegos de maiores dimensões são frugívoros (por ex. Pteropus giganteus). Conhecidos também como “raposas-voadoras”, receberam essa designação não só pelo seu tamanho - as asas podem atingir por vezes 1.5 m de envergadura - mas também pelo seu pêlo castanho-avermelhado e o seu focinho semelhante ao das raposas. Possuem olhos grandes e orelhas pequenas, não utilizando o sonar para o voo. Não vivem em grutas, como a maioria dos seus parentes insectívoros, mas no cimo das árvores, onde se penduram em grupos numerosos e ruidosos. A sua silhueta é diferente da de uma ave, pois não apresentam uma cauda projectada do corpo e o seu voo é bastante diferente do voo quebrado e difícil dos morcegos insectívoros; as suas asas batem regularmente mantendo-se numa trajectória firme e determinada pelo seu nocturno.
Outros morcegos alimentam-se de carne (por ex. Megaderma lyrra). Alguns atacam aves nos seus poleiros, rãs, lagartos pequenos e invertebrados, havendo mesmo notícia de uma espécie que se alimenta de morcegos. Também existem morcegos que se alimentam de peixes (por ex. Noctílio leporinus). Ao entardecer percorrem as lagoas, lagos e mesmo mares em busca de presas, as quais capturam com o auxílio das suas garras em forma de gancho e matam com uma poderosa dentada.
Os morcegos hematófagos (por ex. Desmodus rotundus), normalmente conhecidos por “morcegos-vampiros”, atingiram um elevado grau de especialização. Os seus dentes da frente têm a forma de duas navalhas triangulares e a sua saliva contém uma substância anticoagulante, de modo que quando as suas vítimas começam a sangrar o sangue continue a fluir durante o tempo necessário, antes que se forme um coágulo. Normalmente os morcegos-vampiros escolhem mamíferos adormecidos, vacas ou mesmo homens, instalando-se ao lado do ferimento previamente produzido e lambem o sangue até ficarem saciados.


Os morcegos cavernícolas de Portugal
As 24 espécies de morcegos que se conhecem no nosso país (Palmeirim, em publ.), mais de um terço dos mamíferos da nossa fauna, são na totalidade insectívoros. Pouco se conhece acerca das espécies Myotis mystacinus [Morcego-de-Bigodes], Nyctalus lasiopterus [Morcego-Arborícola-Grande], Nyctalus noctula [Morcego-Arborícola], Pipistrellus nathusii [Morcego-de-Nathusius], Pipistrellus savii [Morcego-de-Savi] e Myotis bechsteinii [Morcego-de-Bechstein] porque são bastante raras não sendo vistas no nosso território há já alguns anos. As Barbastella barbastellus [Morcego-Negro], Plecotus auritus [Morcego-Orelhudo-Castanho], Nyctalus leisleri [Morcego-Arborícola-Pequeno], Myotis nattereri [Morcego-de-Franja] e Myotis emarginatus [Morcego-Lanudo] são localizadas pontualmente e a Myotis bechsteinii [Morcego-de-Bechstein] é muito rara. Apesar da Tadarida teniotis [Morcego-Rabudo] se encontrar em pequeno número pensa-se, contudo, que seja uma espécie mais comum do que os dados de que se dispõe levariam à primeira vista a pensar. As espécies mais abundantes são a Pipistrellus pipistrellus [Morcego-Anão], Pipistrellus kuhlii [Morcego-de-Khul], Plecotus austriacus [Morcego-Orelhudo-Cinzento], Myotis daubentonii [Morcego-de-Água] e Eptesicus serotinus [Morcego-Hortelão]. Contudo também se encontra no nosso país consideráveis populações de Rhinolophus ferrumequinum [Morcego-de-Ferradura-Grande], Rhinolophus hipposideros [Morcego-de-Ferradura-Pequeno], Rhinolophus mehelyi [Morcego-de-Ferradura-Mourisco], Myotis myotis [Morcego-Rato-Grande], Myotis blythii [Morcego-de-Brandt] e Miniopterus schereibersii [Morcego-de-Peluche].

A fauna de morcegos da Península Ibérica parece não incluir nenhumas formas endémicas, o que contrasta com o alto grau de endemismo observável nas formas não voadoras dos grupos de mamíferos da península (Almaça, 1971). Além disso, a relativa riqueza da fauna de quirópteros de Portugal reflecte uma falta de isolamento da Península Ibérica em relação ao número de espécies ao caminharmos de nordeste da península para sudoeste, ou seja, não ocorre efeito peninsular nas populações de morcegos ibéricos.
Tal como noutros países europeus, onde existem morcegos, a fauna de quirópteros de Portugal é dominada por espécies palearticas. Contudo a não existência de espécies setentrionais, como a Vespertilio murinus [Morcego-Bicolor] e a Eptisicus nilssoni [Morcego-Hortelão-do-Norte], e a presença de muitas espécies meridionais dá à fauna de quirópteros do nosso país um carácter marcadamente meridional.
Apesar das relativamente pequenas proporções do nosso território verifica-se um claro gradiente na composição da fauna de morcegos, de norte para sul, e da relativa abundância das várias espécies; é assim que certas espécies estão representadas em pequeno número em certas regiões tornando-se mais representativas ao caminharmos para sul ou para norte.
Cerca de metade das 24 espécies de morcegos conhecidas em Portugal utilizam grutas naturais como abrigo, entre elas destacam-se duas famílias que pela sua frequência requerem uma particular atenção: a Vespertilionidae e a Rhinolophidae. A primeira comporta em Portugal cinco géneros e 18 espécies. Das 18 espécies a Myotis myotis e a Myotis blythii são aquelas que em maior número ocorrem nas nossas grutas, formando aí grandes colónias (por vezes com milhares de indivíduos), quer na época de reprodução, que se prolonga entre os meses de Março a Maio, quer na época fria quando estão em período de hibernação.
No que respeita à família Rhinolophidae são quatro as espécies que estão descritas em Portugal; tal como as espécies da família anteriormente referida formam colónias em grutas, no entanto, em menor número do que essas. Normalmente agrupam-se em pequenos “bandos” de três a seis indivíduos, encontrando-se muitas vezes apenas um a dois indivíduos o que acontece frequentemente com os machos (Palmeirim, 1985). Por esse motivo são espécies mais vulneráveis, estando mesmo uma delas - Rhinolophus ferrumequinum - citada no “Red Book” (publicação que menciona as espécies de morcegos ameaçadas de extinção).


Extinção?
Durante as últimas décadas as populações de morcegos cavernícolas das regiões temperadas têm, em geral, vindo a diminui. Em Portugal não se possuem informações detalhadas sobre as populações de morcegos do nosso território, ao contrário do que sucede em muitos outros países da Europa, não tendo sido realizados trabalhos que permitam quantificar os reais decréscimos do número de quirópteros. No entanto, as observações, mais ou menos sistematizadas, que se têm vindo a empreender ao longo dos anos, sobretudo por parte de investigadores ligados ao Departamento de Antropologia e Zoologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, dão quase a “certeza” de que os seus efectivos têm vindo a decrescer consideravelmente.
As causas da diminuição das populações de morcegos são inúmeras e variadas, contudo, no nosso país, parecem ser três os factores de principal importância e responsabilidade no decréscimo dessas populações. O primeiro factor, o uso e abuso de pesticidas na agricultura, afecta os morcegos na medida em que além de provocarem uma diminuição daquilo de que estes se alimentam, faz com que ao alimentarem-se de insectos contaminados acumulem nos seus tecidos quantidades de organocloretos que, se não forem letais, são com certeza prejudiciais ao seu normal desenvolvimento.
Usualmente no topo das pirâmides alimentares e necessitando de grandes quantidades de alimento, os morcegos insectívoros facilmente acumulam organocloretos (Esher, Wolfe & Koch, 1980), por exemplo, nos Estados Unidos encontram-se altas concentrações de resíduos de pesticidas em morcegos mortos analizados pelo Nature Conservancy’s Monks Wool Experimental Station. Experiências laboratoriais vieram demonstrar que quantidades similares às encontradas nesses morcegos são suficientes para lhe causar a morte.
O paradoxal de toda esta história é que a protecção dos quirópteros pode contribuir para a diminuição das populações de determinados insectos prejudiciais à agricultura. Os morcegos tendo como base alimentar inúmeras espécies de insectos, particularmente borboletas nocturnas (cujos estados larvares se tornam, por vezes, pragas catastróficas para certas culturas) podem eliminar algumas toneladas desses artrópodes numa só noite. Brosset e Deboutteville (1986) referem que um morcego consome diariamente um número de insectos aproximadamente igual ao seu peso, contudo o homem continua a usar os pesticidas em vez da luta biológica. De facto, existem numerosos pesticidas destinados a combater as pragas que afectam a agricultura, no entanto, os seus efeitos sobre os ecossistemas são de difícil controlo e, por vezes, catastróficos, podendo mesmo alguns dos constituintes desses produtos chegarem às populações humanas, através da sua alimentação, causando-lhes eventuais prejuízos de saúde.
O segundo factor, destruição do habitat, vem na sequência de uma procura cada vez maior de terrenos de cultivo ou florestação, urbanização, empreendimentos turísticos ou outros, sem que para tal se faça um ordenamento do território. Sob o baluarte do desenvolvimento e do progresso todos os dias se rouba mais um pouco à natureza com vista à implantação de sistemas artificiais, obtendo-se quase sempre e infelizmente por soluções fáceis ou manifestos de ignorância. Assim se assiste à redução de muitos habitats naturais e roturas nos ecossistemas respectivos, com consequências directas nas numerosas espécies que ai vivem.
A redução da área de muitos habitats está certamente a afectar a população de quirópteros. A destruição de abrigos como grutas, minas, casas abandonadas ou em ruínas e troncos de árvores envelhecidas, assim como a destruição dos locais de criação dos meios de subsistência dos morcegos, faz com que destes só os mais aptos ganhem a luta pela vida, ficando para trás os fracos, doentes ou mal alimentados.
O terceiro, e último factor, a perturbação das colónias de quirópteros cavernícolas por parte de visitantes de ocasião e “espeleólogos” desinformados, é provavelmente o factor mais importante de declínio das populações de morcegos. Sabendo-se que as populações de quirópteros são particularmente frágeis devido à sua baixa taxa de reprodução, tendo em geral cada fêmea uma cria por ano e raras vezes duas crias, é licito pensar que as populações que tenham sido numericamente afectadas recuperem muito lentamente os seus efectivos.
Daí que as perturbações com consequente diminuição do número de morcegos sejam de extrema importância e gravidade, podendo levar inclusivamente, se forem persistentes e duradouras, à ruptura das colónias de quirópteros com consequente abandono das grutas-abrigo constantemente importunadas.
Na época de criação, a perturbação das colónias pode provocar uma alta mortalidade entre os juvenis, que caem do tecto no meio da confusão, ou mesmo levar ao abandono da gruta como local de criação.
Durante os meses quentes do ano os morcegos insectívoros acumulam energia no seu corpo de modo a sobreviverem à falta de alimento do Inverno, entretanto então no período de hibernação como vista a minimizarem os gastos energéticos. Se as reservas alimentares acumuladas não forem suficientes para toda a época fria os morcegos incapazes de se alimentar terão grandes probabilidades de morrer. Daí que se a hibernação for frequentemente interrompida, por visitantes de ocasião e pseudo-espeleólogos, os morcegos ao serem levados a gastos energéticos desnecessários e prejudiciais arriscam-se a não sobreviverem até à Primavera, época em que poderão novamente caçar no céu nocturno.
Se as incursões no mundo subterrâneo levadas a efeito por curiosos são prejudiciais, por se cometerem inúmeros erros devido a puro desconhecimento, há no entanto incursões com fins puramente destrutivos, que se devem repudiar convictamente. Podendo-se compreender que, por exemplo, na Catalunha se cacem morcegos para confeccionar iguarias gastronómicas é, contudo, incompreensível e condenável que se matem esses inofensivos animais pelo simples prazer sádico de matar.
A perturbação das populações de morcegos toma proporções particularmente gravosas na província algarvia. A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a certas grutas dessa região - a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em alguns mapas e guias turísticos e serem de fácil acesso - tem vindo a degradá-las de um modo rápido e irreversível. Sendo algumas delas local de hibernação e/ou criação de morcegos (Gruta de Ibne Ammar, Igrejinha dos Soídos, Salustreiras, Lapa da Pena e Arrifes), chegando a ser visitadas por centenas de pessoas durante o ano - como é o caso das Salustreiras - tem-se verificado uma diminuição sensível dos efectivos das populações de morcegos cavernícolas do Algarve.


Protecção dos morcegos
Das 24 espécies de morcegos conhecidas em Portugal cerca de metade utilizam grutas naturais como abrigo (Palmeirim). A população de algumas dessas espécies encontrando-se concentradas nas poucas grutas que reúnem os requisitos ambientais necessários, chegando a formar colónias com milhares de indivíduos, torna-se particularmente vulnerável.
A situação de ameaça de extinção em que se encontram muitas espécies europeias torna imperativa a defesa das colónias contra a perturbação das grutas-abrigo mais importantes e significativas.
O desaparecimento de uma colónia não é só grave para o património faunístico, como tem consequências, difíceis de avaliar, nos ecossistemas da região e das próprias grutas (onde se poderá verificar o colapso da comunidade de invertebrados cavernícolas). O guano que se acumula no interior das cavernas, prova do sucesso alimentar dos morcegos, tem um grande interesse bacteriológico e além disso é a base, o suporte, de uma fauna particular; podemos mesmo considerar uma verdadeira biocenose do guano. Nessa biocenose encontramos os guanófilos que se alimentam de guanóbios. Com o desaparecimento da colónia de morcegos, acaba o fornecimento de guano, regularmente depositado no solo da cavidade, com a subsequente extinção dos invertebrados do guano (guanóbios e guanófilos).

Em Portugal, ainda que haja evidência de perdas importantes para os morcegos cavernícolas, existem boas populações de várias espécies consideradas ameaçadas a nível europeu. Estão entre elas Myotis myotis, Myotis blythii, Miniopterus schereibersii, Rhinolophus hipposiderus e Rhinolophus mehelyi (segundo o prof. J. Palmeirim). A fim de proteger essas populações e visto que se verifica um aumento do número de grupos de espeleologia, sobretudo devido ao impulso dado pela criação da Federação Portuguesa de Espeleologia, há necessidade de regulamentar o acesso de pessoas às grutas de maior importância como abrigos de morcegos, estratégia que tem tido sucesso noutros países (Tuttle, 1986). Porém para maximizar a eficácia das medidas conservacionistas, há que conhecer a biologia populacional das espécies a proteger e em especial os seus movimentos.
Esta necessidade pode ser ilustrada com Myotis schereibersii espécie que parece estar dividida em populações bem definidas cujos indivíduos se reúnem sempre na mesma gruta durante a época de criação. Com a aproximação do Inverno, a colónia desloca-se para uma ou mais grutas que reúnam as condições necessárias para a hibernação. Para proteger uma população de Myotis schereibersii é portanto necessário conhecer o seu ciclo anual de movimentos. Só assim se poderão proteger as grutas que ocupam ao longo do ano durante as épocas apropriadas.


Estudos em Portugal
Os estudos base para a preparação de um plano de protecção dos morcegos cavernícolas de Portugal, coordenados pelo prof. Jorge M. Palmeirim, têm como objectivo primordial adquirir conhecimentos sobre a biologia populacional dos morcegos do nosso país com vista à sua salvaguarda.
Com o trabalho em curso os responsáveis pelo projecto pretendem ficar na posse dos dados necessários que permitam elaborar um plano viável e com a máxima eficiência se tomem as medidas de conservação e protecção ajustadas. Para tal, estão em curso, desde Janeiro de 1987, uma série de estudos de campo e de gabinete para determinar quais as grutas mais importantes para as colónias de criação e de hibernação, quais as épocas críticas de cada gruta e qual o tamanho passado e presente de cada colónia.
Os resultados do projecto em curso permitirão que seja feita uma listagem das grutas que necessitam de protecção e determinar os períodos em que esta é necessária; além disso, as anilhagens que se estão a efectuar, com posterior recaptura de grande número de morcegos poderá, a médio prazo fornecer dados sobre as taxas de sobrevivência das espécies em estudo (Humphrey e Cope, 1976; Stevensons e Tuttle, 1981), estes dados poderão ser úteis, não só no planeamento de novas acções de conservação mas também na avaliação das acções implementadas.
Uma das formas de evitar as visitas em épocas críticas de criação e/ou hibernação seria o fecho das entradas das grutas de mais fácil acesso, mediante a utilização de grades que não afectassem a passagem dos morcegos e não alterassem o clima da gruta (Tuttle, 1977). Essas grutas permaneceriam abertas durante o período em que as visitas humanas não prejudicassem seriamente as populações de morcegos, podendo-se inclusivamente colocar à entrada uma placa metálica com indicações acerca da cavidade, das causas do seu fecho e, se possível, as datas de encerramento e abertura.
Até que se tomem as devidas medidas de protecção e considerando que as populações de quirópteros têm vindo a ser sistematicamente reduzidas quer pelo abate directo de indivíduos e a perturbação de colónias quer por outras diversas razões e considerando que os quirópteros são um grupo de animais com papel importante no equilíbrio natural dos ecossistemas, bem como um potencial científico pela sua diversidade de espécies e hábitos, é necessário que os espeleólogos, como amantes do mundo subterrâneo, evitem perturbar e não deixem perturbar as grutas-abrigo.
Em Portugal os quirópteros estão protegidos pelo Decreto-Lei nº 354-A/74 sem que, no entanto, na prática se verifique o disposto na referida lei. Será que os quirópteros estão ao “Deus-dará” ou ainda continuamos nos tempos das harpias e dos “pássaros das bruxas”?


Bibliografia
● Diane ACKERMAN: A reporter at large;
New Yorker, Fev. 29, 1988.
● Deodália DIAS & Maria João RAMOS: Inventário da Fauna de Quirópteros do Algarve, proposta para a sua protecção;
Laboratório Zoológico e Antropológico da FCUL (1979).
● Deodália DIAS: Os Morcegos;
Algar, Boletim da Sociedade Portuguesa de Espeleologia, nº 1, 1987.
● Jorge M. PALMEIRIM: Estudos Base para a preparação de um plano de protecção dos morcegos cavernícolas em Portugal (Proposta de trabalho de investigação);
Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
● J. M. PALMEIRIM: Status of Bats in Portugal;
Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
● J. M. PALMEIRIM: Important Habitats and Roosts;
Departamento de Zoologia e Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
● J. M. PALMEIRIM: Comunicação proferida no I Congresso Nacional de Espeleologia organizado pela Federação Portuguesa de Espeleologia (1 a 3 de Abril de 1988
● J. M. PALMEIRIM: Bat Conservation and Management;
Liga para a Protecção da Natureza, Boletim nº 16, 1977-1982.
● R. E. STEBBINGS: Conservation Measures for Bats
● Pedro CUIÇA: Este Algarve Subterrâneo ou a Critica da Destruição do Carso Algarvio;
Preto no Branco, nº 9, Maio 88.
● Pedro CUIÇA: O Algarve Subterrâneo em Perigo;
Futuro, Ano II, nº 18, Julho 88.
● Pedro CUIÇA: Destruição das Grutas Algarvias;
O Algarve, Ano 81, nº 4063.
● David ATTENBOROUG: Adaptação do corpo dos morcegos à vida no ar;
in A Vida na Terra, Reader’s Digest.
● Decreto-Lei nº 354-A/74, de 14 de Agosto
● Norbert CASTERET: Veinticinco Años entre Murciélagos;
in Mi Vida Subterranea, Ed. Bruguera, S.A..
● Maria Manuela da GAMA: Morcegos de Portugal - Chaves para a sua identificação;
in Mamíferos de Portugal.

[Será de referir que a forma pouco usual de apresentar a bibliografia foi uma opção dos editores da revista. Reproduzimos apenas as imagens que entregámos para publicação.]

22/02/2008

Grutas Algarvias

[Jornal O Algarve ● Ano 81, nº 4063, 8 a 14/09/1988, pp. 1 e 9]

Destruição das Grutas Algarvias

A afluência, ao longo dos anos, de grande número de indivíduos a certas grutas algarvias - a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em alguns mapas e guias turísticos - tem vindo a degradá-las de maneira rápida e irreversível. Sendo algumas delas local de hibernação e/ou criação de morcegos (Gruta de Ibne Ammar, Igrejinha dos Soidos, Salustreiras, Lapa da Pena e Arrifes) chegando a ser visitadas por centenas de pessoas durante o ano - como é o caso das Salustreiras -, advindo daí graves prejuízos para população de quirópteros, é urgente que se tomem as necessárias medidas de protecção.
Durante as últimas décadas as populações de morcegos cavernícolas das regiões temperadas têm, em geral, vindo a diminuir, sendo a causa principal dessa diminuição a perturbação dos abrigos por parte de visitantes de ocasião. Este problema tem particular importância na província algarvia devido ao facto das cavernas habitadas por morcegos serem, na sua grande maioria, de muito fácil acesso; as populações de quirópteros encontrando-se concentradas nas poucas grutas que reúnem os requisitos ambientais favoráveis tornam-se particularmente frágeis, facto agravado pela baixa natalidade que caracteriza esses animais.
A diminuição do número de morcegos de uma gruta pode provocar o colapso da fauna associada ao guano (guanóbios e guanófilos) originando-se a destruição de todo um ecossistema de características únicas. Além da perturbação dos morcegos verifica-se uma delapidação na generalidade das cavidades algarvias, sendo os casos de características mais graves as que se verificam nas grutas atrás referidas e no Cerro da Cabeça (249 m).
Nesse cerro encontra-se um megalapiás onde dominam os grandes dorsos de superfícies lisas e arredondadas, relevos cónicos e pedunculados, torres, blocos isolados, arcos, etc., distribuindo-se densamente em toda a elevação. Os dorsos e as torres estão separados por fendas estreitas entulhadas de calhaus, que por vezes formam pias de fundo rochoso e cheio de blocos ,ou, então, por corredores (bogaz). Frequentemente as pias escavadas no lapiás prolongam-se em profundidade por algares, geralmente de boca estreita e obstruídos por blocos (Algar do Próximo), mas por vezes de dimensões suficientemente grandes formando profundas cavidades (Algar Medusa).
No Cerro da Cabeça encontram-se as grutas mais profundas conhecidas no Algarve; tendo-se inventariado cerca de uma centena de cavidades nessa elevação, o que só por si evidencia a importância da mesma. O elevado estado de degradação em que se encontram as grutas do Cerro da Cabeça, assim como a destruição das instalações de apoio aos espeleólogos (casa de abrigo e miradouro), juntamente com a acção d pedreira situada a SE dessa elevação e as consequências da possível abertura da Gruta da Senhora ao turismo, perspectivam a perda de uma das mais belas zonas cársicas do Algarve.
Quando, em 1877, Estácio da Veiga foi encarregue, por parte do governo de então, do Estudo Geral das Antiguidades do Algarve, propôs que fossem, antes de mais estudadas as cavernas. O governo, temendo a demora e os custos que iriam comportar os trabalhos, idênticos aos que tinham sido efectuados por Schemerling e Dupont nas grutas da Bélgica, rejeitou a proposta.
Anos mais tarde, Ataíde Oliveira escrevia na Monografia de Estombar: “ficam aqui recomendadas para quando alguma vez haja governos neste paiz que comprehendendo o alto interesse que em todas as nações cultas está inspirando o estudo das cavernas, saibam dar por bem empregue o tempo e o dispêndio que reclamam estes estenuantes trabalhos, que tantas revelações hão ministrado com relação às raças e ao grau de civilizações dos mais remotos povos.” Sendo as grutas uma das características mais vincadas do Barrocal algarvio , apesar da pouca importância que as autoridades regionais e centrais até agora lhe têm dedicado, é premente que se estimule e apoie o estudo das mesmas implementando a sua protecção; com vista a evitar a destruição a que têm sido sujeitas e no futuro não se optar por soluções fáceis no tocante à construção civil e obras públicas que provoquem a degradação do Carso algarvio e a poluição dos aquíferos cársicos associados.
O surgimento tardio da espeleologia em Portugal (podemos considerar o seu início no ano de 1948) pouco contribuiu para o conhecimento e estudo das cavidades algarvias. Os grupos que se criaram na região, devido essencialmente à ausência de um plano regional de trabalho, à falta de conhecimentos e aos fracos recursos económicos, sofreram desde sempre de uma inconstância existencial de que resultaram a perda dos estudos dos mesmos, porque encerrados no olvido das gavetas das suas sedes. A falta de uma licenciatura ou bacharelato em espeleologia, aliada a uma inexistência de legislação que proteja as grutas do nosso país, implica que o baixo nível científico da generalidade dos espeleólogos e as incursões de curiosos tenham e estejam a degradar o “Algarve Subterrâneo”.
A situação actual em que se encontram algumas das cerca de 300 grutas conhecidas no Algarve leva-nos a afirmar que, se não houver uma abordagem séria do problema, arriscamo-nos a que, quando houver governos neste país que compreendam o alto interesse, que em todas as nações cultas está inspirando o estudo das cavernas, já não existem cavidades em condições de se empreenderem estudos. Seria uma situação triste e manifesto de ignorância.

O Algarve Subterrâneo

[Revista Futuro ● Ano II, nº 18, Julh. 88, pp. 51-54]

O Algarve Subterrâneo em Perigo


O Algarve atravessou um rápido processo de desenvolvimento urbano e agrícola, guiado e implementado pela indústria turística que aí surgiu nas últimas décadas. Mas este processo teve como consequência uma degradação acelerada do carso algarvio e uma contaminação ambiental, nomeadamente das águas subterrâneas, o que faz prever sérias ameaças à saúde pública, se entretanto os sintomas de contaminação continuarem a agudizar-se.
Sendo o Barrocal algarvio (uma das zonas do Baixo Algarve) a segunda maior extensão de terrenos calcários do país, encontrando-se aí inúmeras grutas sujeitas à destruição contínua por parte de vândalos, incautos ou pseudo-espeleólogos, é de fundamental importância alertar a opinião pública e as instituições da área ambiental para o interesse capital dessas cavidades, com vista à sua protecção.
O primeiro homem a chamar a atenção para importância do estudo das grutas algarvias, apesar de se circunscrever apenas à arqueologia, foi Estácio da Veiga. Tendo sido encarregue em 1877, pelo governo de então, do estudo geral das antiguidades do Algarve, propôs que fossem, antes de mais, estudadas as cavernas. O governo, temendo a demora e os custos que iriam comportar os trabalhos, idênticos aos que tinham sido efectuados por Schemerling e Dupont nas grutas da Bélgica, rejeitou a proposta. Uma enorme lacuna no conhecimento do Algarve subterrâneo ficou por desvendar.
Desde a proposta de Estácio da Veiga até aos nossos dias, o estudo das grutas algarvias tem sido feito de uma maneira inconstante e de certo modo improdutiva, à excepção de certos trabalhos pontuais realizados pela Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) e por alguns cientistas de diversos ramos do saber - essencialmente geólogos, biólogos e arqueólogos.
O surgimento da espeleologia em Portugal (podemos considerar o seu início em 1948) pouco contribuiu para o conhecimento e estudo das cavidades algarvias por parte dos grupos que se criaram nessa região, devido essencialmente à ausência de um plano regional de trabalho e à falta de cooperação dos grupos, fracos em recursos económicos. A falta de uma licenciatura ou bacharelato em espeleologia, aliada a uma inexistência de legislação que proteja as grutas do nosso país, implica que o baixo nível científico da generalidade dos espeleólogos provoque uma degradação das grutas. Uma mesma gruta é várias vezes visitada e “estudada” por diversos grupos de espeleologia que efectuam, normalmente, a inventariação da cavidade, o que difere em geral de grupo para grupo. Não raras vezes, devido à inconstância existencial desses grupos, esses inventários perdem-se ou estão inacessíveis à consulta, porque encerrados no olvido das gavetas das suas sedes.

Proteger a fauna cavernícola
A inventariação consiste normalmente no nome, localização e topografia da cavidade, dimensões e descrição sumária de uma série de observações de ordem geológica, hidrológica, climatológica, biológica, arqueológica ou outra. Ora a inventariação de cavidades, trabalho de grande utilidade para o conhecimento do potencial subterrâneo da região, só desempenhará a sua função se, por um lado, for realizado em cooperação entre grupos que sigam um mesmo método de trabalho, tentando distribuir os seus efectivos pelas diversas zonas da região algarvia de forma a abarcarem a totalidade do carso e, se por outro, os trabalhos forem publicados, divulgados ou passíveis de consulta.
Numa inventariação não se deverão efectuar recolhas de seres vivos, sob o pretexto de realização de um estudo bioespeleológico, pois a fauna cavernícola é pouco abundante, tendo um menor número de crias do que as formas epígeas análogas.
O equilíbrio ecológico subterrâneo é extremamente vulnerável a qualquer perturbação exterior, sendo a captura de animais cavernícolas reservada a estudos sérios efectuados por zoólogos idóneos, caso contrário destruir-se-á, em poucos anos, esses seres ainda pouco conhecidos.
Dos animais que mais têm sofrido com as incursões dos visitantes são os morcegos, espécies que têm diminuído de número, entre outros factores, por serem perturbados nas épocas de criação e de hibernação. Do mesmo modo, não são admissíveis os “estudos arqueológicos”, com mudança de posição ou recolha de objectos, sondagens ou revolução do solo da cavidade, o que provoca a alteração da disposição espacial e da estratigrafia dos materiais, levando à perda do contexto histórico do espólio aí encontrado. Durante os trabalhos de prospecção, ao ser “descoberta” uma nova gruta, deve-se ter a prudência suficiente na sua exploração, evitando pisar eventuais vestígios existentes no solo da cavidade. Quantas informações foram destruídas por botas de espeleólogos ávidos por chegarem ao limiar das galerias acabadas de descobrir?

Proteger os morcegos
Não esqueçamos também que as cavernas algarvias poderão oferecer agradáveis surpresas no tocante a pinturas e gravuras rupestres, quando forem examinadas minuciosamente as paredes das suas galerias [e salas], em especial as mais interiores ou de difícil acesso (segundo M. Farinha dos Santos). A presença em algumas grutas do Algarve de material neo-eneolítico ou calcolítico (Gruta dos Matos, Gruta da Nora, o Abismo e as Ladroeiras), de material de ocupação árabe (Ibne Ammar) e a relativa abundância da estações neolíticas, requer que se façam os estudos arqueológicos necessários ao bom conhecimento da ocupação das cavernas da província em tempos remotos; no entanto, esses estudos terão de ser efectuados por pessoas devidamente formadas.
Não se devem levar como “recordação”, para colecção, estalactites e estalagmites caídas no solo, ou sequer alterar a disposição de blocos do interior da cavidade, a menos que tal seja necessário para continuar a progressão, pois essas acções modificam o contexto histórico da evolução da caverna.
Depois de feita a inventariação, a gruta deve ser visitada apenas quando for necessário realizar qualquer trabalho de índole espeleológica, caso contrário não se deverão efectuar incursões. Não esqueçamos que um trabalho de inventariação de uma cavidade pode levar meses ou mesmo anos.
Se alguns espeleólogos degradam as grutas sem intenção de o fazerem, a acção dos “curiosos” é muito mais grave e por vezes propositada; a obstrução de cavidades com o auxílio de blocos, o arrancar de concreções (estalactites, estalagmites, colunas, excêntricas, etc.), a caça e perturbação de morcegos, os graffiti nas paredes, o lixo deitado às grutas, são alguns dos factores que mais destroem as formas endocársicas algarvias e o ecossistema associado.
A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a certas grutas algarvias - a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em alguns mapas e guias turísticos - tem vindo a degradá-las e a destruí-las de maneira rápida e irreversível. Sendo algumas delas local de hibernação e/ou criação de morcegos (Gruta de Ibne Ammar, Igrejinha dos Soidos, Salustreiras, Lapa da Pena e Arrifes), chegando a ser visitadas por centenas de pessoas por ano - como é o caso das Salustreias -e advindo daí graves prejuízos para os quirópteros (ordem de mamíferos a que pertencem os morcegos), é urgente que se tomem medidas de protecção colocando gradeamentos que não prejudiquem a entrada e saída de morcegos. Essas grutas seriam temporariamente fechadas, evitando-se a perturbação dos morcegos nos períodos críticos (como sugere J. Palmeirim), sendo colocada uma placa metálica à entrada de cada uma com indicações acerca da cavidade, das causas do seu fecho e, se possível, as datas de encerramento e abertura.

Um alerta sobre o Cerro da Cabeça
Ainda outras cavidades se encontram gravemente ameaçadas, assim como a zona em que se situam; o caso de características mais graves é o que se verifica no Cerro da Cabeça (249 m).

Cerro da Cabeça © P. Cuiça (2007)

Nesse cerro encontra-se um megalapiás onde dominam os grandes dorsos de superfícies lisas e arredondadas, relevos cónicos e pedunculados, torres, blocos isolados, arcos, etc., distribuindo-se densamente em toda a elevação. As torres e blocos estão separados por fendas estreitas entulhadas de calhaus que, por vezes, formam pias de fundo rochoso e cheio de blocos ou, então, por corredores (bogaz). Frequentemente, as pias escavadas no lapiás prolongam-se em profundidade por algares, geralmente de boca estreita e obstruídos por blocos (Algar do Próximo), mas por vezes de dimensões suficientemente grandes formando profundas cavidades (Algar Medusa). Consta que o Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve terá efectuado a inventariação de mais de cem cavidades nesse cerro, o que só por si evidencia a importância do mesmo. O elevado estado de degradação em que se encontram as grutas do Cerro da Cabeça, assim como a destruição das instalações de apoio aos espeleólogos (casa de abrigo e miradouro), juntamente com a acção d pedreira situada a SE dessa elevação e as consequências da possível abertura da Gruta da Senhora ao turismo, perspectivam a perda de uma das mais belas zonas cársicas do Algarve.
Um dos processos de impedir a “desertificação” do Cerro da Cabeça seria a criação de uma reserva de interesse espeleológico, mediante a devida protecção governamental, juntamente com um conjunto de medidas de dinamização das potencialidades da área, em que os núcleos/grupos de espeleologia em colaboração com entidades como a Universidade do Algarve, poderiam levar a efeito uma série de iniciativas: estudo e inventariação das grutas; limpeza das cavidades, mediante o retirar de lixo aí existente; criação de um pequeno laboratório subterrâneo, etc. Até lá, a Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho, actual proprietária do Cerro, terá de defender essa elevação dos atentados a que tem sido sujeita, se não…
A situação actual no que diz respeito ao Algarve subterrâneo, repleto geralmente de grutas de fácil acesso, leva-nos a afirmar que um conjunto de cavidades estão em risco de se tornarem galerias “estéreis”; entre elas listamos as que se encontram mais ameaçadas: Lapa da Pena (Caverna do Poço dos Mouros, Alga dos Mouros ou Buraco dos Mouros); Gruta de Ibne Ammar (Gruta de Estombar); Igrejinha dos Soidos (Igrejinha dos Mouros); Salustreira Grande (Solestreira Grande); Salustreira Pequena (Solestreira Pequena); e Grutas do Cerro da Cabeça.

Contaminação das águas subterrâneas
Além da destruição das grutas e dos ecossistemas associados, outra vertente de degradação do carso algarvio, que assume considerável gravidade, é a da água associada aos aquíferos cársicos.
Os factores geológicos, geomorfológicos e climáticos do Algarve, ao condicionarem as características hidrológicas da região, impuseram à população a utilização das águas subterrâneas; a comprová-lo temos cerca de 15 mil poços pouco profundos e 8 mil captações por furo vertical (na sua maioria realizadas a partir de 1974).
O grande desenvolvimento urbano e agrícola, liderado pelo turismo, trouxe consigo um aumento significativo dos resíduos sólidos, águas residuais, fertilizantes, pesticidas, que terão de ser eliminados ou tratados de modo a não pôr em causa a saúde pública e o meio ambiente. No Algarve os resíduos sólidos são, de modo geral, eliminados de duas formas: por meio de lixeiras, normalmente ao abandono; ou por aterros sanitários controlados pelas autarquias locais. A lixeiras subaéreas são extremamente gravosas para a boa qualidade das águas subterrâneas, devido aos resíduos que se encontram expostos à acção das chuvas, aumentando assim a quantidade de compostos lixiviados que o solo dificilmente consegue depurar. Os aterros sanitários, sujeitos a controlo, onde se verifica a alternância de resíduos com camadas de terra, com compactação para reduzir o volume e a velocidade de decomposição, diminuem o perigo de poluição das águas. No entanto, a ameaça de existência de organismos patogénicos nas águas subterrâneas da região é real, devido ao baixo poder de filtração das formações carbonatadas; entre esses organismos (…).
A contaminação biológica, tida tradicionalmente como a mais antiga causa de problemas sanitários foi a razão de grandes pestes na região calcária dos Causses em França (Departamentos de Charente, Dordonha, Lot e Corrèze); durante a Idade Média as populações, ao jogarem os animais doentes para o fundo dos algares, estavam poluindo a água que bebiam. O costume de deitar animais doentes para as grutas ainda se verifica no nosso país.

A agressão agro-química
A contaminação biológica está actualmente em segundo plano devido a outros tipos de contaminação das águas, tipos esses mais prolíferos e de maior dificuldade de eliminação: referimo-nos aos compostos químicos. A utilização de fertilizantes químicos em excesso, em vez do estrume tradicional de origem animal, aliado aos processos de rega, têm conduzido, no Algarve, à diminuição do rendimento das colheitas, facto que os agricultores procuram “compensar” com o aumento das quantidades de adubos e fertilizantes industriais. Este ciclo vicioso contribui grandemente para a mineralização crescente das águas subterrâneas, processo agravado pela acção da seca que se tem vindo a sentir no Algarve desde 1980.
Estes problemas poderão ter reflexos evidentes no abastecimento da região, já que 90 por cento da água consumida no Algarve provém dos recursos subterrâneos. Importa, pois, mais uma vez, chamar a atenção das entidades para o problema. Urge agir depressa.


Bibliografia
● Costa Almeida: Hidrogeologia do Algarve Central; publicado pelo Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
● Deodália Dias, M. João Ramos: Inventário da Fauna de Quirópteros do Algarve; proposta para a sua protecção do Laboratório Zoológico e Antropológico da FCUL.
● Estácio da Veiga: Antiguidades Monumentais do Algarve; Vol. 1, 1886.
● F. Esteves da Costa, J. Amaral Brites, M. Yolanda Pedrosa, A. Vieira da Silva: Carta Hidrogeológica da Orla Algarvia (Notícia Explicativa); Lisboa, 1985.
● G. Manupella, M. Ramalho, M. Telles Antunes, J. Pais: Notícia Explicativa da Folha 53-A - Faro, dos Serviços Geológicos de Portugal; Lisboa, 1987.
● Jorge M. Palmeirim: Estudos base para a preparação de um plano de protecção dos morcegos cavernicolas em Portugal, do Departamento de Zoologia e Antropologia da FCUL.
● Jorge M. Palmeirim: Status of bats in Portugal, do Departamento de Zoologia e Antropologia da FCUL.
● Jorge M. Palmeirim: Bat conservation and management, publicado pela Liga para a Protecção da Natureza, Boletim nº 16, 1977-1982.
● M. Farinha dos Santos: Pré-História de Portugal, 1985.
● Michel Bouillon: Descoberta do mundo subterrâneo; in Livros do Brasil, Colecção Vida e Cultura nº 52.
● Orlando Ribeiro, Hermann Lautensach, comentários e actualização de Suzanne Daveau: Geografia de Portugal, Vol. 1. A posição geográfica e o território, 1987.
● Orlando Ribeiro: Mediterrâneo, Ambiente e Transição, 2ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian.
● O. da Veiga Ferreira e Manuel Leitão: Portugal Pré-Histórico, edição Europa América, in Biblioteca Universitária nº 21.
Sociedade Portuguesa de Espeleologia: Algarocho, nº 6/7, 1977-1978.



[Será importante salientar que o título e entretítulos da peça em causa são da inteira responsabilidade dos editores da revista, opções com as quais não nos revemos. No entanto, entendemos que deve ser respeitada a reprodução integral do texto tal como foi publicado. Será também de referir que a forma pouco usual de apresentar a bibliografia também foi uma opção editorial. Salientamos igualmente que o texto original sofreu alguns cortes, por motivos de espaço, e que, passados 20 anos sobre o mesmo, mudamos de perspectiva sobre alguns dos pontos de vista defendidos. Por último, não nos foi possível reproduzir a totalidade das imagens que ilustraram esta peça jornalística.]

21/02/2008

Um olho cego...

(…) uma passagem pelo sítio da Quercus na Rede e uma leitura do seu balanço do melhor e do pior de 2006 mostra como há um olho firmemente fechado, quando não cego de todo: aquele que não vê a rápida desaparição da nossa paisagem natural com a colocação de aerogeradores, as “ventoinhas”, por tudo quanto é monte e linha do horizonte ainda bravio.
Percebe-se bem porquê: trata-se de um grande negócio, um dos grandes negócios dos dias de hoje, fortemente subsidiado, movendo interesses cada vez mais alargados - empresas multinacionais, autarquias, grupos empresariais, e… ecologistas - e que alastra com a mesma velocidade rapace de outros que o procederam. A velocidade das eólicas é semelhante na sua imposição de situações “económicas” de facto à construção civil, ao urbanismo selvagem, às suiniculturas no tempo em que davam dinheiro fácil. Existem, como é óbvio, recomendações europeias, muito tímidas aliás, sobre os efeitos de degradação do ambiente, poluição sonora, destruição da linha da paisagem, etc., mas nem essas débeis resoluções recebem qualquer atenção dos nossos ecologistas que vendo tudo em todo o lado, sapos e cogumelos, isótopos e transgénicos, não vêem o caos que está a ser a colocação de aerogeradores em tudo quanto é cumeada livre e com vento. (…)

José Pacheco Pereira (Um olho cego e outro que vê; Sábado nº 141, 11-17/01/07)

[Antes da proliferação de “ventoinhas”, uma cumeada livre era a da Serra dos Candeeiros em pleno Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC). Mas num parque pejado de pedreiras, entre outros atractivos, já pouco nos admira. E o fenómeno não ficará por aqui...
Qualquer dia ainda teremos oportunidade de assistir à colocação de aerogeradores nas cumeadas da Arrábida: também é um Parque Natural e tem pedreiras, só falta mesmo colocar umas “ventoinhas”.
Como a realidade para muita gente surge a preto e branco, é simplesmente boa ou é má, esquecendo as diversas cambiantes dos tons intermédios e, sobretudo, que existem outras cores, grande parte dos ecologistas estarão “bloqueados” pelo chavão da energia renovável: “ventoinhas sim, obrigado”. Ecologistas e não só, também existem praticantes de actividades de ar livre (entre os quais espeleólogos) que estão encantados. Resta esperar que acabe o encantamento para ver as consequências de tamanha falta de vista.]

Leão das Cavernas...

[Revista Futuro ● Ano II, nº 16, Mai. 88, pp. 36-37]

Leão das Cavernas descoberto em grutas portuguesas

No decurso do estudo das faunas quaternárias de Portugal, levado a efeito pelo Centro de Estratigrafia da Universidade Nova de Lisboa com o apoio dos Serviços Geológicos de Portugal, M. Telles Antunes demonstrou, pela primeira vez, a presença de Panthera (Leo) spelaea (Goldfuss, 1810) no território português.
Os restos de grande felino provenientes da Pedreira das Salemas, em Ponte de Lousa, que foram recolhidos por Octávio da Veiga Ferreira e Georges Zbyszewski, quando analisados por M. T. Antunes foram reconhecidos como sendo de Leão das Cavernas (Panthera (Leo) spelaea), determinação que foi confirmada quando esses restos foram comparados com material idêntico do Musée National d’Histoire Naturelle, de Paris.
Posteriormente, M. T. Antunes identificou, em colecções do Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, um canino completo atribuível à mesma espécie, proveniente de uma gruta dos arredores de Penacova.
O material que permitiu a identificação do Leão das Cavernas no nosso território consta de quatro caninos superiores provenientes da Pedreira das Salemas e da gruta perto de Penacova. Os restos da Pedreira das Salemas pertencem certamente três indivíduos: um subadulto, um adulto provavelmente fêmea e um macho (?) adulto possivelmente senil, todos eles provenientes de depósitos do mustierense. O exemplar único, encontrado em 1921 numa gruta perto de Penacova, em condições mal conhecidas, poderá ser datado do Paleolítico médio ou superior. Em ambos os casos, os indivíduos são de grande porte, atingindo dimensões próximas das máximas observadas para a espécie e ultrapassando as dimensões da maioria dos exemplares conhecidos.
A Panthera (Leo) spelaea, que caracteriza o Plistocénico recente da Europa, segundo os pontos de vista recentes, é considerada uma espécie afim do leão. Esse grande felino troglófilo frequentava os locais secos das grutas, deitando-se de preferência em locais elevados, o que lhe permitiria descansar e ao mesmo tempo saltar sobre qualquer visitante imprudente. As marcas do Leão das Cavernas, no interior das grutas, são muito mais raras do que as dos ursos, e também mais difíceis de distinguir, não se encontrando traços de unhadas nem esqueletos inteiros. Restam apenas partes dos esqueletos nos depósitos de ossos, misturados com outros animais, sendo geralmente no fundo de depósitos que se descobrem os dentes e crânios destes felinos.
A existência do Leão das Cavernas em, pelo menos, duas jazidas portuguesas vem ampliar a distribuição geográfica da espécie e confirmar a sua relativa frequência na Península Ibérica; já que, até 1950, eram conhecidos restos desse animal em sete localidades da vizinha Espanha.

University of California Museum of Vertebrate Zoology