22/02/2008

O Algarve Subterrâneo

[Revista Futuro ● Ano II, nº 18, Julh. 88, pp. 51-54]

O Algarve Subterrâneo em Perigo


O Algarve atravessou um rápido processo de desenvolvimento urbano e agrícola, guiado e implementado pela indústria turística que aí surgiu nas últimas décadas. Mas este processo teve como consequência uma degradação acelerada do carso algarvio e uma contaminação ambiental, nomeadamente das águas subterrâneas, o que faz prever sérias ameaças à saúde pública, se entretanto os sintomas de contaminação continuarem a agudizar-se.
Sendo o Barrocal algarvio (uma das zonas do Baixo Algarve) a segunda maior extensão de terrenos calcários do país, encontrando-se aí inúmeras grutas sujeitas à destruição contínua por parte de vândalos, incautos ou pseudo-espeleólogos, é de fundamental importância alertar a opinião pública e as instituições da área ambiental para o interesse capital dessas cavidades, com vista à sua protecção.
O primeiro homem a chamar a atenção para importância do estudo das grutas algarvias, apesar de se circunscrever apenas à arqueologia, foi Estácio da Veiga. Tendo sido encarregue em 1877, pelo governo de então, do estudo geral das antiguidades do Algarve, propôs que fossem, antes de mais, estudadas as cavernas. O governo, temendo a demora e os custos que iriam comportar os trabalhos, idênticos aos que tinham sido efectuados por Schemerling e Dupont nas grutas da Bélgica, rejeitou a proposta. Uma enorme lacuna no conhecimento do Algarve subterrâneo ficou por desvendar.
Desde a proposta de Estácio da Veiga até aos nossos dias, o estudo das grutas algarvias tem sido feito de uma maneira inconstante e de certo modo improdutiva, à excepção de certos trabalhos pontuais realizados pela Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE) e por alguns cientistas de diversos ramos do saber - essencialmente geólogos, biólogos e arqueólogos.
O surgimento da espeleologia em Portugal (podemos considerar o seu início em 1948) pouco contribuiu para o conhecimento e estudo das cavidades algarvias por parte dos grupos que se criaram nessa região, devido essencialmente à ausência de um plano regional de trabalho e à falta de cooperação dos grupos, fracos em recursos económicos. A falta de uma licenciatura ou bacharelato em espeleologia, aliada a uma inexistência de legislação que proteja as grutas do nosso país, implica que o baixo nível científico da generalidade dos espeleólogos provoque uma degradação das grutas. Uma mesma gruta é várias vezes visitada e “estudada” por diversos grupos de espeleologia que efectuam, normalmente, a inventariação da cavidade, o que difere em geral de grupo para grupo. Não raras vezes, devido à inconstância existencial desses grupos, esses inventários perdem-se ou estão inacessíveis à consulta, porque encerrados no olvido das gavetas das suas sedes.

Proteger a fauna cavernícola
A inventariação consiste normalmente no nome, localização e topografia da cavidade, dimensões e descrição sumária de uma série de observações de ordem geológica, hidrológica, climatológica, biológica, arqueológica ou outra. Ora a inventariação de cavidades, trabalho de grande utilidade para o conhecimento do potencial subterrâneo da região, só desempenhará a sua função se, por um lado, for realizado em cooperação entre grupos que sigam um mesmo método de trabalho, tentando distribuir os seus efectivos pelas diversas zonas da região algarvia de forma a abarcarem a totalidade do carso e, se por outro, os trabalhos forem publicados, divulgados ou passíveis de consulta.
Numa inventariação não se deverão efectuar recolhas de seres vivos, sob o pretexto de realização de um estudo bioespeleológico, pois a fauna cavernícola é pouco abundante, tendo um menor número de crias do que as formas epígeas análogas.
O equilíbrio ecológico subterrâneo é extremamente vulnerável a qualquer perturbação exterior, sendo a captura de animais cavernícolas reservada a estudos sérios efectuados por zoólogos idóneos, caso contrário destruir-se-á, em poucos anos, esses seres ainda pouco conhecidos.
Dos animais que mais têm sofrido com as incursões dos visitantes são os morcegos, espécies que têm diminuído de número, entre outros factores, por serem perturbados nas épocas de criação e de hibernação. Do mesmo modo, não são admissíveis os “estudos arqueológicos”, com mudança de posição ou recolha de objectos, sondagens ou revolução do solo da cavidade, o que provoca a alteração da disposição espacial e da estratigrafia dos materiais, levando à perda do contexto histórico do espólio aí encontrado. Durante os trabalhos de prospecção, ao ser “descoberta” uma nova gruta, deve-se ter a prudência suficiente na sua exploração, evitando pisar eventuais vestígios existentes no solo da cavidade. Quantas informações foram destruídas por botas de espeleólogos ávidos por chegarem ao limiar das galerias acabadas de descobrir?

Proteger os morcegos
Não esqueçamos também que as cavernas algarvias poderão oferecer agradáveis surpresas no tocante a pinturas e gravuras rupestres, quando forem examinadas minuciosamente as paredes das suas galerias [e salas], em especial as mais interiores ou de difícil acesso (segundo M. Farinha dos Santos). A presença em algumas grutas do Algarve de material neo-eneolítico ou calcolítico (Gruta dos Matos, Gruta da Nora, o Abismo e as Ladroeiras), de material de ocupação árabe (Ibne Ammar) e a relativa abundância da estações neolíticas, requer que se façam os estudos arqueológicos necessários ao bom conhecimento da ocupação das cavernas da província em tempos remotos; no entanto, esses estudos terão de ser efectuados por pessoas devidamente formadas.
Não se devem levar como “recordação”, para colecção, estalactites e estalagmites caídas no solo, ou sequer alterar a disposição de blocos do interior da cavidade, a menos que tal seja necessário para continuar a progressão, pois essas acções modificam o contexto histórico da evolução da caverna.
Depois de feita a inventariação, a gruta deve ser visitada apenas quando for necessário realizar qualquer trabalho de índole espeleológica, caso contrário não se deverão efectuar incursões. Não esqueçamos que um trabalho de inventariação de uma cavidade pode levar meses ou mesmo anos.
Se alguns espeleólogos degradam as grutas sem intenção de o fazerem, a acção dos “curiosos” é muito mais grave e por vezes propositada; a obstrução de cavidades com o auxílio de blocos, o arrancar de concreções (estalactites, estalagmites, colunas, excêntricas, etc.), a caça e perturbação de morcegos, os graffiti nas paredes, o lixo deitado às grutas, são alguns dos factores que mais destroem as formas endocársicas algarvias e o ecossistema associado.
A afluência, ao longo dos anos, de grande número de pessoas a certas grutas algarvias - a que não estará alheio o facto de virem assinaladas em alguns mapas e guias turísticos - tem vindo a degradá-las e a destruí-las de maneira rápida e irreversível. Sendo algumas delas local de hibernação e/ou criação de morcegos (Gruta de Ibne Ammar, Igrejinha dos Soidos, Salustreiras, Lapa da Pena e Arrifes), chegando a ser visitadas por centenas de pessoas por ano - como é o caso das Salustreias -e advindo daí graves prejuízos para os quirópteros (ordem de mamíferos a que pertencem os morcegos), é urgente que se tomem medidas de protecção colocando gradeamentos que não prejudiquem a entrada e saída de morcegos. Essas grutas seriam temporariamente fechadas, evitando-se a perturbação dos morcegos nos períodos críticos (como sugere J. Palmeirim), sendo colocada uma placa metálica à entrada de cada uma com indicações acerca da cavidade, das causas do seu fecho e, se possível, as datas de encerramento e abertura.

Um alerta sobre o Cerro da Cabeça
Ainda outras cavidades se encontram gravemente ameaçadas, assim como a zona em que se situam; o caso de características mais graves é o que se verifica no Cerro da Cabeça (249 m).

Cerro da Cabeça © P. Cuiça (2007)

Nesse cerro encontra-se um megalapiás onde dominam os grandes dorsos de superfícies lisas e arredondadas, relevos cónicos e pedunculados, torres, blocos isolados, arcos, etc., distribuindo-se densamente em toda a elevação. As torres e blocos estão separados por fendas estreitas entulhadas de calhaus que, por vezes, formam pias de fundo rochoso e cheio de blocos ou, então, por corredores (bogaz). Frequentemente, as pias escavadas no lapiás prolongam-se em profundidade por algares, geralmente de boca estreita e obstruídos por blocos (Algar do Próximo), mas por vezes de dimensões suficientemente grandes formando profundas cavidades (Algar Medusa). Consta que o Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve terá efectuado a inventariação de mais de cem cavidades nesse cerro, o que só por si evidencia a importância do mesmo. O elevado estado de degradação em que se encontram as grutas do Cerro da Cabeça, assim como a destruição das instalações de apoio aos espeleólogos (casa de abrigo e miradouro), juntamente com a acção d pedreira situada a SE dessa elevação e as consequências da possível abertura da Gruta da Senhora ao turismo, perspectivam a perda de uma das mais belas zonas cársicas do Algarve.
Um dos processos de impedir a “desertificação” do Cerro da Cabeça seria a criação de uma reserva de interesse espeleológico, mediante a devida protecção governamental, juntamente com um conjunto de medidas de dinamização das potencialidades da área, em que os núcleos/grupos de espeleologia em colaboração com entidades como a Universidade do Algarve, poderiam levar a efeito uma série de iniciativas: estudo e inventariação das grutas; limpeza das cavidades, mediante o retirar de lixo aí existente; criação de um pequeno laboratório subterrâneo, etc. Até lá, a Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho, actual proprietária do Cerro, terá de defender essa elevação dos atentados a que tem sido sujeita, se não…
A situação actual no que diz respeito ao Algarve subterrâneo, repleto geralmente de grutas de fácil acesso, leva-nos a afirmar que um conjunto de cavidades estão em risco de se tornarem galerias “estéreis”; entre elas listamos as que se encontram mais ameaçadas: Lapa da Pena (Caverna do Poço dos Mouros, Alga dos Mouros ou Buraco dos Mouros); Gruta de Ibne Ammar (Gruta de Estombar); Igrejinha dos Soidos (Igrejinha dos Mouros); Salustreira Grande (Solestreira Grande); Salustreira Pequena (Solestreira Pequena); e Grutas do Cerro da Cabeça.

Contaminação das águas subterrâneas
Além da destruição das grutas e dos ecossistemas associados, outra vertente de degradação do carso algarvio, que assume considerável gravidade, é a da água associada aos aquíferos cársicos.
Os factores geológicos, geomorfológicos e climáticos do Algarve, ao condicionarem as características hidrológicas da região, impuseram à população a utilização das águas subterrâneas; a comprová-lo temos cerca de 15 mil poços pouco profundos e 8 mil captações por furo vertical (na sua maioria realizadas a partir de 1974).
O grande desenvolvimento urbano e agrícola, liderado pelo turismo, trouxe consigo um aumento significativo dos resíduos sólidos, águas residuais, fertilizantes, pesticidas, que terão de ser eliminados ou tratados de modo a não pôr em causa a saúde pública e o meio ambiente. No Algarve os resíduos sólidos são, de modo geral, eliminados de duas formas: por meio de lixeiras, normalmente ao abandono; ou por aterros sanitários controlados pelas autarquias locais. A lixeiras subaéreas são extremamente gravosas para a boa qualidade das águas subterrâneas, devido aos resíduos que se encontram expostos à acção das chuvas, aumentando assim a quantidade de compostos lixiviados que o solo dificilmente consegue depurar. Os aterros sanitários, sujeitos a controlo, onde se verifica a alternância de resíduos com camadas de terra, com compactação para reduzir o volume e a velocidade de decomposição, diminuem o perigo de poluição das águas. No entanto, a ameaça de existência de organismos patogénicos nas águas subterrâneas da região é real, devido ao baixo poder de filtração das formações carbonatadas; entre esses organismos (…).
A contaminação biológica, tida tradicionalmente como a mais antiga causa de problemas sanitários foi a razão de grandes pestes na região calcária dos Causses em França (Departamentos de Charente, Dordonha, Lot e Corrèze); durante a Idade Média as populações, ao jogarem os animais doentes para o fundo dos algares, estavam poluindo a água que bebiam. O costume de deitar animais doentes para as grutas ainda se verifica no nosso país.

A agressão agro-química
A contaminação biológica está actualmente em segundo plano devido a outros tipos de contaminação das águas, tipos esses mais prolíferos e de maior dificuldade de eliminação: referimo-nos aos compostos químicos. A utilização de fertilizantes químicos em excesso, em vez do estrume tradicional de origem animal, aliado aos processos de rega, têm conduzido, no Algarve, à diminuição do rendimento das colheitas, facto que os agricultores procuram “compensar” com o aumento das quantidades de adubos e fertilizantes industriais. Este ciclo vicioso contribui grandemente para a mineralização crescente das águas subterrâneas, processo agravado pela acção da seca que se tem vindo a sentir no Algarve desde 1980.
Estes problemas poderão ter reflexos evidentes no abastecimento da região, já que 90 por cento da água consumida no Algarve provém dos recursos subterrâneos. Importa, pois, mais uma vez, chamar a atenção das entidades para o problema. Urge agir depressa.


Bibliografia
● Costa Almeida: Hidrogeologia do Algarve Central; publicado pelo Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
● Deodália Dias, M. João Ramos: Inventário da Fauna de Quirópteros do Algarve; proposta para a sua protecção do Laboratório Zoológico e Antropológico da FCUL.
● Estácio da Veiga: Antiguidades Monumentais do Algarve; Vol. 1, 1886.
● F. Esteves da Costa, J. Amaral Brites, M. Yolanda Pedrosa, A. Vieira da Silva: Carta Hidrogeológica da Orla Algarvia (Notícia Explicativa); Lisboa, 1985.
● G. Manupella, M. Ramalho, M. Telles Antunes, J. Pais: Notícia Explicativa da Folha 53-A - Faro, dos Serviços Geológicos de Portugal; Lisboa, 1987.
● Jorge M. Palmeirim: Estudos base para a preparação de um plano de protecção dos morcegos cavernicolas em Portugal, do Departamento de Zoologia e Antropologia da FCUL.
● Jorge M. Palmeirim: Status of bats in Portugal, do Departamento de Zoologia e Antropologia da FCUL.
● Jorge M. Palmeirim: Bat conservation and management, publicado pela Liga para a Protecção da Natureza, Boletim nº 16, 1977-1982.
● M. Farinha dos Santos: Pré-História de Portugal, 1985.
● Michel Bouillon: Descoberta do mundo subterrâneo; in Livros do Brasil, Colecção Vida e Cultura nº 52.
● Orlando Ribeiro, Hermann Lautensach, comentários e actualização de Suzanne Daveau: Geografia de Portugal, Vol. 1. A posição geográfica e o território, 1987.
● Orlando Ribeiro: Mediterrâneo, Ambiente e Transição, 2ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian.
● O. da Veiga Ferreira e Manuel Leitão: Portugal Pré-Histórico, edição Europa América, in Biblioteca Universitária nº 21.
Sociedade Portuguesa de Espeleologia: Algarocho, nº 6/7, 1977-1978.



[Será importante salientar que o título e entretítulos da peça em causa são da inteira responsabilidade dos editores da revista, opções com as quais não nos revemos. No entanto, entendemos que deve ser respeitada a reprodução integral do texto tal como foi publicado. Será também de referir que a forma pouco usual de apresentar a bibliografia também foi uma opção editorial. Salientamos igualmente que o texto original sofreu alguns cortes, por motivos de espaço, e que, passados 20 anos sobre o mesmo, mudamos de perspectiva sobre alguns dos pontos de vista defendidos. Por último, não nos foi possível reproduzir a totalidade das imagens que ilustraram esta peça jornalística.]

21/02/2008

Um olho cego...

(…) uma passagem pelo sítio da Quercus na Rede e uma leitura do seu balanço do melhor e do pior de 2006 mostra como há um olho firmemente fechado, quando não cego de todo: aquele que não vê a rápida desaparição da nossa paisagem natural com a colocação de aerogeradores, as “ventoinhas”, por tudo quanto é monte e linha do horizonte ainda bravio.
Percebe-se bem porquê: trata-se de um grande negócio, um dos grandes negócios dos dias de hoje, fortemente subsidiado, movendo interesses cada vez mais alargados - empresas multinacionais, autarquias, grupos empresariais, e… ecologistas - e que alastra com a mesma velocidade rapace de outros que o procederam. A velocidade das eólicas é semelhante na sua imposição de situações “económicas” de facto à construção civil, ao urbanismo selvagem, às suiniculturas no tempo em que davam dinheiro fácil. Existem, como é óbvio, recomendações europeias, muito tímidas aliás, sobre os efeitos de degradação do ambiente, poluição sonora, destruição da linha da paisagem, etc., mas nem essas débeis resoluções recebem qualquer atenção dos nossos ecologistas que vendo tudo em todo o lado, sapos e cogumelos, isótopos e transgénicos, não vêem o caos que está a ser a colocação de aerogeradores em tudo quanto é cumeada livre e com vento. (…)

José Pacheco Pereira (Um olho cego e outro que vê; Sábado nº 141, 11-17/01/07)

[Antes da proliferação de “ventoinhas”, uma cumeada livre era a da Serra dos Candeeiros em pleno Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC). Mas num parque pejado de pedreiras, entre outros atractivos, já pouco nos admira. E o fenómeno não ficará por aqui...
Qualquer dia ainda teremos oportunidade de assistir à colocação de aerogeradores nas cumeadas da Arrábida: também é um Parque Natural e tem pedreiras, só falta mesmo colocar umas “ventoinhas”.
Como a realidade para muita gente surge a preto e branco, é simplesmente boa ou é má, esquecendo as diversas cambiantes dos tons intermédios e, sobretudo, que existem outras cores, grande parte dos ecologistas estarão “bloqueados” pelo chavão da energia renovável: “ventoinhas sim, obrigado”. Ecologistas e não só, também existem praticantes de actividades de ar livre (entre os quais espeleólogos) que estão encantados. Resta esperar que acabe o encantamento para ver as consequências de tamanha falta de vista.]

Leão das Cavernas...

[Revista Futuro ● Ano II, nº 16, Mai. 88, pp. 36-37]

Leão das Cavernas descoberto em grutas portuguesas

No decurso do estudo das faunas quaternárias de Portugal, levado a efeito pelo Centro de Estratigrafia da Universidade Nova de Lisboa com o apoio dos Serviços Geológicos de Portugal, M. Telles Antunes demonstrou, pela primeira vez, a presença de Panthera (Leo) spelaea (Goldfuss, 1810) no território português.
Os restos de grande felino provenientes da Pedreira das Salemas, em Ponte de Lousa, que foram recolhidos por Octávio da Veiga Ferreira e Georges Zbyszewski, quando analisados por M. T. Antunes foram reconhecidos como sendo de Leão das Cavernas (Panthera (Leo) spelaea), determinação que foi confirmada quando esses restos foram comparados com material idêntico do Musée National d’Histoire Naturelle, de Paris.
Posteriormente, M. T. Antunes identificou, em colecções do Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, um canino completo atribuível à mesma espécie, proveniente de uma gruta dos arredores de Penacova.
O material que permitiu a identificação do Leão das Cavernas no nosso território consta de quatro caninos superiores provenientes da Pedreira das Salemas e da gruta perto de Penacova. Os restos da Pedreira das Salemas pertencem certamente três indivíduos: um subadulto, um adulto provavelmente fêmea e um macho (?) adulto possivelmente senil, todos eles provenientes de depósitos do mustierense. O exemplar único, encontrado em 1921 numa gruta perto de Penacova, em condições mal conhecidas, poderá ser datado do Paleolítico médio ou superior. Em ambos os casos, os indivíduos são de grande porte, atingindo dimensões próximas das máximas observadas para a espécie e ultrapassando as dimensões da maioria dos exemplares conhecidos.
A Panthera (Leo) spelaea, que caracteriza o Plistocénico recente da Europa, segundo os pontos de vista recentes, é considerada uma espécie afim do leão. Esse grande felino troglófilo frequentava os locais secos das grutas, deitando-se de preferência em locais elevados, o que lhe permitiria descansar e ao mesmo tempo saltar sobre qualquer visitante imprudente. As marcas do Leão das Cavernas, no interior das grutas, são muito mais raras do que as dos ursos, e também mais difíceis de distinguir, não se encontrando traços de unhadas nem esqueletos inteiros. Restam apenas partes dos esqueletos nos depósitos de ossos, misturados com outros animais, sendo geralmente no fundo de depósitos que se descobrem os dentes e crânios destes felinos.
A existência do Leão das Cavernas em, pelo menos, duas jazidas portuguesas vem ampliar a distribuição geográfica da espécie e confirmar a sua relativa frequência na Península Ibérica; já que, até 1950, eram conhecidos restos desse animal em sete localidades da vizinha Espanha.

University of California Museum of Vertebrate Zoology

Prospecção Geoeléctrica...

[Revista Futuro ● Ano II, nº 14, Fev./Mar. 88, pp. 40-42]

Prospecção Geoeléctrica nos Carsos de Portugal

Actualmente estão em curso investigações na região de Minde (Mira d’Aire), numa zona onde é conhecida a geometria das cavernas, com vista a um importante contributo para o esclarecimento do comportamento físico dos meios cársicos desenvolvidos sujeitos à prospecção geoeléctrica e permitirão a determinação da importância que têm as irregularidades das paredes das grutas (estalactites, estalagmites, colunas, etc.) na variação do contraste da registividade.
Espera-se que o método da prospecção geoeléctrica na detecção de zonas carsificadas se desenvolva de maneira a permitir um maior conhecimento das potencialidades espeleológicas do Maciço Calcário Estremenho e do “Carso Algarvio” com vista a um melhor aproveitamento e protecção dos recursos naturais aí existentes.
O interesse pela prospecção geoeléctrica nos carsos de Portugal desenvolveu-se recentemente. Em Março de 1987 realizou-se na cidade de Tomar o simpósio “Sistemas Cársicos do Litoral Atlântico”. Organizado pela secção de Geologia Económica e Aplicada do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o encontro contou com a colaboração dos professores espanhóis, Rafael Fernandez-Rubio, da Escuela de Minas de Madrid, e Antonio Pulido Boch, da Faculdade de Ciências de Granada.
Durante o simpósio - que pretendia chamar a atenção para os problemas carsológicos em regiões próximas do litoral em condições climáticas atlânticas e, ainda, divulgar a beleza e o interesse científico do Maciço Calcário Estremenho - foi apresentada, entre outras, a comunicação “Prospecção Geoeléctrica em meios Cársicos” proferida por António Roque de Andrade Afonso, do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Essa comunicação foi de um interesse impar por abordar a utilização da prospecção geoeléctrica na detecção de zonas carsificadas. Essa técnica analógica utilizada no estrangeiro, desde há vários anos, no estudo de aquíferos livres, já tinha sido praticada em Portugal na zona de Tavira (Algarve) por um grupo do Institute of Earth Sciences (IES) da Amsterdam Free University (Holanda), com o mesmo fim. No entanto, a sua aplicação na detecção de zonas carsificadas é algo de recente, e a sua utilização e adaptação a esse meio de características particulares está a ser desenvolvida actualmente no nosso país, tendo sido apresentada a descrição de alguns resultados dos estudos efectuados, na comunicação de Andrade Afonso.
Os estudos realizados em Portugal foram levados a efeito na zona de Paderne (Algarve), entre Cabanita e Purgatório, e na zona da Gramatinha (Ancião). Essas zonas foram escolhidas por possuírem dois tipos de carso com morfologia substancialmente diferentes: a zona de Paderne, de cavernas pouco desenvolvidas, onde predominam as formações dolomíticas, e a zona da Gramatinha., onde até à profundidade de 300 metros as formações são calcárias com cavidades bem desenvolvidas. Essas diferenças possibilitariam a análise da validade do método para o fim pretendido.
Sondagens mecânicas efectuadas posteriormente à realização da prospecção geoeléctrica vieram confirmar, sobretudo, do ponto de vista qualitativo, as interpretações feitas. Todavia, o comportamento físico dos meios cársicos desenvolvidos não é suficientemente conhecido, pelo que a sua modelação se torna difícil do ponto de vista quantitativo, segundo Andrade Afonso. O grupo holandês do IES, que estudou a dinâmica de alguns aquíferos em carsos da zona de Tavira, chegou a idênticos resultados: “Especially to locate abrupt lithological changes in the subsoil this method gives good results. A quantitative interpretation is however difficult.” (W. Geirnaebert, P.H. Van Beers, J.J. de Vries e H. Hoogeven).
É de salientar que a contribuição da prospecção geoeléctrica para o estudo dos meios cársicos pode ser de grande importância; no entanto, as metodologias utilizadas, quer na aquisição de dados, quer no seu tratamento automático, devem estar de acordo com o modelo físico que se adapte à morfologia da região em estudo. Os dados espeleológicos do carso em estudo, nomedamente a inventariação, desenvolvimento e topografia das cavidades aí existentes, aliados ao conhecimento geológico do terreno, serão de grande importância na fase de experimentação e desenvolvimento do método em Portugal; daí ser, sem dúvida, importante a aplicação da prospecção geoeléctrica na zona do Planalto de Stº. António, Serra de Aire e Serra dos Candeeiros, zona há longos anos estudada no aspecto espeleológico.

20/02/2008

Este Algarve Subterrâneo

[Eros & Psique - Boletim de Artes, Letras, Ciências e Ideias; Nov./Dez. 86, Ano 1, nº 1]

Eros & Psique ©

No Algarve situa-se a segunda maior extensão de calcários de Portugal. Aqui se encontram inúmeras grutas com uma riqueza incalculável e sobretudo desconhecida. Desconhecida porque actualmente podemos dizer que o Algarve subterrâneo não está devidamente estudado, podendo nunca vir a sê-lo porque a maioria das grutas estão em avançado estado de degradação.
No século passado, Estácio da Veiga foi nomeado pelo governo português para fazer um levantamento das Antiguidades Monumentaes do Algarve. Esse grande arqueólogo tentou empreender o estudo das grutas algarvias, mas foi impossibilitado de o fazer. “Cumpri, portanto as ordens do governo não explorando as cavernas (…). É uma lacuna que fica em aberto, sem que nunca possa ser-me apontada como censura.” Assim se exprimia, exactamente há cem anos, esse grande homem da ciência portuguesa, que acreditava vivamente no interesse científico que as grutas algarvias encerravam.
Passaram-se anos e as grutas da região foram votadas ao abandono, tendo sido destruídas aos poucos, durante passeios subterrâneos levados a efeito por “caçadores de estalactites”.
A Sociedade Portuguesa de Espeleologia que estudou algumas grutas algarvias, noticiava na revista Algarocho, de Outubro/Janeiro de 1977/78, o seguinte: “A Gruta de Ibne Ammar, de acesso bastante fácil, e que possui um dos maiores lagos subterrâneos conhecidos em Portugal, está em avançado estado de degradação. As estalagmites acessíveis estão totalmente destruídas. As paredes, mesmo as do lago, estão pintadas com as mais variadas inscrições e no chão, inclusive no lago, há bastante lixo desde bocados de madeira até plásticos, beatas, tubos de ferro, etc. Além disso, os morcegos (…) estão a desaparecer.
Penso que esta notícia ilustra bem até que ponto as grutas algarvias sofreram o ataque de energúmenos sem quaisquer escrúpulos, estando as autoridades responsáveis perfeitamente alheadas do problema, sem tomarem as devidas medidas de protecção das cavidades subterrâneas.
O interesse pela espeleologia foi felizmente fomentado em Portugal e como consequência surgem alguns grupos de “espeleo” no Algarve. Desses grupos, salientamos os trabalhos empreendidos pelo Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve, com sede em Moncarapacho, e que estudaram essencialmente o Cerro da Cabeça, sob a direcção do arqueólogo José Fernandes Mascarenhas e do espeleólogo João Humberto Viegas. Apesar dos estudos empreendidos pelo CEEAA o cerro, possuindo um dos mais belos lapiás do Algarve, sofreu uma grande destruição dos últimos anos a esta parte. Como é óbvio, o estudo das grutas é um grande passo para o respeito pelo mundo subterrâneo mas, sobretudo, é necessário protegermos esse mundo dos ataques de ignorantes, incautos e criminosos.
Um novo alerta surge em 1985 quando o Núcleo de Espeleologia do Circulo Cultural do Algarve expõe no Correio da Manhã e no Jornal do Algarve a sua preocupação pela destruição das grutas algarvias. Na notícia, sob o título Grutas algarvias estão ameaçadas, Luís Rocha Cruz, responsável do NECCA, afirma: “Aventureiros por conta própria as tenham explorado (grutas) deixando marcas bem visíveis da sua passagem, designadamente com a destruição de algumas estalactites e sujidade nos interiores.
Até quando é que situações destas irão ser permitidas? Quando é que as autoridades responsáveis conseguirão aperceber-se de que as grutas são um património de todos nós, que importa preservar? Dúvidas que nos ficam…

(...)

Não se deixe apanhar

Ruben Jordão © PNSAC (Outubro 2006)

Não, não é um javali! Desta vez trata-se de um pedestrianista que foi apanhado num laço de cabo de aço. Estas armadilhas para apanhar javalis, por incrível que pareça, são frequentes no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (e não só). Só nesse dia foram detectadas e retiradas duas armadilhas na Serra de Aire.

Quem é amigo?

Pedro Cuiça © Pirinéus (2005)

Amigos pedestrianistas, atenção abismo. Quem é amigo? Quem é?.

É todos os dias

Pedro Cuiça © Szemlo-hegy (2006)

Natal é quando e onde o Homem quizer! E neste dia e nesta gruta em Budapeste (Hungria) quiz; apesar de ser Setembro!

Longe da vista...

Santa Margarida (Arrábida) © Pedro Cuiça (2005)

Local sagrado desde os tempos pré-históricos, a Gruta de Santa Margarida (Arrábida) encontra-se neste estado. Longe da vista, longe do coração? Sem comentários.


Santa Margarida (Arrábida) © Pedro Cuiça (2005)

Que lindo serviço!

João Varela/CEEAA © Escarpão (2005)

Não bastava o Algar do Escarpão ter sido entulhado ainda tinham de conspurcar a área envolvente? Assim se preserva o património espeleológico neste país à beira-mar plantado. E se fosse só o património espeleológico, o problema é que o mal é geral. É este o All-garve que se pretende promover além fronteiras?

Três Montes!

Solustreiras © Pedro Cuiça (6/08/07)

As Solestreiras são duas das mais conhecidas e importantes grutas do carso algarvio. O fácil acesso, à semelhança de outras cavidades da região, faz com que sejam, há décadas, vítimas de vandalismo. E este é mais um exemplo. Sem comentários!

19/02/2008

Entulhamento do Escarpão

O Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA) alertou, em Janeiro de 2004, para a destruição do Algarão do Escarpão. Como já é costume, nada foi feito para recuperar essa emblemática cavidade. A gruta foi entulhada, inexplicavelmente, pela Câmara Municipal de Albufeira e só face ao envolvimento da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR-Alg) é que a edilidade manifestou interesse no que concerne à reposição da situação. Acontece que, agora, resta saber como é que se vai processar a recuperação da gruta entulhada com toneladas de terra. E quando?
O Algar do Escarpão, sito na freguesia de Paderne (concelho de Albufeira), é uma das cavidades mais importantes do Algarve por, entre outras características, albergar um curso de água e apresentar índices elevados de dióxido de carbono no seu interior.
O Algarve possui a segunda maior área de terrenos carbonatados do país, onde os fenómenos cársicos se encontram bem expressos, nomeadamente através de uma geomorfologia típica e da ocorrência de inúmeras grutas. Promover a região passa inevitavelmente pela preservação do património, incluindo aquele que se esconde sob os nossos pés.
Escarpão © J. Varela