23/01/2017

About Neanderthals

A cave in France changes what we thought we knew about Neanderthals...



24/04/2015

Quem sabe?

Não sei se será por ser Abril, e vésperas de dia 25, mas ocorreu-me escrever algo neste blogue! Afinal tenho inteira liberdade de o fazer, pelo menos por enquanto... Depois de mais de um ano de interregno, voltámos, portanto, a postar neste espaço underground :)
O fenómeno da (aparente) ausência de expressão, pelo menos neste ambiente virtual, remonta à altura em que este espaço, de certo modo subterrâneo, passou a ser assumidamente o único blogue a nível mundial dedicado à espeleo-sofia. Nem mais! Foi, aliás, nessa altura quando passámos a compreender, de forma inteiramente oposta àquela que pensávamos anteriormente, o chavão "há que conhecer para proteger", no que concerne à conservação/protecção da natureza e, nesse contexto, dos ambientes subterrâneos em geral e dos endocársicos em particular. 
Terá sido preciso passar mais de uma década a "pregar aos peixinhos" para perceber que a divulgação do meio subterrâneo e da necessidade da sua protecção, a par de diversos alertas concretos sobre a destruição de várias grutas, de pouco ou nada serviu? [Mais nada do que pouco, aliás!] Essa questão ou constatação, verdade seja dita, pouco ou nada importa na sequência dos eventos espeleosóficos subsequentes... Por outro lado,  e só por isso a nossa postura já se justificaria, a mudança de paradigma foiper si, a seu modo, bastante refrescante ;-)
A natureza subterrânea não precisará, portanto, de ser conhecida para ser protegida. A melhor protecção, muitas das vezes, passa pelo simples facto/acto de não incrementar a atracção por esses espaços de escuridão profunda, não ir, não fazer, deixar estar (ao que poderíamos acrescentar "ao Deus dará"). A ignorância do "mundo subterrâneo" evitará certamente visitas perfeitamente dispensáveis e mesmo indesejáveis que só irão contribuir para a profanação desses espaços sagrados.... Se andei um ano a meditar para chegar ou expressar tão brilhante conclusão? Quem sabe?! Quem sabe por onde andei ou deixei de andar? Ou o que é que isso possa interessar para o caso?! Se estive nas grutas ou as grutas em mim? Quem sabe, se por estas e por outras, só para o ano (ou antes ou depois?) é que voltarei a postar nesta "chafarica virtual" dando continuidade a este entretenimento espeleosófico? Quem sabe? 


28/11/2013

WORKSHOP

25/11/2013

Monsanto Subterrâneo

30/04/2013

O CASO


Há alguns dias fui confrontado com a questão: qual a diferença entre espeleólogos e exploradores de cavernas? Em língua inglesa essa dissemelhança expressa-se sob diferentes designações, "speleologists" e "spelunkers", mas em português tal não acontece... Seria útil avançar com uma diferenciação do género "espeleólogos" e "buraqueiros"? Óbvio é  que o assunto  não se presta a consensos fáceis e, nesse pressuposto, fácil será tal matéria gerar polémica(s) q.b. ou resultar num "caso bicudo"!…
Foi precisamente ao deambular na Internet em torno dessa temática, numa semana marcada pela corrida ao "O Buraco", que dei de caras com "O Caso dos Exploradores de Cavernas"! Trata-se de uma história fictícia que, não resolvendo o “caso” que originou a aludida busca, resultou numa interessante leitura que recomendo vivamente. De resto, deixo a pretensa polémica para quem pretenda teorizar sobre tão interessante e promissor assunto ;-)



P.S. (2/05/2013): Tendo em conta que a versão em "português" anteriormente disponibilizada não será a melhor, fica aqui um link de acesso à versão inglesa: The case of the speluncean explorers (1949). E, já agora, mais alguns "considerandos" acerca do assunto trazido à colação: The Case of the Speluncean Explorers: Twentieth-Century Statutory Interpretation in a Nutshell (1993) e The Speluncean Explorers: Further Proceedings (2010).

JCKS April 2013


22/04/2013

DIA DA TERRA

Hoje comemora-se o Dia da Terra...


18/04/2013

PATRIMÓNIO IDENTITÁRIO



Hoje comemora-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. O Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios elegeu como tema de celebração, para 2013, o Património da Educação, tendo em atenção o vastíssimo legado, relacionado com a aprendizagem e o conhecimento, que encontra a sua materialização em inúmeros elementos e conjuntos patrimoniais de diferentes tipologias e valor, espalhados um pouco por todo o país.
A Direcção-Geral do Património, à semelhança das edições anteriores, apresenta uma programação que inclui um conjunto de actividades subordinadas ao tema PATRIMÓNIO + EDUCAÇÃO = IDENTIDADE, dentro do espírito de que o futuro depende muito do reforço das identidades e de que a educação, e os seus diferentes patrimónios que plasmam o conhecimento, são contributos insubstituíveis para esse fim.
Num dia como o de hoje gostaria de salientar as ameaças à geodiversidade no que concerne às cavidades subterrâneas do concelho de Lisboa, dando uma particular ênfase aos aspectos socio-históricos, mormente no tocante ao trogloditismo e ao culto das grutas. O esquecimento e o ostracismo a que o património é frequentemente votado, como é o caso das cavidades do concelho de Lisboa, resulta muitas vezes da ausência de iniciativas educativas adequadas. Nesse âmbito, a sensibilização ambiental, a interpretação ambiental, a educação ambiental e a educação para a sustentabilidade adquirem uma especial relevância, nomeadamente no que respeita ao património geológico em geral e ao geo-espeleólógico em particular.
Este será também um dia para apelar à implementação de medidas efectivas de geoconservação, sobretudo num contexto educativo que pretenda preservar a história e as tradições locais. A criação de um centro de interpretação no Geomonumento do Rio Seco e/ou de um percurso pedestre temático que ligasse este geossítio, às Furnas de Monsanto e/ou ao Complexo Subterrâneo da Furna do Rasto serão apenas dois exemplos entre outras possíveis iniciativas.
Este será certamente um dia adequado para revelar mais uma faceta histórica de Lisboa, que envolve as “famosas” Furnas de Monsanto, recordando o trabalho do jornalista Mário Domingues que, sob o pseudónimo de Joaquim Vadio, escreveu, em 1930, acerca da pobreza que se vivia na capital. Para tal recorremos ao texto da autoria de Gonçalo Pereira publicado, no passado dia 7 de Abril no blogue Ecosfera.

Notícias Ilustrado, 23 de Março de 1930 (reproduzido a partir do arquivo da Hemeroteca Digital)

17/04/2013

GRUTA DO ESCOURAL 50 anos

16/04/2013

Uma alegoria da CAVERNA



15/04/2013

Muito obrigado, "O BURACO"...

A corrida continua e tem sido alvo dos media e de ampla cobertura através de fotografias, filmes e outras formas de documentar o grande acontecimento da Espeleo-Primavera de 2013, i.e. a primeira descida ao "O BURACO"!... Um desafio, diria mesmo um certo frenesim, propiciado certamente pelas características da época, dada a rituais de fertilidade, e que denotará alguma fixação em torno do mito, curiosamente bem enraizado, do "desvirginjar" de cavidades, montanhas ou tudo aquilo em que se possa dizer e/ou pensar: eu fui o primeiro!! Ao estilo conquistador, explorador ou outros epitetos igualmente trágico-cómicos!!!
Para além do interesse científico (reconhecido sob o "chapéu de chuva" de alguma Universidade), que é invariavelmente avançado como justificativo de explorações, por esse motivo tão imperiosas quanto urgentes, ainda para mais em cavidades acabadinhas de surgir/descobrir, subjaz invariavelmente a componente desportiva tantas vezes menorizada e que agora volta a adquirir um papel principal...
A nós, comuns mortais que simplesmente assistimos ao desenrolar de (parte dos) acontecimentos, resta-nos tão somente agradecer ao "O BURACO" pelo entusiasmo primaveril que atingiu o cerne da espeleologia portuguesa e, à falta de resultados científicos, admirar-nos com os desempenhos técnicos com que somos brindados... Portanto, haja buracos! Muitos, muitos buracos mesmo!





P.S. (16/04/2013): Depois das primeiras descidas ao "O BURACO" já existem mais algumas (poucas) novidades acerca do mesmo. As expectativas estão de certo modo a ser goradas, tendo em conta que a profundidade do dito "encolheu" para mais de metade, foi detectada água corrente com mais de dois metros de profundidade, mas até agora nada de ouro ou sequer um bicharoco cavernícola para amostra! Lá está, "tudo normal em Queluz ocidental": rocha, água e escuridão! De resto, "ainda a procissão vai no adro": quando o nível freático descer, em pleno Estio, logo saberemos o desenvolvimento subterrâneo da cavidade (tal como outros preciosos indicadores); se esta comunica com a Cova da Moura, se se estende até à Arrábida ou se estabelece ligação directa à Nova Zelândia. Por agora, pelas reacções do pessoal, deve haver algum receio (aliás, fundado) de que "O BURACO" ainda estará algo instável e, por isso, sujeito a eventuais abatimentos; ou, quem sabe, algum "meduço", ao estilo de The Thing ou de The Descent, face ao que a escuridão poderá esconder!

12/04/2013

Oi!...


A corrida ao "O BURACO"



Nunca se sabe, assim como apareceu de um dia para o outro, poderá desaparecer repentinamente?! Aliás, tendo em conta que a profundidade do buraco, no espaço de dois ou três dias, passou de uma centena para menos de 50 metros, numa prova clara de que está a encolher, essa possibilidade não será de descartar. Após diversas especulações acerca da sua génese, agora a curiosidade centra-se no que estará lá dentro: certamente rocha, água e escuridão, provavelmente novas espécies de fauna cavernícola ansiosas por serem identificadas, há quem dita que poderá haver ouro e porque não "guingos" esses míticos duendes hipógeos que abrilhantam os espaços subterrâneos com os seus alegres  cantares (neste caso concreto alentejanos). O buraco mais badalado nos últimos dias em Portugal está a atrair as atenções da população em geral e dos espeleólogos em particular. A "corrida ao buraco" já começou e a SPE vai na linha da frente...

11/04/2013

O BURACO - Última hora!


Afinal confirma-se que o buraco surgido  inopinadamente, na semana passada, no concelho de Marvão não tem, de facto, origem extra-terrestre. As notícias de última hora "dão fé" de que, na verdade, este foi aberto não por marcianos mas, sim, escavado por portugueses! A razão de tão estranho acontecimento explica-se facilmente: após o chumbo do Tribunal Constitucional um grupo de empreendedores Lusitanos resolveu escapar deste torrão à beira-mar plantado e a fuga que levaram a cabo consistiu no escavar de um túnel rumo aos antípodas... Crê-se que, neste momento, já se encontrem na Nova Zelândia e todos já tenham arranjado emprego, mas tal ainda carece de confirmação.

A génese deste misterioso buraco poder-se-ia explicar com base na acção directa das águas subterrâneas, resultantes da intensa pluviosidade que se tem feito sentir nos últimos tempos, sobre as rochas carbonatadas da formação de Escusa. A importância dada aos característicos fenómenos de dissolução associados a essas litologias não se coaduna, contudo, com a realidade dos factos melhor explicados à luz de um modelo que dê relevância à acção mecânica e hidráulica das águas de escorrência subterrâneas, cujos caudais e turbulência aumentaram significativamente, dando origem a um algar de abatimento.

As informações de última hora a que tivemos acesso confirmam, no entanto, que a "coisa" derivou não da acção directa da água sobre os vazios da rocha mas sim da actuação indirecta do designado "solvente universal" através dos vazios da (des)governação. O Governo meteu água ao elaborar o orçamento para o presente ano, o Tribunal Constitucional abriu a torneira e um grupo de portugueses "deu de fuga" antes que se molhasse. Este trata-se, portanto, de um típico derivado de buraco orçamental. 

Esta cacha jornalística não só veio repor a verdade dos factos, ao explicar este evento de forma cabal, como desmitificar a estranheza de tal fenómeno cuja explicação não necessita do recurso a intervenções extraterrestres ou a rebuscadas narrativas científicas. Não há nada como avançar com explicações a "talhe de foice" ou escalpelizar o real com base na navalha de Ockham: "se em tudo o mais forem as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor" (William Ockham).



10/04/2013

O BURACO!...


Já sabíamos que alguns geólogos se dedicavam ao estudo da geologia planetária ou da planetologia mas reconhecemos que ignorávamos o seu interesse pelo fenómeno OVNI (Objecto Voador Não Identificado)!... De qualquer modo ficámos muito mais descansados ao saber que, segundo um geólogo português, o aparecimento de um grande buraco com mais de 100 metros de profundidade na freguesia de Porto de Espada (Marvão) “não foi o resultado de uma actividade extraterrestre”. A douta opinião de um académico, mesmo que não se trate de um regente de cátedra, deixa-nos a nós (o vulgo) ancorados numa posição mais tranquila face a possíveis catástrofes de causa desconhecida, mormente quando tal pode ser inclusivamente de origem extraterrena. Sim, poder-se-ia tratar de um meteorito ou quiçá até de habitantes de outro planeta que não a Terra mas existem explicações mais plausíveis para tão supostamente estranho acontecimento. “Será meteorito? Será gente? Gente alienígena não é certamente e um meteorito não bate assim.”
Sendo certo que o Alentejo é uma área propícia à queda de meteoritos – de que se destaca o do Alandroal – e até, diz quem sabe, de fenómenos OVNI, este grande buraco agora descoberto será resultante da intensa pluviosidade que se tem feito sentir… Será chuva, quase certamente. Segundo o referido geólogo, esse estranho buraco de Marvão deveu-se a um “excesso de água no solo”. Nada que suscite surpresa num país em que meter água é causa corrente de mais ou menos gigantescos buracos, financeiros ou de outra índole, tão ou mais estranhos do que o de Marvão e, por isso, considerados, por vezes, como fenómenos do Entroncamento ou até inexplicáveis casos que exigem o recurso a argumetários extra(terrestres), sobre(naturais) ou super(-heróicos). De resto, no tocante à dimensão e, quem sabe, à morfologia do buraco, de que já foram feitas comparações com a Cova da Moura (muita cova da moura há por essas terras!), os números e primeiras impressões variam segundo as fontes e, tendo em conta que ainda ninguém penetrou no dito, estamos no mero domínio especulativo.
Vamos ter de aguardar pela primeira descida às profundezas desse buraco para termos acesso a dados mais fidedignos, diria mesmo mais terra-a-terra. Caso contrário, abrir-se-á terreno, sob os nossos pés, para especulações que poderão conduzir a conclusões ao estilo “grande ângulo”: vai na volta este buraco de Marvão tem ligação à famosa gruta do Abade (Arrábida), que aloja uma cidade subterrânea e que se situa “paredes-meias” com uma base submarina de aterragem de OVNIS! É caso para dizer “UFA” (entenda-se, o feminino de UFO – Unidentified Flying Object – ou Abject?)!


O BURACO - Amilcar Silva, ESPELEÓLOGO :)

28/02/2013

O ETERNO FEMININO


Uma equipa de arqueólogos descobriu recentemente na gruta de Hohle Fels (Alemanha) uma Vénus pré-histórica cuja bonita idade remonta no mínimo a 35 mil anos. A Vénus de Hohle Fels tratar-se-á da mais antiga estatueta humana ou até da mais antiga representação de um ser humano de que se tem conhecimento.

17/12/2012

LISBOA CONTINUA...

Os trabalhos em torno das cavidades subterrâneas de Lisboa continuam. Aqui fica um agradecimento muito especial ao Vítor Amendoeira e ao pessoal do GEM.

Foto: Mafalda Franco



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No dia 6 de Abril de 2013 participámos no Seminário "Produção e Consumo Sustentáveis: vertentes do desenvolvimento", organizado pela Universidade Aberta no Auditório do Sobreiro e da Cortiça (Coruche), no qual apresentámos a palestra "Ameaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa", tal como parte dos resultados dos trabalhos preliminares desenvolvidos com o Grupo de Espeleologia e Montanhismo (GEM) naquilo que designámos por Complexo Subterrâneo da Furna do Rasto: fotografias dos trabalhos em curso, localização das entradas descobertas até agora e plantas  topográficas de duas das cavidades aí existentes. Neste contexto, serve este pequeno post para agradecer ao pessoal que participou nos trabalhos realizados: Vítor Amendoeira, Marta Borges, Pedro Robalo, Paulo Rodrigues, Gonçalo Lobato, Ricardo Conceição, Sandra Lopes, Rui Braga, Mafalda Franco, Tiago Matias e Fortunato Videira.


Pedro Cuiça, Profª Dra. Filomena Amador e Marcos Mestre.

13/11/2012

GRUTAS DE LISBOA (IV)

Toponímia
A filologia clássica explica a origem dos topónimos pela evolução da escrita e pelas suas significações actuais. No entanto, muitos dos nomes de sítios são de origem oral e bastante antiga, foram ditos e transmitidos de viva voz muito antes de terem passado à escrita: na melhor das hipóteses foram escritos nas crónicas medievais e, para a maior parte, com a organização dos registos prediais (século XIX) e a cartografia (século XX). Portanto, entre a nomeação do sítio e a passagem do nome à escrita podem ter-se passado três ou cinco milénios (ESPÍRITO SANTO, 2004)! Daí que os nomes dos locais possam ter sofrido diversas transformações correspondentes a tão dilatado intervalo de tempo, mudando inclusivamente de semântica. No entanto, o significado dos nomes dos sítios são geralmente bastante estáveis e duradouros, tal como as sociedades que os utilizam, e de certo modo dificilmente substituíveis porque são referências indispensáveis à vida quotidiana. Atendesse, por exemplo, como o poder pombalino “baptizou” a Praça do Comércio lisboeta e esta ainda continua ser chamada vulgarmente de “Terreiro do Paço”, como a “desconhecida” praça D. Pedro IV, também em Lisboa, é por todos conhecida como Rossio (ibidem). Os nomes eram e são as referências insubstituíveis dos sítios, transmitidos pela memória colectiva de gerações sucessivas, usados não só pelos naturais como pela gente das redondezas e pelos “estranhos” aos lugares.
Os nomes foram atribuídos aos sítios pelos habitantes locais e/ou vizinhos, em virtude das funções sociais ou das razões geográficas que esses sítios evocam. Os topónimos são, portanto, tanto ou mais estáveis do que os sítios que denominam. As mudanças de língua, de religião ou de sistema político, podem acrescentar novos nomes, mas regra geral não interferem na toponímia estabelecida. Há casos em que o nome mudou por via administrativa (um certo Vale de Cães mudou para Vale dos Prazeres ou Porcalhota passou para Amadora), mas trata-se de tendências recentes que só são viáveis pela força da escrita e da burocracia do Estado (ibidem).
A perenidade dos nomes não impede, contudo, alguns arranjos fonéticos, que são inevitáveis e até lógicos com a evolução milenar do linguajar. Esse fenómeno pode ocorrer sob a forma de uma corrupção fonética propulsionada pela proximidade semântica de um outro vocábulo, por exemplo o uso da palavra “algarve” com o mesmo significado de “algar”, por sua vez proveniente do árabe al-ĝār: a gruta. Abstraindo-nos dessas e de outras evoluções que os topónimos podem sofrer, não restam dúvidas de que os nomes dos sítios são de primordial importância para inferir as suas características geográficas “originais”, mesmo quando estas já há muito foram profundamente alteradas ou até destruídas e, por isso, esquecidas. Por estas e por outras razões, quando se procede a uma prospecção de cavidades subterrâneas numa determinada área começa-se frequentemente pelo estudo toponímico da mesma e, para tal, é costume recorrer-se a fontes bibliográficas e cartográficas, tal como aos habitantes locais. Qualquer espeleólogo sabe que os pastores são das melhores fontes de informação e que as tascas são locais preferenciais para obter preciosos dados, mas nessas circunstâncias é fundamental dominar a “gíria” local!
Estácio da Veiga (1886) refere que “sob a denominação de caverna correm confundidos varios termos de equivalente significação, taes como furna, algar, gruta e lapa, que todavia poderiam ser estremados com restricção especial, tendo-se em apurada conta o sentido, mais popular que litterario, com que a gente campesina emprega cada um d’esses vocabulos”. Esse autor salienta, ainda, que “não é tão nomeada a gruta como são a furna e o algar, e contudo os habitantes do campo sabem distinguila, aplicando o termo a certas cavidades de limitadas dimensões, que podem ser utilisadas para abrigo de gados e pastores”.
Segundo Ernest Fleury (1925): “Nas regiões de grutas (…), o povo distingue lapas, cavernas horisontais ou pouco inclinadas e algares ou algarves, verdadeiros abismos ou poços profundos, mais ou menos verticais. Conhece as designações de gruta e de caverna, mas não as emprega na linguagem corrente, conforme diz o Prof. Leite de Vasconcellos, substituindo-as pelos nomes de cova, lapa e até mina, que nada significam ao certo. No Algarve, na Madeira e nos Açores, falam muito de furnas mas com acepções diversas, parece, se bem que Estácio da Veiga tente contrapor furnas e algares.
Esta distinção popular de lapas e algares não deixa de ser exacta mas nem sempre é aplicada e, além disso, é insuficiente. As lapas compreendem os simples abrigos na rocha como também verdadeiras cavernas; os algares parecem ser sobretudo cavidades de acesso difícil. Por outro lado, o povo em geral só conhece as entradas das grutas e não é capaz de reconhecer a sua diversidade morfológica.
Esta confusão linguística no tocante à tipologia das cavidades de pouco importa para o objectivo em causa que se trata, não nos podemos esquecer, de pura e simplesmente descobrirmos as ditas. A estas denominações podemos ainda acrescentar outras (muitas) mais: abismo, algarão, algarinho, algarocho, buraco, fojo, forjoco, fórna, furninha, grota, grotão, grotião, grotilhão, gruna, grutião, grutilhão, lapão, loca, lura, poço, socairo, socavão, solapa, solapão, toca, etc.. Antro, cavidade, covil, cripta, espelunca, entre outros, são termos eruditos que se poderão encontrar na literatura mas dificilmente entre as gentes do campo e, curiosamente, também da cidade.

Foi munidos desta bagagem lexical que encetámos uma intensa busca bibliográfica e cartográfica, tal como partimos à aventura de questionar os transeuntes que encontrámos em “campo” (melhor seria dizer: na cidade!) sobre a existência de cavidades subterrâneas. Foi também neste contexto que descobrimos diversas referências de grande interesse. Algumas revelaram-se, é certo, ambíguas e dificilmente relacionáveis com a existência de cavidades subterrâneas, como Travessa dos Algarves (Sta. Maria de Belém), ou comprovadamente sem nada a ver com a tipologia de cavidades desejada, como a Rua do Poço dos Negros (S. Catarina e S. Paulo). Outras apesar de promissoras revelaram-se impossíveis de comprovar, como Cova da Onça: descobrimos dois desses topónimos no concelho de Lisboa, um na freguesia de Carnide (Azinhaga da Cova da Onça) e mais um na freguesia dos Prazeres.
Outros exemplos similares são a Rua da Lapa e a própria freguesia homónima (Lapa) onde esta se situa, a Quinta das Furnas, o Bairro Social da Quinta das Furnas e a Rua das Furnas (S. Domingos de Benfica), o Páteo das Furnas (Nª Sra. da Ajuda) e Calçada do Poço dos Mouros, anteriormente designada Estrada do Poço dos Mouros (Penha de França). Outras referências ainda, apesar de confirmadas formas endocársicas, por diversas vicissitudes, deixaram de existir (porque foram destruídas) como é o caso da Cova da Moura (Prazeres). Este topónimo surge amplamente em diversa bibliografia, em cartografia e no terreno, sob diversas formas: Alto da Cova da Moura; Rua da Cova da Moura; Travessa da Cova da Moura; Chafariz da Cova da Moura; Vale da Cova da Moura. Esta cavidade localizar-se-ia no Vale da Cova da Moura e terá sido destruída, em 1947, durante a construção da Avenida Infante Santo, responsável igualmente pela demolição do Aqueduto das Necessidades que, à data, conduzia água para os chafarizes de Campo de Ourique, da Estrela, da Praça de Armas e das Terras (SIPA, 2011).
Será de salientar que o topónimo "Cova da Moura", ou similares, surge amiudadas vezes em todo o território nacional associado a cavidades subterrâneas naturais e artificiais: Gruta dos Mouros ou da Ponte da Laje (Oeiras), Fojo dos Mouros (Colaride), Gruta da Cova da Moura (Torres Vedras), Casa da Moura (Cesareda), Casas dos Mouros (Colares), Cova dos Mouros (Alapraia), Algarão do Poço dos Mouros (Salir), etc.
É largamente sabido que tudo aquilo que é de proveniência remota (normalmente mais antigo do que a ocupação “árabe” da Península Ibérica) é atribuído pelo povo aos mouros. Certamente menos conhecido, e como exemplo de uma justaposição de significações encontradas na variação fonética de um vocábulo, temos, associado ao protótipo da lenda portuguesa da Moura Encantada – que é da cultura fenícia ou púnica –, o termo mowrh [mauora ou mâuôra]  – com o significado de “cova, caverna” (ESPÍRITO SANTO, 1989, 2004).


CUIÇA, Pedro - Toponímia in Ameaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa. Lisboa: UA, 2012. pp. 24-27.

12/11/2012

GRUTAS DE LISBOA (III)


O culto das grutas
Santuários rupestres, incontornáveis da geografia do sagrado, as grutas surgem desde tempos imemoriais como redutos naturais associados a cultos pagãos. Fenómeno retomado pelo cristianismo que se apropriou de alguns desses espaços para aí implementar outra forma de culto. Talvez o caso mais conhecido corresponda à Gruta de Massabielle (Pirenéus franceses) que, depois de alegadas aparições marianas atribuídas a Conceição (de "concepção"), passou a ser conhecida como "Gruta de Nossa Senhora de Lourdes". Mas os exemplos são inúmeros e Portugal também é pródigo em santuários cavernícolas: Lapa de Santa Margarida (Setúbal), Gruta de Nossa Senhora da Luz (Rio Maior), Capela de Nossa Senhora da Estrela (Redinha), Gruta de Nossa Senhora do Tojo (Abrantes), Gruta da Capela da Memória (Nazaré) e Gruta da Rocha (Carnaxide), entre outras (CUIÇA, 2011).
A Gruta da Rocha ou Gruta da Senhora da Rocha, como também é conhecida, merece uma menção especial por se localizar num concelho limítrofe do de Lisboa e muito próximo, portanto, de um caso semelhante identificado na área em estudo. Situada na margem direita da ribeira do Jamor, no lugar do Casal da Rocha, esta abre-se em calcários do Cenomaniano superior, à semelhança das cavidades naturais que ocorrem no concelho de Lisboa e, nesse contexto, não se destaca das suas congéneres não fosse possuir uma história algo curiosa que culminou na edificação de uma igreja cujo altar-mor se situa precisamente sobre a mesma e que foi construída para acolher a imagem de Nossa Senhora que aí foi descoberta.
Hoje em dia continua a celebrar-se missa nesse templo, realiza-se uma festividade anual e até existe uma Irmandade da Nossa Senhora da Conceição da Rocha mas poucos conhecem a existência de uma gruta nas suas fundações e da lenda que deu origem a tudo isso
A primeira referência a esta gruta reporta-se à sua (re)descoberta, em 1822, e à estória que se seguiu ao suposto achamento no seu interior de uma "imagem de cerâmica envolta em pobre manto a delir-se de velhice e humidade": a Senhora da Conceição. Os eventos que se sucederam levaram à construção do Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha. Na verdade, esta gruta já tinha sido descoberta há muito. Tal como tantas outras, suas congéneres da Península de Lisboa, foi utilizada como necrópole e abrigo, tendo sido encontrados ossos humanos e materiais pré-históricos (líticos e cerâmicos) atribuídos aos períodos Neolítico, Calcolítico e Contemporâneo. Existem também registos (que tivemos oportunidade de confirmar em parte) que dão conta de sete abrigos/cavidades nas imediações da Gruta da Rocha onde também foram recolhidos materiais pré-históricos e históricos (CUIÇA, 2011).
O destaque dado à Gruta da Rocha deve-se ao facto de no sítio do Penedo ter ocorrido um fenómeno similar que está na origem do nome da freguesia da Ajuda, inicialmente baptizada de Nossa Senhora da Ajuda precisamente por esse motivo. Ao que consta, dois pastores de cabras terão encontrado uma imagem de Nossa Senhora numa gruta, tendo sido depois construída uma ermida para recolher essa imagem, a que se chamou inicialmente Nossa Senhora Aparecida. As romagens à ermida começaram desde logo e, porque os devotos diziam receber muitas graças, foi mudada a designação para Nossa Senhora da Ajuda. A afluência atingiu tais proporções que surgiu a necessidade de construir um local de culto de maiores dimensões que viria a ser a primitiva igreja paroquial da Ajuda. O primeiro documento, de que temos conhecimento, e que refere a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, data de 20 de Março de 1520 e trata-se do testamento do fidalgo João de Meyra, feito antes de partir para a Índia, deixando os seus bens à igreja (CONSIGLIERI et al., 1996). A cavidade onde se terão despoletado estes eventos e da qual desconhecemos o paradeiro é designada neste trabalho como “Gruta da Aparecida”. A sua localização é atribuída, segundo uns autores, ao Largo da Ajuda (JANEIRA & MASCARENHAS, 2008), mas outros referem outros sítios!
Sobre o culto associado a grutas é também de destacar a referência que o insigne arqueólogo Leite de Vasconcelos faz, na sua obra Religiões da Lusitânia (1897), sobre a Freguesia da Lapa, inicialmente denominada de “Nossa Senhora da Lapa". Esse facto, para além da referência a que já fizemos alusão quando abordámos a toponímia, indicia que aí também deveria ter havido uma gruta e, quem sabe, associada também ao culto.

Gruta da Senhora da Rocha (Sítio do Casal da Rocha - Carnaxide) (PC © 2012)
Foto integrada no texto: Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Rocha (Sítio do Casal da Rocha - Carnaxide) (PC © 2012)

CUIÇA, Pedro - O Culto das Grutas in Ameaças à Geodiversidade - Cavidades Subterrâneas do Concelho de Lisboa. Lisboa: UA, 2012. pp. 37-38.