30 de Jan de 2009

Críticos e Simplórios

O American Way of Science

É comum ver hoje designadas as nossas sociedades como “sociedades do conhecimento”. A produção e a difusão de saber científico são aspectos-chave do funcionamento deste tipo de sociedades, o que confere às suas comunidades científicas um papel estratégico. É por isso que, com regularidade, os governos reafirmam ritualmente o seu investimento na sociedade do conhecimento em geral (…). Ora, a Fundação para a Ciência e Tecnologia tornou públicas, no final do ano passado, as classificações dos centros de investigação que financia.
(…)
As investigações norte-americana e inglesa têm vindo a adquirir progressiva influência no sistema científico internacional, convertendo-se numa verdadeira dominação. (…) No caso vertente, elas ditam aquilo que deve ser investigado, o formato em que devem decorrer os certames de especialistas, em que órgãos da comunicação da ciência devem ser publicados os resultados e em que língua os investigadores devem expressar-se (…)
Para os avaliadores da FCT, não conta publicar um artigo numa revista brasileira ou espanhola? E polaca ou grega? Os polacos ou os gregos não conseguem fazer uma revista científica que valha pontos? Quando fazemos investigação solicitada e financiada por instituições portuguesas, devemos escrever os relatórios em inglês? E, se a problemática for pouco interessante para os norte-americanos, por razões da nossa especificidade sociocultural, não podendo publicá-las nesses países, esta investigação não vale pontos? Publicá-la aqui não serve para nada? Então a produção de saber não deve ser utilizada pela comunidade a que diz respeito? Não visa agir na nossa realidade próxima? E, se publicar aqui não vale nada, como pode algum dia chegar-se a ter uma boa revista científica? (…)
Que fazemos do pensamento crítico, que devíamos ter tão treinado?
Como somos tão complexos e críticos para umas coisas e tão simplórios e amorfos para outras? (…)



P.S.: Recebi este artigo, da autoria do investigador Luís Fernandes, que foi publicado no jornal Público (in Opinião, de 27/01/2009), através de e-mail enviado por um amigo, também ele investigador. O primeiro é investigador na área das ciências sociais e humanas, o segundo na área das ciências da Terra e da vida. Não resisti a colocar no Spelaion alguns trechos do artigo em causa. Numa sociedade dita “do conhecimento” antes de mais estará subjacente o acto de conhecer… Ou não será assim? :)

Diletâncias diurnas!


Quiro-pro-tec-ção

Conservação da Natureza
A noite dos morcegos

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 303, 3 de Outubro de 2000]

As populações de morcegos diminuíram nas últimas décadas e algumas espécies enfrentam a ameaça de extinção. A “Noite Europeia dos Morcegos” decorreu no castelo de S. Jorge, com o objectivo de promover a conservação desses mamíferos voadores.

© DR

A “Noite Europeia dos Morcegos” decorreu, nos dias 22 e 23 de Setembro, no Castelo de S. Jorge, em Lisboa. A iniciativa, que visou a sensibilização dos cidadãos para a situação critica em que se encontram várias espécies de morcegos, foi organizada pelo Instituto de Conservação da Natureza e pela Associação dos Tempos Livres de Lisboa. O evento contou com a participação da Associação de Espeleólogos de Sintra, do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul e do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens.
A ameaça de extinção de algumas espécies de morcegos levou à criação do “Acordo sobre a Conservação dos Morcegos da Europa”. Acordo que Portugal aprovou e passou a aplicar através do Decreto-Lei nº 31/95, de 18 de Agosto. A “Noite Europeia dos Morcegos” resultou desse acordo e já se realiza desde 1997 em diversos países. Os países da Europa Central e de Leste foram os primeiros a aderir, mas o alargamento aos restantes países do acordo verificou-se no ano passado. Portugal não participou nessa iniciativa mas, este ano, foram organizados dois eventos distintos: em Viana do Castelo (5 de Junho) e em Lisboa (22 e 23 de Setembro).

Morcegos no castelo
A “Noite Europeia dos Morcegos”, no Castelo de S. Jorge, foi animada por diversas iniciativas com vista à conservação dos quirópteros (os morcegos). O dia de sexta-feira foi dedicado fundamentalmente às turmas do ensino pré-primário, do 1º ciclo e ATL. As actividades de sábado foram dirigidas essencialmente às crianças, mas a participação esteve aberta a todos os visitantes. Estes puderam participar num pedipaper, assistir à passagem de diapositivos sobre morcegos, ver uma exposição de trabalhos preparados por alunos ou conhecer o atelier “Grutas dos Morcegos” (com a exploração de duas grutas artificiais). Foi possível ainda participar numa sessão de detecção de morcegos, utilizando conversores de ultra-sons.
Nas últimas décadas tem-se assistido, especialmente na Europa, a um declínio das populações de algumas das espécies de morcegos, especialmente na Europa. Das 24 espécies de morcegos presentes em Portugal continental, nove estão em perigo de extinção.


© Pedro Cuiça

*****



Perturbação dos morcegos
A situação de ameaça de extinção em que se encontram diversas espécies de morcegos europeias torna imperativa a defesa das suas colónias. A perturbação antrópica das colónias de morcegos cavernícolas é apontada como sendo um dos factores mais importantes de declínio.
O desaparecimento de uma colónia provoca consequências difíceis de avaliar nos ecossistemas da região e das próprias grutas, onde se poderá verificar o colapso da comunidade de invertebrados cavernícolas. O guano que se acumula no interior das cavernas é o suporte de uma fauna particular.
A fim de proteger as populações de morcegos, será necessário regulamentar o acesso de pessoas às grutas onde se localizam as mais importantes colónias. A conservação das populações de quirópteros terá de passar pela consciencialização e sensibilização das pessoas para a importância da conservação desses peculiares animais. Não visitar ou explorar grutas-abrigo de morcegos na época de hibernação (Novembro a Março) ou de criação (Março a Maio) será um bom começo.

29 de Jan de 2009

Propriedades de Titan

O fabricante de cordas espanhol Korda’s colocou um pequeno filme no You Tube sobre o sistema Titan. Este é muito mais do que um simples acabamento, trata-se de um novo sistema de fabrico devidamente testado e patenteado. Até agora as cordas utilizadas em espeleologia, canyoning, montanhismo ou escalada eram constituídas por camisa e alma, daí serem designadas internacionalmente por “kernmantle” (de kern: alma e mantle: camisa).
O sistema Titan incorpora uma terceira estrutura constituída por uma série de fios paralelos ao eixo da corda e no interior da estrutura da camisa. Estrutura responsável pelo maior desempenho dessas cordas face às tradicionais...

Escola de Altamira


Os documentos da vida pré-histórica, dia a dia acumulados pela investigação dos arqueólogos, vagamente anunciam o que de maior podia surgir na história do espírito, os apogeus da alma, a ascese do homem para o absoluto, para a unidade, para a eterna perfeição. Esses documentos não diziam tudo: a eloquência da escola de Altamira, dos magos pintores que ornamentam “a Capela Sistina da arte quaternária”, a lógica monumental dos arquitectos dos dólmenes e dos cromeleques, dos menires não dizia tudo da energética que animava os nossos longínquos antepassados. Era preciso recolher fórmulas vivas, bem existentes que ajudassem a abrir e a ler melhor as páginas de duplo sentido, os hieroglíficos dizeres dos pintores e canteiros que desapareceram com o seu segredo, o seu possível e rudimentaríssimo esoterismo, mágico e religioso.

AArão de Lacerda
in O Fenómeno Religioso e a Simbólica (1924)
Guimarães Editores (1998)

IV EuroSpeleo Forum


O quarto EuroSpeleo Forum, Icnussa 2009, vai decorrer, de 24 de Abril a 3 de Maio, em Urzulei (Sardenha - Itália); uma iniciativa no âmbito da Federação Europeia de Espeleologia (European Speleological Federation – ESF).

Grutas vulcânicas

Algar do Carvão © Os Montanheiros

Vulcano-espeleologia
Visita à Terceira subterrânea


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 295, 8 de Agosto de 2000]

O desenvolvimento da espeleologia nos Açores e a exploração do Algar do Carvão estão profundamente associados. A Forum Ambiente visitou o “mundo subterrâneo” da ilha Terceira, que agora dispõe também da Gruta do Natal e da Furna da Água.

Furna da Água (Terceira, Açores) @ Anabela Trindade (1995)

As cavidades vulcânicas dos Açores constituem um património natural de inegável valor. Um património que urge conhecer e preservar. O Algar do Carvão, a cavidade mais visitada no arquipélago, foi a primeira a revelar a sua beleza ao público. Mas, existem outras cavidades de grande interesse, algumas também passíveis de serem visitadas. A ilha Terceira, para além do Algar do Carvão, conta agora com a Gruta do Natal e a Furna da Água.
A Forum Ambiente visitou o “mundo subterrâneo” da ilha Terceira e constatou a importância do mesmo. Descer às profundezas da Terra é conhecer um pouco da história da Terra e da vida. Uma visita diferente às paisagens subterrâneas dessas ilhas atlânticas.

Um algar chamado “Carvão”
A vulcano-espeleologia surgiu no arquipélago dos Açores nos finais do século passado e encontra-se estreitamente ligada ao Algar do Carvão. Uma chaminé vulcânica, que se desenvolve sob dois cones de escórias (bagacina), associada ao Complexo Vulcânico do Pico Alto (Terceira). O algar situa-se na Caldeira de Guilherme Moniz, a cerca de 1300 metros do Tentadero de Santo Antão e a 14 quilómetros de Angra do Heroísmo.
O Algar do Carvão inicia-se num troço sub-vertical de 45 metros de altura que dá acesso a três salas de dimensões consideráveis. Na zona mais afastada da entrada, a cerca de 90 metros de profundidade, encontra-se um pequeno lago alimentado pelas águas de infiltração.
A exploração do Algar do Carvão remonta ao dia 26 de Janeiro de 1893 e deve-se a Cândido Corvelo e José Luís Sequeira. Didier Couto efectuou a segunda descida, em 1934, tendo elaborado o primeiro esboço (um perfil) da cavidade. Mas a primeira topografia do Algar do Carvão deve-se a Montserrat e Romero (1983).

Algar do Carvão © Os Montanheiros

“Os Montanheiros” desceram ao Algar do Carvão, em Agosto de 1963 (ano da sua fundação), sob a direcção de Américo Lemos. As obras de abertura do túnel de acesso à cavidade decorreram de 28 de Maio de 1965 a 28 de Novembro de 1966. A primeira escadaria no interior do algar foi instalada em 1968. No final desse ano (a 1 de Dezembro) verificou-se a abertura ao público. Na década de 70 foi instalada luz eléctrica (1970), construída a actual escadaria (1977) e a casa-abrigo (1978). O Algar do Carvão foi classificado, em 1987, como Reserva Natural Geológica (Decreto Legislativo Regional nº 13/87/A). Na reserva, definida pela linha que dista 100 metros da base dos cones onde se abre o algar, são proibidas quaisquer alterações no terreno, fauna ou flora.
A Gruta do Natal, um túnel de lava com cerca de 697 metros de desenvolvimento total, foi aberta ao público, também pela associação “Os Montanheiros”, no dia 1 de Dezembro de 1998. A cavidade, devidamente acondicionada e com instalações de apoio, localiza-se na Reserva Florestal Natural da Serra de Santa Bárbara e Mistérios Negros.
A Furna da Água situa-se no lado oeste da Caldeira de Guilherme Moniz, entre o Pico Espigão Barreiro e o Pico da Cruz, próximo da lagoa artificial do Cabrito. Trata-se também de um túnel de lava, com cerca de 560 metros de desenvolvimento, incluindo os túneis abertos pelo Homem. Calcula-se que a extensão original fosse de 458 metros. As visitas devem ser solicitadas aos serviços municipalizados da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo.
A Gruta do Natal e a Furna da Água apresentam características muito diferentes das do Algar do Carvão, complementando, por isso, o conhecimento do “mundo subterrâneo” em terrenos vulcânicos. Visitar o Algar do Carvão e a Gruta do Natal ou a Furna da Água representa uma lição ímpar sobre o património espeleológico açoriano.

Algar do Carvão © Os Montanheiros

28 de Jan de 2009

Mustierense em Ceuta

Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Um grupo de investigadores da Universidade de Cádis (Espanha) localizou várias peças mustierenses, com idade superior a 200 mil anos, durante uma escavação numa gruta em Ceuta, junto da fronteira com Marrocos. As peças incrustadas em rocha permitiram determinar a presença de populações humanas da cultura mustierense nessa zona do Norte de África. Os vestígios da presença humana surgiram quando foi escavado um dos estratos mais baixos (i.e., mais antigos) da referida gruta.
O achado ocorreu uns dias depois do Governo de Ceuta ter anunciado um apoio no valor de 45 mil euros para a Universidade de Cádis continuar os trabalhos na gruta. Esse apoio irá permitir prosseguir os trabalhos iniciados em Setembro de 2008, tal como adquirir novo material especializado para os trabalhos em curso na cavidade, recentemente declarada Bem de Interesse Cultural (Bien de Interés Cultural - BIC). A gruta, conhecida como “La Cabililla”, foi descoberta em 2001 e desde 2002 que tem sido alvo de campanhas anuais de escavações arqueológicas.
Os primeiros testemunhos da presença humana em Ceuta, localizados no abrigo de Benzú, remontam a cerca de 270 mil anos. Trata-se de um abrigo ocupado ocasionalmente por comunidades de caçadores-recolectores. A escassos metros do abrigo encontra-se uma gruta utilizada por grupos neolíticos durante o sexto milénio antes de Cristo.
As investigações que se desenvolveram em Benzú e, agora, em La Cabililla abrem novas perspectivas no estudo dos contactos entre as populações de ambas as margens do Estreito de Gilbraltar...

Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)
Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)
Ceuta © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Uma Lisboa desconhecida

Alguns subterrâneos de Lisboa vão estar acessíveis ao público durante o presente ano, no âmbito de um acordo estabelecido entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Empresa Portuguesa das Águas Livre (EPAL). A notícia foi veicula, em Outubro de 2008, numa conferência de imprensa na qual o vereador do pelouro do Ambiente e Espaços Verdes, José Sá Fernandes, revelou o desiderato de estabelecer um protocolo com esse objectivo: “Estamos a completar o protocolo e espero que daqui a um ano, senão antes, todos os subterrâneos entre o Príncipe Real e o Largo do Teatro de São Carlos sejam visitáveis”.
O protocolo em causa foi assinado, no passado dia 15 de Janeiro, no Reservatório da EPAL das Amoreiras, tal como outros quatro acordos de cooperação com vista à dinamização patrimonial da cidade. Presentes na cerimónia estiveram o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, e o presidente da EPAL, João Fidalgo, representando as duas instituições, tal como o vereador do Ambiente e Espaços Verdes, Sá Fernandes.
Os acordos de cooperação entre a CML e a EPAL consistem na abertura de diversos espaços públicos, que têm até agora estado encerrados e sob a gestão da EPAL, ao mesmo tempo que se procede à sua requalificação. António Costa salientou que a assinatura destes protocolos resultou da estreita colaboração entre as duas entidades, com o objectivo de dar a conhecer ao público uma Lisboa desconhecida, “por estar fechada entre muros, por se tratar de espaços subterrâneos ou porque, estando à vista, não têm visibilidade”. A iniciativa prevê a abertura ao público de dois percursos subterrâneos: Patriarcal (no Principe Real)-Chafariz do Vinho e Patriarcal-Largo do Teatro de São Carlos, respectivamente.

Espeleo-mergulho

Espeleologia
Explorar o mundo submerso


[FORA DE PORTAS ●jornal Forum Ambiente nº 293, 25 de Julho de 2000]

As Jornadas Técnicas de Espeleo-Mergulho, que decorreram no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, contaram com a presença de participantes de vários países.

© Piotr Gajek (2000)

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) acolheu, nos dias 18 a 24 de Junho, um encontro internacional de espeleo-mergulho, que reuniu portugueses, franceses, um inglês e um polaco (residente em Portugal). As Jornadas Técnicas de Espeleo-Mergulho, inseridas no Projecto da Bacia do Alviela, foram organizadas pela Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), com o apoio da Federação Portuguesa de Actividades Subaquáticas (FPAS) e o patrocínio do PNSAC, Empresa das Águas Livres (EPAL) e Câmara Municipal de Alcanena (CMA). A coordenação técnica esteve a cargo da Fédération Française de Spéléologie (FFS) - Commission de la Plongée Souterraine (CPS). A organização teve ainda a colaboração da Oceanox e da Action Glob.
As jornadas contaram com a presença de quatro instrutores franceses de espeleo-mergulho, entre os quais o presidente da comissão francesa de espeleo-mergulho da FFS. Os “espeleonautas” acolheram-se na casa rural de Valverde, onde decorreram as sessões teórico-práticas matinais. À tarde realizaram-se sessões práticas nos Olhos de Água do Alviela, nomeadamente acerca das técnicas de progressão e estudo de cavidades molhadas.

Encontro de espeleo-mergulhadores
As Jornadas Técnicas de Espeleologia, segundo Piotr Gajek do Centro de Espeleo-Mergulho da SPE, pretenderam estimular a troca de experiências no sentido de tentar uniformizar regras, discutindo sempre se uma determinada maneira de fazer será ou não adequada em todos os locais ou condições. As jornadas foram pensadas como um curso (com respectivo manual), ministrado por quatro instrutores franceses e dois portugueses, cuja frequência com aproveitamento deu direito ao cartão Cave Diver CMAS (Confederação Mundial das Actividades Subaquáticas).
De manhã, abordaram-se variados aspectos do espeleo-mergulho, intercalados com pequenas sessões práticas em seco. Como “usar fio de ariane, usar carretos e qual a melhor maneira de equipar galerias subaquáticas, treinando de vez em quando com os olhos tapados para adaptar os participantes ao que pode acontecer sem luz dentro de uma gruta ou na situação de haver muito sedimento e a água ficar muito turva”.
No final das sessões teórico-práticas, os participantes preparavam o equipamento para, depois do almoço, agarrarem os sacos de material de espeleologia e de mergulho e irem praticar para o Alviela. A totalidade dos mergulhos foram efectuados no Alviela, com excepção de segunda-feira (dia 19 de Junho) em que os instrutores franceses foram (re)ver algumas grutas estremenhas.
As partes molhadas não podem ser exploradas da forma tadicional, através das técnicas usadas na designada “espeleologia seca”. Os pequenos sifões poderão ser ultrapasados através de técnicas de apneia, mas o espeleo-mergulho é que permite realmente explorar o património espeleológico submerso. Nos Olhos de Água do Alviela, mergulhadores franceses já desceram até 98 metros de profundidade, ao longo de cerca de um quilómetro de desenvolvimento, e “ainda não se conhece a zona onde o sifão começa a subir”.
Nas jornadas só foram admitidos mergulhadores consumados, com perfeito controlo da flutuabilidade (usando equipamento de diferentes configurações). As pessoas que pretendem iniciar-se no espeleo-mergulho precisam de possuir um bom nível no mergulho autónomo.
© Piotr Gajek (2000)

27 de Jan de 2009

Espeleologia Científica

As III Jornadas de Espeleologia Científica (Jornades d’Espeleologia Científica) realizam-se, de 2 a 5 de Julho de 2009, em Cueva El Soplao (Cantábria - Espanha). Para mais informações, consulte o folheto abaixo.


[Fonte: Espeleobloc]

Direitos das pedras

Conservar a Terra
Monumentos de Pedra


[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 321, 6 de Fevereiro de 2001]

As rochas, as grutas ou as montanhas têm direitos? A legislação é omissa e o tema torna-se premente face à destruição dos testemunhos da história da Terra.

Cantábria © Pedro Cuiça (2007)

Portugal continental apresenta uma significativa “geodiversidade”, ou seja, é rico em geo-recursos culturais, sendo alguns de reconhecido valor supra-nacional (como o Cabo Mondego). Mas, as regiões autónomas da Madeira e dos Açores também apresentam testemunhos monumentais da história da Terra. No entanto, o património geológico encontra-se completamente desprotegido do ponto de vista legal, tanto no continente como nas ilhas.
Na legislação portuguesa os “geótopos” não têm qualquer existência formal, ao contrário do que acontece com os biótopos. O conceito de recurso geológico está contemplado, mas refere-se apenas a recursos económicos existentes na crusta terrestre: recursos hidrotermais ou geotérmicos, jazigos minerais ou água de nascente.
Os recursos geológicos de índole cultural, que são igualmente não renováveis e susceptíveis de aproveitamento económico, não são considerados. Particularmente vulneráveis por não serem abrangidos, nem na legislação ambiental, nem na legislação sobre exploração de recursos geológicos, os geo-recursos culturais estão à mercê da destruição, muitas vezes devido à ignorância ou à incúria, outras vezes intencionalmente, mas sempre de forma impune.
Ao contrário do que acontece com a arqueologia, em que é obrigatória a comunicação de achados e a autorização para escavação, não existem normas o tocante à paleontologia ou à mineralogia, importantes disciplinas da geologia em que se verificam recolhas de materiais um pouco por todo o país, sem qualquer impedimento legal. Enquanto o espólio arqueológico é propriedade do Estado, o património geológico é “de quem o apanhar”. A comunicação de achados geológicos, a autorização para recolha ou escavação, a posse ou venda de espécimes descobertos, nada está enquadrado por legislação específica. Esta é completamente omissa, deixando o caminho aberto à saída de espólio para o estrangeiro e/ou para colecções particulares. Deste modo, o património geológico fica empobrecido e a comunidade científica privada de peças porventura importantes para o conhecimento da heo-história.

Preservar para conservar
Os espaços naturais que não estão abrangidos por legislação específica, caso dos geomonumentos ou geo-recursos culturais (em que se inserem jazidas de pegadas de dinossáurios, afloramentos, túneis de lava, entre outros), necessitam de urgente enquadramento legal. Reivindicação que, não sendo nova, continua a aguardar melhores dias. Entretanto, já foram protegidas diversas ocorrências, ao abrigo da legislação existente. Conhecem-se pouco mais de uma dezena de “geótopos” com estatuto de protecção, enquadrados em diferentes figuras de classificação. A protecção efectiva, no terreno, tem-se revelado contudo frequentemente ineficaz.
Um problema tão importante quanto a falta de legislação específica prende-se precisamente com a conservação, valorização e dinamização das ocorrências. O controlo do uso e gestão correcta de geo-recursos culturais, baseado idealmente em legislação específica sobre a matéria, será uma importante medida a implementar, assim como se torna premente o conhecimento dos locais de interesse geológico em que é necessária uma rápida intervenção conservacionista.
Os investigadores são unânimes em defender a necessidade de legislação que enquadre o património geológico português. Os instrumentos legais actualmente em vigor sobre as áreas protegidas são demasiado vagos para abarcarem os testemunhos da história da Terra. A criação da figura de geomonumento ou geo-recurso cultural evitaria a necessidade de recorrer à insuficiente legislação existente. Os investigadores defendem igualmente que o património geológico deve ser alvo de urgente inventariação e classificação, assim como de uma adequada divulgação junto do público.

26 de Jan de 2009

Gruta de Porto Covo

A Câmara Municipal de Cascais efectuou, no dia 27 de Novembro de 2008, o lançamento da obra A utilização pré-histórica da gruta de Porto Covo (Cascais), da autoria do arqueólogo Victor S. Gonçalves. O livro sobre essa emblemática cavidade inicia uma nova colecção de edições municipais: Cascais - Tempos Antigos. Com esta colecção, a autarquia pretende incentivar a publicação e a divulgação de estudos monográficos sobre o passado remoto do concelho de Cascais. Na calha estão mais dois títulos, de que se destaca A ocupação pré-histórica das furnas de Poço Velho, também da autoria de Victor S. Gonçalves.
Ao estrear a série com um volume dedicado à Gruta de Porto Covo denota-se a intenção de começar por sítios arqueológicos menos divulgados. O estudo desta gruta iniciou-se no final do século XIX, sob orientação do arqueólogo Carlos Ribeiro, tendo, nos 40 e 50 do século XX, sido retomado por Afonso do Paço e Maxime Vaultier. Justificava-se, pois uma revisão monográfica à luz dos conhecimentos e tecnologias actuais. Mais do que o próprio espaço da gruta, foi o espólio proveniente das antigas escavações que agora mereceu uma análise minuciosa por parte do Prof. Doutor Victor S. Gonçalves, com a colaboração da Prof.ª Ana Maria Silva, que realizou a análise antropológica, e da Dr.ª Ana Ávila de Melo, que teve a seu cargo toda a pesquisa de arquivo do Instituto Geológico e Mineiro.
O espólio da gruta reúne conjuntos de artefactos de pedra lascada, de pedra polida e cerâmicos, fauna malacológica e ossos humanos. Através da realização de uma análise por radiocarbono foi possível definir duas ocupações distintas no quarto milénio (3710-3630 e 3620-3120 a.C.) e no terceiro milénio (2870-2500 a.C.). Curiosamente na gruta do Poço Velho, situada no centro de Cascais, apenas se regista presença humana a partir do quarto milénio, como poderá comprovar-se no terceiro volume da colecção (a editar).
De forma conclusiva, o autor dá por findas as actuais investigações com as seguintes palavra: “(…) certamente e sem qualquer dúvida, [Porto Covo] foi uma necrópole onde se depositaram sete indivíduos, seguramente três mulheres e duas crianças (com menos de cinco anos) e quase certamente dois homens. A sua pequena dimensão e situação isolada podem permitir a conclusão de que se tratava da necrópole ocasional de um minúsculo núcleo de povoamento pouco estável, pela cronologia que os ossos revelaram.”.

[Fonte: Cascais -agenda cultural (nº 36, Jan./Fev. 09) e A utilização pré-histórica da gruta de Porto Covo (Cascais)]


Gruta de Porto Covo © Pedro Cuiça (2008)

Aniversário do NECA

Espeleologia
Um núcleo de parabéns

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 255, 2 de Novembro de 1999]

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul comemorou quatro anos de actividades em prol do mundo subterrâneo. Um trabalho que se saldou na defesa do carso da Arrábida, na descoberta de inúmeras cavidades e na sedimentação de um núcleo, que está de parabéns.

© Francisco Rasteiro

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) comemorou, no dia 24 de Outubro, o seu quarto aniversário. O Retiro dos Amigos, situado na Azóia, foi o local escolhido pelos espeleólogos sesimbrenses para reunir os sócios do núcleo, bem como alguns vereadores da Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), num jantar comemorativo, que contou com a presença de um bolo de aniversário alusivo ao evento em questão: quatro anos de espeleologia no Carso da Arrábida indiscutivelmente protagonizados pelo NECA. Após o jantar de confraternização, decorreu uma mostra de diapositivos na sede do NECA: a escola primária situada à entrada da povoação de Pedreiras, junto à Serra do Risco.
As comemorações continuaram a 30 e 31 de Outubro, com uma acção de limpeza na ribeira do Cavalo e no porto da Baleeira, acção levada a cabo com o apoio da CMS e aberta a todos aqueles que desejam uma Arrábida mais limpa.

Em defesa da Arrábida
O NECA surgiu de uma visita de amigos, realizada em 1994, à Gruta do Zambujal, a então "pérola da espeleologia a sul do Tejo”, considerada Sítio Classificado de Interesse Espeleológico (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). O avançado estado de degradação em que se encontrava (e se encontra) a cavidade despertou o interesse desses jovens pela defesa do mundo subterrâneo da Arrábida. Daí à fundação do NECA foi um passo. Francisco Rasteiro, João Luz (o “Catola”), Carlos Sirgado, Paulo Marques, Hugo Páscoa e Cândido Guerra, alguns dos sócios fundadores, iniciaram um projecto que comemora agora quatro anos de plena existência. Existência que passou pela denúncia da actividade extractiva junto da Serra do Risco e da arriba mais alta da Europa continental, pelo alerta face ao estado da Gruta do Zambujal, o entulhamento do Algar dos Oliveira após trabalhos de desobstrução, as escavações ilegais na Lapa do Fumo, entre outros “cavalos de batalha”. Mas nem tudo foram críticas…
O NECA também organizou ou participou em diversas acções de limpeza da Arrábida, assim como em acções de educação ambiental e sensibilização dos mais jovens para a conservação do meio subterrâneo têm sido, aliás, as grandes apostas do NECA. Quer no que respeita à conservação da Gruta do Zambujal, em particular, quer à defesa de outros locais de interesse espeleológico. O lançamento do livro e a exposição “Marvilhas Subterrâneas da Costa Azul”, em Agosto de 98, são apenas um exemplo do trabalho desenvolvido.
Além disso, o NECA tem descoberto diversas cavidades. Geralmente são cavidades de pequenas dimensões e pouco concrecionadas, mas a última descoberta dos espeleólogos sesimbrenses foi verdadeiramente excepcional. Se a Gruta do Zambujal era a “pérola da espeleologia a sul do Tejo”, a cavidade agora descoberta é um autêntico tesouro. Tesouro que augura muitos e mais anos devotados à espeleologia.
Parabéns ao NECA e que conte muitos mais anos em prol da descoberta e defesa do Carso da Arrábida.


P.S.: Estamos em 2009, dez anos passados sobre a publicação do artigo acima, e o Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) continua a desenvolver iniciativas em prol do conhecimento e defesa do carso e grutas da Arrábida.

23 de Jan de 2009

Encerramento do Zambujal (IV)

Atentados ao interior da Terra
Grutas sem Protecção

[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 311, 28 de Novembro de 2000]

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul alerta para novos atentados contra o património natural do concelho de Sesimbra. A Gruta do Zambujal é, mais uma vez, o centro das atenções.

O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) tem acompanhado de perto a evolução do Sítio Classificado da Gruta do Zambujal desde a interrupção dos trabalhos de encerramento da cavidade. Acompanhamento que gerou os alertas lançados ao Parque Natural da Arrábida (PNA) e à Câmara Municipal de Sesimbra (CMS), em cartas datadas de 11 de Setembro e 7 de Novembro, “para os últimos actos de vandalismo no interior da Gruta do Zambujal”.
O estado deplorável em que se encontra aquela que foi considerada a “pérola da espeleologia a sul do Tejo” é fácil de constatar (ver jornal Forum Ambiente nº 310, de 21 de Novembro). O abandono e a destruição prosseguem enquanto a cavidade aguarda a protecção merecida. O encerramento da Gruta do Zambujal estava previsto para Março do presente ano mas, desde a destruição das obras efectuadas no terreno, os trabalhos pararam até hoje.

Longe da conservação
O NECA começou a efectuar acções de vigilância da cavidade já antes de Maio. Nesse mês, os espeleólogos sesimbrenses dispararam com “um emaranhado de fios de sisal com bolor nas zonas mais húmidas” da gruta. Os espeleólogos também notaram “que algumas excêntricas e uma asa de borboleta tinham desaparecido”.
As acções de vigilância da Gruta do Zambujal levaram, no mês de Agosto, à descoberta de duas mochilas junto da antiga entrada, o que indicou a presença de indivíduos no interior da cavidade. Quando os espeleólogos do NECA desceram a rampa que dá acesso à gruta ouviram “formações a ser quebradas na galeria inferior”. AGNR foi alertada e dois jovens escuteiros foram detidos “para identificação e foram levados à esquadra de Alfarim”. Os espeleólogos verificaram que, no interior da gruta, “os fios da topografia ainda ali estavam esquecidos”.
As acções de vigilância prosseguiram e os espeleólogos do NECA constataram, no dia 5 de Novembro, “que os fios de sisal não foram levados para fora da cavidade, mas estavam em rolos espalhados pelo chão por toda a cavidade”. Segundo os espeleólogos do NECA, “nas zonas onde os fios de sisal estavam amarrados encontram-se destruídas dezenas de formações”, entre as quais “a maior excêntrica da gruta”. Os espeleólogos afirmam ainda que encontraram “tectos e formações sujas do fumo de acetileno (usado normalmente por espeleólogos)”. Os espeleólogos do NECA detectaram igualmente “um aumento dos amontoados de formações, escolhidas para presumível roubo” e “outras abandonadas no caminho para o exterior por terem sido quebradas ou serem demasiado pesadas”.
Para o NECA, é incompreensível “que, após tantos anos de atentados à cavidade, não haja ainda vontade política para resolver o seu futuro no sentido de a proteger de forma a possibilitar o estudo para a dinamização do espaço”. Os espeleólogos sesimbrenses defendem que “estes atentados só terão termo quando se realizar o simples fecho adequado da gruta”. Uma medida que, na sua opinião, “acabará com actos que parecem visar a total destruição destes reconhecidos valores patrimoniais”.

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro

22 de Jan de 2009

À Descoberta das Profundezas

O Núcleo de Espeleologia da Universidade de Aveiro (NEUA) promove, durante o presente ano, um ciclo de conferências intitulado “Descoberta das Profundezas”. Este evento, que conta com o apoio do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, pretende “divulgar as diferentes vertentes científicas e exploratórias das profundezas, contando com diversos cientistas e espeleólogos”.
As conferências terão lugar no anfiteatro do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, às sextas-feiras, a partir das 21.30 p.m., conforme o seguinte calendário:

● 13 Fevereiro: Francisco Almeida, Arqueologia em gruta: do Almonda ao Lapedo;
● 27 Fevereiro: Sofia Reboleira, Vulcanoespeleologia no arquipélago Canário;
● 21 Março: Comemorações dos 29 anos do NEUA;
● 27 Março: Alejandro Martínez, Fauna anquialina Atlântica: historias de crustáceos olvidados y poliquetos aberrantes;
● 8 Abril: Paulo Borges, Geodiversidade e Biodiversidade do habitat cavernícola dos Açores;
● 24 Abril: Jabier Les, Aplicaciones de diversas técnicas en la Fotografía Subterránea;
● Abril: Nuno Farinha, Iluminar as Profundezas;
● Maio: Fadi Nader, International Speleological Expedition to Iran;
● 29 Maio: Marina Cunha, Nascentes hidrotermais: a vida nas profundezas do mar;
● 5 Junho: Luísa Rodrigues, Conservação dos Morcegos Cavernícolas em Portugal;
● 31 Julho: João Neves, Mergulho Subterrâneo: os novos desafios e o uso dos Rebreather;
● Setembro: Rui Andrade, "Humpleu Project" – Expedições Espeleológicas na Roménia;
● Setembro: Manuel Freire, As cavernas gigantes do Peruaçu (Brasil).

Para maior comodidade, é necessário efectuar inscrição prévia e obrigatória, ainda que gratuita, através do e-mail conferencias2009@neua.org, por forma a garantir lugares sentados a todos os participantes.
Para mais informações, consulte o site do NEUA http://www.neua.org/.

Subterrâneo

© Musaeum Hermeticum (1749)

Meu pensamento é um rio subterrâneo
Para que terras vai e donde vem?
Não sei… Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subterrâneo
(…)”

Fernando Pessoa (1914)


Caeiro © Bartolomeu Cid dos Santos

Encerramento do Zambujal (III)

Gruta do Zambujal
Um péssimo exemplo


[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 277, 4 de Abril de 2000]

Depois de duas décadas, o tão aguardado fecho da Gruta do Zambujal, que estava à beira de se concretizar, ficou apenas pelas intenções, pois os trabalhos entretanto iniciados foram destruídos.

Os trabalhos com vista ao encerramento da Gruta do Zambujal iniciaram-se no mês de Janeiro e a sua finalização estava prevista para Março. Estamos em Abril e a cavidade permanece aberta, com a agravante das obras entretanto iniciadas terem sido destruídas por desconhecidos. É incrível, mas é verdade! Com um historial de mais de duas décadas de abandono e de vandalização, o bom rumo dos acontecimentos seria de admirar. A polémica regressa assim ao Zambujal, aguardando-se o desfecho tão esperado: que a Gruta do Zambujal seja finalmente protegida dos atentados a que tem sido sujeita.

Um historial para relembrar
A descoberta da Gruta do Zambujal, em 1978, suscitou um interesse pouco usual. Foram colocados guardas junto das entradas, para evitar a vandalização do espaço e requeridos os pareceres dos geólogos Georges Zbyszewski e Octávio da Veiga Ferreira, assim como à Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica (APIE).
A Gruta do Zambujal, com base nos pareceres emitidos, foi a primeira cavidade portuguesa a beneficiar do estatuto de “Sítio Classificado de Interesse Espeleológico” (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). Os especialistas salientaram que se tratava de “uma gruta espectacularmente bela, ímpar no que concerne às formações litoquímicas”. A cavidade revelou concreções raras, “em tamanha profusão e desenvolvimento”, que os levou a afirmar “não existir, em todo o território nacional, outra cavidade subterrânea conhecida que neste aspecto a ultrapasse”.
Aguardava-se uma nova era para as cavidades e carsos do país, mas tal não aconteceu. Passados poucos anos, as grades que bloqueavam as entradas da Gruta do Zambujal foram forçadas e as incursões começaram a deixar as suas marcas naquela que foi considerada a “pérola da espeleologia a sul do Tejo”. Apesar dos alertas da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza e posteriormente do NECA, durante duas décadas a gruta esteve mais ou menos ao abandono.
Actualmente, o Zambujal já não é a maravilhosa cavidade de há 20 anos. Com grande parte das concreções destruídas, parcialmente entulhada por blocos e desmoronada, o seu valor patrimonial e científico, bem como o seu aproveitamento turístico, encontram-se seriamente comprometidos. O Parque Natural da Arrábida, a Câmara Municipal de Sesimbra e o NECA não desistem, no entanto, da conservação e dinamização da gruta. Afinal, esta ainda encerra concreções de grande beleza e raridade, assim como uma importante colónia de morcegos-de-peluche (Miniopterus schereibersii) e alguns morcegos-ratos-grandes (Myotis myotis).
A Sociedade das Grutas da Senhora do Cabo, fundada a fim de efectuar a exploração turística da caverna, possui agora um excelente exemplo daquilo que o Homem não deve fazer ao património espeleológico. Uma visita turística, digamos “preventiva”, com vista a que não se cometam os erros do passado. Isto porque a destruição que se regista no Zambujal é irrecuperável e, de tão evidente, sempre pode constituir um exemplo.
A história da Gruta do Zambujal constitui um bom exemplo daquilo que supostamente não devia acontecer. A história de como o Estado, através de inúmeras entidades e burocracias, permite que decisões fundamentais, escudadas pela lei, sejam proteladas sine die. E isto perante a destruição, irrecuperável, do património espeleológico, por ironia do destino, classificado como área protegida. Resta saber protegida de quê ou de quem, visto a cavidade ser visitada por todos aqueles que o desejem.

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Francisco Rasteiro

P.S.: Este artigo voltou a ser publicado, apenas com os devidos ajustes temporais, no jornal Forum Ambiente nº 310, de 21 de Novembro de 2000.

21 de Jan de 2009

Outra dimensão

Algarve © Pedro Cuiça (2008)

As grutas são outra dimensão. Elas enchem uma geografia sagrada que se estende desde o noroeste Lusitano até às baías nordeste dos Pirinéus. As grutas chamam-se penhas e nelas ou habitaram animais espoliados da paz, pelo fero homem, ou homens isolados acharam o silêncio criador, como Mafamede na gruta desértica. As grutas vão desde a Estremadura ao Gerez, constituindo sinais de porta aberta, e prolongam-se pela Cantábria, até ao Meio-Dia francês. A mística medieval peninsular ainda detém a posse da via lúrica, desde as grutas de Toledo às grutas do Bearne. As grutas associam-se a mananciais de água viva, de onde brotam águas santas, rios de vida, regatos de cristal. São, a terra e a água, mais concretos, os elementos que, da tétrade elementar, melhor se oferecem à palpitação humana. O ar e o fogo são fugidios e abstractos, a terra e a água são assentos, sólidos e líquido, mas palpáveis. No culto dos elementos, a sofia, pobre ainda e para sempre, inventa a natureza elementar de quanto é a matéria-prima de que o ânimo se serve para criar animação, através da anima. Tudo é como é, e tudo é simulado do real que simula.
Pinharanda Gomes
in A Patrologia Lusitana (1983)

Algarve © Pedro Cuiça (2008)

Encerramento do Zambujal (II)

Gruta do Zambujal
Uma aposta na conservação


[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 269, 8 de Fevereiro de 2000]

A Gruta do Zambujal vai ser finalmente protegida. Os trabalhos de encerramento já estão em curso e outras iniciativas esperam-se para breve. É a aposta na conservação, depois de um longo período de espera.

Gruta do Zambujal (Arrábida) © Pedro Cuiça (1998)

Os trabalhos com vista ao encerramento da Gruta do Zambujal iniciaram-se há três semanas e a sua finalização está prevista para meados deste mês. O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) nunca desistiu da conservação e da dinamização da cavidade, bem como da área envolvente (ver jornal Forum Ambiente nº 268, de 1 de Fevereiro). O Parque Natural da Arrábida (PNA) e a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS) também não abandonaram a gruta que foi considerada a “pérola da espeleologia a sul do Tejo”. As medidas de conservação tardaram mas estão aí.

Para um futuro melhor
Segundo Celso Santos, director do PNA, em declarações à Forum Ambiente, a colocação de uma vedação no exterior da Gruta do Zambujal tem por objectivo “preservar todas as formações geológicas” aí existentes, sendo que “durante algum tempo a cavidade foi devassada por muita gente”, assim como proteger a colónia de morcegos que utiliza a gruta.
O encerramento está praticamente concluído” e, paralelamente, está a ser efectuado um estudo da estabilidade geológica e geotécnica da gruta por parte de uma equipa da Universidade Nova de Lisboa (UNL), para determinar os efeitos da indústria extractiva que labora nas imediações da cavidade.
As visitas à Gruta do Zambujal serão condicionadas, sendo apenas autorizadas para investigação ou outros fins que assim o justifiquem. Não estão previstas futuras visitas interpretativas e/ou turísticas. A aposta centra-se na utilização de novas tecnologias de informação e não está posta de parte a reabilitação da área envolvente, nomeadamente através da instalação de um centro de interpretação. O director do PNA manifestou o “interesse que todo o local fosse preservado e requalificado”.
Luís Ferreira, da CMS, declarou que a “colocação de vedação exterior estará concluída em meados de Fevereiro”. Além disso, a Forum Ambiente ficou a saber que o levantamento topográfico da Gruta do Zambujal, a três dimensões, terá início ainda esta semana. O levantamento será coordenado por Joanaz de Melo. Luís Ferreira afirmou ainda que “o NECA está a preparar um projecto de reabilitação da gruta”, nomeadamente tendo em vista a criação de um espaço-museu na área.
O NECA espera efectuar trabalhos de limpeza no interior da cavidade e “deseja fortemente que a gruta seja recuperada”. Para Francisco Rasteiro, presidente dessa associação de espeleólogos, resta aguardar as directivas do PNA e da CMS.


*****

Espeleologia no Algarve

O Centro de Estudos Espeleológicos e Arqueológicos do Algarve (CEEAA) tem vindo a registar uma crescente aderência de novos sócios. Fruto do dinamismo que o CEEAA tem revelado, José Fernandes Mascarenhas, provedor da Misericórdia de Moncarapacho, disponibilizou “uma sede [em Moncarapacho] e uma casa para arrumação de material [no Cerro da Cabeça]”. Entre as actividades desenvolvidas pelo CEEAA destaca-se a recente acção de limpeza e desobstrução de duas grutas, que decorreu no dia 23 de Janeiro no Cerro da Cabeça.
Segundo João Varela, do CEEAA, “uma das grutas desobstruídas veio posteriormente a revelar uma beleza desconhecida, mostrando grande valor espeleológico: microgours, várias bandeiras, excêntricas, algumas tubulares e estalactites de calcite”. Durante os trabalhos efectuados, foi igualmente detectada a presença de fauna cavernícola (insectos). Segundo esse espeleólogo algarvio, “devido ao facto de se encontrar entulhada há muitos anos, a gruta apresentava um bom estado de conservação sem sinais visíveis de destruição, sendo “de destacar a existência de excêntricas numa bandeira”.

20 de Jan de 2009

Cavernas, encantamentos e facínoras

Abismos (Cerro da Cabeça) © Pedro Cuiça (2008)

Abismos (Cerro da Cabeça) © João Humberto Viegas/CEEAA (1978)


"MONCARAPACHO

Nesta freguesia não há uma lenda completa: tudo se reduz a referências vagas de mouras encantadas e encantamentos circunscritos a certos lugares da freguesia.
No começo do serro da Cabeça, ao lado do mar, existe uma cavidade cercada de pedras, uma espécie de pequena sala, que vai comunicar para um grande Algueirão, denominado o Abismo. Esta grande caverna tem diversas câmaras e diferentes ramificações.
Como o próprio nome indica, tem uma enorme profundidade, onde não chega a luz do sol, oferecendo a quem a visita um aspecto medonho e horrível. Se os poetas da Grécia a visitassem, colocariam ali o palácio da morte: aquilo não é apenas uma caverna é um inferno.
É tradição corrente entre os habitantes dos sítios vizinhos que aquela caverna se comunica subterraneamente com o castelo de Tavira, comunicação de que faziam uso os mouros no tempo em que dominavam a província do Algarve.
Junto da caverna têm sido encontrados objectos de uma feição estranha, como machados de pedra polida e outros de origem neolítica, que os habitantes daquela freguesia consideram de origem sarracena. Estes objectos aparecidos uma ou outra vez têm sido atribuídos ao trabalho manual dos mouros que ficaram encantados depois da expulsão da sua raça.
No mesmo serro e não distante desta caverna, há mais duas, cujas denominação são características - Ladroeira Grande e Ladroeira Pequena. Não será talvez difícil procurar a origem destes nomes, sabendo-se que ali se acolheram em 1883 os facínoras que assaltavam os pobres moradores dos sítios próximos, servindo aqueles dois antros de verdadeiras cavernas de Caco. No Algôs, povoação do concelho de Silves, há no sítio do Guiné, uma semelhante caverna onde por muitos anos se escondeu um grande criminoso conhecido pelo Diogo do Guiné.
Também a voz vaga afirma que nestas estão encantados alguns mouros, fugidos do castelo de Tavira, quando este foi tomado pelo grande D. Paio; assim como também se diz que estas duas cavernas se comunicavam subterraneamente com a grande caverna do Abismo.
Existe entre o nosso algarvio a constante tradição que afirma comunicarem-se todos os castelos da província entre si subterraneamente; e raro será encontrar algum desses grandes algueirões, cavernas ou furnas, que os habitantes dos próximos sítios não digam que se comunicam com o castelo mais próximo.
Como em quase todas as freguesias do Algarve onde aparecem tais cavernas, na freguesia de Moncarapacho há a opinião de que os mouros a habitaram em tempo, e que ainda hoje ali se conservam encantados. Para confirmar essa opinião, contam-se diversas histórias de indivíduos que foram surpreendidos de noite por aqueles misteriosos seres.
As cavernas são para o nosso povo uma espécie de mapa corográfico dos sarracenos. Onde encontra uma caverna, ali lhe parece uma antiga residência mourisca, que ainda hoje conserva como reféns um triste mouro ou uma formosa moura, mas encantados.
(…)"


Francisco Xavier d’Ataíde Oliveira (1842-1915)

in As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve (1898)
[Notícias de Loulé, 2ª ed., Loulé, 1996, pp. 171-172]

XX Jornadas SEDECK

As XX Jornadas SEDECK realizam-se, de 3 a 5 de Abril, em Lekumberri (na Sierra de Aralar, Espanha). Os participantes serão alojados num mesmo hotel, de modo a facilitar a comunicação e o contacto entre eles. Será instalada uma exposição monográfica sobre o tema principal das jornadas. Durante o evento serão efectuadas visitas a diversas cavidades, nomeadamente a Cuevas de Mendukilo e, possivelmente, à Cueva de Lantz. Logo que surjam novos dados, para além destas informações preliminares, divulgaremos.

Encerramento do Zambujal

Espeleologia
Um fecho que já tardava


[FORA DE PORTAS · jornal Forum Ambiente nº 268, 1 de Fevereiro de 2000]

O encerramento da Gruta do Zambujal devia ter ocorrido há alguns anos. Mas os trabalhos já estão em curso e a cavidade vai ser finalmente protegida dos atentados a que tem sido sujeita. Uma prioridade para a efectiva conservação daquela que foi considerada “a pérola da espeleologia a sul do Tejo”.


Gruta do Zambujal © Francisco Rasteiro (FA, 2000)

A Gruta do Zambujal já não é a maravilhosa cavidade de há 20 anos atrás. Com grande parte das concreções destruídas, parcialmente entulhada por blocos e desmoronada, o seu valor patrimonial e científico, bem como o seu aproveitamento turístico, encontram-se seriamente comprometidos. Mas “mais vale tarde do que nunca”. Os trabalhos com vista ao encerramento da Gruta do Zambujal iniciaram-se há duas semanas e estão a decorrer a bom ritmo. A finalização está prevista para o próximo mês.
O Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA) nunca desistiu da conservação e da dinamização da Gruta do Zambujal, bem como da respectiva área envolvente. O NECA surgiu de uma visita de amigos, realizada em 1994, à Gruta do Zambujal, a então “pérola da espeleologia a sul do Tejo”. O avançado estado de degradação em que se encontrava (e se encontra) a cavidade despertou o interesse desse grupo de jovens pela defesa do mundo subterrâneo da Arrábida. Daí à fundação do NECA foi um passo.
O Parque Natural da Arrábida (PNA) e a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS) também não abandonaram a conservação da cavidade e o encerramento, desta feita, está para breve.

Duas décadas depois
A Gruta do Zambujal foi descoberta em 1978, tendo suscitado um interesse pouco usual. Foram colocados guardas junto das entradas, para evitar a vandalização do espaço, e requeridos os pareceres dos geólogos George Zbyszewski e Veiga Ferreira, assim como da Associação Portuguesa de Investigação Espeleológica (APIE). Com base nos pareceres efectuados, a Gruta do Zambujal tornou-se a primeira cavidade portuguesa a beneficiar do estatuto de “Sítio Classificado de Interesse Espeleológico” (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). Esperava-se uma nova era para as cavidades e carsos do país, mas tal não sucedeu. Passados poucos anos, as grades que bloqueavam as entradas foram forçadas e as incursões começaram a deixar as suas marcas.
Durante duas décadas a gruta esteve mais ou menos ao abandono, à mercê de incursões, que se traduziram na destruição e pilhagem de concreções. A actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância da cavidade, foi igualmente questionada. A frente de desmonte da Gruta do Zambujal foi abandonada, mas a actividade extractiva continua na área leste da Serra dos Pinheirinhos e Ribeira do Cavalo. O problema das visitas continuou a processar-se até há pouco tempo.
O PNA previa o encerramento da cavidade para o ano de 1998. O plano de actividades desse ano contemplava “uma verba para resolver de uma vez por todas o problema da Gruta do Zambujal”, um problema considerado “prioritário”. O ano de 1998 encerrou, mas a cavidade permaneceu aberta. As previsões apontavam, posteriormente, para o encerramento em Fevereiro de 1999. Essa medida de conservação, tão desejada e premente, só seria concretizada um ano depois. As obras iniciaram-se há duas semanas e deverão estar concluídas no próximo mês.

19 de Jan de 2009

Em memória

Américo Gonçalves Condinho, sócio-fundador da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), faleceu aos 93 anos de idade. Condinho distinguiu-se pelo impulso dado na construção de equipamento de espeleologia, nomeadamente escadas de cabo de aço e guinchos de subida.
O funeral decorreu, no dia 4 de Janeiro, no crematório do cemitério do Alto de S. João (Lisboa).

[Fonte: SPE]

Esoterismo arqueológico!?

A obra do escritor João Aguiar é por demais conhecida e não é nossa intenção abordar a mesma mas apenas destacar o livro Lapedo - Uma Criança no Vale - Um dos mais importantes achados arqueológicos dos últimos 100 anos (Edições Asa, 2006). Tal deve-se à importância e interesse dessa obra no que respeita à compreensão dos nossos ancestrais, nomeadamente no que concerne às interrelações entre o Homo sapiens sapiens e o Homo sapiens neanderthalensis. Com a vantagem de reunir o conhecimento até aí veiculado sobre a “criança do Lapedo” e, claro, de forma rigorosa e simultaneamente cativante. Mas quem melhor do que o autor para apresentar a obra em causa?
No final de 1998, foi descoberto no vale do Lapedo, a poucos quilómetros de Leiria, o esqueleto de uma criança que viveu há 25 mil anos. As características muito particulares desse esqueleto criaram um “facto arqueológico” que teve repercussões em todo o mundo, apaixonou os media e deu origem a uma vivíssima polémica.
Este é o tema de
Lapedo - Uma Criança no Vale.
Não se trata de um romance, nem de um livro de contos: não é, de todo, uma obra de ficção. Alguma vez eu haveria de tentar sair (momentaneamente, claro) da ficção para explorar outros caminhos de escrita…
Mas também é verdade que este assunto é tão interessante, tão apaixonante quanto um bom romance deve ser. E, factor adicional de sedução (para mim) trata-se de transmitir algo que, até agora, se tem mantido, em grande parte, no domínio restrito, quase “esotérico”, da Arqueologia.
É certo que o caso da “criança do Lapedo”, quando veio a lume, teve uma larga cobertura mediática. Porém, a informação foi veiculada, necessariamente, de modo parcelar e com pouca profundidade. Além disso, uma vez passada a “onda”, saiu da ribalta e voltou, portanto, a confinar-se ao espaço académico.
Este foi um segundo motivo que me levou a escrever: quis reavivar a memória do que sucedeu, além de fornecer esse material pela primeira vez àqueles que dele ainda não tomaram conhecimento; e quis fazê-lo tentando cobrir todos os factos relevantes e chamar a atenção para as possíveis implicações de ordem científica - mas também, digamos, psicológica e cultural. O relato dos factos é complementado - mas nunca misturado - com alguma especulação. O que me pareceu natural: para mim, pelo menos, seria impossível, tendo nas mãos estes dados, limitar-me a uma seca descrição sem pensar sobre eles.

Uma obra a não perder...

Deixem-nos trabalhar!

Espeleologia
Novo atentado em Sesimbra

[FORA DE PORTAS ● jornal Forum Ambiente nº 225, 6 de Abril de 1999]

O Algar dos Oliveira, descoberto no ano passado, foi misteriosamente entulhado após os trabalhos de desobstrução, motivo para mais um alerta do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul. O património espeleológico continua a ser destruído no concelho de Sesimbra.


Algar dos Oliveira © DR

O Algar dos Oliveira foi descoberto pelo Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), no dia 9 de Novembro de 1998, numa pedreira abandonada na área do Zambujal (concelho de Sesimbra). Tendo a actividade extractiva cessado nos anos 30, a antiga pedreira é hoje usada como vasadouro de lixo e entulho (motos, pilhas, plásticos, roupa, rádios, pneus, etc.). Nessa área encontraram-se três ou quatro algares obstruídos, tendo o NECA apostado na desobstrução do Algar da Oliveira.
Poucos meses depois da descoberta desse algar, uma equipa do NECA iniciou os trabalhos de desobstrução, tendo sido abordada prontamente pelos proprietários do terreno. Estes mostraram-se relutantes face aos trabalhos em curso, mas depois dos devidos esclarecimentos não se opuseram a que os espeleólogos efectuassem a desobstrução da cavidade. Segundo o NECA, “ao fim de um resumido esclarecimento acerca das nossas reais intenções e da importância da descoberta de uma nova gruta para o concelho e até para o país, autorizaram-nos a continuar os trabalhos, tendo-nos apenas advertido para que protegesse-mos as crianças de possíveis acidentes selando a entrada da gruta de modo a respeitar essas importantíssimas normas de segurança”.
Depois de 14 dias de trabalho de desobstrução, a uma média de 80 baldes por dia de “lama, blocos e lixo”, as equipas do NECA atingiram “10 metros de profundidade”, sendo “fortíssimas as probabilidades de encontrar seguimento para o sistema cársico”. O NECA cumpriu “escrupulosamente com o prometido”, tendo o cuidado de tapar a entrada da cavidade após cada jornada de trabalho. No entanto, depois da intensa actividade desenvolvida e dos resultados promissores, os espeleólogos do NECA constataram o entulhamento da cavidade. A acção, tão brusca quanto inexplicável, despertou a indignação daqueles que depositaram tantas esperanças no novo algar, que poderia dar acesso à rede subterrânea. Não se conhecem os autores de tal acção ou as motivações que a desencadearam, mas os resultados estão à vista, ou melhor, os resultados não estão à vista porque foram entulhados. A Câmara Municipal de Sesimbra está ao corrente da situação e o NECA aguarda, agora, os resultados do processo em curso. “Só nos resta esperar que se faça justiça e que as consequências de actos deste tipo, sejam sentidas pelos infractores”, salientam os espeleólogos do NECA.

Grutas ao abandono
A espeleologia encerra uma componente rara nos dias de hoje: a descoberta. Com efeito, ainda é possível ter a imensa alegria de descobrir novas cavidades, salas de grande beleza ou galerias inexploradas. O Carso da Arrábida não é excepção e o NECA assim o tem demonstrado. O Algar dos Oliveira constitui mais um exemplo das frequentes descobertas de grutas na Cadeia da Arrábida. A prospecção e descoberta de cavidades são fundamentais para a inventariação do património espeleológico de uma determinada área. Património que urge conhecer para preservar. As grutas, testemunhos do percurso histórico do planeta, constituem, sem dúvida, geomonumentos que devem ser preservados. Mas, para a sua efectiva protecção, antes de mais, será necessário saber quantas são, onde se situam e quais as suas características. Sem esse trabalho apenas se poderão efectuar intervenções pontuais, como será o infeliz exemplo da Gruta do Zambujal. Dar novos mundos ao mundo será, pois, uma tarefa de grande importância, para que não se repitam os erros do passado. É caso para os espeleólogos do NECA dizerem: “Deixem-nos trabalhar!”.

Algar dos Oliveira © DR

*****


Zambujal
Tudo na mesma


A Gruta do Zambujal foi descoberta em 1978 e, passado pouco tempo, tornou-se a primeira cavidade portuguesa a beneficiar do estatuto de Sítio Classificado de Interesse Espeleológico (segundo o Decreto-Lei nº 140/79, de 21 de Maio). Depois foi lentamente votada ao esquecimento!
A gruta esteve mais ou menos ao abandono, à mercê de incursos antrópicas que se traduziram na destruição e pilhagem de concreções. A actividade extractiva, a menos de 500 metros de distância da cavidade (o que contraria o disposto no Decreto-Lei nº 89/90, de 16de Março) foi igualmente questionada. Para alguns, a destruição que se verificou no interior da cavidade resultou fundamentalmente de vandalismo. Para outros, a extracção de pedra foi a causadora dos impactes verificados (ver jornal Forum Ambiente nº 134, de 20 de Junho de 1997). A frente de desmonte junto da Gruta do Zambujal foi abandonada, apesar da actividade extractiva continuar na área leste da Serra dos Pinheirinhos e Ribeira do Cavalo. O problema das visitas, que continuam a processar-se impunemente, ainda subsiste.
O ano de 1998 encerrou-se, mas a Gruta do Zambujal continuou aberta. As previsões apontaram posteriormente, para um “fecho provisório” em Fevereiro do corrente ano (ver jornal Forum Ambiente nº 214, de 15 de Janeiro de 1999). O mês de Abril aproxima-se e a gruta permanece “aberta ao público”. O regulamento do Sitio Classificado da Gruta do Zambujal tinha seis meses para entrar em vigor, mas também aguarda melhores dias.

16 de Jan de 2009

Ne-ander (e) tal

Eles andam aí?!


Logo que a revista National Geographic Portugal, de Novembro de 2008, chegou às bancas pensei escrever uma pequena nota no Spelaion sobre dois artigos de grande interesse:
1) “A Chave na Gruta dos Ossos”, sobre a escavação de uma jazida arqueológica na Roménia por uma equipa liderada pelo arqueólogo e espeleólogo português João Zilhão;
2) e “Os Últimos Neandertais”, a peça que foi capa desse número (92) da National Geographic.
A publicação da tal nota não se verificou, por manifesta falta de tempo, mas, como diz o povo, antes tarde do que nunca…
O primeiro artigo a que fazemos referência não mereceria grande destaque não fosse o facto de os restos osteológicos em causa apresentarem traços morfológicos correspondentes simultaneamente ao homem moderno (Homo sapiens sapiens) e aos neandertais (Homo sapiens neanderthalensis). Essa descoberta, na sequência do denominado “menino do Lapedo”, um esqueleto de uma criança com cerca de 30 mil anos, veio ao encontro daquilo que os investigadores João Zilhão e Erik Trinkaus sugeriram então: o esqueleto da criança do Lapedo provaria a miscigenação entre os neandertais, que subsistiram na Península Ibérica até há cerca de 35 a 37 mil anos, e os homens modernos
O capítulo seguinte desta história seria escrito na Roménia, numa região onde o Danúbio corre encaixado num profundo canyon. Um grupo romeno de espeleologia descobriu, naquela que seria baptizada “Gruta dos Ossos”, uma jazida com restos ósseos, entre os quais uma mandíbula humana com cerca de 40 mil anos. Os difíceis trabalhos arqueológicos que se seguiram, conduzidos por Zilhão e Trinkaus, levaram à conclusão de que os humanos aí descobertos possuíam uma herança genética não africana, atribuível a um legado de intercâmbio biológico com os neandertais.
Os Últimos Neandertais” aborda, entre outras, a descoberta e o estudo de uma grande jazida de neandertais na gruta de El Sidrón (Espanha), de que resultou a reconstituição de uma mulher Neandertal baseada em anatomia fóssil e DNA antigo. “Numa caverna francesa, junto a Arcy-sur-Cure, foi descoberto um osso de Neandertal numa camada de sedimentos que também continha objectos ornamentais como dentes de animal furados e anéis de marfim, um indício de arte decorativa. Mais recentemente, os cientistas Francesco d’Errico e Marie Soressi analisaram centenas de blocos de dióxido de manganésio oriundos de Pech de l’Azé, outra caverna francesa onde viveram Neandertais, e sugeriram que o material era um pigmento negro utilizado para decorar o corpo.” As surpresas não ficam por aqui… O ideal será ler ambos os artigos na integra. Por último, também recomendamos a leitura do artigo “O ser humano parou de evoluir?”, sobre o trabalho desenvolvido pelo cientista Steve Jones do University College de Londres (Courrier Internacional nº 155, de Janeiro de 2009, pg. 67).

15 de Jan de 2009

Tocas (d)a raposa



“- Olhe lá, comadre, não é intrujice?
- Intrujice! Ora essa, como podia isso ser…”
Aquilino Ribeiro, O romance da Raposa


Raposas! Mas porque é que se abordou esse tema? Não é este um blogue sobre espeleologia? Sim, é certo. Mas, que mais não fosse, falámos sobre a raposinha falecida no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros porque tudo (ou quase tudo) se interrelaciona e, não nos esqueçamos, que essa espécie apresenta, com frequência, comportamentos trogloxenos, não é?
Quanto à “brincadeira” da Zorra Berradeira deveu-se ao facto de no mês passado ter tido oportunidade de apreciar, mais uma vez, o quadro de Carlos Porfírio sobre a dita e ter lido um livro altamente cativante sobre esse “mamífero”, grutas e muito mais: Lisboa Triunfante, da autoria de David Soares (Edições Saída de Emergência, 2008).
O livro em questão começa, na actualidade, em torno de uma pretensa fotografia de Aquilino Ribeiro…“Uma raposa que corria em duas patas.
Em duas patas!
Parecia uma raposa verdadeira. Era uma mistura de raposa com caricatura de raposa. Como os desenhos que ilustram as histórias para crianças. Tinha um sorriso rasgado e a língua dependurada.
Parecia um boneco. Parecia um fantoche.
A raposa que corria em duas patas parecia verdadeira.
Quase se podia ver o movimento dela na fotografia. Quase?

Segue-se um curto mas impressionante episódio passado há 90 milhões de anos, para prosseguir a história no ano 21983 a.C., na região da actual Grande Lisboa, mais precisamente em Monsanto (Monte Santo) e Rio Seco. A chefe de uma tribo pré-histórica “trazia muitos anéis para disfarçar as articulações deformadas pela artrite e um dos colares apresentava um zoomorfo parecido com uma raposa. Usava com vaidade uma peruca feita com a juba de um leão das grutas por cima da cabeça rapada; o ocre com que pintava o rosto e os braços parecia carvão sob a Lua.” Cinco anos mais tarde (21978 a.C.) dá-se uma tragédia que potencia mudanças e descobertas…“Saíram e dirigiram-se a outra caverna.
Tens muitos sítios, disse o rapaz.
Há muitos caminhos debaixo da terra, respondeu o velho, mais que tu possas pensar.

A obra é profícua em saltos temporais e espaciais…No ano de 1255 revela-se nova referência sobre grutas. “Se queres mesmo ir ter com o Homem Verde tens de sair da cidade e ir para Norte, mas não há nenhuma estrada que te leve ao sítio certo. Passas pelo Mosteiro de São Vicente de Fora e viras um pouco para poente assim que deixares o mosteiro para trás. Continuas a andar e verás uma grande penha. Contorna o sopé da montanha e encontrarás a entrada de uma gruta.
E o mesmo se passa no ano de 1903. “Os bairros de Campo de Ourique e de Alcântara, e também a Junqueira e a Ajuda, começaram a ser examinados pelas equipas de pesquisa da Associação de Arqueólogos Portugueses fundada por Joaquim Possidónio da Silva e do Museu Nacional de Arqueologia do etnólogo José Leite de Vasconcelos. Toda a Rua Maria Pia, mais o Sertão, assim como a área do Rio Seco, possuíam furnas, cavernas e grutas pré-históricas inexploradas. Uma sepultura de Neandertal acabada de ser descoberta na Tapada da Ajuda, a juntar-se a outra, mais moderna, encontrada no mesmo local há vinte e quatro anos: os vestígios de pólenes, pigmentos e bric-à-brac de osso e pedra sugeriam que os ritos fúnebres eram elaborados e que aqueles antepassados já tinham religião. Aquilino lera-o no Diário de Notícias e ficara muito intrigado.
Salientamos igualmente uma interessante referência no ano de 1905: “As jovens procuravam as moiras nas copas das árvores e nas lapas para que elas as tornassem mais belas - Moira ou Mater Deas: espécie de Parca pagã que nada tinha a ver com as “mulheres dos mouros”. Às vezes, saia de dentro das próprias árvores e dos penedos: como a moira transvertida na Nossa Senhora da Lapa, enfiteuta do Santuário rochoso que ficava atrás do colégio jesuíta para onde Aquilino Ribeiro fora estudar aos dez anos de idade.
Por fim, destacamos no ano de 1742 as seguintes linhas sobre o que dizia a Beata de Óbidos: “Vossa Majestade… continuou Leal ‘…ela diz ver uma ilha… subterrânea!...’
D. João V inclinou-se para a frente e arregalou os olhos. Um burburinho andou à solta pela sala.
‘Uma ilha subterrânea? Onde?’
‘Aparentemente, debaixo de Lisboa. Vossa Majestade, ela…’ Calou-se e baixou a cabeça.”
E mais: “Quem passasse pelo Caracol da Penha de madrugada poderia pasmar-se com a passagem de um cortejo prodigioso; excepto os guinchos das rodas das carretas carregadas de vitualhas, armas e um barco desmontado com uma vela enrolada, o campo encontrava-se em silêncio. O grupo de catorze indivíduos avançou para fora do caminho e pisou a erva molhada pela humidade da noite; um pingo cor-de-rosa foi ejaculado pelo horizonte e vento espalhou-o, diluindo a tonalidade escura do céu.
(…) Contornaram com lentidão o sopé da montanha retirando os pedregulhos maiores do caminho para avançar com as carretas e encontraram a entrada da gruta. O franciscano olhou em volta e não viu vestígios de ocupação, nem cinzas ou pegadas: o local estava abandonado há muitos anos. Inclinou-se para espreitar e cheirou a humidade do interior da terra - musgo e poeira.
Uma espécie de brisa que cheirava a maresia vinha lá de dentro.
Seria a imaginação dele?
Sentiu a pele arrepiar-se
(…) ‘Os mouros moraram aqui’, disse. ‘Quando o exército de Afonso I conquistou Lisboa fugiram para Oriente. Este local foi o último refúgio deles.’ Apontou para a gruta e disse: ‘Esta é Covadonga! Símbolo da vitória cristã sobre o infiel: da Luz sobre a Treva - mas cuidado! Olhem uns pelos outros! Sabe-se lá se não chegámos, invés disso, à entrada do Inferno.’

Portanto, já se perceberá o porquê de termos falado de uma raposa num blogue de espeleologia, não é? Mas fico por aqui…. Não podendo deixar de recomendar vivamente a leitura de Lisboa Triunfante. Depois de ter lido A Conspiração dos Antepassados e Lisboa Triunfante só me resta aguardar com bastante expectativa a próxima obra de David Soares.
A propósito já me esquecia de dizer que, em Lisboa Triunfante, para além do "mamífero" referido, também surge de forma persistente um "réptil"…

12 de Jan de 2009

A Zorra "berrou"?

Planalto de Santo António (PNSAC) © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Não, não será certamente a Zorra Berradeira pois parece tratar-se de uma simples raposa (Vulpes vulpes). Mas que “berrou”, “berrou”, não há dúvida… Resta saber: porquê? Será que teve a infelicidade de se deparar com uma alma (de)penada? Não creio...
A lenda da Zorra Berradeira é tão antiga quanto esquecida pelo sedimentar das recordações dos velhos tempos passados. Esta lenda foi bastante veiculada no Algarve, com destaque para a região de Silves, nomeadamente por Francisco Xavier d’Athaíde Oliveira.
A Zorra Berradeira era conhecida pelos ruídos monstruosos que produzia em certa noites. Com o aspecto de cabra, produzia silvos de fúria que anunciavam desgraça iminente! Ninguém os queria ouvir. Contavam-se histórias de pessoas que os tinham escutado e, pouco depois, terão sido vítimas de terríveis desastres, sobretudo mortes de entes queridos.
As lendas associadas a essa "raposa" de tendências algo ruidosas não se cinge contudo ao Algarve, também é conhecida noutras zonas do País e no estrangeiro. Por exemplo, no Brasil esse “mito” é conhecido, mas também bastante olvidado, nos Estados de Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Também chamado de "Berrador", "Barrulheiro" ou "Bicho Barulhento", a Zorra Berradeira é um ser sem descrição física, que assusta os sertões, através da emissão de altos berros, "compassados, intermitentes e horríveis". A "raposa" atravessa os campos, correndo, todas as sextas-feiras, depois da meia-noite. É uma alma penada… Diz a lenda que a terra não a aceita e só o fará quando ela cumprir sua sina. Na Argentina a bicha chama-se “Kaparilo”…
Essa figura inumana, que povoa o imaginário popular algarvio (e não só), sob a forma de lendas e superstições, pode ser visualizada numa pintura de Carlos Porfírio, da colecção «Lendas do Algarve», que se encontra no Museu de Arqueologia de Faro.

7 de Jan de 2009

É o que se arranja…

Planalto de Santo António (PNSAC) © Pedro Cuiça (Dez. 2008)

Não é certamente a melhor forma de começarmos este Novo Ano (tal como não foi a de encerrar o Ano Velho), mas é o que se arranja! Eu sei que não apresentámos o tradicional Pai Natal (disfarçado de espeleólogo ou vice-versa) e as conversas costumeiras da época mas, se tudo correr à semelhança do ano passado, teremos oportunidade de divulgar o “Papai Noel” nas alturas mais desusadas para o fazer. Precisamente quando a maior parte das pessoas estiver esquecida desse senhor de barbas brancas e fatiota "vermelhoca" ao estilo "Cola-Coca"… E, sobretudo, do simbolismo e significado do Natal. Não menos importante, não é?
Para não nos esquecermos do consumismo, que atinge o seu pico mais altaneiro precisamente nesta época que acabámos de vivenciar, aqui fica mais um tesourinho deprimente neste nosso tão saudoso Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC). Palavras para quê?

P.S.: Já agora, BOM ANO NOVO para todos os que acompanham o Spelaion; que seja um ano de amplos horizontes...
Planalto de Santo António (PNSAC) © Pedro Cuiça (Dez. 2008)